‘Carro compartilhado só vai funcionar se a cidade tiver bom transporte público‘, diz especialista - São Paulo São

Falar de mobilidade urbana é, para o suíço Arnd Baetzer, falar da sociedade. A mobilidade – ou a falta dela – reflete diretamente os problemas e desafios que as pessoas estão vivendo em uma determinada cidade. É por essa razão, defende Baetzer, que o modelo de carro compartilhado, visto como solução viável para desafogar o trânsito, só funciona se a cidade contar com um sistema de transporte público bom e seguro.

"O que analisamos é que o compartilhamento de carros está funcionando em locais onde as pessoas não têm receio de utilizar o transporte público, fazem uso dele com frequência, só recorrendo ao carro em ocasiões especiais", afirma Baetzer, que é diretor da Mobility, empresa suíça de carsharing, e membro Transportation Research Board em Washington (EUA). Especialista em mobilidade urbana, ele veio ao Brasil nesta semana para a V Conferência Global PARAR, promovida pelo Instituto PARAR.

O sistema de compartilhamento de carros funciona hoje sob a mesma lógica das bicicletas compartilhadas. O usuário pega um carro em um ponto específico, faz um trajeto e o deixa em outro local, liberando o veículo para o próximo cliente. O serviço e pagamento são feitos inteiramente pelo celular. A ideia é que, no futuro próximo, o usuário nem precise mais ir até o ponto – o carro autônomo virá até a porta da sua casa. 

Baetzer defende que o sistema de compartilhamento de carro tem um papel crucial na solução do que considera hoje os dois grandes desafios globais da mobilidade urbana: tempo e espaço. "O espaço nas cidades está limitado, bem como o tempo das pessoas. Entre esses dois fatores, precisamos encontrar uma maneira de organizar a mobilidade de uma forma melhor e mais inteligente", diz. Para isso, é preciso principalmente reduzir o uso privado de carros. "Nós precisamos de menos carros na estrada, menos veículos nas ruas para tornar o trânsito mais fluente e, do outro lado, precisamos melhorar o conforto das pessoas no transporte público. E aí nós temos uma grande tendência chegando que é o transporte sob demanda, flexibilização do transporte coletivo, reavaliação do uso individual do carro ", diz.

A plataforma francesa de compartilhamento de carros “Drivy“ quintuplicou sua operação na Bélgica, no ano passado. Foto: MaxPPPA plataforma francesa de compartilhamento de carros “Drivy“ quintuplicou sua operação na Bélgica, no ano passado. Foto: MaxPPPUma das cidades que desponta com novos sistemas de transporte é Bruxelas, capital da Bélgica. Estudo divulgado pelo governo belga em 2016 mostra que carros privados só são usados em 5% do tempo – no restante, são utilizadas outras opções, bem como um eficiente sistema de compartilhamento de carros. "Nós sabemos que, em geral, um carro compartilhado substitui 18 carros privados", diz Baetzer. 

Compartilhar carros, defende o especialista, é também uma forma de caminharmos na direção de cidades livres de congestionamentos. "Nós já temos locais modelo que mostram que é possível viver com a mesma população – ou até mais – com um terço de veículos, se existir o compartilhamento". Grandes empresas já estão de olho nestas tendências. Uma delas, citada por Baetzer, é a Microsoft. A gigante de tecnologia desenvolveu um aplicativo que mostra carros disponíveis por várias companhias de car sharing em uma determinada região. 

Usuário usa aplicativo de integração inteligente de car sharing com seu smartphone e o sistema keyless do veículo. Foto: GM / Divulgação.Usuário usa aplicativo de integração inteligente de car sharing com seu smartphone e o sistema keyless do veículo. Foto: GM / Divulgação.Baetzer defende que as soluções tecnológicas de mobilidade urbana ainda estão na fase inicial, a chamada digitalização. Projeta, porém, um futuro em 2030 com carros autônomos em um sistema totalmente compartilhado. Para chegarmos lá, o especialista defende que é crucial as cidades trabalharem para integrar todos os modos de transporte. "Nós não podemos mais permitir sistemas paralelos que não se comuniquem entre si. As soluções precisam conversar, trabalhar juntas e, assim, seremos capazes de oferecer melhores serviços. De novo: espaço, tempo e dinheiro são limitados". Neste aspecto, o papel do governo é o de criar regulações para que o setor público e privado possam trabalhar juntos, oferecendo "serviços atrativos e integrados". 

Com relação ao Brasil, Baetzer analisa que o país faz progressos na área de mobilidade urbana, apresentado soluções inovadoras na cidade de Curitiba, bem como cases únicos, como o desenvolvimento do BRT, no Rio de Janeiro. "Nos últimos 15 anos, o Brasil realmente mostrou boas ideias e um abordagem programática em criar soluções que estão na vanguarda global". 

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Por Barbara Bigarelli na Época Negócios.