Eventos em São Paulo no espaço público, são um convite para falar sobre o amor - São Paulo São

Ainda há lugar para loucuras de amor? A psicóloga Camila Luz, de 34 anos, provavelmente diria que não se tivesse de responder a essa pergunta antes de 2014. Foi nesse ano que decidiu trocar de cidade, trabalho e estilo de vida para se casar com o grafiteiro André Mogle, de 32 anos. Tudo isso após exatos quatro dias de namoro – e alguns mais de conversas à distância.

A princípio, Camila foi ao evento para ser uma colaboradora, voltando-se mais a mediar as conversas. Mas, ao ouvir outras histórias, percebeu que também deveria compartilhar a sua. “Eu nunca teria saído de Penápolis(no interior de São Paulo). Fiz faculdade em Dourados, em Mato Grosso do Sul, porque tinha medo de ir para a cidade grande, não sabia nem o que era grafite, mas eu precisava encontrar o André de novo”, diz ao se referir ao marido, a quem conheceu durante o réveillon de 2014 no litoral paulista.

O relato que motivou a psicóloga foi de Lindsey Padilha, de 30 anos, que conheceu pelo telefone Jason Rodrigues, de 29 anos. Então funcionária de uma agência de viagens de Porto Alegre, ela atendeu o futuro marido sobre um pacote para a Alemanha. As conversas levaram a uma “empatia natural”, quase um “amor à primeira escuta”, que vai virar casamento em 9 de dezembro. Eles já moram juntos há um ano e meio, mesma época em que abriram uma agência de viagens em São Paulo. Ao saberem do Senta Aqui, Vamos Falar de Amor!, resolveram visitar. “Me chamou a atenção o nome. Sinto falta de eventos com olho no olho”, diz.

Com o Dia dos Namorados e a proximidade do casamento, Lindsey achava estar na hora de passar a relação “a limpo” – e o evento era a oportunidade ideal para isso. “Cada vez que a gente conta é diferente, porque repensamos o que aconteceu. Fazer isso na frente de desconhecidos e a forma com que nos receberam me fez perceber que mais pessoas estão em busca de amor”, comenta.

Lindsey Padilha, de 30 anos, conheceu pelo telefone Jason Rodrigues, de 29 anos. Foto: Werther Santana / Estadão.Lindsey Padilha, de 30 anos, conheceu pelo telefone Jason Rodrigues, de 29 anos. Foto: Werther Santana / Estadão.Tinder no Divã

Em agosto de 2015, Ana Clara Cartagena Reis criou perfis nos aplicativos Tinder e Happn com a foto de um coração partido. No campo da descrição, convidava usuários a falarem sobre relacionamentos. Por um ano, reuniu centenas de relatos sobre o tema, os quais pretendia reunir em um blog e estudar em seu mestrado. “O número de homens héteros que me procuravam era muito menor e envolvia questões mais pontuais, como uma separação recente. Já os homens gays e as mulheres queriam discutir relações como um todo, de forma mais profunda”, compara.

Ela relata que apenas uma vez foi perguntada sobre como reuniria os relatos. “Até estranhava, mas a vontade de falar era tanta que essas pessoas não se preocupavam: sempre deixei claro que não citaria nomes. O aplicativo também dá uma sensação de segurança por conversar com alguém que não está na sua frente”, diz.

No lugar do blog, a psicóloga resolveu levar o projeto para a rua em abril, colocando cadeiras e almofadas em locais de São Paulo, como o Minhocão e a Praça Dom José Gaspar, ambos no centro. Em um quadro, provocava os passantes com a pergunta “Vamos falar de amor?”.

“Acho que só de ler a frase, ela já suscita uma reflexão, mesmo que a pessoa não se aproxime. Todo mundo está precisando parar para pensar sobre amor, mas ninguém faz isso”, argumenta. “Os padrões podem ser cruéis para quem não se encaixa, o que vai do amor romântico até o poliamor. Até brinco que o projeto deveria se chamar Tinder no divã: a busca de um encontro realmente amoroso.”

Senta Aqui

Lançado em novembro, o projeto também ocupa locais públicos, como o Copan e a Avenida Paulista. “Não é terapia. É quase uma conversa de praia. Queremos humanizar a calçada. Crescemos rápido, parece que a cidade demandava isso”, diz a coordenadora Patricia Martins.

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Por Priscila Mengue em O Estado de S. Paulo.

 



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