Mobilidade urbana: é hora de cuidar do transporte a pé - São Paulo São


Diferentemente do que muitos pensam há mais pessoas se deslocando exclusivamente a pé nas cidades brasileiras do que de ônibus  – muita atenção para o “exclusivamente” pois bem sabemos que todos os usuários de transporte público iniciam e terminam suas viagens a pé. Segundo a ANTP – dados do Sistema de Informação de Mobilidade 2013 – 36% dos deslocamentos diários são feitos exclusivamente a pé, no caso de São Paulo. A fonte é da Pesquisa de Mobilidade Urbana do Metrô de 2012  que aponta que 31% dos deslocamentos diários são a pé. Em números absolutos são 13.708.000 viagens exclusivamente a pé por dia.

É urgente o entendimento de que pessoas andando pela cidade estão se deslocando fazendo uso de um sistema de transporte: o sistema de mobilidade a pé — que anda bem “capenga”. Tanto pela importância deste sistema para as cidades quanto o seu estado atual deveria ser o sistema de mobilidade com maior atenção — tanto do poder público, que tem como dever trabalhar pelo bem coletivo, quanto da sociedade como usuária frequente e em massa deste sistema.

Há duas questões que “cegam” os gestores públicos e a população, dificultando o entendimento dos deslocamentos a pé como um sistema. A primeira é sua fragmentação: fica muito difícil o entendimento e a ação uma vez que a infraestrutura da mobilidade a pé tem diferentes responsáveis, que pouco dialogam entre si. Por exemplo, as calçadas são de responsabilidade dos proprietário do lote em frente, com acompanhamento e controle pelas subprefeituras. As travessias, como ocorrem pela via, são de responsabilidade de órgãos de trânsito (em São Paulo, CET), a quem cabe cuidar de faixas, passarelas e sinalização luminosa de pedestres. As poucas e mal implementadas placas para pedestres foram projeto da secretaria de Turismo.

As árvores, praças e outros elementos de conforto no sistema são da secretaria do Verde. As lixeiras e outros equipamentos relacionados à limpeza, da secretarias de Serviço. Além disso, ainda há a iluminação, as bancas de jornal, os parques, as escadarias, as vielas, os parklets, as mesas nas calçadas, a coleta de lixo, os lotes – podendo ser murados ou fachadas ativas -, os espaços residuais, os baixios de viadutos, os postes, os bueiros, as rampas de acesso, os bancos para sentar, entre outros.

A segunda questão é a experiência da caminhada urbana. Ao deslocar-se a pé, ainda que a velocidade evidencie os problemas (estruturais e sociais), cria-se uma nova relação com a cidade: uma relação de intimidade, que propicia enxergar as miudezas, os detalhes, os prédios com arquitetura interessante, as artes se expressando nas ruas, os músicos trazendo momentos de alegrias, as vitrines, as árvores e suas flores e frutos, as capas das revistas, escutar as conversas alheias, os cheiros de comida, os cachorros, os murais, os anúncios nos postes, os desenhos das calçadas, as janelas alheias. Tudo isso romantiza a experiência e dificulta enxergar os problemas do sistema, ainda que por alguns momentos.

Desta forma não há uma visão sistêmica da mobilidade a pé. Com isso nem mesmo há dados da situação e condições do sistema. O único tipo de dado disponível mais expressivo que mostra que o sistema da mobilidade a pé não está em boas condições são os números de acidentes de trânsito envolvendo os pedestres. Em São Paulo, mataram 555 pessoas que se deslocavam a pé no ano de 2014 (em média 1,5 pessoa morta por dia).

Muito fala-se da melhoria dos ônibus, que precisam passar com mais frequência, têm que ser mais confortáveis, precisam de vias exclusivas de circulação, Porém pouco discute-se sobre as melhorias do sistema de mobilidade a pé, que devem passar pelo entendimento de que é preciso conectar todos os elementos da cidade em torno de um objetivo comum: garantir conforto, qualidade e segurança às pessoas andando pela cidade.

A mobilidade a pé deve ser prioridade absoluta nos planejamento de mobilidade, também, por todas as suas características de acesso, justiça, humanização que levaram a sua posição de prioridade para o planejamento de todos os municípios apontada legalmente pela Política Nacional de Mobilidade Urbana  (lei nº 12.587/2012). Quando melhorar o sistema de mobilidade a pé for o objetivo da Secretaria Municipal de Transporte (que deveria se chamar Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana) medidas  como diminuição de velocidades máximas toleradas nas vias e implementação da rede cicloviária, estarão aliadas a outras medidas e farão parte de um projeto maior em que o objetivo final é criar uma cidade caminhável.

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Por Leticia Leda, no Mobilize.