Nabil Bonduki propõe uma ‘revolução civilizatória’ para a cidade - São Paulo São

Cultura e civilização, mais do que ocasionais sinônimos, são conceitos que andam de mãos dadas. É assim que pode ser compreendida a “revolução civilizatória” proposta à cidade de São Paulo pelo secretário municipal de Cultura, Nabil Bonduki, que tomou posse no começo do mês no lugar de Juca Ferreira, atual ministro da Cultura.

Vereador licenciado pelo PT (eleito com 42.411 votos), relator do atual Plano Diretor e ex-membro da CPI da Sabesp, Bonduki, de 60 anos, assume o cargo com olhar de urbanista e arquiteto (ele é professor da FAU/USP) que vê a cultura como conceito amplo, indissociável das relações entre pessoas e o espaço público. Para o secretário, é necessário difundir “a tolerância, o respeito pelo outro”, para que a cidade seja “menos agressiva em relação ao cidadão”. Leia a seguir trechos da entrevista com Bonduki, realizada na sede da Secretaria.

Valor: Em carta pública, o senhor disse que a cidade precisa de uma “revolução civilizatória”. O que não é civilizado na cidade?

Nabil Bonduki: Nós vivemos sob uma cultura que é a cultura do automóvel, do desprezo pelo espaço público, da segregação, dos muros altos, da falta de tolerância, da violência. Todas essas questões podem ser trabalhadas através da cultura, que tem um aspecto importante na mudança da lógica pela qual as pessoas se comportam. Não são só os cidadãos, também são os empreendedores, os comerciantes. Revolução civilizatória significa difundir a cultura de paz, a tolerância, o respeito pelo outro, pelo espaço público. Claro que não é só isso, nós temos questões econômicas, o preço da terra, a valorização imobiliária, a segregação gerada por custos econômicos diferenciados, não é só através da cultura que vamos fazer essa mudança.

Valor: O ministro Juca Ferreira tem criticado a Lei Rouanet, cobrando mais da iniciativa privada e sugerindo a revisão dos 100% de renúncia fiscal. Mas este é um ano de PIB baixo, previsão de inflação alta etc. Essas sugestões são viáveis no atual momento da economia?

Bonduki: Temos um modelo em São Paulo, a antiga lei de incentivo municipal – que está sendo revista porque foi aprovado projeto do Andrea Matarazzo que regula a lei -, cujo modelo era de 70% [de renúncia fiscal], no máximo. O recurso é público e as leis de incentivo, muitas vezes, transferem para os diretores de marketing das empresas a decisão sobre o que pode e não pode ser financiado. Isso procede, uma limitação para não termos 100%, ou apenas em situações muito excepcionais, e sobretudo que a gente tenha mais rigor para que o apoio seja feito de modo coerente. Sou totalmente contra dirigismo cultural, mas deve-se ter alguma compatibilidade com uma política cultural, para não termos eventos que nada têm de interesse público sendo financiados com recurso público.

Valor: Como o senhor avalia a passagem de Juca Ferreira pela secretaria? Pretende traçar um caminho diferente?

Bonduki: A Secretaria de Cultura teve um amplo crescimento nesse período, de orçamento e ações. Ampliamos muito a atuação na periferia, com a área da cidadania cultural, com a criação da SP Cine [empresa de audiovisual que articula as três esferas do governo], uma ressignificação do uso do espaço público. Ampliou-se uma efervescência cultural na cidade, muitas vezes simplesmente permitindo que as manifestações acontecessem. Algumas áreas merecem uma atenção especial, e o próprio Juca considerou que não teve condição de trabalhar isso. Por exemplo, a questão das bibliotecas, do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca. A cultura tem um papel importante quando a gente vê marchinhas no Carnaval que falam de problemas do cotidiano, da crise hídrica. As manifestações culturais chegam de maneira até mais aprofundada no dia a dia do cidadão, e com isso vão mudando mentalidades. Precisamos mudar mentalidades.

Valor: A SP Cine funciona também como estímulo ao cinema de rua, aos encontros nas ruas?

Bonduki: Já temos uma lei de minha autoria que isenta IPTU para o cinema de rua, acho isso importante porque o cinema de rua, e o teatro, passam por muitas dificuldades. Temos que buscar parceiros privados para reabrir cinemas, como aconteceu com o Belas Artes. Graças a uma intermediação da prefeitura, foi possível garantir a reabertura, com o patrocínio da Caixa, com a participação do proprietário. Acho que é um modelo interessante para os cinemas privados.

Valor: E as parcerias público-privadas (PPPs)? Elas são um bom caminho para a cultura?

Bonduki: No caso do Belas Artes não é uma PPP porque PPP envolve lucro. O que podemos ter é sempre uma participação e um apoio, um patrocínio do setor privado para certas ações que são feitas na área da cultura. O apoio buscado seria mais na linha do patrocínio. Por exemplo, a intenção é recuperar a Vila Itororó, transformá-la num centro cultural, com patrocínios da lei de incentivo cultural. Já houve um primeiro aporte do Itaú, e espera-se que possamos ter a participação de outras empresas públicas e privadas através da Lei Rouanet. Outra situação, um pouco diferente, é o Carnaval. Neste ano teve um patrocínio com a Caixa, que cobre 20% dos custos da prefeitura, então isso pode ser procurado em outros projetos. Também pode-se conseguir parcerias com outras entidades, como universidades e institutos culturais, para ampliar a gestão dos equipamentos. A secretaria é muito ampla, são mais de 150 equipamentos, de naturezas diferentes, desde o Teatro Municipal até as ações de cidadania cultural na periferia.

Apoio à música, formação de técnicos culturais e articulação entre equipamentos culturais estão entre propostas de secretário

Valor: O que o senhor pode adiantar sobre a Virada Cultural deste ano? Ela precisa passar por uma reformulação?

Bonduki: Não é questão de reduzir a Virada ou mudar seu formato, mas enquadrá-la em um conjunto de eventos culturais que acontecem o ano inteiro dentro da cidade. A partir do momento em que temos eventos nas várias regiões, como foi no aniversário da cidade, o Circuito São Paulo de Cultura (em março vamos anunciar a programação do primeiro semestre), que são centenas de atividades culturais espalhadas pelos equipamentos, começamos a oferecer mais alternativas. A preocupação principal é evitar que se reproduzam problemas como violência, arrastão, embora a gente saiba que esse não é um problema da Virada, é um problema da cidade. Com boa articulação com as várias secretarias do município, secretaria de segurança urbana, PM, podemos garantir uma Virada segura e com a mesma força.

Valor: Quais os planos e ações da secretaria com a cultura erudita?

Bonduki: Em primeiro lugar, temos um Teatro Municipal com uma temporada lírica excepcional. O teatro tem tido lotação frequente e os preços são populares. Além das apresentações no teatro, existem apresentações em vários CEUs. Temos a Orquestra Sinfônica, o Coral Paulistano, o Coral Lírico, música de câmara no conservatório, então é uma programação ampla. O Teatro [Municipal] passou por uma reformulação administrativa e estamos num processo importante de transformar os quadros estáveis em celetistas. Além disso, há uma ideia que não é cultura erudita, mas de cultura popular, em que o teatro poderá ter uma participação importante, que é a criação do Clube do Choro. Seria uma escola de instrumentos utilizados no choro, um espaço para roda de choro e shows. Há um interesse de que a gente possa impulsionar o choro, que é um gênero popular com grande aceitação na cidade, e São Paulo não tem um clube de choro, como Brasília e Rio.

Valor: A popularidade de Fernando Haddad, assim como a de Geraldo Alckmin e de Dilma Rousseff, tem caído…

Bonduki: A inércia das práticas anteriores é muito grande. O motorista do carro está acostumado a ter privilégios na cidade, não é de uma hora para outra que isso se altera, é um processo. Ao mesmo tempo que vamos ter dificuldades para mudar o padrão, temos que ter de parte a parte a tolerância. A reapropriação do espaço público é importante, mas também é necessário que quem usa o espaço público respeite os moradores do entorno, na questão do barulho, horário, sujeira. É um processo de acomodação num momento de mudança, e as mudanças não são fáceis de serem feitas, mas aos poucos vão se introduzindo visões novas. As pessoas reclamam um pouco no começo, mas vão se acostumando e aos poucos a gente vai avançando. Se tivermos algumas administrações em sequência que deem condições…. Não adianta falar “Ah, a pessoa não pode jogar lixo na rua” se você não der o lugar para ela colocar; você não pode falar “Ah, precisa usar transporte coletivo” se ele não melhorar. O poder público também tem que criar as condições para que essa mudança de comportamento aconteça, e as pessoas acabam sempre usando como desculpa para não mudar o fato de que não existem as condições adequadas para a mudança.

Valor: De que maneira a cultura pode se relacionar com a crise hídrica e a “revolução civilizatória”?

Bonduki: Temos um problema que não é apenas da crise hídrica – a crise só tornou isso mais evidente. Nossa cultura nas últimas décadas foi de que temos água demais e podemos usar sem cuidado. Precisamos introduzir a ideia de que água é um recurso escasso. A região metropolitana consome mais água do que produz, e deve ser trabalhada a ideia de que o uso deve ser mais racional. E isso é uma mudança cultural, porque para quem está acostumado a ficar no banho o tempo que quiser, usar a descarga de qualquer maneira, a não reusar a água, deixar a torneira ligada lavando louça o tempo todo, isso é um hábito criado. A cultura pode ter um papel importante não só agora, mas daqui para frente. Isso vale também para a energia, para o espaço público, o transporte coletivo, ou seja, temos que difundir novas práticas, novos costumes, novas civilidades, e sem dúvida a cultura pode atuar nisso sem dirigismos, de forma espontânea, porque são problemas que as pessoas enfrentam. Temos potencial para problematizar essas questões, e fazer com que elas ganhem mais repercussão, porque fico com medo de que, quando começar a chover muito – e isso vai acontecer, vamos ter enchentes daqui a dois, três anos, porque isso é cíclico -, todos irão esquecer isso. Não se pode trabalhar a questão da água apenas com a perspectiva do lucro, do negócio.

No Valor Econômico. Bruno Yutaka Saito, de São Paulo.