O grande número de refugiados tem mudado a cara da cidade - São Paulo São


Eles chegam com suas cores, música e língua com a perspectiva de recomeçarem a vida. E se, para nós, a princípio são todos iguais; basta um mínimo de atenção para perceber o contrário.

No último final de semana dois importantes eventos chamaram a atenção para a questão, que muitos tentam invisibilizar.

O Brasil possui mais de 8 mil refugiados e São Paulo é a cidade da América do Sul que lidera esse ranking. Nos últimos 5 anos o número de refugiados no país passou de aproximadamente 500, para mais de 8 mil, desses, 26% na Capital Paulista. As informações são do ACNUR, agência da ONU para a questão dos Refugiados.

O grande número de refugiados tem mudado a cara da cidade. Chegam com suas cores, música e língua com a perspectiva de recomeçarem a vida. E se, para nós, a princípio são todos iguais; basta um mínimo de atenção para perceber o contrário. Chegam do Haiti, do Senegal, de Mali, Burkina Faso, Gana, Argélia, Benim, Ângola, Camarões, República Democrática do Congo… Cada um com uma história, muitas vezes parecidas.

Os Refugiados são pessoas que deixaram seus países por motivo de perseguição devido à raça, nacionalidade, pertencer a um determinado grupo social ou possuir determinada opinião política. Embora sejam bem recebidos pelos brasileiros, ainda passam por maus bocados quando o assunto é a burocracia e adaptação. Para chamar a atenção para a questão e para o intercâmbio cultural com os brasileiros, nesse final de semana aconteceram dois importantes eventos: a Copa dos Refugiados e o Cultura de Refúgio, reafirmando a importância de ampliar o diálogo e pensar políticas públicas para estrangeiros nessa condição social.

Os Jornalistas Livres estiveram nos dois espaços, confira o que rolou.

Cultura de Refúgio Nesse domingo (2) a festa Domingo na Casa, organizada na Casa Fora do Eixo São Paulo, teve como temática a Cultura de Refúgio. A Casa Coletiva FdE fica localizada no bairro do Cambuci, uma região central, mas afastada…quase um centro periférico. De lá saíram artistas como OSGEMEOS, mas assim como toda a capital, teve sua rotina alterada por esses ilustres estrangeiros. O grande número de cortiços da localidade faz com que os refugiados, que possuem muita dificuldade para alugar uma moradia regular devido à documentação, se concentrem na região, explica Edvam Filho, morador da casa coletiva.

 

Foto: Mídia NINJA.

O evento começou com a exibição do documentário Soul King Nino Brown, sobre a importância da cultura de resistência do HipHop. 

"Ninguém tem futuro sem ter passado. A gente pega o que tem de negativo e transforma em positivo”, lembrou Nino após apresentação. E resistência é a história de vida dos refugiados."

O filme foi seguido pelo debate Cultura de Refúgio, mediado pelo refugiado e advogado congolês Pitchou Luhata Luambo, coordenador GRISTS (Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem-Teto de São Paulo), com a participação da cineasta Eliane Caffé, do jornalista congolês e recém-formado em mecatrônica, Alphonse, e do comerciante angoles Fabricio, ambos refugiados.

Foto: Mídia NINJA.

Pitchou explica o motivo da escolha do viés cultural do debate “Saímos do nosso país, mas não deixamos nossa cultura. Chegar em um país com outra cultura e costumes é uma grande dificuldade”.

Eliane realizou em 2014 a gravação de um longa-metragem com os refugiados, por um ano ela conviveu quase diariamente com eles. “O que eu sinto hoje é que a realidade do refugiado só vai ampliar esses bolsões de deslocamento. E o problema são os guetos que se formam. A única forma que eu vejo de furar esses guetos é por meio de projetos culturais.”

A barreira cultural e da língua são as principais dificuldades que encontram para a adaptação. Alphonse conta sua história: “Sendo jornalista e estudante sempre estava na linha de frente brigando por nossos direitos, por causa disso sofri perseguição. Consegui fugir graças a Deus, fui primeiro para a Tanzânia e de lá vim para o Brasil. Estou no Brasil há três anos e ainda estou aprendendo a língua, foi uma dificuldade muito grande”. Ele acaba de concluir o tecnólogo em mecatrônica, atualmente dá aulas de inglês e francês.

Fabrício saiu de Angola após ter sofrido violência policial depois de uma manifestação. Escolheu o Brasil exatamente pela língua irmã ao seu país de origem. Está no Brasil há 3 meses, para ele a adaptação está sendo tranquila: “A facilidade da língua me ajudou muito”. Pitchou, que está no Brasil há 5 anos, explica quais outras dificuldades enfrentam. “Estamos sofrendo por causa da desinformação das pessoas”. Ele explica que a maioria das instituições desconhece o “Protocolo”, documento que os refugiados possuem. Ele já foi impedido de resgatar seu FGTS por não reconhecerem o documento. Após o debate, o espaço cedeu lugar para uma animada festa, que contou com a banda Afreeka, do Congo, e o grupo Enligne Music, do Haiti. Além da música, os participantes puderam degustar a culinária tradicional dos países e participar de uma feira de roupas típicas (lindas!).

Os times de cada país se enfrentaram no campo do Ceret (Centro Esportivo, Recreativo e Educativo do Trabalhador), localizado no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo. O evento é totalmente organizado por refugiados e solicitantes de refúgio que vivem na cidade. Um deles é Franky Tresor Bitanga (ou Bitanga Franky Tresor, já que na África o sobrenome vem na frente), que chegou no Brasil há 11 meses em busca de uma vida melhor e de mais oportunidades. O jovem camaronês de 23 anos acha importante um evento desse tipo, sobretudo pela reunião entre os refugiados e também com os brasileiros.

“Esse tipo de coisa é boa para pessoas que vêm de fora e se sentem sozinhas. O brasileiro é um povo sempre alegre, então quando você pode trocar alguma ideia com eles é sempre uma ideia bacana”, ressalta.

Como o clima era de futebol, Franky não demorou a cravar: “Vamos ser campeões e a final vai ser contra a Costa do Marfim”.

Talvez ele esteja certo. No próximo sábado (8) ocorrem as semi-finais e finais da competição. Os primeiros jogos serão Nigéria x Costa do Marfim, às 9h, e Camarões x Guiné-Bissau, às 10h, e definirão os finalistas que jogarão às 13h (a disputa do terceiro lugar deve ocorrer às 12h).

A presença de brasileiros nas arquibancadas não foi tão acentuada, mas os “namoridos” Aparecido da Costa Silva e Luzia Daniel de Andrade fizeram questão de assistir a alguns jogos.


Viemos assistir primeiro porque gostamos muito de futebol”, comenta Luzia. “Acho que nosso país tem que ajudar esse povo que está vindo para cá, dar assistência. É nossa obrigação. Somos todos irmãos e seres-humanos”, opina.

O espírito de fraternidade é justamente o objetivo de Jean Catumba, congolês organizador do evento. Ele explica que a Copa surgiu para criar um espaço de amizade, para estimular o contato com o povo brasileiro.

“Queremos falar para os que ainda não conhecem quem é refugiado. O Brasil é o país do futebol, escolhemos esse caminho para mostrar que temos uma fraternidade, que não somos perigosos, que temos valor e que pode construir um país junto com os brasileiros”, diz.

 

Jean espera que, em 2016, o evento possa ser melhor organizado, em parceria com a Prefeitura de São Paulo. “É para melhorar a divulgação, pois os brasileiros ainda não entenderam o nosso objetivo”, conclui.

A 2ª Copa dos Refugiados é promovida pelo Acnur (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) e pela Caritas Arquidiocesana de São Paulo, com apoio da Prefeitura de São Paulo, do Colégio São Luís, da Cruz Vermelha, do Sesc (Serviço Social do Comércio), do Sindibast (Sindicato dos Empregados em Centrais de Abastecimento de Alimentos do Estado de São Paulo), da UGT (União Geral dos Trabalhadores), do Colégio Espírito Santo, da corretora de seguros Da Veiga, das Irmãs Missionárias do Espirito Santo e da Paróquia Cristo Rei—Tatuapé. Os 18 países competidores são Haiti, Guiné-Buissau, Afeganistão, República Democrática do Congo, Gana, Argélia, Cuba, Bangladesh, Síria, Mali, Senegal, Serra Leoa, Nigéria, Angola, Togo, Guiné-Conacri, Paquistão, Colômbia, Burkina Faso, Costa do Marfim, Camarões, Gâmbia, Etiópia e Iraque.

 

Foto: Adolfo Garroux.

Por Larissa Gould e Oscar Neto, especial para os #Jornalistas Livres. Com fotos de Adolfo Garroux, Giovanna Consentini e Mídia NINJA.


 

 

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