Caminhos - São Paulo São

São Paulo São Caminhos


O foco de segurança no trânsito, ('road safety'), muitas vezes se perde numa luta sem fim, ou frustante, pois a preocupação maior fica mais nas consequências do que nas causas.
 
Muito se faz para amenizar a dor das pessoas que perderam parentes e amigos em acidentes de trânsito, muito se faz para conscientizar sobre o uso seguro de veículos motorizados, carros e motos. Mas faz falta saber o porque das pessoas utilizarem carros e motos.
 
Cadeirinha para crianças, cinto de segurança, saber atravessar a rua, capacete, tudo parece uma tentativa de se adaptar a uma situação, mudar apenas sua triste estatística, mas não uma luta para mudar o paradigma da mobilidade.
Obviamente, muitos reconhecem que o uso obsessivo e irresponsável do carro e da moto é um problema grave. Exatamente por isso o foco precisa se voltar para questionar o uso do carro – e com isto incentivar mais pedestres e bicicletas. Ainda que hoje as preocupações e discursos girem ao redor de tornar mais “seguro” o uso de carro e motocicleta.
 
 
Mortos no trânsito no Brasil - Eduardo BiavatiMortos no trânsito no Brasil - Eduardo Biavati
Gráfico: Eduardo Biavati
 

O gráfico acima mostra o número de mortos no trânsito por 100.000 habitantes no Brasil. Vê-se o impacto positivo da promulgação do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) em 1997, mas os efeitos da nova (e mais rigorosa) legislação se dissiparam ao longo dos anos.

Punições, fiscalização, multas e legislação fazem parte da solução do problema, mas é preciso entender e promover alternativas. A construção consistente de uma política de incentivos a comportamentos seguros é certamente mais eficiente do que pensar somente na punição dos que violam normas complexas.

O gráfico abaixo da Transportation Alternatives (EUA) ilustra com dados razões para a redução da velocidade em São Paulo que estão sendo propostas pela Prefeitura:

Comparativo

Gráfico: Transportation Alternatives.

 

Em um atropelamento:

A 64km/h (40mph), de dez pedestres, apenas um sobrevive;
A 48km/h (30mph), de dez pedestres, 5 sobrevivem;
A 32km/h (20mph), de dez pedestres, 9 sobrevivem.

Com informações Transporte Ativo e Página da Rachel.

 

 

Em São Paulo e outras cidades do país, moradores de diversas origens e classes sociais começam a se juntar e sair às ruas. Em comum, estes movimentos têm um objetivo que parece simples, mas que dá bastante trabalho para ser conquistado: tornar os espaços públicos mais agradáveis.

Se você aceitar o convite destes grupos, poderá plantar flores nos canteiros de uma avenida, participar de debates e oficinas na praça, fazer performances às margens de um rio, cuidar de uma horta comunitária ou dançar embaixo de um viaduto madrugada adentro.

 Imagem: BBC Brasil.

"Fazer isso é importante, porque a vida pública está morta", diz a arquiteta Laura Sobral, de 29 anos, que se casou na rua, em pleno Largo da Batata, no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.

É uma excentricidade que fez todo o sentido para Laura. Ela criou há pouco mais de um ano, junto com amigos e vizinhos, o coletivo "A Batata Precisa de Você" e passou a organizar atividades neste local.

No passado, o Largo da Batata teve papel importante no surgimento da cidade, servindo como entreposto comercial para a capital e o interior. Quando Laura decidiu realizar eventos semanais por lá, uma grande reforma no Largo que custou R$ 150 milhões e tomou mais de 11 anos acabara de ser finalizada. O resultado, no entanto, desagradou alguns moradores da região - inclusive a arquiteta.

"Você não vê onde foi parar tanto investimento. Este era um local de caráter popular, e a obra acabou com este espírito. Virou um deserto, rota de passagem. Por isso, decidimos estar aqui toda semana", disse ela na última sexta-feira de abril, pouco antes de dar início a mais um evento do coletivo.

 

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Insatisfeitos com resultado de obra, coletivo instalou bancos e jardins no Largo da Batata em Pinheiros. Imagem: BBC Brasil.
 

Naquele dia, haveria uma tenda para estampar camisetas, intervenções artísticas na calçada, um debate e um baile de forró para fechar a noite. Também já foram instalados no Largo jardins, bancos, uma mesa de pingue-pongue e uma cobertura feita com guarda-sóis.

"Este tipo de ação gera conflito, dá trabalho, exige manutenção, mas é isso que a gente acredita que é a vida na cidade", explica Laura, que planeja realizar atividades também em outros pontos da cidade.

Margareth Uemura, coordenadora de urbanismo do Instituto Pólis, ONG voltada para o estudo de políticas públicas, explica que ações desta natureza ocorrem há tempos nas periferias diante da ausência de projetos de urbanização. Mas ganharam mais destaque a partir do momento que passaram a ser realizadas também nas áreas centrais da cidade.

"Trata-se de um amadurecimento histórico. Desde a nova Constituição, foram sendo criados instrumentos democráticos de maior participação popular. Assim, o cidadão começa a entender que tem voz, e o poder público - que ainda tem o dever de zelar pela cidade - entende que pode compartilhar esta gestão", afirma Uemura.

A polêmica do capim santo

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Acompanha por vizinho, Neide visita horta comunitária no bairro City Lapa. Imagem: BBC Brasil.
 

A alguns quilômetros do Largo, em uma rua pacata do bairro City Lapa, a nutricionista Neide Rigo, de 53 anos, também enfrentou muita briga para fazer sua horta comunitária vingar.

Ela e uma vizinha resolveram transformar um terreno baldio, tomado por lixo e mato, e foram de porta em porta na vizinhança em busca de apoio. "No começo, não teve muita adesão. Mas, quando pegamos na enxada, os vizinhos começaram a se juntar a nós", relembra ela.

A meta inicial de limpar o terreno acabou virando algo mais ambicioso. Hoje, ali há mais de cem espécies, entre plantas aromáticas, ervas, legumes, verduras. A iniciativa, no entanto, gerou confusão.

"Certos vizinhos diziam que ali não era lugar de horta, mas a gota d’água foi quando tiramos um capim alto que nascia na calçada e substituímos por capim santo. Isso revoltou alguns moradores. Diziam que estávamos atrapalhando a acessibilidade, que o capim ia raspar nas pernas das pessoas", afirma Neide. "Mas nunca ninguém havia reclamado deste terreno antes ou da falta de calçada na parte debaixo dele."

 

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 Terreno baldio era motivo de insatisfação para moradores da região. Grupo se uniu para retirar lixo, mato e fazer uma horta. Imagem: BBC Brasil.

No entanto, a disputa teve um final feliz. O capim santo foi de fato removido, mas a horta ficou e, com a polêmica, a subprefeitura enviou operários para recuperar a calçada existente e pavimentar outros trechos.

"Neste ponto, tenho que agradecer a quem foi contra. Por isso, eu aconselho: se há um problema na sua rua, vá lá e plante capim santo. Isso atrairá olhares para o que está errado", diz Neide, que vê com bons olhos iniciativas semelhantes que vem sendo realizadas na cidade.

"A minha geração se encastelou. Mas está surgindo uma nova geração menos medrosa, que sabe que o caminho para termos uma cidade mais humana é as pessoas de bem ocuparem os espaço públicos, de onde elas nunca deveriam ter saído."

Canteiros renovados
 
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 Paulistanos se reuniram em um domingo para plantar 1,2 mil mudas em canteiros de avenida. Imagem: BBC Brasil.

Assim como no caso de Neide, as plantas também foram as ferramentas usadas na intervenção promovida pelo português Tomas Tojo, de 24 anos, no Centro de São Paulo.

O coletivo do qual ele faz parte, o Green SP, revitaliza canteiros e, em um domingo de abril, executou seu projeto mais ambicioso até então: plantar 1,2 mil mudas na Avenida São Luis.

O grupo de voluntários naquele dia começou pequeno, mas foi crescendo ao longo da manhã. Leonides Abdala, de 72 anos, mora no interior e, hospedada na casa de um familiar na avenida, ficou curiosa ao se deparar com a movimentação na rua.

"Quando fui para a Espanha, vi cidades muito floridas. Sempre quis que São Paulo fosse assim também. Por isso, decidi participar", afirma ela.

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 Para fazer a cidade mais florida, ação exigiu quatro meses de preparação e colaboração de voluntários. Imagem: BBC Brasil.

Já a publicitária Andréa Pagni, de 42 anos, soube do projeto pelo rádio e, acompanhada por seu filho, saiu de manhã bem cedo de casa, no bairro de Santo Amaro, na zona sul, a vários quilômetros de distância do Centro, para colaborar.

"Iniciativas como esta fazem falta na cidade. Não podemos só ficar esperando uma atitude do governo. Também temos que ajudar a deixar São Paulo mais bonita, e trouxe meu filho para dar este exemplo", diz Andrea.

Casos assim reforçam em Tomás a crença de que as pessoas "cada vez mais querem estar na rua e ocupar um espaço que é delas".

"Temos que ser proativos e resgatar este senso de coletividade", afirma ele. "O processo exige muita logística. Foram necessários quatro meses de planejamento. E, como nós temos poucos recursos, dependemos da boa vontade de muitas pessoas."

Menos medo e violência
 

Entretanto, nem tudo é sempre bem recebido por todos. As festas que vinham sendo realizadas aos fins de semana em um túnel interditado para carros no Centro, conhecida como Buraco da Minhoca, foram proibidas.

Primeiro, os moradores reclamaram, e a Polícia Militar interveio. Mas a Prefeitura deu seu aval, desde que fossem seguidas algumas regras. No entanto, em março, o Ministério Público determinou o fechamento do espaço com portões. Agora, coletivos fazem um abaixo assinado para que atividades culturais voltem a ser liberadas ali.

Com diferentes graus de sucesso – e receptividade -, estas ações de coletivos em espaços públicos vêm ocorrendo não só em São Paulo, mas em outras cidades brasileiras. Há o Grupo Poro, em Belo Horizonte, o OPAVIVARÁ!, no Rio, o Cidade Baixa Em Alta, em Porto Alegre, e o Salvador Meu Amor, na capital baiana.

Também é o caso de Recife, em Pernambuco, de onde veio o coletivo Praias do Capibaribe, criado em 2011, para participar dos eventos no Largo da Batata. Na semana seguinte, foi a vez do "Batata" ir para Recife para se juntar às ações promovidas pelo grupo de Recife às margens do rio Capibaribe.

"Desta forma, percebemos que nossa causa não é só local. Há os mesmos problemas em outras cidades também. Em Recife, tentamos revitalizar as margens do Capibaribe e, aqui em São Paulo, o mesmo poderia ser feito nos rios Tietê e Pinheiros, por exemplo", diz a arte-educadora Bruna Pedrosa, de 32 anos, uma das idealizadoras da iniciativa.

"Estar mais na rua é importante, porque reduz o medo, o preconceito, a violência. Tentamos fazer a nossa parte para melhorar a vida na cidade e incentivamos que outros façam o mesmo."

Rafael Barifouse da BBC Brasil em São Paulo.

 

 
Poucos sabem que o subsolo da metrópole São Paulo esconde mais de 300 rios, que foram enterrados e cobertos por concreto e asfalto. Para ajudar a população a “redescobri-los”, voluntários criaram o Projeto Cidade Azul
 

Por meio da iniciativa está sendo produzida uma série de audioguias, que auxiliam na localização dos cursos d'água ao longo dos bairros e acessados por meio de dispositivos móveis. Para iniciar as “expedições”, basta colocar os fones para ouvir as orientações e seguir o trajeto sinalizado por pinturas no chão. Caroline Ferrés, designer e uma das idealizadoras do Cidade Azul, explica o funcionamento do projeto: 

“Escolhemos alguns materiais simples, principalmente o audioguia que conta um pouco a história do rio e das pessoas que moram em volta, porque o rio está dentro da cidade e tem toda uma história de como ele foi enterrado e como que é a geografia do local. Então temos esse audioguia em que você pode fazer uma espécie de expedição para descobrir onde ele está (como se fosse uma caça ao tesouro) e tem essas pinturas que seriam esses pontos desse mapa da caça ao tesouro. Então quando você o azul de um bueiro pintado, um poste... é um descobrimento mesmo. Uma expedição de descobrimento do percurso que ele (o rio) está fazendo, porque ele está lá e só a gente não está vendo. A primeira coisa é que precisamos aprender a ver onde ele está. São pequenas dicas que você vai tomando consciência de que ele está ali”. 

A partir do “descobrimento” destes rios, a intenção é que a população se conscientize da importância da preservação da água: “A gente quer na verdade desenterrar os rios pelo menos na consciência das pessoas inicialmente para que todos nós saibamos que vivemos sobre a água. Então quando falamos que 'a gente não tem água' não é uma verdade. A gente tem água. Estamos pisando sobre a água, dormindo sobre a água, andando sobre a água, mas não temos essa consciência porque ela está enterrada. O governo está sempre tentando limpar os rios, até que que quando eu conheci o José e o Luiz do Rios e Ruas eles falaram assim: 'mas você não limpa um rio porque o rio é fluído. Ele sempre está sozinho. Se pararmos de sujar, ele ele vai se limpar, sempre vai ter água correndo'.

Então o que adianta falarmos de limpar rios? Vamos parar de sujar. Mas como vamos fazer isso? Quem é que suja o Rio Pinheiros ou o Rio Tiête? São esses rios que estão chegando neles. E por que eles estão chegando sujo? Porque estão escondidos, porque viraram esgoto e está tudo misturado. Então começamos a pensar que era preciso trabalhar a nascente. Você não trabalha a doença, trabalha a saúde. Essa é a lógica do Cidade Azul”. 

Segundo a idealizadora, o nome do projeto é uma referência a este pouco conhecido lado azul da cinzenta cidade de São Paulo: “Parece que quando falamos de natureza pensamos que não é na cidade. A natureza é lá longe e a cidade é só concreto. Isso não é verdade e nos influencia. Começamos a nos desconectar daquilo que é um pouco a nossa raiz. Água faz parte da nossa constituição. Isso desse ponto de vista mais sutil, mas tem também muito a questão do clima, o quanto o rio e a vegetação em volta melhoram o clima de uma cidade, o quanto a presença da água melhora a vida das pessoas, o bem-estar, a saúde... quando você pensa num rio que não está enterrado, consquentemente vai pensar num parque. Então está 'linkado' com vários aspectos de até saúde mental”. 

O projeto-piloto do audioguia do projeto Cidade Azul foi realizado no Rio Verde e já está disponível no site: www.cidadeazul.org

Ao longo do projeto, outros rios devem ser contemplados pela iniciativa. 

Fonte: Vacy Alvaro na Web Rádio Água.

 


Se você é, ou já foi, uma criança brasileira, provavelmente já deve ter ido a uma Transitolândia. São parques pensados para ensinar “educação no trânsito” para crianças, com mini-carros, geralmente coordenados por policias militares ou agentes de companhias de engenharia de tráfego. Eles reproduzem, em ambiente controlado, a cidade que temos, com um nome bastante sugestivo.

Na contramão dessa concepção automotiva e congestionada de rua, um jovem coletivo autogestionado paulistano já traz em seu batismo algo diferente: é o Apé – Estudos em Mobilidade, que toma emprestado a palavra ‘caminho’ em Tupi para marcar sua identidade. Formado por um grupo de jovens paulistanos – estudantes, arquitetos, engenheiros, jornalistas e sociólogos – estão há mais de três anos se reunindo, estudando e discutindo sobre educação e mobilidade na metrópole.

Surgido dentro da Universidade de São Paulo (USP), o Apé tem ganhado corpo e força ao longo de seus três anos. Suas características são familiares a diversos outros coletivos que têm proposto novos rumos para o ambiente urbano: horizontais, abertos e diversos. Quem quiser participar das reuniões, é só aparecer. As pautas dos grupos de estudos e planejamento são publicados na página deles no Facebook.

Aprendizado errante

Em uma mesa de um café em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, vão chegando mais e mais membros para a entrevista. As falas se sobrepõem e cada um vai dando sua opinião e impressão sobre o que significa atuar na cidade, o que é mobilidade e seu papel na educação. A composição do coletivo é fluída. No geral, são 15 integrantes, mas pela metodologia de livre-associação, seus componentes costumam variar. Recentemente, resolveram dar um salto e lançar o projeto “Exploradores da Rua”.

Inspirado na experiência suíça do Pédibus, um ônibus escolar caminhante, o Apé, em parceria com o Instituto Tomie Ohtake, está levando jovens de escolas públicas da capital para conhecer, aprender e explorar o ambiente urbano. “A cidade não inclui a criança no planejamento urbano. Ele é pensado de uma forma individualista, organizada, que fortalece a clausura dos condomínios em vez de pensar no público como um espaço a ser ocupado, com todos seus conflitos”, analisa a arquiteta Julia Anversa, do Apé.

A primeira experiência foi com crianças de 5 e 6 anos da Brasílio Machado, uma escola estadual em Pinheiros. Após uma conversa com a diretora e as professoras, fizeram reuniões com pais, professores e alunos, preparando a atividade. Numa delas, trouxeram a ideia de aventura para os estudantes, lembrando de cientistas, exploradores e exploradoras para ativar as curiosidades dos alunos.

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Mapa traça o trajeto pelas ruas de Pinheiros.

 

Até que, no dia escolhido, as crianças saíram em 3 grupos de 10 pessoas para ir da escola até o Instituto Tomie Ohtake, uma caminhada de 850m, aproveitando o caminho para realizar atividades educativas. “A nossa ideia é que isso continue sendo aproveitado pela escola, pelos pais, que seja uma metodologia que possa ser replicada”, projeta Mateus Andrade, um dos fundadores do Apé. Ao fim do percurso, cada criança foi incentivada a desenhar o que melhoraria no trajeto e a projetar um pouco a cidade em que gostaria de viver.

Cidadania sem medo

“As experiências de educação em mobilidade no geral buscam formar um cidadão obediente. A gente pensa em uma educação ativa e para a cidadania. Estar a pé, errar pela cidade fora do paradigma do motor é um jeito de formar o cidadão. Esperamos que isso desperte uma curiosidade permanente nos jovens para as milhares de possibilidades que se escondem em qualquer trajeto”, avalia Mateus.

Julia Reis e Maria Tuca Fanchin / Reprodução. 

 

A próxima aventura dos exploradores será durante uma caminhada entre um colégio na República e o Theatro Municipal de São Paulo. Mas eles já estão se articulando com diversos coletivos para fazer essa ideia crescer, apesar das resistências e dos medos.

“Em uma escola que fomos, a diretora não topou o projeto. A primeira reação quando se fala de colocar as crianças na rua é de medo”, relata Julia. Mas, a cada passo, os exploradores de olhares atentos podem mostrar que a cidade é um espaço a ser ocupado pela educação. E todos temos a ganhar com isso.

Pedro Ribeiro Nogueira no Portal Aprendiz.

 

 

Apesar de já ser usada por ciclistas, a Ciclovia sob o Minhocão ainda não foi inaugurada.  A inauguração oficial acontece no próximo dia 9 de agosto, neste domingo, Dia dos Pais. 

A estrutura foi instalada no canteiro central das Amaral Gurgel, São João e General Olímpio da Silveira e tem 3,5 quilômetros. No futuro, a via fará conexão com a futura ciclovia da Rua da Consolação, que ligará o Centro até a Avenida Paulista.

O plano é conectar a praça Roosevelt ao Memorial da América Latina, um percurso com cerca de 5 km que passa por terminal de ônibus, corredor e estações do metrô. A região já é bem servida de infraestrutura cicloviária –a nova ciclovia vai cruzar duas pistas existentes (nas ruas Albuquerque Lins e Sebastião Pereira) e há rotas paralelas na alameda Barros e rua Barra Funda.

 

Veja com vai ficar na ilustração abaixo.

 

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Fonte: Via Trolebus e Folha de S.Paulo.


Preservar os recursos naturais é um dos maiores e mais importantes desafios que as metrópoles de hoje enfrentam. Em nossa cidade, as áreas da natureza remanescentes estão constantemente ameaçadas - seja pela especulação imobiliária, por falta de ação do poder público, seja pela invasão de plantas estrangeiras.

A seguir, apresentamos uma perspectiva do cenário atual.

Em meio à preocupação com o baixo índice de água nos reservatórios da cidade - e de atenção mundial à possível escassez de outros recursos -, iniciamos uma pesquisa a fim de descobrir como anda a base natural de São Paulo. Além de benéfica à qualidade de vida, a convivência com áreas de natureza é vital ao ser humano, e a preservação da fauna e da flora nativas, essencial ao equilíbrio do meio ambiente. Mas a forma como nos organizamos hoje, aqui, aponta a direção oposta, e os problemas superam a mera falta de chuva. 

A vida num ecossistema pressupõe causas e consequências correlacionadas. Então, se no avanço da mancha urbana se fizeram constantes questões como a especulação imobiliária e o descumprimento às leis e aos projetos urbanísticos, estava ali o embrião de diversos dos atuais problemas: altos índices de impermeabilização do solo, contaminação de mananciais, escassez de trechos verdes, poluição do ar, doenças respiratórias e, claro, uma qualidade de vida ruim. "A mentalidade de que terrenos verdes estão disponíveis como uma reserva a ser usada para o que for necessário se faz bastante comum. Desde o começo do século 20, planos defendiam a criação de parques, mas nada era feito, e os lotes acabavam retalhados por avenidas e prédios", conta Vladimir Bartalini, docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). 

No centro, por exemplo, os perímetros estipulados para os parques Dom Pedro e Anhangabaú logo deram lugar a outras construções. E é justamente ali onde se chegou ao índice de 0,60 m² de cobertura vegetal por habitante (um dos mais baixos do mundo), enquanto o defendido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como ideal mínimo é de 12 m². 

Some-se aí o crescimento de bairros periféricos sem regulamentação que estipule a obrigação de pontos com cobertura natural, o que acentuou a desigualdade do verde. Ou seja, se em Pinheiros o índice de cobertura por habitante consiste em 22,50 m², em outros locais, como São Miguel Paulista e Itaim Paulista, é de apenas 3 m² e 2,10 m², respectivamente. "Por causa disso, a temperatura na metrópole chega a variar até 14 °C de região para região, o maior valor já registrado no planeta", revela a pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Magda Lombardo.

A Zona Sul, onde estão localizadas as Áreas de Proteção a Mananciais (APMs) das represas Billings e Guarapiranga, é considerada um dos maiores eixos de expansão da cidade nas últimas três décadas, com crescimento intensificado nos anos recentes. Segundo o levantamento da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), entre 1991 e 2000, enquanto o avanço urbano em pontos de parques e reservas florestais foi de 15,8%, o número chegou a 28,3% nas APMs. Os dados evidenciam a preocupante falta de conservação das zonas que armazenam nossos recursos hídricos. 

No caso da Billings, a margem leste tem predomínio de casas de alto padrão e chácaras, as ruas são pavimentadas, existem iluminação e coleta de lixo. No entanto, a margem oeste revela uma realidade oposta: os terrenos que beiram as águas estão tomados de favelas e domicílios precários, as ruas não são asfaltadas, há carência de infraestrutura, equipamentos públicos e saneamento, além de alta densidade populacional. Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), a represa recebe cerca de 400 toneladas de lixo por dia. Com capacidade quatro vezes maior do que a da Guarapiranga, ela teria potencial para abastecer toda a região metropolitana da cidade de São Paulo por um ano.

Mas esse mar de água-doce encravado no ABC está poluído, inutilizado e ignorado pelo poder público. 

Partindo para o extremo oposto do mapa, na Zona Norte, está em pauta outra questão ecológica, que envolve o Rodoanel e a Serra da Cantareira - perímetro com remanescentes da Mata Atlântica, considerada a maior floresta urbana do país. 

Diante dos inevitáveis danos causados por uma construção de tal porte, a pressão dos moradores e de ambientalistas fez com que as obras fossem paralisadas, e o trajeto, repensado mais de uma vez a fim de amenizar impactos. 

Engenheiros se associaram a pesquisadores de botânica para encontrar soluções, e ficou estipulado como compensação ambiental o plantio de 1,7 milhão de mudas de espécies nativas. Especialistas atentam à importância de fiscalizar essa medida. "É essencial, para reduzir o dano, que o plantio seja, ao menos, de espécies típicas da região. Não adianta trazer 5 mil pinheiros, pois os benefícios não são os mesmos", alerta o botânico Ricardo Cardim.

Um dos últimos remanescentes da Mata Atlântica nativa no centro de São Paulo também chama a atenção: desde 2013, a luta pela instalação do Parque Augusta no terreno de 25 mil m² ganhou força. Quando as incorporadoras Setin e Cyrela anunciaram a construção de um condomínio de alto padrão ali - seguindo o processo de verticalização da região, já absolutamente tomada de prédios -, movimentos sociais surgiram para reivindicar um parque público no local. 

O atual prefeito, Fernando Haddad, respondeu sancionando o projeto de lei que estabelece sua criação. Contudo, as empresas proprietárias do lote fecharam os portões e anunciaram o uso de 20% do espaço para levantar torres residenciais. "Na minha opinião, elas deveriam doar 100% dessa área a São Paulo, num gesto simbólico de compromisso com a qualidade de vida aqui. Afinal, o que vêm fazendo pela cidade? Estão privatizando os poucos trechos verdes que temos e transformando em condomínios de luxo", comenta o vereador Ricardo Young. 

Outro anúncio recente indica nova ameaça a uma área da Mata Atlântica localizada num respiro da tão impermeabilizada e pavimentada margem do Rio Pinheiros, vizinha do Parque Burle Marx, no Panamby. O local, com cerca de 5 mil árvores nativas, foi dividido entre as empresas Cyrela e Camargo Corrêa. Essa última reivindica, segundo a Associação de Moradores do Morumbi e da Vila Suzana (Samovi), pela segunda vez (a primeira foi negada), um alvará para construir no terreno. 

Por essas e outras, como podemos ajudar nossa cidade? Pedimos ao botânico Ricardo Cardim para apontar algumas espécies nativas que podem ser cultivadas em casa. Ao optar por plantas locais, e não estrangeiras - que já são a maioria por aqui -, você colabora com o equilíbrio ambiental. Entenda o porquê a seguir.

Números da Mata Atlântica em São Paulo.

18% é o que resta de Mata Atlântica no estado de São Paulo, com as maiores frações nas serras da Cantareira e do Mar. Abaixo, dados da desigualdade verde no estado, da comparação de áreas de vegetação e construídas, ilhas de calor...

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Luisa Cella para o Planeta Sustentável.