Pós Carnaval: o conflito entre o desejo de ocupar a cidade e a civilidade - São Paulo São

Quem vê São Paulo lotada e frenética durante o Carnaval talvez nem lembre: há vinte anos a cidade era tão calma durante o feriado que a única notícia nos jornais era o clássico engarrafamento nas estradas. Paulistanos que gostavam de Carnaval iam à Bahia, ao Rio, Florianópolis, ao interior.


Festa em São Paulo, só nos clubes, um ou outro bloco e o Sambódromo. As ruas ficavam vazias.

Mudou a cidade. Mudaram as pessoas. No espaço de uma geração, a relação com a cidade mudou e o Carnaval é só um pedaço dessa mudança. Em linha com um “espírito do tempo”, o espaço público passou a ser disputado e não negado.

Em qualquer fim de semana, os parques do Ibirapuera, Carmo, Villa-Lobos estão cheios. Algumas pessoas comemoram aniversários nos gramados e chamam os amigos. Os bares estão lotados, há uma disputa pelas mesas nas calçadas. Ciclistas passeiam pela cidade, às vezes em grandes grupos, às vezes sozinhos nas ciclovias e ciclofaixas. O Mercado Municipal tem filas de gente em busca de seus gigantescos sanduíches de mortadela. Nos bairros centrais, parklets acomodam pedestres e clientes de bares. Nos CEUs, piscinas lotadas. No Centro, grupos de caminhantes exploram a cidade e guias turísticos explicam a história do Pátio do Colégio e da Casa da Marquesa. A rua voltou a fazer parte do cotidiano das pessoas.

Parque Villa-Lobos na zona sul de São Paulo. Foto: RSdBarros / Flickr.Parque Villa-Lobos na zona sul de São Paulo. Foto: RSdBarros / Flickr.

Mas, atenção: o uso do espaço público não acontece sem conflitos. Moradores do Minhocão sofrem com o barulho dos carros. Moradores da Roosevelt reclamam dos skatistas e dos shows. Moradores da Vila Madalena sofrem com a multidão em suas portas durante o dia e a noite.

Estamos diante do conflito entre o desejo de ocupar a cidade e a civilidade. Entre o prazer de estar na rua e o direito a estar tranquilo em sua casa.

Será que a cidade vai conseguir resolver esse conflito? Será que vamos ser capazes de achar espaço para pessoas se divertirem nas ruas da cidade sem que os moradores fiquem presos em casa, reféns do cheiro dos banheiros químicos e das garrafas de catuaba quebradas? Como discutir isso tudo de maneira que se possa chegar a algum consenso?

Os próximos anos vão mostrar se São Paulo consegue discutir e resolver seus conflitos de uma maneira civilizada e plural. Espero sinceramente que sim. Estivemos longe da rua por tempo demais e essa retomada dos espaços públicos é importante demais para a fruição da cidade e para o crescimento das pessoas. A maneira de resolver nossos conflitos vai mostrar se crescemos, de fato. como sociedade.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional.  *Artigo publicado originalmente no blog Caminhadas Urbanas do Estadão.