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Radial Leste. Pintura de C. Sidoti. Acervo Galeria Jacques Ardiles.Radial Leste. Pintura de C. Sidoti. Acervo Galeria Jacques Ardiles.

Amilton sai cedo de casa, como todas as manhãs, em direção à padaria mais próxima, no alto de uma pequena ladeira, duas esquinas adiante.

Ele escala com cuidado os degraus formados pelas entradas das garagens das casas, desvia de um cocô de cachorro que algum vizinho descuidado deixou e passa pela banca, que ocupa quase toda a largura da calçada, onde compra um jornal e um Hall´s, extra-forte.

Enquanto espera o troco, tem que dar passagem para uma mulher com um carrinho de bebê, que vem se esgueirando entre os displays de revistas, pilhas alcalinas, balas e recargas de celular. “Bom dia”, diz ele, educado. “Belo menininho”. A mulher olha para ele com alguma irritação: – “é uma menina”. Desenxabido, sai logo em direção à padaria.

O momento tão esperado, de ler o jornal enquanto sente o cheiro do pão na chapa, perde importância quando descobre que não havia, afinal, desviado da sujeira de cachorro que aquele vizinho descuidado esquecera de limpar. Na saída, já atrasado, decide dar uma apressada no passo até o ponto de ônibus.

Ao tentar atravessar a última rua, vê-se frente a frente com uma moto que, decidiu fazer a conversão num local proibido, ignorando os pedestres que atravessavam a faixa. O reflexo o faz frear bruscamente, o que causa uma dor aguda no seu joelho direito recém operado. “Na sua idade, jogar futebol, tsc, tsc”, havia sido o comentário da sua mulher.

Arfando e assustado, vê o ônibus saindo do ponto.

Numa tentativa de não perder a hora, ele dá uma última arrancada, desvia de um poste, abaixa a cabeça para não bater na placa “proibido estacionar” e, quando está quase alcançando o ônibus, pisa em falso num buraco da calçada, que está bem em frente a uma loja de artigos chineses.

Enquanto tenta recuperar o fôlego e a dignidade, lembra que uma vez, há meses, tentou alertar o dono da loja sobre o buraco, mas ele falava tão mal o português que ignorou seu alerta de que a “lei obrigava o dono a cuidar da calçada”.

Com o sapato sujo, o pé torcido, o terno amarfanhado e a moral baixa, chega atrasado ao escritório e descobre que a sua empresa decidiu fazer um “downsizing”. Passa o dia pensando que seu nome poderia estar na lista…

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Amilton não existe de verdade, mas seus problemas sim.

A manutenção e o desenho das calçadas depende de moradores e de fiscalização que não acontece. Os buracos, as placas e os fios dependem da integração de órgãos e empresas que não se integram. Alguns pontos de ônibus têm mais área para publicidade do que para os bancos. As quedas em calçadas são uma das maiores causas de ocorrências de internações em hospitais de ortopedia. A largura das calçadas é uma herança de tempos e loteamentos passados que só pode ser mudada quando o espaço para os carros não for uma religião. A convivência de motos, carros e pedestres depende da educação de seus motoristas, que reclamam quando tomam multas de velocidade mas acham indigno parar na faixa para um pedestre.

A convivência no espaço público depende de um aprendizado e nós ainda estamos no maternal da urbanidade.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no blog Caminhadas Urbanas do Estadão.

A explicação para algumas pessoas caminharem mais do que outras pode ir além da escolha pessoal: em muitos casos, os níveis de caminhada no dia a dia são determinados pelo desenho urbano. A maneira como as ruas e bairros são traçados ultrapassa questões estéticas ou de planejamento e afeta diretamente o estilo de vida, a saúde, a prática de atividade física e o bem-estar de quem mora ou frequenta cada área da cidade.

No início do ano, São Paulo se tornou oficialmente uma referência mundial em planejamento urbano. Um concurso promovido pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) premiou o Plano Diretor da cidade como um dos quatro melhores projetos entre 146 candidatos de 16 países. O reconhecimento é originado de um projeto que desde sua concepção visou diminuir a desigualdade social e promover o desenvolvimento econômico através de um fio condutor: o transporte coletivo.

A crise da mobilidade urbana inspirou a reflexão sobre os modais de transporte e sua relação com eficiência, tempos de trajetos, poluição gerada, infraestrutura necessária, custos de implantação e operação e os impactos na saúde dos usuários.

Atualmente, governos realizam grandes investimentos em novas infraestruturas que permitem que populações equivalentes a cidades inteiras se desloquem longas distâncias diariamente. Em São Paulo, por exemplo, o equivalente à população do Uruguai sai da Zona Leste para o Centro todos os dias.