Ex-educador da Fundação Casa usa rap e funk para ensinar poesia - São Paulo São

 

'Sempre usava algum elemento de atrativo para os garotos', diz rapper. Ex-aluno conta como rap e ajuda do educador o tiraram da rua e do crime.

Quando foi ensinar poesia para os internos da Fundação Casa, em São Paulo, o rapper e educador Dugueto Shabazz ouviu de um aluno: “Eu aprendi que poesia é coisa de viado”. Dugueto rebateu com um trecho de “Jesus chorou”, dos Racionais, o grupo de rap da Zona Sul que fez uma legião de fãs relatando os problemas e a violência nas comunidades carentes: “O que é, o que é, clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma tonelada”, e os meninos começaram a cantar junto. “Isso é poesia cara, a gente é tudo viado então”.

“Eles têm uma homofobia muito grande que é reflexo de toda a sociedade, mas dentro do crime é muito forte, coisa de ser homem e tal, no sentido macho da palavra”, disse o educador, que trabalhou por três anos na Fundação Casa contratado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação e Ação Comunitária (Cenpec).

Por intermédio do rap e do funk, crianças e adolescentes de abrigos de rua e da Fundação Casa, a instituição pública responsável pela ressocialização de menores infratores no estado, conheceram de Racionais a João Cabral de Melo Neto. “Queria contribuir com a realidade deles e achava que a música tinha potencial pra isso”, explica Ridson da Paixão, educador e rapper conhecido como Dugueto Shabazz, de 32 anos. Ele usava autores consagrados para mostrar como métrica e sonoridade também eram importantes na composição de letras de rap e funk.

Criado no Jardim Jaqueline, na Zona Oeste de São Paulo, Dugueto Shabazz escolheu esse nome artístico por ser da periferia e como referência ao nome completo do ativista americano Malcom X (Al Hajj Malik Al-Shabazz). Pelo trabalho na Fundação Casa, recebeu o Prêmio Cultura Hip Hop 2014, do Ministério da Cultura. Com o dinheiro do prêmio, quer produzir o clipe da sua música “Menores infratores”.

“Tudo de mais sofisticado, mais denso que eu levasse pra eles, eu sempre usava algum elemento de atrativo”, disse Dugueto. Assim, ele levou a meninos e meninas a poesia de Castro Alves, Pablo Neruda, Patativa do Assaré e João Cabral de Melo Neto por meio do rap e do funk – que têm mais apelo hoje em dia, segundo o rapper.

A música também abriu portas em uma unidade da Fundação Casa na Raposo Tavares, que abriga menores considerados de alta periculosidade. “O lugar não tinha nada, eles quebraram tudo e mandavam no negócio”, disse Dugueto. Esses menores ainda não tinham aceitado nenhum tipo de oficina cultural, até saber que o professor ia “ajudar nas letras”. “Um trouxe um caderno todo cheio de letra, falou ‘a gente tem um grupo de rap aqui’”, e o educador contou que bem recebido pelo grupo.

Dugueto preferia não saber e não perguntava que tipo de infração cada adolescente cometeu. Tinha receio de descobrir, por exemplo, um caso de estupro, e acabar tratando o aluno de maneira diferente. “Não perguntava o que fez na rua, nunca perguntava isso pros moleques. Tinha medo de tratar diferente. Sei lá, por alguma reação minha maior que minha parte consciente ou profissional."

Antes de trabalhar por três anos na Fundação Casa, em dois períodos diferentes, Dugueto trabalhou em abrigos para crianças e adolescentes, os Centros de Referência da Criança e Adolescente (Crecas). Além de dar oficinas e aulas, ele saía com grupos para passeios no Centro, em lugares como o Centro Cultural Banco do Brasil e a Galeria do Rock. “Às vezes eu saía com 20 e voltava com 7, porque quando eles achavam os outros amigos do crack ou da cola, do tinner, eles evadiam.” Foi em um desses abrigos que conheceu Filliphe Augusto Gomes, na época com 13 anos.

Filliphe cresceu em Guaianases, na Cohab Juscelino Kubitschek, extremo da Zona Leste de São Paulo. Filho de mãe evangélica, conta que “ela sempre passava os valores do cristianismo”. “A minha educação não foi largada. Mas em contrapartida minha mãe precisava sustentar três filhos, então ela saía de manhã e voltava onze da noite.”

Na rua, a realidade da década de 1990 em Guaianases era violenta. “Quando eu era pequeno, meu irmão ia me levar para escola, cheguei a ver um homem enforcado numa árvore.” Como ficava muito na rua, jogava bola, empinava pipa, ele entendeu que aquilo seria “o normal”. “Eu não imaginava que tinha bairro nobre, pra mim São Paulo era aquilo ali. Meu bairro era minha cidade pra mim.”

Aos 12 anos, mais uma agressão das rotineiras agressões do padrasto o fez sair de casa. “E a minha mãe era submissa a ele e não me defendeu. E aí eu discuti com a minha mãe e ela falou palavras que eu não consegui absorver. Ela falou que só tinha obrigação de cuidar de mim até os 18 anos de idade, por lei. Isso daí eu nunca me esqueço. Quando ela falou isso daí, acordei pra vida. Então daqui sei lá, 5, 6 anos não sou mais nada. Então vou embora agora. Você não precisa mais ter essa responsabilidade. Peguei e fugi de casa.”

Pegou um ônibus até Itaquera, depois o metrô e, pela primeira vez, esteve no Centro da cidade. “Havia chorado o dia inteiro, então tava muito cansado”. Filliphe viu um aglomerado de pessoas, que seriam evangélicos distribuindo comida para moradores de rua, se envolveu e acabou conhecendo outras crianças que estavam na rua. “Eu era muito ingênuo, nunca tinha usado drogas, cometido nenhum tipo de crime, era apenas um moleque revoltado. Mas a partir daí eu comecei a conhecer a realidade da rua, e aprender.”

Após uma semana, uma frente fria o levou para um abrigo para menores de rua. Os novos colegas de rua falaram que era um bom lugar para tomar banho, descansar, comer e depois ir embora. Filliphe disse que há uma “aversão” ao abrigo pelos moradores de rua. “Pra quem mora na rua, não tem regra. Não tem horário pra dormir, não tem horário pra acordar. Criança e adolescente geralmente tem aversão a isso pela metodologia. Ali é um refúgio. Algo que você vai garantir a sua sobrevivência por alguns dias.”

E foi em um desses abrigos, os Crecas, que ele conheceu Dugueto. “Foi um cara que logo de cara eu me identifiquei porque ele falava a nossa linguagem. Entendia as nossas gírias, os nossos códigos. Ele sabia se comunicar com a gente”.

Filliphe já conhecia Racionais, mas pela primeira vez escutou “um homem na estrada”, recitada pelo educador. “A letra é muito forte, de cara você se identifica com aquilo”, contou. “No abrigo foi onde eu me apaixonei pela poesia e pelo rap. Eu entendi o real propósito da poesia do rap. Foi um momento que eu tive alguns discernimentos que me fizeram amadurecer.”

Ele viveu em abrigos dos 12 aos 17, pulando de um para outro. Alguns tentaram uma reaproximação com a família, que não deu certo, segundo Filliphe, porque o vínculo havia se quebrado. Quando se viu na rua com 17 anos, percebeu que a realidade não era a mesma de quando era pequeno. “Quando era criança, me davam algo pra comer, mas um marmanjo de 17 anos ninguém ajudava, virava as costas e foda-se. Eu me revoltei e tentei fazer um assalto”.

Após assaltar uma mulher na Avenida Nove de Julho, foi detido por policias que estavam perto e encaminhado para a Fundação Casa. “Só que eu também tinha uma noção de é que melhor eu tá sendo preso agora do que está sendo preso com 18. Senão ia ser muito maior minha pena”. Como era réu primário, após duas audiências ganhou liberdade assistida e saiu da instituição um dia antes de completar 18 anos.

“Quando eu saí da Fundação Casa, eu quis deixar bem claro na minha mente que aquilo ali não era o lugar pra mim. Eu não podia ser mais um menor saindo da Fundação que ia voltar pra mesma vida. Eu me apeguei ao rap pra poder ter força e condições pra mudar o meu rumo. Comecei a escrever”. Segundo Filliphe, foi essa época que as palavras de Dugueto passaram a fazer ainda mais sentido para ele.

Como nome artístico, escolheu Cafuzo, em referência à cultura negra e às raízes indígenas. Foi morar com o irmão na Zona Leste, em uma casa que a mãe tinha deixado após morrer. Filliphe contou que começou a ir atrás de tudo que tinha relação com o rap, festas, MCs, contatos em redes sociais.

“Quando eu fiz 18 anos, eu decidi. Eu vi que era a única pessoa que conhecia que tinha sobrevivido aquilo, tanto à rua, quanto ao crime e a Fundação Casa. Então eu falei mano, na moral, eu acho que eu sou um cara iluminado mano, eu preciso ser referência, não posso ser mais um uma estatística”, contou.

Trabalhou como chapeiro, garçom, montador de exposição de arte, vendedor de loja, panfleteiro, entre outras atividades. Hoje, aos 23 anos, trabalha no salão de beleza da esposa, com quem tem uma filha pequena.

A música e a arte são projetos paralelos, mas que ainda estão no sonho de se tornarem atividade principal. “Acho que tenho que passar minha mensagem pra talvez quem sabe algum dia tocar o coração de algum moleque e poder salvar a vida dele também.”

Paula Paiva Paulo do G1 São Paulo.