Caminhos - São Paulo São

São Paulo São Caminhos

A geóloga Eliane Del Lama deseja revelar ao visitante interessado em conhecer um pouco das origens de São Paulo algo além dos prédios e monumentos que retratam parte dos 461 anos da maior metrópole da América do Sul. Em parceria com outros quatro pesquisadores, ela elaborou um roteiro do centro antigo da cidade no qual chama a atenção para os tipos de rochas mais usados na construção e na ornamentação de edifícios e obras de arte que integram o que Eliane chama de patrimônio geológico construído paulistano.

Seu objetivo, ao contar um pouco da história de materiais que ajudaram a fazer a história de São Paulo, é mostrar que a geologia está mais próxima do cotidiano das pessoas do que elas imaginam. “Em geral se associa a geologia à prospecção de petróleo e de minérios, mas o trabalho do geólogo vai muito além”, diz ela, que é professora do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP).

O roteiro geoturístico do centro antigo de São Paulo elaborado por Eliane e seus colaboradores foi publicado em junho na revista Geoheritage. Ele indica 19 pontos de visitação ao longo de 6,5 quilômetros, que podem ser percorridos a pé ou acessados de metrô. São construções e monumentos produzidos principalmente no final do século XIX e começo do XX, quando São Paulo, erguida à base de taipa de pilão (barro amassado sustentado por madeira), deu espaço à cidade de alvenaria, embrião da metrópole. “Selecionamos os prédios e monumentos bem conhecidos que incluíam a maior diversidade de pedras”, conta Eliane.

O passeio começa pelo Pátio do Colégio, o ponto de origem da cidade de São Paulo. Foi ali, em uma colina alta e plana, cercada pelo rio Tamanduateí e pelo riacho Anhangabaú, que os padres jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta instalaram em 1554 a sede do Colégio São Paulo de Piratininga com o consentimento do cacique Tibiriçá, chefe dos índios guaianases que viviam na região. Praticamente nada sobrou do primeiro barracão, feito em taipa de pilão e substituído um século mais tarde por uma construção em estilo colonial, destruída após a expulsão dos jesuítas do Brasil em 1759.

Quem anda hoje por ali encontra uma réplica do antigo colégio, construída em alvenaria entre 1954 e 1979. Da época dos jesuítas, restou uma parede interna de taipa de pilão, o mesmo material usado para erguer, ali na vizinhança, a casa nº 1 e o solar da Marquesa de Santos, ocupado entre 1834 e 1867 por dona Domitila de Castro Canto e Melo, amante do imperador Pedro I.

O embasamento do solar foi erguido com blocos de uma rocha granítica cinza-claro, conhecida como granito Itaquera, extraído de uma pedreira que funcionou por mais de um século no bairro de Itaquera, na zona leste de São Paulo. O acesso fácil a essa rocha – antes as rochas ornamentais eram importadas – possibilitou seu uso em diversas construções do centro histórico. A obra mais antiga da cidade esculpida em granito Itaquera é o Obelisco da Memória, de 1814. Também conhecido como Pirâmide do Piques, está ao lado da estação Anhangabaú do metrô, por onde passam diariamente milhares de pessoas sem notá-lo. Foi projetado pelo engenheiro Daniel Müller e construído pelo mestre Vicente Pereira. Ficava além do ribeirão Anhangabaú, no limite da cidade, de onde partia a estrada projetada por Müller para ligar a capital ao interior.

O cinza-São Paulo

Mosteiro de São Bento: fachada atual, de 1922, mistura granito cinza Itaquera e rosa Itupeva. Foto: Expedia.Mosteiro de São Bento: fachada atual, de 1922, mistura granito cinza Itaquera e rosa Itupeva. Foto: Expedia.Na vizinhança do Pátio do Colégio, um dos dois prédios da Secretaria Estadual da Justiça e Defesa da Cidadania, projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo e inaugurado em 1896, foi erguido sobre uma base de granito Itaquera. “Esse granito construiu a São Paulo do início do século XX”, conta Eliane. Os tons claros dessa rocha não são os únicos que podem ser observados por ali.

Todo o calçamento da praça usa um granito mais escuro, o cinza Mauá, oriundo de Mauá e Ribeirão Pires, municípios da Região Metropolitana de São Paulo. As paredes do prédio do Tribunal da Alçada Civil, na frente do Pátio do Colégio, exibem os matizes róseos característicos do granito rosa Itupeva. Possivelmente essa é a mesma rocha observada na fachada do Centro Cultural Banco do Brasil, uma construção de fins da década de 1920 que associa os estilos neoclássico e art-nouveau, na segunda parada do roteiro.

Detalhe do prédio neoclássico do Tribunal de Alçada Civil. Foto: Tuca Vieira / Folha Imagem.Detalhe do prédio neoclássico do Tribunal de Alçada Civil. Foto: Tuca Vieira / Folha Imagem.
O passeio atravessa o centro histórico, um triângulo delimitado pelas ruas Boa Vista, Líbero Badaró e pela praça João Mendes, e se estende a nordeste até o Mercado Municipal, erguido sobre uma base de granito rosa Itupeva, e a noroeste até o Largo do Paissandu, onde fica o Monumento à Mãe Preta, uma obra de 1955 em homenagem aos negros cuja base, de granito, foi pintada e está coberta de pichações. 

O roteiro conduz de volta ao centro passando pela Biblioteca Mário de Andrade, ornada com granito cinza Mauá; pelo Teatro Municipal, erguido sobre uma base de granito Itaquera e com fachada coberta de placas de arenito Itararé, extraído da região de Iperó; e pela sede da prefeitura, no Edifício Matarazzo, ornamentado com travertino, uma rocha calcária importada da Itália. O ponto final é a Praça da Sé, onde estão a catedral em estilo neogótico, que ostenta diferentes tipos de granito, e o marco zero da cidade, esculpido em mármore em 1934 pelo artista francês Jean Gabriel Villin.

No centro de uma rosa dos ventos, um bloco hexagonal de mármore extraído de uma jazida do município de Cachoeira Paulista. Foto: Bianca Giglio.No centro de uma rosa dos ventos, um bloco hexagonal de mármore extraído de uma jazida do município de Cachoeira Paulista. Foto: Bianca Giglio.Granitos de diferentes regiões do estado são as rochas observadas com mais frequência em edifícios, monumentos e estátuas do passeio. Suas cores variam do negro e tons de cinza ao verde-escuro e os matizes róseos e avermelhados. Todos têm composição mineralógica semelhante: são formados por cristais de quartzo, mica, feldspato e outros minerais em concentrações muito baixas – é o feldspato que determina a variação de cor. Os granitos de São Paulo formaram-se entre 600 milhões e 580 milhões de anos atrás por movimentos da crosta ocorridos a mais de 35 quilômetros abaixo da superfície, sob temperaturas elevadas e pressões 6 mil vezes superior à da atmosfera, e constituem as cadeias de montanhas do sudeste brasileiro. Essas rochas podem ser observadas em muitos pontos do estado, como na província granítica de Itu – uma faixa de 60 quilômetros por 350 quilômetros no interior paulista –, de onde são extraídos os granitos Itupeva, Capão Bonito e Piracaia.

O roteiro que Eliane produziu com Denise Bacci, Lucelene Martins, Maria Motta Garcia, da USP, e Lauro Dehira, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT), não é o primeiro. Em 2006 André Stern e colegas da USP e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) haviam sugerido um passeio pelas ruas do centro velho paulistano, com um número menor de pontos turísticos. Quase inexistentes no Brasil, esses roteiros são uma releitura das caminhadas geológicas formuladas para Londres nos anos 1980 pelo geólogo Eric Robinson.

Antes de São Paulo, havia roteiros propostos para Curitiba e Rio de Janeiro. No caso de Eliane, a produção do roteiro é um desdobramento de uma mudança de rumo em suas pesquisas. Especializada em analisar a composição química e a evolução geológica de rochas formadas em regiões profundas da crosta, ela decidiu fazer “algo diferente” depois de ser contratada como docente da USP, em 2004. Em um período que passou sem os equipamentos para análises mineralógicas, saiu pelo centro da cidade e passou a registrar imagens dos monumentos históricos e a avaliar seu estado de conservação.

Essa atividade, de início despretenciosa, levou-a a realizar análises mais profundas da saúde de obras que integram o imaginário paulistano – a mais conhecida é o Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera. Esse trabalho a fez concluir que é necessário divulgar a geologia para a população e, assim, tentar reduzir o vandalismo contra os monumentos da capital. “O melhor jeito de conservá-los”, afirma Eliane, “é ensinar as pessoas a gostarem deles, porque só se preserva o que se conhece”.

Projeto

A mineralogia aplicada ao estudo da herança cultural (nº 2009/02519-8); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Eliane Aparecida Del Lama (IGc-USP).

Artigo científico

DEL LAMA, E.A. et al. Urban geotourism and the old centre of São Paulo City, Brazil. Geoheritage. v. 7, n. 2, p. 147-64. Jun. 2015.

***
Fonte: Revista da FAPESP.

O Bixiga, bairro central da cidade de São Paulo, nem sempre foi das tarantelas, mesas quadriculadas em branco e vermelho ou cheiro de molho de tomate. No período da República, de 1890 até 1950, fervilhavam em suas ladeiras jornais e associações de imprensa negra, como o Clarim D’Alvorada, que lutava fortemente pela defesa da cidadania e identidade negra. Esse território é hoje reconhecido como italiano porque a história da população negra que o ocupou e ainda ocupa sofreu sistemáticos apagamentos.

Recuperar a história desse e de outros bairros negros na capital paulista foi a empreitada do projeto Itinerários da Experiência Negra, do Coletivo Crônicas Urbanas. Contemplado pelo edital Redes e Ruas em 2016, o coletivo formado pela jornalista Fernanda Fragoso Zanelli e pelos historiadores Fábio Dantas Rochas, Lilian Arantes e Fernando Mafra pesquisa o direito à cidade sob a perspectiva racial.

“Pensamos a cidade construída por seus sujeitos. Por mais que você tenha uma cidade que expulse progressiva e historicamente os negros do seu âmago, queríamos mostrar a força da resistência que aconteceu e que ainda acontece no centro de São Paulo”, relata Fábio Dantas.

Mais do que cartografar a São Paulo negra, o coletivo também tinha o desejo de conectá-la a uma juventude periférica que busca se reconhecer enquanto ocupante de territórios que lhes foram negados. Para fazê-lo, eles desenvolveram dois mapeamentos. Um é o histórico: redescobrir a cidade negra e retomar bairros embranquecidos. O outro é contemporâneo: mapear os aparelhos de resistência da periferia da Zona Oeste de São Paulo, articulando-os principalmente por meio do ativismo jovem. Por fim, utilizar o conhecimento cartografado e disseminá-lo em formações com universidades e a rede pública de educação.

O resultado desse mapeamento está na publicação Guia dos Itinerários da Experiência Negra: Um Passeio Histórico por São Paulo e também no website do projeto.

Cartas sobre a experiência negra contemporânea. Imagem: Reprodução.Cartas sobre a experiência negra contemporânea. Imagem: Reprodução.
Os bairros negros de São Paulo: Bixiga e Liberdade

Muito antes de ganhar lâmpadas orientais, a Praça da Liberdade era chamada de Largo da Forca. Ali foram condenados, mortos e enterrados homens e mulheres escravizados que lutaram por sua independência. A Igreja da Nossa Senhora dos Aflitos, construção hoje escondida entre depósitos e padarias da travessa Rua dos Estudantes, está erguida sobre ossos dos resistentes e é o único vestígio físico de sua existência.

“As pessoas se esquecem que houve escravidão em São Paulo”, explica Dantas. “E pouco sabem que houve aqueles que lutaram fortemente contra ela, criando assim territórios de resistência e memória. A Praça da Forca é um deles”. Em 1821, foi o grito por liberdade do soldado negro condenado à forca Francisco José das Chagas uma das possíveis razões do nome atual do bairro.

No período pós-abolição, que tem seu início em 1888, a população negra vivia em casas e cortiços no centro da cidade; era naquela região que homens e mulheres sem acesso a direitos básicos como moradia conseguiam trabalho. Segundo a historiadora Cláudia Rosalina Adão no livro A Luta Contra o Racismo do Brasil, tanto a vinda de operários imigrantes como também os chamados trabalhos de melhoramentos da cidade – políticas de Estado para embranquecer e europeizar o centro – empurraram a comunidade pobre e também a negra para as periferias da cidade. “O negro não nasce nas periferias. É um processo de gentrificação que desloca as populações para os arredores da cidade.”

Conversa dentro da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no largo do Paissandú, São Paulo. Foto: ReproduçãoConversa dentro da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no largo do Paissandú, São Paulo. Foto: Reprodução

Foi justamente para entender como a população negra resistiu no centro do período de 1890 até 1950 que o coletivo Crônicas Urbanas pesquisou arquivos oficiais, como registros do 2º Tabelião de Notas, e acessou memórias de importantes militantes e ativistas do movimento negro, como José Corrêa Leite. Não foi um trabalho simples, como relata Fernanda: “Não é uma simples ida até um endereço ou a lida de uma biografia. Tivemos que cruzar fontes, porque não queríamos falar somente da militância, como da comunidade que lutava, dançava, sorria e morava.”

A historiadora Lilian complementa: “Muito do conhecimento sobre a história negra parte da memória, já que não houve uma documentação apropriada sobre seus tantos êxodos. E a memória é falha, muito transformada por aspirações e momentos políticos. Então foi um trabalho de costura entre relatos e documentos oficiais”.

A arquitetura antiga que sobrevive em concreto na região central é a materialização das conquistas do processo de gentrificação e apagamento empreendido pelo Estado pós-abolicionista. “Um exemplo disso é própria Igreja dos Aflitos. Erguida sobre os corpos de pessoas escravizadas, hoje ela contém uma placa proibindo o uso de velas coloridas, indumentária religiosa poderosa para as religiões afro-brasileiras”, relata Lilian.

Ao mapeamento de pontos como os jornais A Pátria – Órgão dos Homens de Côr ou locais como o Largo da Memória – Obelisco dos Piques, também se somam organizações que atuam até hoje no centro, herdeiras dos movimentos de resistência, como a Casa Mestre Ananias, espaço de resguardo da cultura negra, onde se pode aprender sobre samba e capoeira. São Paulo é uma cidade negra na manutenção de mais de 200 anos de aparelhos de presença e memória afro-brasileira, e a cartografia revela essa riqueza racial.

Mapear é resistir

A segunda parte da experiência do Itinerários dá um salto temporal e se debruça no contemporâneo dos movimentos sociais negros. Como seria impossível mapear todos os coletivos e organizações de São Paulo que trabalham a temática racial, o Crônicas optou por olhar para a região periférica da zona oeste, em especial o distrito de Raposo Tavares.

Expedição pelo centro de São Paulo. Foto: Bruno Gusmão.Expedição pelo centro de São Paulo. Foto: Bruno Gusmão.A escolha foi intencional: Fernanda passou grande parte de sua infância na região, e sabe o quanto o jovem tem dificuldade de se orgulhar e se reconhecer como morador de bairros como João XXIII. Como explica ela em sua pesquisa Novos Fluxos na Busca por Oportunidades: Trajetórias de Jovens nas Periferias das Cidades, publicada pelo Instituto Itaú e Instituto Braudel: “Enquanto na Wikipédia, por exemplo, há uma detalhada cronologia da história de Capão Redondo, os bairros do distrito Raposo Tavares, como Jardim Arpoador, nem sequer têm uma página na rede colaborativa”.

Para Isabela, “coletivos da periferia da zona oeste não existem no cenário de outros coletivos. Zona sul tem o rap, zona Leste tem sua identidade, e nossa quebrada sofreu um apagamento muito forte, principalmente por estarmos cercados por uma região nobre. Então ficamos muito contentes quando o Crônicas Urbanas se propôs a mapear nossa região”.

O coletivo do qual ela participa ao lado de Georgia Prado, Vinicius Torres e De Queiroz foi fundado para atuar no Jardim João XXIII, refletindo sobre a questão racial por meio de atividades culturais e políticas. Ele foi um dos 94 aparelhos mapeados pelo Crônicas Urbanas. Temáticas raciais e de ocupação da cidade foram os denominadores comuns entre os grupos, instituições e equipamentos cartografados.

Desvelar a São Paulo negra

No dia 23 de setembro de 2017, 10 jovens das 94 organizações foram convidados a participar de uma expedição pelo itinerário negro de São Paulo. Ainda que não tenham conseguido visitar todas as localidades, foi possível começar desconstruir a noção de que bairros como a Liberdade é somente de imigrantes. São bairros com múltiplas identidades, incluindo a forte presença negra.

Os 10 jovens participantes do guia de Itinerários da Experiência Negra. Foto: Reprodução.Os 10 jovens participantes do guia de Itinerários da Experiência Negra. Foto: Reprodução.

Ter um mapa em mãos e caminhar por uma cidade descoberta é ver a memória tomar forma e senti-la debaixo dos pés. “A memória é onde a matriz africana compartilha suas histórias e lutas. É onde residimos, porque não estamos institucionalizados, não estamos registrados. Então foi demais conhecer o centro por meio desse mapa da resistência”, detalha Isabela. “É emocionante recuperar os símbolos do Vale do Anhangabaú, me deparar com a estátua de Zumbi dos Palmares (localizada na Praça Antônio Prado). A pesquisa científica é importante, porque a nós negros sempre foi negado o campo de produção de conhecimento”.

Após a visitação, o coletivo propôs aos dez jovens que produzissem conhecimento a partir da experiência. “Fizemos uma brincadeira de cápsula do tempo. Pedimos que eles se portassem como pesquisadores do futuro estudando o momento atual e fizessem um retrato sensível do que é ser negro agora”, conta Fernanda. Os resultados, que variaram desde fanzines até vídeos, foram apresentados no CEU Uirapuru, dia 30 de setembro.

O Quilombo XXIII criou um vídeo sensível e forte ao som de batuques, misturando personagens históricos como as amas de leite à violência racial presente cotidianamente nas periferias. “Hoje existe uma ocupação da cultura negra muito forte no centro, a partir de festas ou coletivos, como a Sarrada no Brejo ou Aparelha Luzia. “Nós do Quilombo XXIII queremos ocupar o centro, mas antes queremos trabalhar a identidade na periferia – e isso ficou ainda mais claro no processo com o Crônicas Urbanas. Somos o Palmares do futuro: primeiros nos fortalecemos no nosso polo, para depois atacar o centro, como o Zumbi fazia”, planeja Isabela.

Formações: disseminar a São Paulo negra

cronicas urbanascronicas urbanasHoje com site e publicação lançados, o Crônicas Urbanas tem uma preocupação: dar cor aos sujeitos para criar referências de vitória e resistência em ambientes de formação. “Uma das funções políticas do nosso estudo é que alunos negros percebam que há muito mais referencial do que simplesmente a escravidão. Temos que debater a resistência, movimentos culturais, os jornais pós-abolicionista e associações que existiram no período da República”, aponta Dantas. As formações estão acontecendo em universidades em São Paulo, tanto para acadêmicos quanto para professores da rede pública.

Um dos relatos que comoveu Fernanda foi a de uma jovem militante negra que, tendo vindo de Salvador, tinha dificuldade de reconhecer na capital paulista um lar. “Para ela foi importante circular por uma São Paulo negra e se reconhecer nos depoimentos de militantes e nos sítios geográficos que eles ocuparam. Após o passeio, ela falou: ‘Eu descobri uma São Paulo negra bem debaixo do meu nariz”.

Já para Isabela, a disseminação do conhecimento produzido tanto pelo passeio quanto nas formações é a prova de que a história e memória negra se fortalecem no compartilhamento de informações. Hoje com o mapa nas mãos, ela consegue retirar a grossa camada de apagamento a que foram submetidas às populações negras na capital paulista e no resto do Brasil, reconhecendo a história de seus antepassados. “Quem sabe minha tataravó não dançou nos bailes Black, quem sabe um primo de meu avô não datilografou em máquina de escrever a narrativa negra da minha cidade?”

Conheça a Casa de Cultura Fazenda Roseira – uma comunidade cultural negra urbana

***
Por Cecília Garcia. *Artigo publicado originalmente no Cidades Educadoras do Portal Aprendiz.

Em muitos casos o que falta para as pessoas passarem a usar o transporte coletivo é só dar o primeiro passo. Ou melhor: encontrar uma solução para dar os últimos passos até a estação ou ponto de ônibus, a chamada last mile, o primeiro ou último trecho do deslocamento casa-trabalho. Mundialmente se considera adequado caminhar até um quilômetro para chegar a uma estação de transporte. Quantas pessoas podem afirmar que estão a essa distância? Em compensação, se caminhar não é uma opção, pedalar pode ser.

Assim como o transporte a pé, usar a bicicleta como meio de transporte diário tem suas limitações. No Brasil, o incentivo ao pedalar ainda é tímido tanto por parte do poder público quanto da iniciativa privada. No entanto, os óbvios benefícios econômicos, ambientais e as vantagens para a saúde da população deverão, aos poucos, justificar mais investimentos no futuro.

As cidades precisam ser cada vez mais saudáveis enquanto a mobilidade precisa ser progressivamente eficiente. Unir a bicicleta com o transporte coletivo pode ser a melhor combinação de todas. Ganham-se tempo e praticidade com o pedalar e mais pessoas conseguem chegar até ônibus, trem, BRT, VLT, metrô etc.

Um estudo realizado pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil) e pelo WRI Brasil criou um indicador que mede o desempenho da rede de transporte coletivo das cidades. O indicador PNT (sigla para o termo em inglês People Near Transit) concluiu que, em São Paulo, a cidade com maior densidade populacional do país, apenas 25% das pessoas vivem a até um quilômetro de estações de transporte de média e alta capacidade. Por outro lado, esse número sobe para 74% quando o raio é ampliado para três quilômetros, uma distância razoável para uma pessoa que se desloca de bicicleta. Se implementadas as metas previstas no Plano Diretor Estratégico e no Programa de Corredores Metropolitano da cidade, esse índice subirá para 97% em 2025.

Mas por que isso ainda não ocorre tão comumente e o que pode ser feito para que se torne uma prática diária? Uma pesquisa na cidade de Atlanta categorizou três tipos de pessoas que estariam dispostas a pedalar até o transporte coletivo e quais são as ações prioritárias para que elas adotem essa prática:

Pessoas que idealmente preferem caminhar até a estação, mas a distância é muito grande. Esses usuários podem ser interessados, mas se preocupam com as condições para o pedalar, especialmente quando não contam com uma ciclovia em uma via de fluxo intenso de veículos. A prioridade seria, então, a implantação de faixas dedicadas à bicicleta que conectassem à estação de transporte.

Pessoas que idealmente preferem pedalar todo o percurso, mas as distâncias são muito longas, o percurso muito acidentado ou as condições meteorológicas não estão propícias. Para esse grupo não falta interesse ou confiança para pedalar, mas se preocupam com o local para guardar as bicicletas. Para eles, a prioridade é a instalação de locais para estacionar as bikes com segurança nas estações de transporte.

Pessoas que idealmente preferem dirigir, mas dependem do transporte coletivo para acessar lugares que precisam ir diariamente. O transporte coletivo e/ou a bicicleta não seriam a primeira escolha desse grupo, mas os utilizam porque a distância pode ser muito grande para caminhar, podem ser menores de idade sem permissão para dirigir ou porque a compra de um veículo particular não é economicamente viável. A prioridade para esse grupo deve ser oferecer uma infraestrutura segura para o pedalar e conexões eficientes com o transporte coletivo.

A segurança para pedalar

Para todas as pessoas que se deslocam diariamente, a qualificação do acesso ao transporte é um quesito básico para a satisfação e para a segurança. A instituição da Política Nacional de Mobilidade Urbana faz com que muitas cidades brasileiras trabalhem para aumentar a extensão de seus sistemas de transporte coletivo de média e alta capacidade. Essa expansão deve necessariamente ser acompanhada pela habilitação do entorno das estações para que elas atraiam novos usuários.

Diretrizes para priorizar o transporte ativo no planejamento e projeto da área do entorno e acesso à estação.Diretrizes para priorizar o transporte ativo no planejamento e projeto da área do entorno e acesso à estação.Produzido pelo WRI Brasil, o guia “Acessos Seguros – Diretrizes para qualificação do acesso às estações de transporte coletivo” apresenta cinco princípios para o desenvolvimento de projetos de qualificação urbana, sendo um deles a prioridade para pedestres e ciclistas. Para melhor integrar a bicicleta com os outros meios de transporte diários, o guia sugere três ações:

  • dimensionar a infraestrutura cicloviária para ser segura;
  • considerar esquemas de compartilhamento público de bicicletas entre os principais destinos e a estação;
  • implantar áreas adequadas de estacionamento para bicicletas.

Além desses três pontos, diferentes aspectos também contribuem para a qualificação das rotas do transporte ativo. São características como:
continuidade das rotas para evitar desvios até o destino final;

  • qualidade da superfície nas rotas levando em conta a drenagem de águas pluviais;
  • cuidar do papel estético do trajeto ao instalar mobiliário urbano, vegetação e iluminação – a vitalidade do ambiente irá influenciar positivamente nas rotas e na disposição das pessoas para utilizar o trajeto;
  • informar as distâncias a pé ou de bicicleta até os principais atrativos ou pontos de interesse em um raio próximo à estação de transporte,

O projeto em Atlanta formulou uma lista de perguntas para auxiliar a avaliar se o entorno de uma estação de transporte se adéqua ao uso da bicicleta. A listagem pode ser usada em processos de planejamento liderados por agências de transporte e/ou cidades que tenham interesse em facilitar os deslocamentos bicicleta-transporte coletivo. Conheça: 

Lista formulada pelo Alta Planning and Design e adaptada para o português.Lista formulada pelo Alta Planning and Design e adaptada para o português.

***
Por Paula Tanscheit no The City Fix Brasil.

O mosaico que ainda hoje decora as ruas da capital e virou até papel de parede no nosso site é de autoria da paulista Mirthes dos Santos Pinto. Nascida em Barretos, a artista trabalhava na Secretaria de Obras da Prefeitura de São Paulo, em 1966, quando soube do concurso promovido durante a gestão do prefeito Faria Lima (1965-69), com o objetivo de escolher um padrão de piso para a cidade, a exemplo das ondas de Copacabana.

Mirthes ficou surpresa ao descobrir que seu trabalho estava entre os finalistas, já que havia um forte concorrente ao título: o desenho de grãos de café, que em sua visão era o grande favorito, pois se tratava tradicionalmente do maior símbolo local.

A escolha do vencedor foi feita democraticamente via votação popular, após a exibição dos desenhos dos quatro finalistas em ladrilhos da Av. Consolação. O projeto vitorioso, implementado primeiramente na Av. Faria Lima, depois na Av. Amaral Gurgel, e na mais famosa esquina de São Paulo, Av. Ipiranga com a Av. São João, ainda hoje pode ser visto em frente ao tradicional Bar Brahma. 

O padrão de ladrilhos passou a ser produzido por diversos fabricantes e começou a conquistar as calçadas de outras lojas e casas. Até o final da década de 70, ele já era a grande tendência na paisagem urbana e se tornaria um ícone da cidade, presente até os dias atuais na maior parte das ruas.

Mirthes Bernardes. Foto: Eduardo Anizelli / Folhapress.Mirthes Bernardes. Foto: Eduardo Anizelli / Folhapress.

Sua base é relativamente simples: quatro peças quadradas (a primeira branca, uma outra preta e as duas últimas brancas e pretas com uma divisão diagonal) que, repetidas em série, sugerem um padrão de repetição infinito.

Fabricada em ladrilho hidráulico, a calçada é de fácil produção e instalação, e acabou afirmando-se como uma identidade paulistana. O mais interessante é perceber que ele deixou de ser só um piso e transformou-se em um padrão gráfico, que passou a ser aplicado nos mais diversos estilos, desde produtos até locais turísticos.

***
Por Sabrina Sasaki para o São Paulo City.

No sexto andar do histórico Edifício Martinelli, no centro de São Paulo, dois funcionários de meia-idade cuidam das prateleiras empoeiradas e abarrotadas de papéis do arquivo da SPUrbanismo - a empresa pública de promoção de ações de planejamento e desenvolvimento urbano.

No cubículo jazem calhamaços de imagens, plantas e textos descrevendo a cidade que poderia ter sido – projetos de arquitetura e urbanismo encomendados, aprovados e até pagos por sucessivas administrações municipais, mas que nunca saíram do papel.

Os planos arquivados na repartição datam desde a década de 1970, quando foi criada a Emurb (antiga empresa de urbanismo que foi substituída pela SPUrbanismo).

Há desde visões recentes de uma cidade mais arborizada e com transporte mais eficiente a sonhos modernistas criados por nomes como Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas, passando por projetos de metrópole ainda mais voltados para o trânsito de carros, da época do prefeito Faria Lima (1965-1969).

"São Paulo se fez em função de obras ousadas, projetos importantes e transformadores. Foram grandes obras não do ponto de vista de monumentos e edifícios, mas o sentido de terem estruturado a cidade", explica o urbanista Valter Caldana, professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie. "Mas da 1990 para cá, São Paulo foi esfriando seu ímpeto progressista. A cidade deixou de ousar e foi ficando à mercê de seus próprios problemas."

Segundo ele, durante 80 anos a cidade usou o mesmo modelo para crescer – o de avenidas concêntricas, cujo melhor expoente é o Plano de Avenidas elaborado por Prestes Maia em 1930. Embora tratasse de vários aspectos urbanos, era focado na construção de avenidas monumentais, um conjuntos de radiais e perimetrais que tornou a cidade mais dispersa e o tráfego mais dependente do carro.

"O problema é que esse modelo entrou em colapso e passou a ser preciso encontrar um novo modelo, o que nunca foi feito", afirma Caldana.

Tesouro enterrado

Imagem da capa do Plano de Avenidas, de Prestes Maia. Imagem Acervo: SPUrbanismo.Imagem da capa do Plano de Avenidas, de Prestes Maia. Imagem Acervo: SPUrbanismo.

Entre os projetos arquivados há encomendas de praticamente todos os prefeitos - de Jânio Quadros a Gilberto Kassab, de Luiza Erundina a Fernando Haddad.

Jânio Quadros (1986 - 1988) encomendou o projeto desenvolvido por Oscar Niemeyer e Ruy Ohtake de reurbanização da margem do Rio Tietê, com a criação de uma área verde alagável ao redor do rio e a construção de um Centro Cívico para ser a sede da prefeitura - o arquivo da SPUrbanismo, no entanto, não guarda as plantas do projeto.

O arquivo também abriga o plano de criar um bairro novo na região da Água Branca, pedido pela prefeitura na gestão de Marta Suplicy (2001-2004) e desenhado por arquitetos como Guilherme Wisnik, da Faculdade de Arquitetura da USP. A ideia era ter novas estações na linha de trem existente, equipamentos e espaços públicos, unidades de habitação social e uma "praça de água" com fontes e tanques que aproveitariam o afloramento do lençol freático.

"Muitos desses planos já incluiam questões que hoje são altamente deficitárias na cidade, como edifícios de uso misto [residencial e comercial], habitação social e sistemas de transporte de alta capacidade", explica Valter Caldana.

Para a professora Nadia Somekh, que foi presidente da Emurb e do Conpresp (órgão de patrimônio municipal), o problema é que obras de longo prazo muitas vezes acabam sendo descontinuadas pelos governos seguintes.

E a falta de continuidade não é apenas resultado da tradicional alternância de governos de partidos rivais, segundo Valter Caldana. "É só olhar para a Lei Cidade Limpa, que é um projeto do Kassab e foi enfraquecida pelo [João] Doria, do mesmo grupo político", afirma.

Pensados para o longo prazo, muitos desses projetos já estariam prontos se sua implantação tivesse começado na época do seu planejamento.

Com base nas descrições e nas referências de imagens contidas nos documentos, a BBC Brasil fez uma perspectiva artística de como partes da cidade poderiam ser hoje se os projetos tivessem saído do papel.

1. Um parque de 2,7 km no lugar do Minhocão

Viaduto João Goulart, o “Minhocão“ na década de 1970 logo depois de sua inauguração. Foto: São Paulo Antiga.Viaduto João Goulart, o “Minhocão“ na década de 1970 logo depois de sua inauguração. Foto: São Paulo Antiga.

Perspectíva artística de como seria hoje o minhocão se o projeto de requalificação tivesse saído do papel. Ilustração: Coletivo oitentaedois.Perspectíva artística de como seria hoje o minhocão se o projeto de requalificação tivesse saído do papel. Ilustração: Coletivo oitentaedois.

No lugar do viaduto de concreto que rasga a cidade no meio, São Paulo poderia ter um longo parque arborizado, com galerias de arte e lojas nas laterais.

E nem seria preciso interromper o fluxo de 80 mil carros que passam por ali diariamente: o local seria mantido como uma espécie de túnel elevado, com o parque sendo construído em cima e as laterais fechadas para abafar o barulho.

O projeto de requalificação é do escritórios Frentes, que foi o vencedor do concurso promovido pela gestão de José Serra em 2006 para buscar ideias para o viaduto.

O plano – um dos muitos que foram considerados pela prefeitura ao longo dos anos para o lugar – era de que o parque tivesse playgrounds para crianças, pista de skate, ciclovia, espaço para apresentações e exposições ao ar livre e postos policiais. A entrada seria feita por edifícios de acesso, que poderiam abrigar também cinemas, teatros, restaurantes, bibliotecas e shoppings. Nunca saiu do papel.

O Plano Diretor aprovado em 2014, durante a gestão de Fernando Haddad (2010-2014), tornou obrigatório que o elevado seja demolido ou transformado em parque suspenso.

2. Hidrovias urbanas: barcos no lugar de carros e caminhões

O projeto de hidrovias urbanas seria implementado ao longo de 38 anos. Ilustração do Coletivo oitentaedois, com base na perspectiva artística de Bhakta Krpa para a pesquisa de mestrado de Eloísa Ikeda.O projeto de hidrovias urbanas seria implementado ao longo de 38 anos. Ilustração do Coletivo oitentaedois, com base na perspectiva artística de Bhakta Krpa para a pesquisa de mestrado de Eloísa Ikeda.

Projeto de hidroanel teve até estudo de pré-viabilidade técnica, econômica e ambiental licitado pelo governo. Foto: Marcos Santos / USP Imagens.Projeto de hidroanel teve até estudo de pré-viabilidade técnica, econômica e ambiental licitado pelo governo. Foto: Marcos Santos / USP Imagens.

Um dos projetos mais ambiciosos para a metrópole é de construção de um hidroanel que aproveitasse todo o potencial dos rios da cidade para transporte de cargas e passageiros, para uso turístico e de lazer.

Imaginar embarcações cheias de produtos e pessoas pelos rios Tietê e Pinheiros pode parecer surreal para quem vê o estado das águas na cidade, mas o projeto não tem nada de ficção ou fantasia: tem até um estudo de pré-viabilidade técnica, econômica e ambiental licitado pelo Governo do Estado de São Paulo em 2009.

Organizado pelo Grupo Metrópole Fluvial, sob coordenação do arquiteto e urbanista Alexandre Delijaicov, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o projeto tinha até um cronograma de implantação – começaria em 2012 e duraria cerca de 38 anos, até 2040.

"Parece muito tempo, mas você já parou para pensar que os projetos pensados nos anos 1970, se tivessem sido levados para a frente, hoje já estariam prontos?", diz o professor Valter Caldana.

O hidroanel compreenderia uma rede de hidrovias navegáveis de 170 km. Seria composto pelos rios Tietê e Pinheiros e pelas represas Billings e Taiaçupeba, além de um canal artificial ligando as duas.

Haveriam portos ao longo das margens e o transporte feito pelos rios aliviaria muito o trânsito de carros na cidade, possibilitando a requalificação das várzeas, que em vez de avenidas marginais teriam áreas mais arborizadas e apenas vias locais. As margens do rios seriam o espaço público principal da metrópole, o que consolidaria "um território com qualidade ambiental urbana nas orlas fluviais, que comporte infraestrutura, equipamentos públicos e habitação social", de acordo com o texto do próprio projeto.

"É um projeto que traria resposta para diversos problemas modernos – do transporte urbano à mudança da matriz energética (já que menos carros na rua significam menos consumo de petróleo)", afirma Nadia Somekh.

3. Só pedestres na av. Paulista

Projeto para a av. Paulista exclusiva para pedestres. Ilustração: Coletivo oitentaedois.Projeto para a av. Paulista exclusiva para pedestres. Ilustração: Coletivo oitentaedois.

O projeto de avenida exclusiva para circulação de pessoas nunca saiu do papel; a Paulista é aberta só para pedestres aos domingos. Foto: André Tambucci / Fotos Públicas.O projeto de avenida exclusiva para circulação de pessoas nunca saiu do papel; a Paulista é aberta só para pedestres aos domingos. Foto: André Tambucci / Fotos Públicas.

Turistas e paulistas que caminham pela av. Paulista – a via mais simbólica de São Paulo – sabem que as calçadas de 10 metros de largura frequentemente não dão conta do fluxo de pedrestes, com algumas esquinas ficando intransitáveis.

A quantidade de frequentadores no domingo, quando a avenida é fechada para veículos, demonstra o potencial ainda maior que ela tem para receber pessoas.

Uma obra começada pela prefeitura nos anos 1970 visava justamente isso: a avenida seria fechada para carros, transformada em um grande calçadão, e um túnel construído embaixo da via daria passagem aos veículos motorizados.

Em 1967, o prefeito Faria Lima lançou um concurso para reurbanizar a avenida. O desenho vencedor, do arquiteto Nadir Cury Mezerani e do engenheiro Figueiredo Ferraz, previa "jardins suspensos" sobre os túneis, ao longo da Paulista.

"Os jardins suspensos receberiam um tratamento paisagístico adequado à recreação. Seriam sob forma de círculos, com um núcleo para crianças com escorregadores, labirintos, tanques de água e tanques de areia. Em volta deste núcleo haveria bancos e vegetação", diz o texto do projeto arquivado.

O primeiro trecho da reforma, entre a rua da Consolação e a rua Haddock Lobo, foi inaugurado em 1971 e se mantém até hoje.

No mesmo ano, o engenheiro Figueiredo Ferraz se tornou prefeito e continuou a tocar as obras.

O túnel chegou a ser escavado até o Paraíso, mas o projeto não agradou a ditadura militar, que destituiu Ferraz em 1973 e enterrou a obra semi-pronta. Até hoje o túnel ainda existe por debaixo da avenida.

4. Um parque e um lago ao lado do Mercadão

Os sistema viário seria mais eficiente e um lago resolveria o problema das enchentes. Ilustração: Coletivo oitentaedois.Os sistema viário seria mais eficiente e um lago resolveria o problema das enchentes. Ilustração: Coletivo oitentaedois.

Mercado fica em meio a nó de avenidas e terrenos cheios de lixo. Foto: Nelson Kon / Arquivo SPUrbanismo.Mercado fica em meio a nó de avenidas e terrenos cheios de lixo. Foto: Nelson Kon / Arquivo SPUrbanismo.

Reformado durante a gestão de Marta Suplicy (2001-2004), o Mercadão de São Paulo se tornou um dos principais pontos turísticos da cidade.

Mas os diversos projetos para requalificar o entorno estão acumulando poeira no arquivo da SPUrbanismo.

Hoje os arredores do mercado têm terrenos vazios cheios de lixo, um nó de avenidas indo para as diversas direções, um parque vazio e perigoso, barulho ensurdecedor de trânsito e um terminal de ônibus gigantesco que ocupa maior parte da paisagem.

Em época de chuva, a região fica completamente alagada.

"É uma área inóspita para a circulação de pessoas, um rasgo na cidade", diz Nadia Somekh. Segundo ela, a área é crucial por se encontrar no entroncamento entre a região central e a zona leste - onde mora a maior parte da população da capital.

Um dos últimos planos para a área, criado em 2011 pela Una Arquitetos a pedido da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, previa uma transformação profunda na paisagem.

Um trecho da avenida do Estado seria enterrado e transformado em um túnel, possibilitando a demolição de quatro viadutos que cruzam o parque e o aumento do espaço para circulação de pedestres.

O sistema viário seria reformulado, com a retirada do terminal de ônibus e a criação de uma estação integrada de metrô e ônibus.

"Retirar os terminais de ônibus do centro traria uma vantagem enorme", afirma Valter Caldana. "Eles são uma opção, não um destino. É preciso redesenhar as linhas de ônibus para que elas passem pelo centro, mas não parem ali. Temos quatro terminais enormes no centro que geram uma dificuldade de ocupação do entorno. São áreas grandes que poderiam ser melhor aproveitadas."

Uma lagoa de retenção com um sistema de filtragem natural reteria o excedente das águas da chuva, resolvendo o problema das enchentes. Os três edifícios históricos na parte norte do parque - o Mercado Municipal (1933), o Palácio das Indústrias (1920) e a Casa das Retortas (1898) - que hoje estão isolados um dos outros, seriam integrados entre si e com os novos edifícios do SESC (Serviço Social do Comércio) e do SENAC (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), que teriam cursos profissionalizantes, atividades de lazer, esportes e cultura. O lado oeste do parque também seria integrado com a rua 25 de Março.

O prédio do Sesc, no lugar do antigo edifício São Vito, é o único ponto que deve virar realidade num futuro próximo. Embora não tenha data fechada, o terreno já está ocupado pela instituição, que promove diversas atividades no local.

***
Letícia Mori da BBC Brasil em São Paulo.

Qual o melhor meio de transporte dentro das cidades? Carro, metrô, ônibus, bicicleta? Isso vai depender de onde você mora. Mas uma coisa é certa, eles não precisam competir um com o outro. Eles podem (e devem) ser complementares, o que os especialistas chamam de integração entre os modais. Aí está uma tendência mundial que o Brasil precisa levar mais a sério.

O tempo gasto no trânsito é hoje um dos principais transtornos enfrentados pela população nas cidades brasileiras. Em São Paulo, a maior país, uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2016 mostrou que os paulistanos passaram, em média, 2h58min por dia parados no trânsito, tanto no transporte público quanto nos carros. O tempo levando em conta somente o transporte público também é alto. Um levantamento do aplicativo Moovit apontou que na capital paulista as pessoas ficam, em média, 93 minutos dentro de ônibus, trens ou metrô para ir e voltar do trabalho. Em cidades europeias, como Madrid e Berlim, esse tempo cai para 61 minutos.

A situação do país em mobilidade urbana é bastante complexa. Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), nas nove principais regiões metropolitanas houve um aumento de 2,8% ao ano no número de passageiros transportados por ônibus, entre outubro de 2004 e outubro de 2014. No mesmo período, as frotas de automóveis e de motocicletas também aumentaram 6,8% e 12,2% ao ano, respectivamente.

Combinado a isso, o volume de deslocamentos por bicicletas no país dobrou: foi de 1,3 bilhão em 2004 para 2,6 bilhões em 2014, segundo levantamento feito no ano passado pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). Os números dão uma ideia da diversidade de modais disponíveis nas cidades. Apesar disso, a conexão entre eles não é sistematizada, o que dificulta o deslocamento da população.

“É fundamental você ter uma infraestrutura adequada para que esses modais funcionem, mas o mais importante é que você tenha integração entre eles. Não é todo mundo que tem uma estação de metrô a 500 metros de casa, mas se essa pessoa conseguir chegar até o metrô facilmente, o problema já melhora”, observa Cláudio Bernardes, presidente do Conselho Consultivo do Secovi-SP.

Cidades precisam saber os destinos

Sistema de compartilhamento de bicicletas do Metrô de Los Angeles. Foto: Divulgação.Sistema de compartilhamento de bicicletas do Metrô de Los Angeles. Foto: Divulgação.

Por onde começar os processos de integração? Na prática, cada cidade tem suas próprias características, e precisa encontrar soluções em cima delas. Um passo inicial são as pesquisas de origem-destino, que permitem verificar de onde as pessoas saem e para onde vão todos os dias. Com isso, é possível começar um planejamento para que os modais sejam utilizados de forma mais confortável e eficiente.

“Em algumas cidades, existe a possibilidade de implantar ciclovias conectadas à estação do metrô, por exemplo. A cidade tem que fazer um planejamento para entender o que tem de alternativas de transporte, e como elas podem acontecer de uma forma mais fácil”, explica Bernardes.

A conexão metrô-bicicleta é muita usada na Europa e em países como Estados Unidos e Canadá. Por aqui, há algumas iniciativas, mas ainda tímidas e insuficientes para suprir a demanda diária de transporte.

Planejamento urbano também entra na conta


Na região metropolitana de São Paulo, o índice de mobilidade (número de viagens que cada pessoa faz por dia) aumentou 12% nos últimos cinco anos. No mesmo período, a população cresceu 2%. Isso significa que as pessoas estão se movimentando mais, o que exige mudanças. “Se você não tem dinheiro para investir o valor necessário para ter uma infraestrutura de transporte, a alternativa é fazer com que as pessoas se desloquem menos”, observa Bernardes.

Por isso, é importante entrar na conta da mobilidade uma política adequada de desenvolvimento e planejamento urbano. Os novos empreendimentos, por exemplo, devem considerar as necessidades de deslocamento da população. O local de moradia deve ser próximo ao local de trabalho e aos espaços de lazer. Nos Estados Unidos já existem casos de empreendimentos imobiliários que são planejados ao longo de ciclovias para facilitar o acesso dos moradores.

Por isso, a combinação entre planejamento urbano e integração de modais é uma das saídas para melhorar os problemas de trânsito e a qualidade de vida nas cidades. Mas, para isso, os governos precisam investir. Um relatório do 12º Congresso Brasileiro da Construção apontou que até 2022 são necessários R$ 13,4 bilhões anuais para projetos em metrôs, trens urbanos, transporte rápido por ônibus (BRT), veículo leve sobre trilhos (VLT), ciclofaixas e outras soluções de transporte público. Ou seja, o Brasil tem muito trabalho pela frente.

***
Fonte: Movimento / G1.