O impacto do fluxo de veículos na habitabilidade dos bairros - São Paulo São

Nos anos 1960, o urbanista britânico Donald Appleyard realizou uma série de estudos para descobrir se ruas com alto fluxo veicular e bom nível de habitabilidade poderiam coexistir em regiões residenciais.

Os resultados desses estudos demonstraram que os habitantes já reconheciam que as ruas muito movimentadas sofriam mais com a poluição e falta de segurança. 

Além disso, os moradores de ruas com alto fluxo veicular percebiam que se relacionavam menos entre si em comparação com os moradores de ruas menos movimentadas. 

Esta conclusão está representada no diagrama superior que mostra três ruas com tráfego veicular alto, médio e baixo (da esquerda para a direita), e linhas de cores que correspondem à interação entre os habitantes.

Pode-se observar como as linhas azuis cobrem grande parte da rua com baixo fluxo veicular; fato que não é observado na rua mais movimentada e suas linhas vermelhas menos numerosas.

Appleyard, D. (1981). Imagem © Livable Streets. Fonte: Safe Street Strategies.Appleyard, D. (1981). Imagem © Livable Streets. Fonte: Safe Street Strategies.

Sobre a base desta pesquisa, uma equipe da Universidade do Colorado realizou um novo estudo, desta vez visando determinar se o volume de tráfego de uma rua residencial interfere na percepção da habitabilidade de um bairro. 

Para isso, entrevistaram mais de 700 habitantes de 30 ruas divididas em alto fluxo (mais de 40 mil veículos por dia) e baixo fluxo (até 12 mil veículos diários). Nas vias com menor tráfego, o nível de habitabilidade foi muito maior se comparada com a opinião daqueles que vivem em ruas de trânsito mais intenso. 

Todavia, à diferença do que se poderia pensar, certas ruas com alto fluxo de veículos também apresentaram níveis elevados de habitabilidade. O motivo? Em seus arredores existem ruas de baixo tráfego, adequadas à escala humana. 

Isto foi percebido logo que os pesquisadores incorporaram outros fatores no estudo, como a largura das vias, a quantidade de árvores, o estado das calçadas, a existência de ciclovias, a iluminação pública, o número de pedestres e ciclistas, entre outros. 

Frente a isso, o novo estudo corrobora as conclusões de Appleyard e permite afirmar que os planejadores urbanos e engenheiros não devem concentrar seus esforços unicamente em uma rua ou uma região reduzida, já que suas intervenções têm um raio de abrangência muito mais amplo. 

Imagem: Ryan Snyder.Imagem: Ryan Snyder.

Além disso, afirmam que se os responsáveis pelo desenho urbano almejam promover a habitabilidade dos bairros, não devem concentrar todos o tráfego em uma única avenida, mas distribuí-lo de modo planejado para que a rede de ruas seja o mais adequada possível aos pedestres e ciclistas.

Se o volume de veículos não for distribuído de modo consciente, afirmam os pesquisadores, algumas vias poderão se tornar verdadeiras barreiras internas ou obstáculos para os moradores. 

Acesso o relatório da pesquisa neste link (Inglês).

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Por Constanza Martínez Gaete no Arch Daily.