Jornada do Patrimônio abre à visitação mais de 80 imóveis históricos em SP - São Paulo São


Todo terceiro fim de semana de setembro, ao menos 30 países europeus abrem as portas de seus edifícios e casarões históricos.

A iniciativa, que por lá já se tornou tradição, é organizada há três décadas pelo Conselho da Europa e da União Europeia, organizações governamentais. Neste ano, por exemplo, a população foi convidada a conhecer melhor sua herança industrial com passeios por estradas de ferro, pontes e canais.

Experiência semelhante chega a São Paulo pela primeira vez no próximo fim de semana, nos dias 12 e 13 de dezembro, quando acontece a Jornada do Patrimônio.

"A ideia é fazer com que as pessoas se sensibilizem para a história e a memória de São Paulo", diz Nadia Somekh, diretora do DPH (Departamento do Patrimônio Histórico), que promove o evento em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura.

Durante dois dias, os mais de 80 imóveis públicos e privados que participam da "festa do patrimônio", como classifica Somekh, ficam abertos para visitação, monitorada ou não.

Há, por exemplo, o castelinho da rua Apa, em Santa Cecília, o palacete Teresa Toledo Lara, no centro, e a Vila Itororó, na Bela Vista.

Outros, como o Ponto Chic do largo Paissandu e o prédio onde hoje funciona a Red Bull Station, são velhos conhecidos dos paulistanos -que nem sempre se dão conta do caráter histórico dos edifícios.

Além das construções, que em sua maioria datam do início do século passado, a programação quer que a população também se reencontre com a tradição cultural da cidade.

Para isso, reserva espaço para rodas de samba, peças de teatro, exposições e roteiros históricos.

Interior do bar Drosophyla, que funciona num casarão construído na década de 1920. Foto: Inês Bonduki.

História inventada

Em um antigo terreno de Dona Veridiana Prado, aristocrata e intelectual paulistana, ergueu-se, na década de 1920, um casarão com projeto atribuído a Adelardo Soares Caiuby - também responsável pela Curia Metropolitana de São Paulo.

A empresária Lilly Varella, 55, gosta de pensar que quem habitou o número 163 da Nestor Pestana foi a atriz chinesa Lili Wong e seu marido alemão, Hans. "Eles organizavam saraus, exposições, havia música. Queremos lembrar um pouco dessa 'belle époque'", diz, sobre a personagem fictícia que se tornou a nova cara do Drosophyla. Desde janeiro o bar funciona no casarão que permaneceu fechado durante 20 anos e é tombado pelo Conpresp.

"Quando entrei nessa casa, me apaixonei perdidamente", relembra ela, que levou três meses apenas para restaurar as pinturas originais do salão principal. "Aqui, revivemos nos dias de hoje os tempos de outrora."

Visitação: 13/12, das 11h às 17h.

 

Interior do Ponto Chic no Largo Paissandu que funciona num casarão de 1905. Foto: Jana Portela.

Tradição no centro.

Mais de cem anos desde a sua construção, o predinho em frente à igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no largo do Paissandu, conserva a pintura, as frisas e os balcões da fachada como se ainda fosse 1922.

Naquele ano, enquanto se desenrolava a Semana de Arte Moderna, o italiano Odilo Cecchini abria as portas de uma lanchonete despretensiosa, que tempos depois ficaria conhecida pelo mais tradicional sanduíche da cidade. Nos andares de cima, a famosa madame Fifi tocava o seu bordel.

"O Paissandu era onde tudo acontecia, um lugar nobre na época. E aí o pessoal apelidou o bar como Ponto Chic. Ficou", diz Rodrigo Alves, 37, que administra a rede de lanchonetes junto do pai e o avô.

No início do ano, eles repintaram a fachada da Paissandu nas cores originais, amarelo ovo e branco nas frisas, e planejam ainda iniciar uma reforma na parte interna. "A ideia é voltar ainda mais para a década de 1920."

Visitação: dias 12 e 13/12, das 11h às 20h

 

Fachada da Red Bull Station. Foto: Inês Bonduki.

Intervenção contemporânea 

Os cinco andares que hoje abrigam a sede da Red Bull Station, projeto de experimentação artística da marca de energéticos, já sediaram uma subestação da antiga Light.

Construído em 1926, entre as avenidas 23 de Maio e 9 de Julho, o prédio tinha a função de fornecer energia elétrica para o centro da cidade. Desde 2002, sua fachada é tombada pelo Conpresp, órgão municipal do patrimônio histórico, e não pode ser modificada. Mas quem transita pelos corredores enxerga nas estruturas originais e nas pinturas desgastadas esforços em lembrar os visitantes de que outras histórias já passaram por ali.

"Descascamos camadas de pinturas para conseguir chegar mesmo na essência do prédio", diz Carolina Bueno, uma das arquitetas responsáveis pelo projeto, do escritório Triptyque.

No processo de restauração, que levou oito meses, a equipe manteve o sistema de refrigeração original. "Há uma poética em trazer o prédio de volta à vida via água, fluido que circulava por ali todos os dias."

Visitação: dia 12/12, das 11h às 19h.

Alguns endereços:

1- Pinacoteca.
Praça da Luz, 2, Luz.

2 - Museu da Língua Portuguesa.
Praça do Monumento, s/nº, Ipiranga.

3 - Igreja de Nossa Sra. da Conceição de Santa Efigênia.
R. Santa Ifigênia, 30, Centro.

4 - Edifício Martinelli.
Av. São João, 35, Centro.

5 - Ponto Chic.
Largo do Paissandu, 27.

6 - Sede do Instituto dos Arquitetos do Brasil.
R. Bento Freitas, 306, Centro.

7 - Sala do Conservatório.
Av. São João, 281, Centro.

8 - Centro Cultural dos Correios.
Vale do Anhangabaú, s/nº.

9 - Theatro Municipal
Av. São João, 281, Centro

10 - Red Bull Station
Praça da Bandeira, 37, Centro

11 - Centro Cultural Banco do Brasil
R. Álvares Penteado, 112, Sé

12 - Drosophyla.
R. Nestor Pestana, 163, Consolação.

13 - Palacete Teresa Toledo Lara.
R. Quintino Bocaiúva, 22, Sé.

14 - Casa da Imagem.
R. Roberto Simonsen, 136-B, Sé.

15 - Cama e Café.
R. Roberto Simonsen, 79, Sé.

16 - Casa Ranzini.
R. Santa Luzia, 31, Sé.

17 - Capela dos Aflitos.
R. dos Aflitos, 70, Sé.

18 - Teatro Oficina.
Rua Jaceguai, 520, Bela Vista.

Veja a programação completa no site do projeto!

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Amanda Massuela na Revista São Paulo.