O poeta em movimento constante - São Paulo São

Paulo Mendes Campos já escreveu em crônica que ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba. E, quando a gente vai ver, não é que ele parece mesmo um pincel de barba? É com esse frescor que Arnaldo Antunes parece enxergar o mundo. Das situações mais comuns, do varejo da vida, ele aponta o inesperado. Faz a gente ver o que não via. Tudo pode ser um pincel de barba. As letras das suas canções tão elaboradas e talvez por isso mesmo tão simples, com olhar de criança ("Saiba: todo mundo foi neném/ Einstein, Freud e Platão também... quem tem grana e quem não tem / Saiba: todo mundo teve medo/ mesmo que seja segredo", em "Saiba"). As que subvertem a ordem das coisas ("Cinema assiste, cena vê, cor enxerga" em "Imagem"). E, claro, as frases de criança mesmo, como as de seu caçula, Tomé, anotadas pelo Arnaldo pai quando o filho tinha 3 anos ("Só mais um outro último, tá? Eu quero muitos últimos") e compiladas no livro "As Frases de Tomé ao 3 Anos."

ILustração: Lula.

Arnaldo tem aquela rara capacidade de olhar as coisas como se fosse pela primeira vez. Nas horas de folga das turnês, enquanto os músicos cochilavam no hotel, ou em São Paulo, fazendo algo de que gosta - caminhar pela rua -, ele pegava a câmera e saía por aí fotografando placas de rua, cartazes, dizeres curiosos. Voltava para casa com um arsenal de "mega", "here", "horário" "self-service", em inglês, português, anúncios espalhados por São Paulo e pelas cidades que já conheceu. Foi juntando tudo por mais de 20 anos, depois trabalhou um bocado no computador, digitalizando imagens, usando animação em "stop motion", e criou mosaicos em caixas com dizeres, formando jogos gráficos, explorando a semântica.

O resultado (e mais telas, cartazes com palavras em redemoinhos ou sobrepostas, formando desenhos e multiplicando significados) pode ser visto na exposição "Palavra em Movimento", em cartaz no Centro Cultural Correios, em São Paulo, até o fim do mês. Caminhar, para ele, é o melhor modo de ajeitar as ideias. Quando não tira foto, sai com bloco e caneta ou um gravador pequeno ("Hoje em dia tem o celular, né, que facilitou isso", diz) e vai acumulando anotações esparsas, flashes que podem render um poema ou uma letra e é bom não esquecer. Guarda no bolso, chega em casa e bota na gaveta, dali a pouco revê, ajeita, afina, vai dando forma. Reescreve, reescreve, corta, enxuga, corta só mais um pouquinho, até chegar ao mistério da simplicidade. Há poucos meses, deu uma olhada nos últimos textos, viu que tinha uns fios condutores ali, temas como morte, tempo, relógio, achou que daria mais um livro (já publicou mais de 20 e ganhou dois Jabutis: em 1993 pelo livro "As Coisas" - desenhado por sua filha Rosa, aos 3 anos -, e em 2004 pelo livro "Et Eu Tu"). Acabou de lançar "Agora Aqui Ninguém Precisa de Si", pela Companhia das Letras.

"Sou obsessivo com o processo, faço muitos rascunhos, é disso que sai o resultado. Mas criação, para mim, é sempre algo prazeroso, mesmo se falar de dor. O prazer de criar é tanto que até redime a dor", afirma um Arnaldo sorridente logo no começo deste "À Mesa com o Valor", um almoço sem pressa, domingo de sol bom. Foi caminhando que ele veio nos encontrar, a rua cheia de gente colorida, famílias com crianças, ele sozinho no passo firme, vestido com jeans, camisa, um paletó que lhe dá um ar de homem sério. Mas, com aquele corte de cabelo Joãozinho e a cara curiosa. Se estivesse de calças curtas ficaria igual a menino de foto de Cartier-Bresson.

Arnaldo escolheu um dos restaurantes de que mais gosta - o Nou, no bairro paulistano de Pinheiros - porque, diz, é legal, comida boa, fica bem perto da sua casa e tem um dos melhores sucos de tomate da cidade - "Eu e o Brás, meu filho, temos mania de fazer ranking de suco de tomate, saímos pela cidade atrás dos melhores". É um lugar agradável, com jardinzinho no fundo, onde sentamos na mesa lá no canto. Ele pede, claro, o suco de tomate, água com gás para ele, sem gás para a repórter.

Além da exposição e do livro, Arnaldo prepara novo disco pelo seu selo, Rosa Celeste, agora em fase de mixagem e com lançamento previsto para o mês que vem, primeiro show já marcado em Brasília. Como de hábito em seus discos, a produção é assinada por Kassin, um dos mais prestigiados produtores no Brasil, que também é cantor, compositor e multi-instrumentista. Boa parte das canções inéditas foi composta em uma viagem recente. Tirou o semestre passado para um período sabático, foi a Nova York, Itália e Índia. Inaugurou-se um mundo. "Na Índia é tudo tão intenso, as cores, os cheiros, a espiritualidade." É ligado nas coisas do espírito? "Olha, não acredito nem desacredito, mas acho legal. Às vezes vou a uma mãe de santo, ela já jogou búzios para mim."

A Índia foi muito inspiradora. "Escrevi umas seis canções do disco. Nas férias é quando mais componho." Música é seu ganha-pão, como ele respondeu um dia, entrevistado por crianças, para uma menina que queria saber como ele tinha tantos empregos.

O brinquedo essencial desse homem de 54 anos, torcedor do Santos, é a palavra. É como uma bola. Arnaldo toca a palavra com intimidade, vira pra cá, manda pra lá, passa para mais alguém que está no jogo. Chuta a sintaxe para o alto e faz seus poemas gráficos, a limpidez de pensamento, a arquitetura precisa e umas curvas não previstas pela geometria. Às vezes chama os amigos, aquela alegria de montar um time, músicas brotam quase tão espontâneas quanto as risadas, e subir no palco para um show é uma sensação indescritível. Como entrar em campo e levantar a torcida.

"Adoro fazer show, acho que só faço disco para poder fazer show, me dá uma energia aquela troca com o público", conta. "Sempre é divertido. Na época dos Titãs a gente também ria muito, teve fases que convivi mais com eles do que com a minha família."

Família. Quarto filho de uma prole de sete, Arnaldo se acostumou desde cedo a viver em grupo. "Adoro casa cheia. Minha casa sempre foi assim, meus irmãos, os amigos deles, eu dormia no quarto com meu irmão, adorava aquela bagunça. Minha casa hoje é assim também. Meus quatro filhos [Rosa, de 26 anos; Celeste, de 21; Brás, de 18, e Tomé, de 13, todos do casamento com Zaba Moreau], o filho da minha mulher [Marcia Xavier - os dois são casados, mas vivem em casas separadas], quando nos juntamos é uma delícia". Acha muito bom ser pai. "Cada filho é de um jeito, tem um que você tem de empurrar um pouco, outro deixar mais solto. Aprendo até mais com eles do que eles comigo."

Vamos a um "flashback" da sua infância e adolescência, na hora do almoço todo mundo passando o pãozinho no molho da travessa, e um repertório musical para tudo que é gosto. A mãe de Arnaldo curtia Dorival Caymmi. Um dos irmãos aumentava o volume para escutar Yes, Emerson, Lake & Palmer, o fino do rock progressivo. Beatles, sambas, Jovem Guarda, Lamartine Babo, os irmãos trocavam discos, havia um piano na sala, cabiam todos os sons. Na hora do passeio, a trilha do carro tinha de ser música erudita, o pai só ouvia a Rádio Cultura. Arnaldo via aquilo e tirava as muitas lições possíveis. Aprendeu violão.

Lembra-se de assistir fascinado, pela TV, aos grandes festivais de música. "Mutantes, Macalé, Maria Alcina, Gil." Entrou em letras, na USP, mudou-se para o Rio, fez um ano de PUC, voltou para São Paulo, foi fazer parte da Banda Performática do artista plástico José Roberto Aguilar, acabou largando a faculdade. Reencontrou amigos do Colégio Equipe, como Paulo Miklos, e em 1982 fizeram uma banda, os Titãs do Ieiê. Quando viu, já era pop.

Bom, suas composições acabaram ganhando o coração de muitos cantores brasileiros e internacionais, da italiana Ornella Vanoni à baiana Daniela Mercury, e foi de discos infantis à música para edição do "Bhagavad Gita", trilhas para filmes, para o Grupo Corpo, para o programa "Um Pé de Quê", de Regina Casé, para o "Castelo Rá-Tim-Bum". Em 2002, 2003, ele conheceu o sucesso estrondoso com o projeto Tribalistas (com Carlinhos Brown e Marisa Monte). Naquela época, difícil quem não soubesse as letras do disco. Crianças de 2 aninhos tiravam a chupeta para cantar "Já Sei Namorar". E ele foi parar em Portugal, na Áustria, na China, no Mali. "O Edgar Scandurra e eu fomos tocar com o Toumani Diabaté, em Bamako, foi uma experiência sensacional, emocionante, duas músicas tão diferentes, duas culturas tão diferentes."

A cada disco ele chama artistas novos, que depois vão voar também: o paulistano Marcelo Jeneci, o baterista Curumim, o cantor e compositor Ortinho, tanta gente. Arnaldo vai esculpindo, refinando, o poder de síntese embalando o trabalho de artesão paciente. Como se fosse um Niemeyer que deita poesia com traços levíssimos, dois rabiscos mostram uma cidade inteira.

Esse enorme à vontade com todos os sons, todas as letras, ganhou do músico David Byrne um belo texto, prefácio do livro "Doble Duplo", de 1999: "Um dicionário não julga quem o consulta (...) Arnaldo tem um pouco daquela qualidade característica do dicionário. A qualidade de uma criança muito sofisticada, que nos pede para prestar atenção em expressões vocais, imagens, sons, textos às vezes simples e às vezes complexos... e pede que recebamos essas coisas com profunda inocência, porque aquela inocência é muito mais ameaçadora do que qualquer sofisticação. E também dá mais prazer".

Pedimos a conta. "Legal aqui, né? Você gostou?, ele pergunta sobre o restaurante. Quer dividir a despesa e, quando ouve que é convidado do Valor, propõe: "Então quero te levar para tomar um café e comer a sobremesa, um mil-folhas numa doceria ótima, aqui nesta rua mesmo. Por minha conta". Caminhamos um pouco, atravessamos a rua, a doceria, Confeitaria Dama, está cheia. Ele pede o mil-folhas, eu escolho outro doce, ele parte um pedaço do dele e bota no meu prato. "Não é uma delícia?" Segue para o caixa. Volta sorrindo. "A moça do caixa foi uma fofa, não quis cobrar, disse que é minha fã", fala, espantado. Nos despedimos, ele agradece com gentileza - "Adorei conversar". O sol está bom.

Pouco antes de ir embora, ao explicar por que gosta tanto do raciocínio das crianças, Arnaldo havia citado um verso de Oswald de Andrade: "Aprendi com meu filho de dez anos que a poesia é ver as coisas que eu nunca vi". Tudo pode ser um pincel de barba.

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Por Cristina Ramalho para o Valor, de São Paulo

 



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