Bia e Maria de Lourdes, as 'Vals' da vida real, foram ver ‘Que Horas Ela Volta?' - São Paulo São


Uma qualidade do filme Que Horas Ela Volta, de Anna Muylaert, é a facilidade de identificação. Assim como a diretora o escreveu com base na sua experiência durante a maternidade, momento em que precisou trazer uma babá para o convívio familiar, cada espectador termina de assistir ao longa sentindo empatia por um determinado personagem.

Para mim, foi com a Val, protagonista de Regina Casé. Logo na primeira cena, com seus cabelos longos e pretos e o forte sotaque pernambucano, ela me lembrou a Maria de Fátima, moça paraibana que cuidava da casa de meus avós paternos. O mesmo físico, as mesmas brincadeiras, os mesmos apuros. Tanto que, durante a coletiva que se seguiu à cabine, tive que tomar cuidado para não me referir à Regina como Fátima – e fui aconselhada pela atriz a procurar pela hoje aposentada doméstica no Facebook.

Pensando nesta qualidade, fazia todo sentido ouvirmos as vozes das outras Vals espalhadas por São Paulo antes de falarmos sobre o filme aqui no Virgula Diversão, e foi isso que decidimos fazer. Isso nos levou a duas personagens riquíssimas, que você conhecerá logo abaixo:

Foto: Gabriel Quintão.

À esquerda, Maria Aparecida Marques dos Santos, a Bia, de 54 anos. Bia tem quatro filhos e duas netas, e trabalha há 30 anos na casa da Jane. À direita, Maria de Lourdes de Jesus dos Santos Simola, de 52 anos. “Di”, como é chamada por Paloma, filha de sua antiga patroa, é casada e tem uma filha adolescente, a Larissa. Ela trabalhou na casa da Berenice por 12 anos e hoje é dona de um brechó.

Fomos à sessão do Cine Direitos Humanos, que acontece gratuitamente todos os sábados no Shopping Frei Caneca e apresenta filmes com temática de direitos humanos, onde haveria um bate-papo com a diretora do filme. Porém, as reações das convidadas durante e após o filme já bastaram para que saíssemos da sala direto para uma conversa só nossa.

O sorvete do Fabinho

Uma das manifestações de Bia no cinema foi durante a cena em que a filha de Val, Jéssica, é vista comendo o sorvete do filho da patroa. “Se for pra comer, é desse daqui. O outro eles oferecem porque saber que a gente vai dizer não”, diz a personagem de Casé. Bia concordou em voz alta. Perguntei se na casa que ela trabalha as regras são assim, subentendidas.

“Meus patrões me convidam para me sentar à mesa com eles, claro, mas eu não aceito. Como no filme, que a filha questiona onde se aprende essas regras, eu sei quais são elas. Mas fiquei marcada pela cena da piscina, em que a Bárbara quis dizer que a Jéssica era um rato. Quando minha patroa morava em casa, não tinha distinção entre os meus filhos e os dela. Todos nadavam na piscina, por exemplo. Depois que eles se mudaram para um prédio, as regras passaram a ser as do condomínio, que são só para os moradores.” Bia

Seus quatro filhos, no entanto, cresceram amigos dos três de Jane, e Daniela, sua única menina, foi a que mais aproveitou os incentivos dados pela patroa. “Ela sempre gostou de estudar, então, quando foi a hora de prestar vestibular, pode até ter levado mais tempo para escolher o que queria, mas foi lá e prestou. Todos os meus quatro tiveram oportunidades iguais aos meninos da Jane”, conta, “mas cada um aproveitou de um jeito, e hoje alguns correm atrás do prejuízo”.

Posso dormir com você?

Di conheceu Paloma quando ela era uma bebê recém-nascida, e por isso se considera mãe da moça. A relação das duas é forte a ponto de, passados 15 anos desde a exoneração da funcionária, o contato quase que diário permanece. “Eu tinha um certo ciúme da Paloma com a mãe, sim”, confessa De Lourdes, que hoje vê a “filha adotiva” como irmã mais velha de sua menina, passando incentivos, lições de vida e carinho.

“O que mais me marcou no filme foi ver o filho da patroa tendo a empregada como a própria mãe, porque a mãe dele era reservada tanto com ele quanto com o marido. E acho que por isso que a Dona Bárbara resolveu tirar o filho do Brasil, para poder resgatá-lo mais tarde, quando ele estivesse mais maduro. Foi aí que a Val resolveu ir embora e mandar buscar o netinho, porque a vida dela não fica sem criança. Ela viu no neto que tá chegando o menino que foi embora.” Maria de Lourdes

Para Bia, a história de “Que Horas Ela Volta?” lembra bastante o tempo em que o filho mais novo de Jane chamava muito por ela quando ela ia embora buscar seu próprio filho na creche, que por sua vez chamava a professora de “mãe”. Ao mesmo tempo que ela folgava em saber que o menino estava sendo bem tratado na sua ausência, seu coração ficava apertado por ele ter uma outra pessoa como figura materna – e por ela ser a figura materna de outra criança.

Foto: Gabriel Quintão.

Sobre o que é ser empregada doméstica

“Normalmente você é contratada para trabalhar numa casa como empregada doméstica. Só que de empregada doméstica você vira cozinheira, lavadeira, babá, cuidadora de cachorro, tudo por um salário só”, explica Bia, que acha que respeito é a base de um bom contrato. Para ela e para Di, a PL das domésticas veio para botar ordem em uma bagunça que “possivelmente” exista. Sim, porque, para elas, que sempre foram registradas e pagas dentro dos conformes, uma empregada doméstica não registrada, que trabalha mais do que o horário indicado, é um caso raro. Infelizmente, é maioria.

“No mundo que a gente tá vivendo agora, a gente pode ir à televisão e botar a boca no trombone. Se for ver por aí, é fácil de descobrir casas que tratam mal as empregadas, que desrespeitam horário de serviço, que tratam como no tempo da escravidão…”

Bia interrompe: “Você lembra que eu te falei antes do filme que eu nunca trabalharia na casa dos outros pra dormir no serviço? Esse é um dos motivos: não ter horário pra nada!”

De fato, ambas são casos que deram certo nas casas em que foram trabalhar. A Bia, por exemplo, achava que não fosse durar uma semana, e tinha preferência por firmas – lá se foram 30 anos.

“A Maria de Lourdes e eu demos sorte de trabalharmos com famílias que foram anjos nas nossas vidas, mas nós temos que pensar nas que exercem a mesma função que a gente e que não tiveram a mesma sorte, nas que caíram em casa de pessoas que não são honestas, que ouvem desaforo o tempo todo e precisam ter a lei ao lado delas. Eu acho que a Val pediu pra sair porque ela parou pra pensar, assim que o menino saiu da casa, no quão mal a patroa dela a tratava”, diz Bia.

“Ela ficou vazia quando o menino foi embora”, completa Di.

Depois disso, o debate pegou fogo. O personagem de Bárbara é unanimidade: ninguém gostou dela.

“Ela não tratava a Val tão bem assim, não, porque a minha patroa nunca me tratou daquele jeito. E se me tratasse assim, eu ia me mandar!”, finaliza Bia. “ELA ERA UMA FALSA!”

A Val tem uma vida nova, e elas?

Hoje a Bia é aposentada, mas trabalha porque sabe que um aposentado não vive bem só com a ajuda do governo. Prometeu a si mesma que, quando completar 60, para de trabalhar, ciente de que sua vida vai ficar bem triste sem as idas diárias à casa de Jane.

Já De Lourdes cuida do brechó e cria a filha com o marido, que conheceu durante uma missão com a antiga patroa. Foi amor às primeira vista e já dura 23 anos. Sobre a educação da menina, Di é enfática: “uma expressão que eu não gosto é ‘estou dando tudo que eu não tive para o meu filho’. Não, porque se eu tivesse tentado um pouco mais, eu teria. Isso aí é você escondendo sua covardia do passado. Oportunidade todo mundo tem. Você tem que querer, ter criatividade e inteligência. Então eu vou dar para o meu filho o que eu quero dar”.

Uma hora o telefone da Bia toca e ela responde “agora não posso, hoje eu tô chique”. Ao desligar, responde que é sua patroa, cobrando a lavagem das roupas. Depois de um segundo de silêncio desconfortável, ela ri dizendo que era sua filha, a “outra” patroa, e diz que não vai lavar roupa coisa nenhuma.

Bia Bonduki no Diversão Vírgula.