Um passeio pelas galerias do centro de São Paulo - São Paulo São


A mesma São Paulo que abria largas avenidas para a circulação de novíssimos automóveis, que trocava seus simpáticos bondes por barulhentos e poluidores ônibus, que louvava e cantava um novo futuro moderno, fabril, cosmopolita e brilhante, é também a São Paulo que fez nascer em seus edifícios centrais uma cidade em que o privado se confundia com o público, o comércio com a moradia, a cultura com a vida noturna.

Era a São Paulo dos grandes edifícios, que se pretendiam pequenas cidades dentro da cidade, mas que, muito ao contrário dos condomínios recentes com seus muros e barreiras, abriam-se generosamente em seus espaços térreos, tornando-se extensões das calçadas, convidando todo tipo de passantes, sem controle ou catracas. É a São Paulo do Copan, do Conjunto Metrópole, do Edifício Esther, da Galeria Califórnia. É a São Paulo central redescoberta no livro 'Edifícios Modernos e o Traçado Urbano no Centro de São Paulo' (1938-1960), da arquiteta Sabrina Fontenele.
 
Imagem: Reprodução.
 
Fruto de uma tese de doutorado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), o livro revela como a partir da execução do Plano de Avenidas – do engenheiro rodoviarista e prefeito de São Paulo (1938-1945) Prestes Maia – uma nova legislação de 1941 permitiu o surgimento desses espaços de convívio. “Apesar de não investir em lugares públicos e fazer do transporte individual o centro de seu projeto de cidade, ele elaborou a lei que dava concessões especiais para prédios que tivessem nos térreos espaços de sociabilidade”, comenta Fontenele.

Para cada novo prédio construído, recintos de livre circulação, cinemas, bares e todo tipo de serviços surgiam nas galerias contíguas às edificações e nas áreas térreas que se abriam para as calçadas. Ali, a cidade se encontrava, a juventude fazia planos. Já era a São Paulo dos carros, mas ainda não era a do medo da rua. Ao longo do tempo e apesar da degradação do centro da cidade, muitos desses espaços permaneceram abertos. É verdade, com igrejas neopentecostais no lugar dos cinemas, com a adição de algumas catracas e câmeras de segurança, mas abertos.

Abaixo você lê um roteiro para percorrer em um sábado de manhã ou durante algum dia de semana, quando o centro está mais vivo e movimentado.

1. Todos passam pelo Copan
Para chegar ao Copan, primeiro ponto da caminhada, o mais indicado é descer na Estação república do Metrô e subir a Avenida Ipiranga até o número 200. Para despertar, comece tomando um café no simpático Café Floresta, no mesmo local há mais de 40 anos. Uma vez lá, você vai descobrir ótimos lugares para almoçar, jantar ou beber uma cerveja. Bar da Dona Onça e Pizzaria Copan são algumas indicações, mas como a ideia é seguir caminho, passe pelo Pivô, espaço permanente de Arte sem fins-lucrativos, e de lá siga pela passagem entre edifícios que te levará até a avenida São Luiz.

2. Uma metrópole dentro da metrópole

Uma vez na Avenida São Luiz, você estará de frente para a Praça Dom José Gaspar, um dos símbolos da cidade de São Paulo, onde ficam duas das instituições mais clássicas e diferentes da cidade: a Biblioteca Mário de Andrade e o lendário Paribar, reinaugurado nos últimos anos. Ali também está a Galeria Metrópole (número 122-146), seu destino. Caminhe pelos cinco andares do espaço e conheça uma cidade jovem que renasce a partir de lá: escritórios de design e arquitetura, o bar Mandibula, a livraria Tapera Taperá, a loja de plantas Selvvva. Antes de ir embora pela saída da Rua Basílio da Gama, não deixe de dar uma olhadinha na bela entrada do antigo cinema da galeria.

3. O vovô das galerias

Descendo a Basílio da Gama, rumo à Praça da República, você vai notar um comércio antigo e enraizado: os restaurantes Da Giovvani e o Almanara, além da barbearia Salão Genial que continua com a mesma cara de anos atrás. Já na Ipiranga com a Basílio, está o Edifício Esther (número 64-68), símbolo do centro. Originário da década de 1930, é o primeiro edifício com feições modernas do centro de São Paulo. Uma rápida visita ao seu térreo vale à pena. Entre pelo acesso central, de frente para a Praça da República, e vá em direção à saída da Rua 7 de Abril. Aqui o legal é notar os detalhes: as vidraças de entrada, os lustres, o mostrador de andares do elevador. Se o porteiro te olhar meio estranho, cumprimente e diga que você está apenas conhecendo o edifício: é a receita para receber um largo sorriso como resposta.

4. Túnel do tempo

Na 7 de Abril, você vai encontrar uma rua revirada, cheia de tapumes. Não se intimide, a paisagem confusa traz bons presságios para pedestres: desde o ano passado, a Prefeitura de São Paulo anunciou que a passagem vai virar um calçadão livre de carros. Ali, no número 356, está a galeria Itapetininga, um verdadeiro portal para um túnel do tempo. Ao longo de boa parte do caminho, você verá vitrines laterais em que competem brinquedos usados e antigos, moedas velhas, selos, figurinhas e toda sorte de objetos vindos de outras décadas. Siga em frente e o cenário vira outro: depois de percorrer metade da galeria, o métier das lojas muda para o de pedras semipreciosas.

5. Da Itá à R. Monteiro

A saída da Itapetininga fica no calçadão de pedestres da Rua Barão de Itapetininga. O próximo destino, a Itá, fica nessa mesma rua, no número 88. Quando chegar na esquina com a Rua Dom José de Barros, olhe para cima. Você vai ver alguns dos poucos exemplares de luminárias da década de 1910, da antiga companhia de eletricidade Light & Power. A galeria Itá não tem nada de muito especial, mas sua ligação interna com a R. Monteiro vai te conduzir à Rua 24 de Maio. Lá está o seu destino final, mas, antes disso, repare um pouco na R. Monteiro. O projeto, assinado pelo arquiteto Rino Levi, é um belo exemplar, apesar de degrado, das galerias do centro.

6. Um pouco de rock

Talvez a mais conhecida do centro de São Paulo, a Galeria do Rock, atrai diariamente centenas de jovens dos mais diferentes grupos: roqueiros, góticos, skatistas... Ali, o mais interessante não é a arquitetura, mas as pessoas. Nas lojas, você também vai encontrar todo tipo de comércio: discos, tatuagens, roupas, cabelereiros. Depois de toda essa caminhada, a fome vai apertar. Duas dicas ali ao lado para finalizar o passeio: um sanduíche de bauru no clássico Ponto Chique, no Largo do Paissandú, 27, ou um prato feito na tradicional Leiteria Ita, na Rua do Boticário, 31.

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Baluartes do Centro

Copan
Arquiteto: Oscar Niemeyer.
Projeto de 1951, inauguração em 1966.
Avenida Ipiranga, 200.

Com 1170 apartamentos e 5 mil moradores, o Copan é um dos principais cartões postais de São Paulo. Sua galeria térrea é uma das mais abertas do centro da cidade, com cinco acessos para moradores e transeuntes controlados de acordo com o fluxo de pessoas. Não há nivelamento de solo da calçada para o chão da galeria, assim, entre as lojas e cafés que dividem o espaço interno, o piso desce e sobe de acordo com a variação natural do terreno. Os estabelecimentos, contudo, tem o chão nivelado, o que faz com que do lado de fora deles sempre haja soleiras que se tornam verdadeiros bancos de praça, onde as pessoas sentam para conversar.

Conjunto Metrópole
Arquitetos: S. Candia e G. Gasperini.
Projeto de 1959, inauguração em 1960.
Praça Dom José Gaspar, 122-146.

O conjunto é formado por uma única torre comercial e uma galeria de cinco pavimentos, que pode ser acessada pela avenida São Luiz, pela rua Basílio da Gama e por sua entrada principal voltada para a arborizada Praça Dom José Gaspar, onde também fica a Biblioteca Mário de Andrade. A galeria se projeta para frente, para os lados e para trás da torre comercial, ocupando todo o lote do terreno. Um jardim interno reforça a presença das árvores da praça, fazendo com que a galeria pareça uma extensão dela. Muita coisa acontecia na Metrópole e seus arredores, o bar Jogral era reduto de músicos e boêmios, como o sambista Paulo Vanzolini.

Edifício Esther
Arquitetos A. Vital Brazil e A. Marinho
Projeto de 1935, inauguração em 1938
Praça da República, 64-80

Ao contrário do Copan e do Conjunto Metrópole, o Edifício Esther, vizinho da Praça da República, não é fruto da legislação de 1941, que incentivava a construção de espaços comuns no térreo das novas construções. Inaugurado em 1938, ele é um presságio dos novos edifícios que surgiriam na região. Primeiro com preceitos modernistas, deve ter causado impacto na época, já que sua vizinhança ainda era constituída, em sua maioria, de casarões baixos e chácaras. Seus andares misturam comércio e moradia e no térreo também há uma pequena galeria. No Esther, viveu o pintor Di Cavalcanti, quando morou em São Paulo, e também foi o lugar da primeira sede do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

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André de Oliveira no El País, Brasil.