Sete constatações pessoais sobre a barulheira de viver em São Paulo - São Paulo São

Resolvi voltar ao tema do barulho pois muitas pessoas comentaram sobre o ranking dos barulhos de São Paulo, em que eu publiquei aqui duas semanas atrás. Parece que há muito mais gente incomodada com os barulhos da cidade!

Há gente que reclamou de barulhos de helicópteros, de cachorros, de carros, de bares. Outros foram incisivos: os piores barulhos da cidade são aqueles que acontecem à noite, no descontrole sonoro da vida noturna e na ausência de capacidade do PSIU de fiscalizar todo mundo.

Alguns, nostálgicos, lembram da dificuldade que é achar algum bar ou restaurante que não tenha uma televisão ligada, emitindo mais barulho. Finalmente, houve quem trouxesse informações técnicas bem vindas sobre como barrar a barulheira em casa, usando cortinas, materiais de vedação, etc.

Diante de todos esses comentários, é animador pensar que há mais pessoas dispostas e brigar para ter uma cidade mais silenciosa, ou, no mínimo, menos barulhenta. Aqui vão algumas conclusões sobre esse estudo tão pessoal quanto incompleto:

1. Nossas ruas estão permanentemente no limite

A partir dos 65 dB, entramos no “patamar moderado de risco à saúde”. Como o nível básico de ruído das ruas é próximo disso, qualquer barulho novo já rompe esse limite: uma buzina, uma freada, um motor arrancando.

  • Av. Faria Lima com movimento normal 69 dB.
  • Av. Faria Lima com carros batendo na tampa de um bueiro solta 80 dB.
  • Av. Faria Lima com homens cortando uma calçada com serra 86 dB.

2. Os motoristas não ouvem o barulho que eles próprios fazem

Eu fiz o teste. De dentro do meu carro, apertei a buzina e medi:

  • 76 dB, medidos de dentro do carro.
  • 87 dB, medidos de fora do carro.

Ou seja, quando um motorista resolve meter a mão na buzina para chamar a atenção do carro da frente que está falando no celular, as únicas pessoas que ele está punindo são aquelas que não tem nada a ver com a história: são os pedestres, os passantes, quem está em casa. Se as buzinas fossem viradas para dentro dos carros, motoristas iriam entender isso mais facilmente.

3.  Para os motoristas e motociclistas paulistanos, a buzina é um modo de expressão

  • Avenida Rebouças sem motos – 70 dB.
  • Avenida Rebouças com motos buzinando – 81 dB.

A fila de motos buzinando insistentemente entre as faixas de rolamento é tão frequente que virou parte da paisagem paulistana. Como se fosse razoável, acostumamo-nos com isso.

Os motoristas de carro também exercitam suas buzinas, fazendo tremer os pedestres. No meu ranking pessoal, constatei que a buzina mais alta é a dos carros de marca Honda Civic, com 92 dB. Desconheço a razão técnica, mas se você for dono de um carro desses, pense muito antes de buzinar. Os pedestres, os fregueses da loja ao seu lado e a mãe que acabou de colocar um bebê para dormir no quarto andar do prédio em frente vão agradecer.

O ranking pessoal dos barulhos de São Paulo

4. Lugares fechados também são nocivos ao ouvido

  • Avenida Eusébio Matoso em frente ao Shopping Eldorado – 75 dB.
  • Praça de Alimentação do Shopping Eldorado – 82 dB.

Enfermeira na tradicional posição de pedido de silêncio.Enfermeira na tradicional posição de pedido de silêncio.5. Motos são barulhentas. Mas Harley Davidson é um caso a parte

  • Moto Harley Davidson acelerando na frente do cemitério da Av. Dr. Arnaldo – 95 dB.

Esse foi o nível mais alto de ruído que eu consegui gravar com o decibelímetro. Deve haver muitos outros mas esse barulho impede que você faça qualquer outra coisa. Durante 30 segundos, o dono da moto impõe sua vontade a todo um quarteirão. Na Grécia antiga, o termo para quem não se importava com a coisa pública era “idiota”. Acredito que a palavra possa ser usada num caso desses.

6.  Os ônibus e o metrô mereceriam um tratamento acústico

Um motorista de ônibus quando acelera, está “jogando”:

  • 90 dB em quem está parado no ponto.
  • 84 dB em quem está dentro do ônibus.

O metrô também é mais barulhento para quem espera nas estações. Quando aparece o trem, o nível do barulho vai até 87 dB. Tecnicamente, fiquei sabendo que é muito possível reduzir esses barulhos, com equipamentos mais modernos e motores mais novos.

7. No fundo, no fundo, nossa cultura parece não dar nenhuma atenção ao barulho

  • Padaria com TV ligada – 69 dB.
  • Padaria com TV desligada – 60 dB.

Achamos natural que exista música, barulho, imagens em todos lugares. Mas será que é tão ruim assim ficar um pouco em silêncio?

  • Rua residencial sem carros num domingo de manhã – 45 dB.
  • Rua residencial quando passa um carro no mesmo horário – 59 dB.

E de vez em quando, diante da visão alentadora de uma rua sem carros, em vez de ouvir pessoas, ouvimos mais música alta.

  • Avenida Paulista sem carros 64 dB.
  • Show de forró na Avenida Paulista 75 dB.

Outro dia, resolvi achar um lugar silencioso em São Paulo e fui à biblioteca pública Álvaro Guerra, que fica no Alto de Pinheiros. Queria um lugar calmo para estudar e ler. Fui surpreendido pela conversa do guarda com a recepcionista. Eles riam alto. Quando pararam, o telefone tocou e uma atendente começou a conversar em voz alta com alguém. Desisti. Não dá para lutar contra uma cultura que desrespeita o silêncio até numa biblioteca.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional.  *Artigo publicado originalmente no blog Caminhadas Urbanas no Estadão.