O Natal acabou mas a pergunta continua: por que as nossas ruas são tão piores do que os nossos shopping centers? - São Paulo São

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Na semana anterior ao Natal, o movimento dos shopping centers vira assunto na cidade. Dentro deles, longas filas para sentar no colo do papai noel e tirar uma foto com a Minie. Nas ruas, nenhuma fila, nenhum papai noel, nenhuma Minie. A única imagem que vemos da rua é a da rua 25 de março, usada para dar um toque dramático às novidades sobre a economia.

Por que tem de ser assim? Em que momento o contraste entre a rua e o shopping ficou tão grande?

Parece uma pergunta tola. Talvez seja. Afinal, parece óbvio que um lugar fechado, climatizado, com estacionamento, que reúne várias lojas e ainda serviços de todos os tipos, restaurantes,  seguro, limpinho, e ainda com cheirinho seja mais agradável.

Mas não foi assim sempre. Desde a inauguração do Iguatemi, em 1966, a cidade adotou timidamente os shoppings e as compras continuavam nas lojas de rua. Na década de 80, porém, a violência na cidade aumentou, as ruas foram sendo negligenciadas. Como resultado, mais e mais shopping centers foram sendo inaugurados e hoje são são 54. O shopping é tão consolidado que os adolescentes, quando querem se encontrar, já marcam o encontro no lugar preferido: – ‘vamos ao shopping?”.

Melhoraram os shoppings ou pioraram as ruas?

Alameda do Shopping Páteo Hienópolis. Foto: Mauro Calliari.Alameda do Shopping Páteo Hienópolis. Foto: Mauro Calliari.

Certamente, os shopping center melhoraram. Os pesquisadores falam que estamos na terceira geração dos shopping centers, que se caracteriza justamente por mais serviços e lazer em conjunto com as lojas.  Mas a diferença aumentou porque as ruas perderam qualidade. Como isso foi acontecer? Afinal, a rua tem o vento, o prazer de ver o céu, de ver horizonte, de abrir-se para ver gente diferente, tem lojas e é parte da experiência essencial de viver numa cidade.

O clima talvez seja uma pista: em lugares quentes demais, como nos países árabes, os shoppings modernos ganham espaço por oferecerem condições mínimas de conforto à beira de um deserto. O oposto acontece em países frios. No inverno do Canadá, é comum as pessoas procurarem as lojas nas galerias protegidas. Mas aqui isso não explica tudo. São Paulo não é fria nem quente demais durante a maior parte do ano. Chove, claro, mas em cidades com clima muito mais agressivo, as pessoas estão nas ruas. Nova York é um exemplo.

Existe um detalhe que talvez explique um pouco mais: em Manhattan, há uma legislação muito restritiva e shopping centers não são bem vindos. Essa é uma decisão elementar: proteger o comércio de rua, proteger os restaurantes de rua, os chaveiros, os postos de correio, os tatuadores, os lojistas, a vida na rua. Aqui, o plano diretor de 2014 traz mecanismos que tentam coibir um pouco a instalação de novos empreendimentos em terrenos muito grandes em detrimento da rua. Pois é disso que se trata. Ninguém tem nada contra shopping centers, mas eles competem com a vida na rua e sugam parte da vitalidade. No momento em que ficamos tão com medo da rua, os shoppings ganharam força, tornando a competição desigual.

Ser a favor da vida na rua não é uma nostalgia sem sentido. É uma maneira de melhorar a segurança na cidade como um todo, de melhorar o prazer em andar por aí, de melhorar a vida cotidiana.

O contraste entre a rua é o shopping é chocante porque a rua anda maltratada.

Vamos falar de coisas básicas: limpeza, segurança e acesso. Ninguém gosta de lugares sujos, inseguros, que não dá para chegar. Sim, estamos numa cidade desigual, que tem gente diferente na rua. Mas isso não é motivo para a experiência de quem faz compras na rua ser desagradável, ao contrário. Sem isso, não há esperança para as ruas.

E falando de infraestrutura, por que a rua não pode ter bancos, sombra e calçadas agradáveis? A Oscar Freire tem, a João Cachoeira tem. Em conjunto com a prefeitura, as associações de lojistas poderiam muito bem melhorar as condições de algumas ruas comerciais, como a Consolação, a Paula Souza e tantas outras. As ruas do Bom Retiro são relativamente bem cuidadas, em comparação com as do Brás, por exemplo. Todos poderiam melhorar a experiência de andar a pé e fazer compras num lugar agradável.

Comércio em rua do Bairro de Santa Cecília, região central de São Paulo. Foto: Mauro Calliari.Comércio em rua do Bairro de Santa Cecília, região central de São Paulo. Foto: Mauro Calliari.

Finalmente, por que as ruas não podem ser mais bonitas?

Há poucas ruas lindas por aqui, mas coisas básicas já ajudam. Uma pintura bem feita, o cuidado com os detalhes de uma vitrine, uma calçada lisa, acessível. As pessoas gostam tanto disso que quando surge uma migalha de urbanidade, como na rua Normandia, todo mundo vai lá para tirar uma foto. Falando em beleza, uma das coisas que mais enfeiam a paisagem urbana são os fios dos postes. A briga entre a Eletropaulo e a prefeitura já tem anos. A antiga estatal simplesmente se recusa a enterrar um metro que seja de fios. Enquanto a batalha judicial não for resolvida – e nada indica que será – o resultado são esses fios soltos, atrapalhando a vista, atrapalhando as árvores, atrapalhando a visão.

Comércio de rua no Alto do Ipiranga. Foto: Mauro Calliari.Comércio de rua no Alto do Ipiranga. Foto: Mauro Calliari.

Essa não é uma questão que interessa apenas ao comércio. Interessa a todos nós.

Uma cidade que, em vez de perder, ganhe de volta lojas, cabeleireiros, padarias e farmácias, talvez volte a ter mais do que os 10 cinemas de rua que sobraram e, um dia, quem sabe, talvez a gente veja uma fila de crianças esperando para tirar foto com o papai noel, a Minie ou quem quer que seja, no Largo Treze, no Largo da Batata, na Paulista ou no Parque da Luz e uns adolescentes combinando: – “vamos à rua?”.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional.  *Artigo publicado originalmente no blog Caminhadas Urbanas do Estadão.