Comidas típicas ajudam refugiados em São Paulo - São Paulo São


O estômago, sempre ele, a unir culturas – separadas por quilômetros e, no caso dos refugiados, cicatrizes as mais variadas. Plataformas virtuais e eventos em São Paulo procuram, por meio das culinárias típicas, ajudar esses imigrantes e, de quebra, oferecer diferentes opções gastronômicas aos paulistanos.
 
É o caso do Sabores & Lembranças, cuja primeira etapa aconteceu no fim dô mês, no food park PikNik Faria Lima (Av. Rebouças, 3128, Pinheiros, a partir das 11h, entrada grátis). “Trata-se de ótima oportunidade para que essas famílias consigam se estabelecer no Brasil e começar seu próprio negócio”, comenta a idealizadora do Piknik, Monica Noda.
 
Por meio do projeto, idealizado pelo Instituto de Reintegração do Refugiado – mais conhecido como Adus –, a partir de novembro, uma vez por mês o food park irá disponibilizar um quiosque par que uma família de refugiados possa servir pratos típicos de seu país. Até o momento, já são 12 cadastrados. Na primeira etapa da ação, o espaço foi utilizado para divulgar a proposta, com lançamento de campanha de financiamento coletivo – para compra de equipamentos e mantimentos – e shows musicais de artistas sírios e africanos.
 
“O projeto coloca os refugiados na posição de protagonistas da atividade”, argumenta Marcelo Haydu, fundador do Adus e criador do Sabores & Lembranças. O primeiro refugiado do cardápio é o sírio Talal Al-tinawi, de 42 anos. Engenheiro mecânico, no Brasil tem atuado somente na culinária.
 
O Migraflix, iniciado há cerca de um mês, promove aulas de imigrantes. Dos seis workshops já divulgados, cinco são de gastronomia. “Sabemos o quão complicado é para eles chegar em um país sem conhecer o idioma e sem poder trabalhar na área em que são formados. A primeira coisa que eles têm para oferecer é a sua cultura, os seus costumes, sua gastronomia”, disse Rodrigo Delfim, idealizador do programa.
 
A refugiada síria Muna Darweesh, de 35 anos, irá ensinar no próximo dia 20 alguns pratos típicos de seu país. Ela dava aulas de inglês na Síria, mas com a intensificação do conflito em seu país mudou para o Brasil há um ano e meio com o marido, que é engenheiro naval, e os quatro filhos. Sem saber português e sem conseguir emprego, o casal começou vender comida no centro de São Paulo.
 
“Fazemos esfirras e doces e vendemos sob encomenda e na rua. No começo, não conseguimos creche para as crianças e tínhamos que levá-los junto com a gente para vender as comidas”, conta Muna. Ela disse estar feliz em voltar a dar aula, mesmo não sendo na sua área de formação. As aulas custam R$ 90 por pessoa e 80% do valor é repassado para o imigrante. “As pessoas que procuraram as aulas até agora estão sensibilizadas com os refugiados e querem aprender mais sobre a cultura deles, até para poder ajudá-los”, explica Delfim. Em outubro, ainda estão programadas aulas de gastronomia camaronesa, marroquina e peruana.
 
Histórico receptáculo de imigrantes das mais diferentes nacionalidades, não é a primeira vez que São Paulo tem, recentemente, um projeto que difunde a comida caseira de cada pátria de refugiados. Em 2011, o Sesc, em parceria com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, organizouuma série de encontros gastronômicos tendo sempre à frente um estrangeiro. Ao longo de três meses, na unidade Sesc Carmo, foram servidos pratos preparados por refugiados de Angola, Colômbia, Congo, Peru, Iraque, Nepal e Sérvia. Depois, as receitas foram integradas em um livro.
 
Dos cerca de 8,4 mil refugiados que vivem no Brasil – de 81 nacionalidades diferentes – calcula-se que quase a metade, 4 mil, residam na cidade de São Paulo.
 
Edison Veiga e Isabela Palhares em O Estado de S.Paulo.