Caminhos - São Paulo São

São Paulo São Caminhos

O 2º Festival Brasileiro de Filmes sobre Mobilidade e Segurança – evento dedicado à exibição de filmes, vídeos e programas de TV brasileiros, sobre os temas de mobilidade urbana e violência no trânsito acontece no próximo dia 20 de Novembro.

O Festival vai apresentar 60 filmes, vídeos e programas diversos, num rico panorama da produção audiovisual brasileira e premiará melhores filmes em 9 categorias:

- Produção Independente curta-metragem sobre mobilidade,
- Produção Independente curta-metragem sobre ciclismo,
- Produção Independente curta-metragem sobre segurança viária,
- Produção Independente longa-metragem,
- Instituições,
- Vídeo-Cidadão,
- Estudantes,
- TV / Webséries,
- Animação.

O júri do evento é composto por Solange Farkas, curadora e diretora do Vídeo Brasil; Toni Venturi, cineasta e Lúcio Gregori, ex-secretário dos transportes da cidade de São Paulo

O Mobifilm

O Mobifilm tem o objetivo de incentivar e divulgar a produção audiovisual, promover reflexão, gerar debate, inspirar ideias e melhorar a consciência do país sobre os graves problemas afeitos a esses temas. Alinhado com o Global Road Safety Film Festival, o Mobifilm - com direção de Eduardo Abramovay, idealizador do evento, e produção de Leonardo Kehdi -, foi concebido a partir de uma reflexão sobre um panorama cujas estatísticas revelam uma realidade estarrecedora.

Imagem: Divulgação.Imagem: Divulgação.

Milhões de automóveis consomem milhões e milhões de toneladas de aço, vidro, borracha, energia e água. Despejam na atmosfera milhões de agentes poluidores. Entopem as cidades. Drenam recursos públicos. A indústria automobilística produz aproximadamente R$ 200 bilhões por ano no Brasil. A soma do custo social desta indústria, isto é, o valor em horas perdidas dos congestionamentos + custo de saúde gerado pela poluição + o custo de vidas e trabalho perdidos em acidentes, + o custo hospitalar e terapêutico de vítimas sobreviventes + custo dos danos materiais dos acidentes, a soma destes fatores equivale ao valor total que a indústria produz.

Os números são eloquentes: 1.3 milhão de mortos e 50 milhões de lesionados graves em acidentes de trânsito no mundo a cada ano. A ONU proclamou o período de 2011 a 2020 como Década Mundial de Ação pela Segurança no Trânsito. A iniciativa agrupa ONU, OMS, CEE, Cruz Vermelha e Banco Mundial.

Uma das iniciativas promovidas pela FIA/ONU foi a criação do Festival Internacional de Filmes sobre Segurança Viária, realizado com sucesso de público e mídia em Genebra, Marrakesh e Paris. O Mobifilm foi criado a partir dessas ideias e iniciativas.

Serviço

O evento, gratuito, acontecerá em São Paulo, no Unibes Cultural. Imagem: Divulgação.O evento, gratuito, acontecerá em São Paulo, no Unibes Cultural. Imagem: Divulgação.
2o Festival Brasileiro de Filmes sobre Mobilidade e Segurança de Trânsito - Mobifilm 2017
Data: 20/11
Local: Unibes Cultural - Rua Oscar Freire, 2.500 – Sumaré, SP - Tel. 11 3065- 4333.
Horário: 10h30 – 21h.
Gratuito.

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Com informações Lítera – Construindo Diálogos.

Às vésperas do feriado de Nossa Senhora de Aparecida, no último dia 12, os romeiros tomaram a Via Dutra.

Em grupos ou em pares, em excursões organizadas ou sozinhos, o hábito de ir a pé até Aparecida está aumentando ano a ano. Estima-se que mais de 10 mil pessoas terão andando por lá nesse ano.

Passei de carro pela via Dutra nos últimos dias e vi centenas de pessoas andando no acostamento. É comovente vê-los enfrentando o sol, a chuva, o cansaço, o barulho dos carros e o perigo real de um atropelamento.

“O cansaço purifica, destrói o orgulho”, diz o filósofo Frédéric Gros sobre os peregrinos. O andarilho se despe de tudo o que é supérfluo e se concentra no ato mais básico do homem, andar.

A peregrinação medieval a Roma, Jerusalém e Santiago

A peregrinação cristã vem desde os primeiros séculos da nossa era e se afirmou na Idade Média como um ritual de purificação, de agradecimento por uma graça, de penitência por um crime ou uma prova de fé.

Caminhar nas estradas medievais era muito perigoso. O auto do livro “Uma história do Andar”, Joseph Amato, estima que metade dos peregrinos era roubada ou assassinada em seus trajetos. Tão comum eram os crimes que a pessoa era obrigada a fazer um testamento antes de partir em peregrinação.

Jerusalém e Roma eram os principais destinos até que Santiago de Compostela foi ficando cada vez mais importante, com paradas protegidas, cidades acolhedoras e um roteiro mais seguro.

O caminho de Santiago valoriza, até hoje, o caminhar, tanto quanto o próprio destino: “Companheiro, é nossa obrigação caminhar, sem nos demorarmos”, diz a canção do caminhante.

A peregrinação contemporânea a Aparecida do Norte

O caminhante que vai a Aparecida do Norte ganhou o apoio logístico de carros e até tendas com bebidas geladas em dias de calor.

Mas o sofrimento na beira da estrada ganha uma dimensão de perigo quando se pensa no risco de atropelamento. Em 2017, já houve uma morte e pelo menos quinze pessoas atropeladas. O barulho e a fumaça dos carros também devem aumentar as provações dos caminhantes e seguramente tornam a caminhada menos contemplativa.

Existe a ideia de criar outras rotas, como um caminho ao longo do Rio Paraíba. Além de ser mais seguro talvez venha a trazer aos caminhantes cansados a chance de pensar mais profundamente em suas vidas e suas provações.

De qualquer modo, é bonito ver as pessoas num mundo tão cheio de estímulos como o nosso desligando-se por alguns dias da vida cotidiana e, principalmente escolhendo os pés para buscarem as suas verdades.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas.

Há cerca de trinta anos o paisagista francês Patrick Blanc tornou-se pioneiro na implantação de jardins verticais em Paris e posteriormente, em outras cidades pelo mundo. Por meio da criação de estruturas verticais capazes de comportar e nutrir espécies vegetais, o sistema permite que espécies possam crescer e ainda reduzir consideravelmente a temperatura interna de edifícios quando instaladas em suas fachadas, possibilitando expansão de áreas verdes pela inversão de suas áreas, do solo (horizontal) às empenas (vertical).

Patrick Blanc botânico e paisagista, considerado o pai da parede verde. Foto: Vertical Gardens.Patrick Blanc botânico e paisagista, considerado o pai da parede verde. Foto: Vertical Gardens.

A prática de Blanc trouxe um conjunto de ações posteriores, reconhecendo os valores dos espaços verdes e sua contribuição às políticas sociais, ambientais e urbanas. Cingapura, Londres e São Paulo têm estimulado a prática como significativo meio à qualidade da vida urbana.

Na cidade de São Paulo, por exemplo, o Movimento 90° fundado em 2013 por Guil Blanche, já é responsável pela construção de cerca de 16 mil metros quadrados de área verde, através de uma série de jardins verticais pela cidade, especialmente na Avenida 23 de Maio, com 10.950 metros quadrados e nas empenas de edifícios ao longo do Elevado João Goulart, popularmente conhecido como “Minhocão”, com 4.180 metros quadrados.

Na prática, um conjunto de ações é disposto na melhoria ambiental, como a reciclagem de resíduos sólidos, redução térmica interna dos edifícios, parcial despoluição do ar pela captura de CO² e reuso de água coletada da chuva, utilizando-a para a rega das espécies vegetais.

Edifício Santa Cruz. Foto: Felipe Gabriel / Movimento 90°. Edifício Santa Cruz. Foto: Felipe Gabriel / Movimento 90°.

Se por um lado há o verde e espécies pré-definidas invadindo a paisagem cinzenta, por outro, há novas espécies incorporadas, pelas sementes e dejetos depositados por pássaros e insetos, como resultado da interação ecológica.

O sistema passou a ser incentivado após a implementação do decreto 55.994, na gestão passada da prefeitura paulistana. O artigo prevê que os parques verticais podem ser utilizados como compensação de obras que impactem o ecossistema, através de Termo de Compromisso com a Secretaria do Verde e Meio Ambiente, em ações como o plantio de árvores no terreno, coberturas verdes e jardins verticais. 

Edifício Santos. Foto: Felipe Gabriel / Movimento 90°. Edifício Santos. Foto: Felipe Gabriel / Movimento 90°.

A atual gestão municipal de São Paulo vem construindo um enorme jardim vertical na Avenida 23 de Maio, ainda que o Ministério Público já tenha manifestado preocupação quanto ao assunto, inclusive ajuizando uma ação pública a proibir a Prefeitura de SP de autorizar a construção de jardins verticais como forma de compensação ambiental.

Avenida 23 de Maio. Foto: Gabriela Di Bella / Movimento 90°. Avenida 23 de Maio. Foto: Gabriela Di Bella / Movimento 90°.

Ainda assim, seja na escala urbana ou na menor escala, podemos ser contribuintes da implementação do sistema. Aprenda abaixo como montar seu próprio jardim vertical.

Materiais

a. Chapa ecológica | b. Espaçadores | c. Duas mantas de feltro de alta densidade | d. Agulha e barbante | e. Mangueiras | f. Conexões | g. Gotejador | h. Timer | i. Abraçadeiras | j. Terra adubada | h. Espécies vegetais.

Passo a passo

1. Comece recortando uma das mantas de feltro em retângulos. As medidas são variáveis, de acordo com as espécies escolhidas para compor seu jardim vertical, menores ou maiores, entre 25 e 40 centímetros.

2. Prenda os recortes na segunda manta, costurando-os. Utilize linhas mais grossas ou barbante, preferencialmente, já que as bolsas receberão terra e plantas.

3. Prenda o painel em feltro de alta densidade na chapa ecológica. Prenda o painel criado na parede utilizando os espaçadores, para que não haja infiltração.

4. Após a instalação do quadro, conecte as mangueiras por meio das conexões. Lembre-se que as mangueiras devem ser furadas a cada 25 ou 30 centímetros, instalando os gotejadores e dispostos de modo linear, para irrigar as plantas de modo homogêneo. Ainda no sistema, conecte o Timer na saída d’água (torneira), e controle-o, para que este libere a água em dado período de tempo.

5. Insira terra adubada e muda das espécies vegetais escolhidas uma a uma, em cada uma das bolsas de feltro.

Pronto, suas plantas cresceram, e em meses, encherão toda a a parede, fazendo que a mesma aparente camada vegetal homogênea. 

Jardim vertical residencial produzido pelo escritório Gilberto Elkis Paisagismo. Foto: Reprodução.Jardim vertical residencial produzido pelo escritório Gilberto Elkis Paisagismo. Foto: Reprodução.Espécies

As espécies escolhidas para compor o jardim vertical devem ser escolhidas com cuidado, isso devido ao índice de insolação e sombreamento que o painel receberá.

Áreas com sol pleno

  1. Alecrim (Rosmarinus officinalis)
  2. Aloé (Aloe Arborescens)
  3. Aspargo-pluma (Asparagus densiflorus)
  4. Barba-de-serpente (Ophiopogon jaburan)
  5. Brilhantina (Pilea microphylla)
  6. Clorofito (Chlorophytum comosum)
  7. Clusia (Clusia Fluminensis)
  8. Colar-de-pérolas (Senecio rowleyanus)
  9. Flor-de-coral (Russelia equisetiformis)
  10. Geranium (Pelargonium Hortorum)
  11. Hera-inglesa (Hedera helix)
  12. Lambari-roxo (Tradescantia zebrina)
  13. Manjerona Selvagem (Origanum Majorana)
  14. Maria sem vergonha (Impatiens Walleriana)
  15. Orquídea-grapete (Spathoglottis unguiculata)
  16. Liríope (Liriope spicata)
  17. Tilândsia (Tillandsia sp)
  18. Trapoeraba-roxa (Tradescantia pallida purpúrea)
  19. Vedélia (Sphagneticola Trilobata)

 


Áreas de meia sombra

  1. Antúrio (Anthurium andraeanum)
  2. Aspidistra (Aspidistra Elatior)
  3. Asplênio (Asplenium nidus)
  4. Babosa-de-pau (Philodendron martianum)
  5. Barba-de-sepente (Ophiopogon jaburan)
  6. Bromélia (Guzmania sp)
  7. Columéia-peixinho (Nematanthus wettsteinii)
  8. Chuva-de-ouro (Oncidium sp)
  9. Dedo-de-moça (Sedum morganianum)
  10. Falenópsis (Phalaenopsis x hybridus)
  11. Flor-batom (Aeschynanthus radicans)
  12. Flor-de-maio (Schlumbergera truncata)
  13. Liríope (Liriope spicata)
  14. Lumina (clorofito-lumina)
  15. Maranta cascável (Calathea insignis)
  16. Maanta peluda (Calathea insignis)
  17. Peperômia (Peperômia scandens)
  18. Rabo-de-gato (Acalypha reptans)
  19. Ripsális (Rhipsalis bacífera)
  20. Samambaia (Nephrolepis exaltata)
  21. Vriésia (Vriesea sp)

Áreas sombreadas

  1. Aglaonema (Aglaonema spp)
  2. Espada de São Jorge (Sansevieria trifasciata)
  3. Filodendro (Philodendron cascata)
  4. Filodendro (Philodendron martianum)
  5. Filodendro (Philodendron undulatum)
  6. Filodendro (Philodendron xanadu)
  7. Lírio-da-paz (Spathiphyllum wallisii)

Cuidados

  1. Nutra as plantas e adube a terra.
  2. Escolha as espécies adequadas ao clima em questão.
  3. No inverno, o ideal é nutrir as plantas com produtos orgânicos.
  4. Não se esqueça de verificar a bateria do Timer, trocando-as quando necessário e garantindo a irrigação das espécies vegetais.

Faça você também! Ideia simples, porém eficiente, contribuindo para redução dos poluentes do ar e sonoros, além da composição da paisagem.

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Por Matheus Pereira no Arch Daily.

O principal tipo de espaço público nos Estados Unidos é a rua. Por muito tempo ela se demonstra como o suporte para a economia, servindo de cenário para o intercâmbio e interação entre clientes, comerciantes e empresários. Sob o ponto de vista de que as ruas e as cidades não são estáticas, tampouco completas, e com base de que é na calçada que surge a ideia da criação de valores, estas continuam crescendo como facilitadoras da vida urbana.

Como nos rios, estes pontos de contato com a “margem” criam diversas atividades. Portanto, na medida em que nossas ruas recebem carros mais rápidos e maiores, o rio torna-se o caminho para separar a atividade que dá origem às calçadas.

As calçadas são frequentemente ignoradas. Antes de serem instaladas nas cidades, simplesmente eram as áreas que não estavam definidas pelos limites da rua. Com a mudança de necessidades, pouco a pouco a poluição e o congestionamento das ruas são eliminados. Eventualmente, sobre as calçadas novos elementos foram sendo acumulados em camadas como árvores, bancos, sinalização, quiosques, iluminação, postes, bicicletários e assim sucessivamente. Conforme a cidade gera espaço aos automóveis e cria políticas de apoio, as calçadas passam a ser eliminadas e cria-se um contexto novo em menor densidade, convertendo-se num ponto de interação ativo entre os transeuntes e as pessoas que ali estão.

Mas com o tempo, as calçadas apresentaram uma relação de qualidade e desenho fora das subdivisões. As cidades e subúrbios simplesmente não viram o valor que outorgaram para estas calçadas através de um autodesenvolvimento e sim viram como uma distração para o tráfego. Assim, foram eliminadas. Grande parte do desenvolvimento dos anos 60, 70 e 80, nos Estados Unidos, pode ser visto sem nenhuma calçada ou, no melhor dos casos, com um mosaico rompido de calçadas segmentadas. 

Nos EUA, década de 1960 grupo de pessoas espera na calçada para atravessar a rua em Nova York. Imagem: Videoblocks.Nos EUA, década de 1960 grupo de pessoas espera na calçada para atravessar a rua em Nova York. Imagem: Videoblocks.

À medida que o custo real das opções que oferecem as calçadas fica claro, inicia-se uma reorganização dos padrões de tempo e de construção. A rua, mais uma vez, tornou-se um tema prioritário na criação do novo desenvolvimento urbano e suburbano. Mas a transição nem sempre foi fácil. Em nenhum caso se destinou gastos para a construção e manutenção destas, mas sim para as ruas, que se desenvolveram completamente e oferecem um espaço para todos desde que cada um permaneça em seu lugar. Por exemplo, os pedestres e ciclistas possuem espaços distintos. Antes, os carros eram livres para movimentar-se em qualquer velocidade, geralmente a 75 km/h e seu amplo espaço foi transformado e equipado com calhas, jardins e outros dispositivos destinados a proporcionar um equipamento urbano, como os que lidam com as águas pluviais no local e, literalmente, até o caminho verde. O fenômeno da rua completa não é mais que um ponto de parada no caminho de volta à rua.

Na verdade, é um ponto no qual começamos a aprender sobre o conceito original das ruas e o que ela pode oferecer como um espaço solvente, vibrante e resistente.

E é aqui onde o papel do passeio enfoca a atividade entre o público e o privado. Já não podemos fazer calçadas desconectadas ou relegadas a um só uso. A superposição de funções no desenho é fundamental para o valor que proporciona. Podem ser amplas, alinhadas com outras ruas ou relevos, com toldos, galerias ou com árvores. Nas calçadas, podemos instalar cadeiras para comer, como a extensão de um bar ou simplesmente um lugar para passear e distrair-se. Elas podem ser o caminho seguro para as escolas e um meio de percorrer os bairros em zonas urbanas menos densas. 

Em qualquer caso, mais uma vez, devemos nos apropriar das calçadas.

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Fonte: Street Sense.

Caminhar ao lado de alguém é um jeito ótimo de conhecer as pessoas.

Aprendi que o caminhar revela muito sobre como escolhem o roteiro, o ritmo de andar, o que elas olham e o que comem.

Fiz o teste com meus amigos, que conheço há muitos anos e com quem ando pela cidade e constatei: eles, de fato, caminham do mesmo jeito que são.

O caminhante meticuloso – Tenho um amigo que é sereno, calmo, decidido. Caminhar com ele significa escolher antes um roteiro, um lugar de chegada e combinar um horário para voltar. A conversa é ótima; vamos abrindo janelas de assuntos diferentes sem medo de não fechar algum, enquanto cruzamos ruas, pontes, viadutos. Caminhar com ele significa andar rápido, ir longe e falar de tudo.

O caminhante aventureiro – Esse amigo é daqueles que gosta de viver intensamente, cada ação é um prazer, cada trabalho uma chance de conhecer pessoas e um desafio que ele precisa vencer. Caminhar com ele significa abrir-se para a cidade e estar preparado para tudo. Na sua mochila, há de tudo. Se chover, ele terá uma capa. No sol, ele põe óculos escuros, um boné e vai em frente. Prédios, bairros, pessoas, a cidade é um palco para as suas histórias: “nessa rua, eu morei, naquela eu namorei, na outra, fui assaltado”. Em todo canto, há uma lembrança, uma história. Com ele, a caminhada é sempre uma experiência sensorial.

O caminhante curioso – Esse querido amigo olha para o mundo com candura e curiosidade. Ele faz perguntas, quer saber, quer detalhes, se embrenha nas histórias de cada um. Caminhar com ele é uma garantia de que vamos explorar a cidade. Teremos que parar em todas as vitrines estranhas, provaremos o abacaxi em fatias no Largo do Paissandú e o doce japonês na feira da Liberdade. Desceremos escadas íngremes e subiremos qualquer ladeira que vai dar em algum lugar só porque lá em cima “deve ter uma vista boa”. Para ele, nunca, em hipótese nenhuma devemos perder tempo com caminhos conhecidos. Com ele, a caminhada e a vida é isso: sempre em frente, sempre coisas novas.

O caminhante hiperativo – Esse amigo raramente anda conosco. Ele é uma daquelas forças da natureza, sempre em movimento, sempre agitando três programas ao mesmo tempo, enquanto olha para três telas de celulares ao mesmo tempo. Caminhar com ele é um prazer raro, mas quando ele aparece, liga minutos antes para avisar que não sabe se vai. De repente, lá no meio da Mooca, ele emerge de um úber, uma moto ou uma carona e entra na caminhada já contando casos. Antes de chegarmos algum lugar, ele já terá sumido, atrasado para algum outro compromisso.

Fiz o teste com meus amigos, eles, de fato, caminham do mesmo jeito que são. Foto Shutterstock.Fiz o teste com meus amigos, eles, de fato, caminham do mesmo jeito que são. Foto Shutterstock.O caminhante tranquilão  – Esse cara está sempre de bem. Ele faz suas escolhas com calma e depois se entrega aos programas com a tranqüilidade de quem sabe que tudo vai dar certo. Caminhar com ele é saber que qualquer roteiro vai estar bem, e que qualquer bar vai servir para tomar uma cerveja lá no fim da caminhada. Ele anda com calma, mas vai longe. Ele só não gosta de uma coisa: andar no centro de São Paulo aos domingos. Diz que tem cheiro de xixi, o que, no fundo no fundo, é verdade.

O caminhante-guru – Na vida pessoal e profissional, é um líder nato. Clientes o procuram para falar de estratégia, amigos querem conselhos sobre planos de saúde, problemas familiares, dinheiro. A caminhada sempre começa na sua casa, quase naturalmente. Seus passos são pesados, oscilando de um lado para outro enquanto faz perorações. Caminhar com ele é andar devagar, enquanto embarcamos em conversas longas e trajetos curtos. Entre e digressões sobre a cidade e a vida, acabamos andando alguns poucos quilômetros, mas não importa. A caminhada com ele sempre faz a gente pensar em coisas que nunca pensou.

O caminhante indeciso – Esse sou eu. De acordo com meus amigos, o meu caminhar também reflete minha personalidade. Não sei bem se é verdade, mas deve ser. Sofro um pouco a cada esquina, a cada decisão de que rumo seguir, mas adoro o ruído dos pés nas calçadas. Reclamo do barulho da TV na padaria, da buzina de uma moto e da sujeira do rio, mas adoro me perder na multidão, seguir em frente, surpreender-me com uma pracinha onde há uma mulher com duas crianças que brincam, chegar a um rua que tem um nome que eu nunca ouvi. Ao final de horas andando, nada é melhor do que sentar numa cadeira, ver as pessoas passando e terminar a conversa assim, com a calma de quem já tomou posse da cidade e dos amigos …

Se você quer conhecer uma pessoa, ande ao lado dela.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas

A noção de caminhabilidade – ou walkability, como o conceito vem se afirmando internacionalmente – é o tema central de ‘Cidades de Pedestres – A caminhabilidade no Brasil e no mundo‘, lançamento da Babilônia Cultura Editorial. 

O livro, lançado na semana passada (dia 28) poderia se chamar “Tudo o que você precisa saber sobre a caminhabilidade e teve medo de perguntar”, tamanha a sua abrangência. São 16 capítulos e 37 autores, que contam o que anda acontecendo em matéria de mobilidade a pé no Brasil e no mundo.

Mauro Calliari, conversou com Victor Andrade, coordenador do Laboratório de Mobilidade Sustentável (LABMOB), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (PROURB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que, em conjunto com Clarisse Cunha Linke, do ITDP Brasil, que organizou o livro (matéria do São Paulo São).

O que explica o fato de terem surgido tantas organizações e iniciativas pelos pedestres nos útlimos anos?


Houve uma inflexão paradigmática na maneira como a sociedade brasileira avalia as suas condições de deslocamento, principalmente diante da problemática da mobilidade urbana nas grandes cidades. Isso tem se refletido tanto na academia, principalmente na área de Saúde Coletiva, na de Arquitetura e Urbanismo e na do Planejamento Urbano, assim como nas organizações e iniciativas da sociedade civil atuantes em prol de cidades mais caminháveis. A busca por uma maior qualidade de vida individual, coletiva e ambiental, junto à procura por uma melhor otimização dos meios e custos de deslocamentos, é certamente algo que explica esse fenômeno.

Podemos entender o ativismo dos pedestres como tendo sido inspirado no cicloativismo?

Sim. O cicloativismo é um precursor da caminhabilidade, muito embora o andar a pé seja a modalidade de deslocamento mais primária de todas. A mais antiga, em termos objetivos. De fato, o ativismo dos pedestres se inspira no cicloativismo brasileiro, que tem atingidoresultados positivos graças ao amadurecimento resultante de uma organizada pressão política, poder de agenda e produção de dados em parceria com instituições de pesquisa, fortalecendo continuamente a narrativa do transporte ativo.

Você acha que existe um “espírito do tempo” que apóie o caminhar e a redescoberta a pé da cidade?Victor Andrade. Foto: Silvia Ballan.Victor Andrade. Foto: Silvia Ballan.

Evidentemente. Hoje em dia, vivemos um cotidiano influenciado por um modelo de urbanização galgado fortemente no transporte individual motorizado, que remonta aos anos de 1950. De fato, nós estamos sofrendo todas as mazelas da concretização desta visão de futuro construída no século XX e baseada no ultrapassado paradigma do veículo motorizado e individual. Com isso, temos enfrentado o desafio das severas mudanças climáticas, o crescimento das doenças crônicas e o acirramento da intolerância social. Seguramente, o combate a esses desafios também passa pela implantação de novas estratégias de desenvolvimento urbano que valorizem o pedestre e a escala humana. O caminho para cidades resilientes e de baixo carbono, com cidadãos ativos e mais tolerantes passa inevitavelmente pela valorização dos pedestres. Nesse contexto, percebe-se o quanto caminhar é revolucionário e democrático e o quanto, também, é imprescindível para nós e as futuras gerações.

Como é possível conciliar a ideia de caminhar pela cidade densa e de uso misto com a realidade da cidade informal e da periferização desnucleada?

Esse é um grande desafio das metrópoles brasileiras que cresceram predominantemente na informalidade e carentes de um planejamento metropolitano.Vejo as metrópoles como instigantes laboratórios nos quais se aglomeram os nossos maiores enfrentamentos, mas também o palco de soluções incrivelmente criativas que indicam caminhos possíveis para um futuro melhor.

Primeiramente, é necessário o fortalecimento das instituições de planejamento e a implantação de políticas de uso do solo e zoneamento que nos condicionema um crescimento mais sustentável e inteligente. O espraiamento urbano precisa ser evitado, assim como as áreas providas de infraestrutura de transporte de massa deveriam ser mais densificadas.

Em paralelo, precisamos começar a olhar mais para as boas práticas de desenho urbano e mobilidade existentes no mundo e aplicá-las nas áreas informais da cidade em prol do compartilhamento de ruas mais vibrantes e com maior permeabilidade. É essencial refletir como os urbanistas e gestores públicos podem inserir estas áreas na formalidade e, assim,valorizar novas formas de fazer-cidade e viver a cidade. Viva a diversidade!

Por último, é fundamental a consciência de que a cidade deve ser dos pedestres e também do transporte público. A solução para uma cidade mais caminhável é investir na intermodalidade. Precisamos possibilitar aos cidadãos a oportunidade de locomoção combinando o modo a pé com outros modais de transporte público de forma eficiente e agradável em suas jornadas diárias.

Quais são os países que têm feito mais progresso na defesa dos pedestres?

Copenhague é uma das mais seguras do mundo para pedestres. Rua em Nørrebro bairro da capital da Dinamarca. Foto: F.D.Walker.Copenhague é uma das mais seguras do mundo para pedestres. Rua em Nørrebro bairro da capital da Dinamarca. Foto: F.D.Walker.O norte europeu, a exemplo da Dinamarca, está reconhecidamente na avant-garde da defesa dos pedestres. Nos Estados Unidos, temos visto avanços significativos em cidades como Nova York, Portland e Miami. Na América Latina, são boas referências a Cidade do México e Bogotá. Na Ásia, Taipei e Cingapura também são ótimos exemplos.

Eu sou um otimista e não posso esquecer de mencionar o Brasil, que vem progredindo bastante nesse campo. Em São Paulo, é emblemática a política de redução de velocidade e o fechamento da Avenida Paulista aos domingos. No Rio de Janeiro, a derrubada do Elevado da Perimetral, grande e extenso viaduto que passava sobre a orla da região central, para a construção de um parque linear foi uma intervenção muito simbólica na luta pela valorização do pedestre e pela transformação do centro da cidade. Estas são ações impensáveis há uma, duas décadas atrás, e que trazem o pedestre para o protagonismo do espaço público.

Quais são os fatores mais importantes para uma melhor “caminhabilidade” nas grandes cidades brasileiras?

Pedestres no centro de São Paulo. Foto: Mariana Gil/WRI.Pedestres no centro de São Paulo. Foto: Mariana Gil/WRI.Eu apontaria seis fatores importantes.

Em primeiro lugar a calçada, que incorpora a dimensão relativa à infraestrutura e às condições físicas da superfície por onde o pedestre caminha.
Em segundo, a segurança viária, pois ruas com velocidade reduzida para automóveis tendem a ser mais amigáveis à circulação de pedestres.
Em terceiro, o desenho urbano, com a adoção de pequenos quarteirões, viabilizando dessa maneira uma maior permeabilidade do tecido urbano pelo pedestre.
Em quarto, a atratividade das fachadas de edifícios e imóveis em geral, aspecto que favorece um maior dinamismo aos deslocamentos a pé.
Em quinto lugar, a segurança pública, que incide tanto nos indicadores físicos que transmitem a sensação de segurança, como uma boa iluminação, por exemplo, assim como nas questões de vulnerabilidade social mais corriqueiras de países com profundas desigualdades, como é o caso do Brasil.
Por último, as condições ambientais, que englobam as ruas arborizadas e, portanto, mais confortáveis desde um ponto de vista térmico. A minimização da poluição sonora e atmosférica também são elementos desse último grupo e que contribuem da mesma maneira para uma melhor caminhabilidade.

Você está envolvido em um projeto que visa medir o impacto de uma ciclovia em Pinheiros. Como é esse projeto?

Esse projeto se chama “Ciclovia em Pinheiros: Estudo de Impacto na Vitalidade Econômica Local” e está sendo organizado pelo LABMOB e pela Ciclocidade em parceria com a Aliança Bike, a Associação Comercial de São Paulo e a Secretaria Municipal de Trânsito/CET de São Paulo.

O objetivo é analisar o impacto na vitalidade econômica local da construção de uma infraestrutura cicloviária em Pinheiros, mais especificamente nas ruas Costa Carvalho e Eugênio de Medeiros. A expectativa é poder mostrar à sociedade civil, aos comerciantes e ao poder público, em geral, que a adoção de infraestrutura para a mobilidade ativa em locais até então dominados pelos veículos motorizados e por suas áreas de estacionamento tem grande potencial de alavancar o desenvolvimento econômico e a vitalidade urbana das ruas comerciais. Há muitos estudos no mundo indicando que ruas desenhadas para pedestres e ciclistas tendem a ter um comércio mais vibrante. Acreditamos que este projeto contribuirá para um melhor entendimento da importância dos pedestres e ciclistas na economia e comércio locais.

Você acredita que pessoas que não são já convertidas podem se interessar pelo seu livro?
Imagem: Divulgação.Imagem: Divulgação.Todos nós, em algum momento do dia, nos locomovemos a pé. Caminhar é um ato universal e primário ao cotidiano das pessoas que tenham ou não limitações permanentes de locomoção. Neste sentido, eu acredito que este livro possa colaborar para que os leitores pouco afeitos à caminhabilidade consigam ter a dimensão do que é ser pedestre no Brasil, incluindo seus desafios e particularidades diante de um cenário tão hostil como é o das cidades tomadas pela hegemonia dos automóveis motorizados. Se pelo menos a leitura conseguir proporcionar uma maior empatia desses “não convertidos” para com aqueles que são majoritariamente pedestres, já será um grande ganho.

Você anda a pé pelo Rio de Janeiro? Quais são os lugares mais aprazíveis para você? E quando está em São Paulo?

Sim, ando a pé diariamente, mas utilizo bastante a intermodalidade. É corriqueiro complementar meus trajetos a pé com o uso do metrô. Na minha vizinhança, ando a pé principalmente para ir ao supermercado e à praia, onde também passeio pelo calçadão.

Também gosto muito de caminhar a lazer ou a trabalho pelo Centro do Rio e pelas ruas do Leblon, de Ipanema e da Tijuca. Em São Paulo, estou sempre caminhando pela Avenida Paulista, Rua Augusta e arredores. Acho inspirador vivenciar a cidade através do caminhar, tendo a oportunidade de perceber as suas cores, texturas e tantas outras particularidades. Ser pedestre é estar aberto às experiências e ao mundo!

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas.