Avenida Paulista: para todas as tribos, o lugar dos encontros da cidade - São Paulo São

A fundação da Av. Paulista, em 1891, foi um marco na cidade. Apesar de São Paulo já ter um boulevard – a Avenida Tiradentes – nada se comparava à grandiosidade da nova avenida, construída no alto de um espigão, como coroamento do loteamento capitaneado pelo uruguaio Joaquim Eugênio de Lima.

Laboratório das experiências de diversidade na cidade, a Paulista foi a primeira via asfaltada da capital, em 1909, com material importado da Alemanha. Na montagem a Avenida na época e nos dias de hoje.Laboratório das experiências de diversidade na cidade, a Paulista foi a primeira via asfaltada da capital, em 1909, com material importado da Alemanha. Na montagem a Avenida na época e nos dias de hoje.A avenida atraiu os paulistanos desde a inauguração para visitarem o magnífico espaço. Era no lugar mais alto da cidade. Tinha belas vistas. O belvedere dava para o vale do Riacho Saracura, com vista para o centro da cidade. Em frente a ele, um pedaço intocado de mata – o atual parque Siqueira Campos, o Trianon. O leito da avenida era dividido em três partes; de um lado, a via destinada aos bondes; no centro, a área para carruagens e do lado direito para cavaleiros. A Paulista era distante do centro, mas teria acesso por bonde elétrico já em 1900.

Mesmo com as pessoas vindo de outras partes da cidade para conhecer a novidade, a Av. Paulista era, em si, uma contradição: no momento da modernização da cidade, a rua tinha as calçadas, o simbolismo e as casas, mas talvez não tivesse, nessa época, o brilho da diversidade, a presença da multidão.

Av. Paulista na década de 1910, apenas bondes e pedestres. Imagem: São Paulo Antiga.Av. Paulista na década de 1910, apenas bondes e pedestres. Imagem: São Paulo Antiga.Era um espaço representativo da grandeza da cidade, mas que só viria assumir seu papel na modernidade a partir dos anos 1950, quando os primeiros edifícios comerciais se instalam nos lotes das antigas mansões art-nouveau, postas abaixo sem muita consideração pelo seu valor histórico. É o momento em que surgem os símbolos maiores da avenida: o Conjunto Nacional (1956) e o MASP (1968).

O Conjunto Nacional, que ocupou toda a quadra na intersecção com a Rua Augusta, é um complexo multi-uso incensado por ter uso residencial, escritórios e comércio bem variado no térreo, livrarias, cinemas, lojas e bares, além do restaurante e da confeitaria Fasano (fechada em 1973). Mais importante ainda, ele criou um espaço público invejável no térreo, possibilitando a passagem entre as ruas e sendo pioneiro na “fruição” que hoje faz parte do Plano Diretor da Cidade.

Já o MASP tem o mesmo efeito de criação de espaço público sob a grande laje do museu. Interessante é que o vão livre foi uma imposição do loteamento original, que exigira que nenhuma construção tapasse a vista do vale onde se instalaria a 9 de Julho.

Avenida Paulista (Masp), 1984, óleo sobre tela de Sérgio Bertoni, do acervo do museu.Avenida Paulista (Masp), 1984, óleo sobre tela de Sérgio Bertoni, do acervo do museu.A nova vocação da avenida

O movimento da avenida aumentou nas últimas décadas do século XX, atraídas pelas ofertas de trabalho, pela moradia no entorno, pelos vários hospitais e pelas crescentes opções de lazer.

Há quem sustente que uma das primeiras grandes manifestações de ocupação do espaço tenha ocorrido durante as comemorações do título paulista do Corinthians, em 1976.

O fato é que a avenida começou a ser cada vez mais o palco de comemorações, protestos, paradas, eventos, desde a Corrida de São Silvestre até o Réveillon oficial da Prefeitura de São Paulo. A qualquer época do ano é fácil encontrar pessoas celebrando alguma coisa.

Em 1991, a instalação da linha verde do metrô dinamiza ainda mais a avenida, facilitando acesso e estimulando uso noturno.

É significativo que os únicos cinemas de rua que sobraram na cidade estejam na região da Paulista: Belas Artes, Reserva Cultural, Espaço Itaú de Cinema, os cinemas do Conjunto Nacional, que mudaram de nome algumas vezes nas últimas décadas, e o Bristol, dentro de um pequeno shopping, mas cuja frente se abre para as performances de artistas de rua, que atraem, por sua vez, pequenas multidões.

Nesse meio de 2017, vemos o lançamento de mais dois novos pólos culturais, o Instituto Moreira Salles e a Japan House, cada um num extremo da avenida. Entre eles, as multidões que tomam conta da avenida, em vários horários na semana, e durante todo o domingo, ocupando até o lugar dos carros.

Em 2017, um 'esquenta' para o Carnaval do bloco ‘Tarado Ni Mim‘, levou milhares de foliões à Paulista. Foto: Hangar Filmes.Em 2017, um 'esquenta' para o Carnaval do bloco ‘Tarado Ni Mim‘, levou milhares de foliões à Paulista. Foto: Hangar Filmes.

O laboratório para uma nova cidade

Talvez seja essa mesmo a nova vocação da Paulista, ser o lugar de encontro dos paulistanos. Por isso mesmo, é lá também que aparecem os conflitos entre a vontade de ocupar a cidade e as pré-existências. Moradores, comerciantes, ciclistas, pessoas que querem passear, músicos de rua, skatistas, executivos, camelôs.

A mistura é explosiva, mas necessária e até essencial. É nesse laboratório que vamos poder assistir à experiência de uma cidade que se renova e que obriga os gestores municipais a desenvolverem uma nova e importante habilidade nesses tempos: a negociação de conflitos.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas do Estadão.