Raquel Jorge e suas pedaladas pelo mundo - São Paulo São

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Meu pai diz que nasci com rodinhas nos pés. Desde que aprendi a andar minha vida se resume em querer viajar. Nasci em Botucatu, interior de São Paulo, mas nem sei onde fica no mapa. Com menos de um ano minha família e eu nos mudamos para a Lagoa da Conceição, em Florianópolis, e lá vivi a infância dos sonhos, onde aprendi o valor de ser livre, de andar descalça, pescar na lagoa, nadar no mar e claro, andar de bicicleta. Foram muitos tombos pela Beira Mar Norte, em uma época em que ninguém sabia o que era uma ciclovia.

Aos meus 10 anos fomos para a capital paulista. Difícil transição…. Viver em São Paulo nunca foi fácil para mim. Cheguei na cidade pela primeira vez com uma referência de vida que não cabia na metrópole. Da liberdade das ruas, árvores e do mar fui diretamente para o concreto, para o anonimato e para a hostilidade. Foi então que comecei a pedalar pra valer, estava com 15 anos, era 1989. Comecei e nunca mais parei. Foi nesse período também que iniciei minha vida de viagens. Meu primeiro trabalho foi aos 13 em uma oficina mecânica e todo o dinheiro que ganhava gastava viajando. No início para locais próximos, acampar pelas praias do litoral norte ou de Ilhabela.

Depois, aos 20 anos, me mudei para Londres, capital da Inglaterra, onde vivi por 10 anos. Nesse período pude transitar pela Europa, fosse para rever amigos, dançar, comer ou apenas caminhar pelas cidades cheias de passado.

Aos 30 anos deixei Londres e passei um ano mochilando pelo mundo. Índia, Sudeste Asiático, Estados Unidos, Américas Central e do Sul. Com 31 pousei novamente em São Paulo, trabalhei, fiz faculdade, casei. Aos 40 descasei, deixei o emprego e voltei a fazer aquilo que faço melhor e mais feliz: pedalar por aí.

De volta ao mundo conhecido

A bicicleta me devolveu para o mundo que eu conhecia. Vento no rosto, autonomia, bem estar e prazer. Quando pedalamos enxergamos os espaços de outros ângulos. A bicicleta nos aproxima da dinâmica da cidade, humaniza nosso olhar e traz uma sensação autêntica de pertencimento, onde aprendemos a dividir e cuidar. Sou ciclista há mais de 25 anos. Mudei de cidade, de país, de estado civil, mas nunca mudei o hábito de transitar em duas rodas.

Para minha sorte, andar de bicicleta e viajar é um casamento perfeito, pois em qualquer lugar do mundo você encontra uma bicicleta. Seja para alugar, pegar emprestado e às vezes até comprar. E não há forma melhor de ver o mundo. De bike você se enfia em qualquer lugar, não há burocracias ou custo com transporte. Você chega em qualquer cidade e tem autonomia para ir e vir. Não tem medo nem preguiça de se perder (aliás, se perder faz parte da diversão). E pra finalizar, mas não menos importante, é saudável e prazeroso.

A opção pela estrada

Trabalho, carreira, profissão? A formação acadêmica e, portanto, a resposta oficial seria: Administração de Empresas e Gastronomia. Mas na realidade, qualquer coisa que seja lícita, minimamente prazerosa e que, vez ou outra, me permita ir para o mundo. Tenho 4 paixões na vida, das quais não abro mão: pedalar, fotografar, viajar e Paco, meu cão (safado, mimado e absurdamente adorável).

E aí muita gente me pergunta: mas como você faz para pagar por essa vida de viagens? Eu conto: não tem patrocínio, não tem herança ou dinheiro de família. É dinheiro de trabalho suado mesmo. Mas acima de tudo, uma escolha! Não tenho casa própria, não tenho filhos e não tenho bens de valor. Mas tenho a estrada! Optei por ela, afinal, a felicidade está em lugares diferentes para pessoas diferentes. O mundo seria insuportavelmente chato se fôssemos todos iguais, com os mesmos pensamentos, ideais e sonhos.

Trabalho, trabalho, trabalho, compro imóvel e quando está tudo estável deixo o trabalho, vendo o imóvel e vou viajar.

Quando estou trabalhando e as viagens se resumem a um mês por ano me dou ao luxo de ficar em hotéis melhores e não me privo de coisas gostosas como bons vinhos, jantares, teatro, etc. Já nos períodos sem salário as viagens têm outro aspecto. Sou econômica sem ser mesquinha. Isso é importante, pois seres mesquinhos me incomodam. Fico em albergues, hospedarias ou na barraca do camping. A alimentação pode ser em qualquer boteco, conto moedinhas para pagar a conta e uso sabonetes de “amostra-grátis” para lavar roupa.

Não tenho mais idade para ser radical, todos os mundos me encantam, cada qual com suas qualidades e limitações. E a beleza é saber que consigo transitar por eles saboreando o que cada um tem a oferecer. O real luxo é ser livre. Livre de estereótipos, de preconceitos, de intolerâncias, do medo do que é diferente, e claro, livre do medo de que não vamos conseguir.

Raquel Jorge, nova colaboradora do Vá de Bike.