Vai de bike ou vai de carro? O senso de emergência vai dizer - São Paulo São


São Paulo, Bogotá, Berlim, Mumbai, Jacarta, Toronto, Moscou, Paris, Kuala Lumpur,  Londres, Lagos, Xangai, Los Angeles, Bangkok, Pequim, Cidade do México... o que todas essas cidades têm em comum entre si, além de serem populosas metrópoles? Em cada uma delas a disputa entre carros e bicicletas é cada vez mais intensa. É esse o tema do ótimo documentário 'Bike vs Carros', do diretor sueco Fredik Gertten, que nos incentiva a desvendar o que é a cidade, o que acontece com ela e qual uso podemos fazer dela.

Uma das metrópoles que serviram como referência para o documentário é a capital paulista, residência de mais de 20 milhões de pessoas e 7 milhões de carros. Aline Cavalcante, cicloativista de São Paulo, é uma das questionadoras personagens do filme: “o que é que diferencia a decisão do prefeito de construir uma ciclovia e uma ponte para carros? Qual é o critério de seleção? Quem financia isso?”.

Transitando entre ativismo e o pensamento acadêmico, o documentário ouve professores e pesquisadores, como Raquel Rolnik, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. “60% dos prédios construídos em São Paulo são para abrigar carros, e não pessoas”.

É a tendência de todas as cidades em questão. Em Los Angeles: “quanto mais espaço você dá para os carros, mais eles ocuparão”, diz o ciclista californiano Dan Koeppel. De 1982 até 2001, a população de Los Angeles cresceu 20% e o uso do carro cresceu 236%, sendo que apenas 0,8% das pessoas andam de bicicleta.

Na cidade canadense de Toronto, o prefeito Bob Ford decidiu isentar a taxa de licenciamento de carro. Ele também parou a expansão do transporte público e apagou as faixas dedicadas às bicicletas. Para Ford, o asfalto é dos carros, ônibus e caminhões e não para bicicleta. “Quando um ciclista é morto meu coração fica pesado, mas a culpa é deles no final das contas”.  Na cidade canadense, um pedestre é atropelado a cada 3 horas e um ciclista é atropelado a cada 7 horas.


Bogotá também é usada como exemplo pelo 'Bike vs Carros'. Numa cidade onde o número de carro cresceu de 950 mil em 2009 para 1,5 milhão em 2013, “é preciso desmontar a realidade de que quem anda de bicicleta tem menos direitos daquele que anda de carro”, defende Liliana Godoy, fundadora do “Bicicleta Educativa”. Ela leva sua turma de alunos pequenos para andar de bicicleta pela capital boliviana.

Outro grande problema apontado pelo filme é a propaganda das indústrias automobilísticas, que criaram uma ilusão há décadas, que resiste até hoje no imaginário comum. O custo de um carro, o custo de seu combustível, do estacionamento, do licenciamento é enorme. “Mas o custo ambiental, o custo para a saúde da população, para o clima... e todos esses custos são assumidos quando uma pessoa senta em seu carro e vai ao trabalho,”, defende Koeppel.

Apenas em 2013, foram quase 83 milhões de carros vendidos no mundo. Não é novidade que o que move essa quantidade enorme de veículos são litros e litros de combustível fóssil, o que torna o setor de transporte um dos que mais emite gases de efeito estufa na atmosfera, acelerando as mudanças climáticas.

A priorização da indústria dos automóveis traz apenas estatísticas mais e mais deprimentes. Veja só: os americanos perdem 55 dias de trabalho por ano presos no trânsito, sendo que 25% de suas rendas são para transporte. O uso de bicicleta na China caiu 45% em menos de 25 anos, onde 7 milhões de pessoas morrem todo ano devido à poluição do ar. Na Europa, 30 milhões de pessoas sofrem de doenças relacionadas ao estresse devido ao barulho do tráfego. Em São Paulo chegamos a perder três anos de vida por causa da poluição. E o mais impressionante? O ano de 2012 marcou 1 bilhão de carros no planeta. Em 2020 serão 2 bilhões.

O Consultor em Cidades Habitáveis, Gil Peñalosa, considera um dos principais problemas do carro o espaço que ele ocupa. “Imagine 100 mil carros estacionados... Seria preciso pavimentar 1000 km de vias para estacionar apenas esses carros. É essa a melhor maneira de usar o nosso espaço?”.

Estamos num momento muito importante. As pessoas começam a desenvolver um senso de emergência em relação à situação da mobilidade urbana nas grandes cidades. A população mundial vai aumentar em 3 ou 4 bilhões de pessoas nos próximos anos. O que fazemos e o que deixamos de fazer vai ficar como legado. Nenhuma cidade no mundo resolveu o problema de mobilidade urbana investindo em automóveis, então a mudança de modal – motorizado para não motorizado – não só é melhor para a saúde das pessoas e para aliviar o congestionamento nas cidades, mas também é uma medida fundamental para reduzir a gravidade das mudanças climáticas que afeta todo o planeta.

O documentário 'Bike vs Carros' foi exibido em junho de 2015, no Parque do Ibirapuera. O diretor Fredrik Gertten esteve presente. O link oficial: http://www.bikes-vs-cars.com/thefilm

Na ocasião, a produção desembarcou no Rio de Janeiro e em todas as salas do Espaço Itaú de Cinema no País – Brasília (DF), Curitiba (PR), Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Belo Horizonte (MG), João Pessoa (PA), Santos (SP) e Salvador (BA).

***

Fonte: Greenpeace.