Praça Roosevelt: 5 anos depois da reforma, muita gente e pouco cuidado com o espaço público - São Paulo São

Foto: Mauro Calliari.Foto: Mauro Calliari.

Cinco anos atrás, em 29 de setembro de 2012, a Roosevelt estava sendo reinaugurada.

Em poucos dias, a praça se encheu de gente. Moradores do entorno, skatistas de toda a cidade, donos de cachorro e crianças ocuparam os espaços durante o dia enquanto os teatros e bares traziam pessoas durante a noite.

A praça tinha ganhado bancos com cobertura de madeira, canteiros com árvores que prometiam crescer e, principalmente, uma esplanada, que ligava a Augusta à Consolação e uma conectividade com a rua. Ao contrário do projeto modernista da década de 1970, que dividiu o espaço em planos acessíveis por escadas e que facilitou a sua deterioração, o projeto de 2012 era simples, talvez até simples demais, mas funcional.

E as pessoas aprovaram o novo espaço, da maneira mais óbvia, usando a praça. Veja aqui o link da filmagem em time lapse de um fim de semana.

E hoje, cinco anos depois, como anda a praça?

Manutenção ruim

O lado mais visível é que a manutenção anda bem ruim. Depois de 5 anos, o que vemos na praça é aquela falta de cuidado com os pequenos elementos que fazem a diferença para quem está lá:

Banco da Praça em 2012. Foto: Mauro Calliari.Banco da Praça em 2012. Foto: Mauro Calliari.

O banco em 2017. Foto: Mauro Calliari.O banco em 2017. Foto: Mauro Calliari.

A madeira dos bancos foi retirada, depois de ser maltratada pelo uso constante e inadequado como plataforma de skate.

Canteiros em 2017. Foto: Mauro Calliari.Canteiros em 2017. Foto: Mauro Calliari.

Os canteiros estão mal-cuidados e as árvores não cresceram, provavelmente em virtude do fato de terem sido plantadas sobre uma camada muito rasa de terra. A Roosevelt continua árida e quente em dias de sol.

Parquinho em 2012. Foto: Mauro Calliari.Parquinho em 2012. Foto: Mauro Calliari.

Parquinho em 2017. Foto: M.CalliariParquinho em 2017. Foto: M.Calliari

O parquinho, que na inauguração vivia cheio de crianças, está melancolicamente abandonado, sujo e vazio. Os brinquedos estão parcialmente destruídos. A comparação com a foto que eu tirei em 2012, cheia de crianças e um gramado limpinho, é de dar dó.

Mesas de bar. Foto: Mauro Calliari.Mesas de bar. Foto: Mauro Calliari.

O pergolado melhorou com o surgimento de um café e uma lanchonete com mesinhas. A sombra, mesmo parcial, atrai pessoas durante o dia e o lugar fica cheio até seu fechamento, às 22hs. Locais de comida são uma ótima iniciativa para as praças, pois aumentam a segurança e o tempo de permanência.

A segurança do local parece estar funcionando, com a instalação da base da Polícia Militar e outra da GCM.

O mais importante: as pessoas na praça

O mais interessante é que, mesmo com os problemas, as pessoas continuam usando a praça, de dia e de noite, desde os grupos de estudantes durante o dia até os frequentadores dos teatros à noite.

O pergolado em uso. Foto: Mauro Calliari.O pergolado em uso. Foto: Mauro Calliari.

Se houvesse um termômetro da saúde de uma praça, uma das medidas seria a presença de pessoas diferentes em horários diferentes. A convivência entre os grupos distintos, porém, expõe a falta que faz uma mediação do conflito. Pessoas diferentes exigem coisas diferentes. Os moradores do entorno, por exemplo, agüentaram anos de deterioração na praça até que ela fosse reformada. Depois da reforma, convivem agora com o barulho e o excesso de pessoas. Um acordo informal com os skatistas reduziu o barulho depois das 22hs, mas mesmo isso não é uma garantia de que se possa dormir à noite.

A Roosevelt é símbolo da idiossincrasias de São Paulo 

A Roosevelt é uma praça que pode contar muito sobre a história da cidade. A cada uma das fases de São Paulo, ela parece assumir uma identidade diferente. Assim, inicialmente, o local da praça era uma área ao redor da Igreja da Nossa Senhora da Consolação, construída em 1799, à beira do caminho dos Piques. A região foi sendo ocupada pelas chácaras da elite econômica da cidade, como a do casal Martinho e Veridiana Prado, que ficava no grande terreno contíguo à Igreja.

O loteamento dessas fazendas deu origem a um arruamento e ao início da urbanização, com o surgimento da Rua Florisbela, posteriormente chamada de Nestor Pestana na área que ocupava o velódromo, uma das novidades introduzidas pela agitadora cultural.

A área remanescente do terreno continuou em poder da família até ser entregue ao poder público na década de 1930. A área em volta à Igreja deu origem à Praça da Consolação, nome que manteve até 1950, quando se decidiu homenagear o ex-presidente americano Franklin D. Roosevelt.

O vazio em meio à cidade

A praça Roosevelt em 1970. Foto: Revista Acrópole, n.o 32, edição 379 - novembro de 1970.A praça Roosevelt em 1970. Foto: Revista Acrópole, n.o 32, edição 379 - novembro de 1970.Entre as décadas de 1950 e 1960, a Praça Roosevelt virou uma grande área asfaltada, vazia, em meio aos prédios residenciais, lojas, bares, restaurantes e teatros que cresceram em sua volta. Nos dias úteis, tornava-se um grande estacionamento; Nos finais de semana, abrigava aos sábados uma feira bastante concorrida e aos domingos a missa na Igreja. À noite, recebia os frequentadores e artistas que percorriam os ícones da região, como o Baíuca, a doceria Vendôme, o Sujinho, o Cine Bijou e o Teatro Cultura Artística.

O projeto modernista

A Praça Roosevelt na década de 1970. Foto: Acervo Estadão. A Praça Roosevelt na década de 1970. Foto: Acervo Estadão.

A ligação leste-oeste implantada na década de 1970 veio a mudar radicalmente a configuração do local. As obras viárias rasgariam a praça e um novo projeto foi concebido para funcionar como uma “tampa” sobre os veículos.

Esse projeto deveria refletir a modernização da cidade, segundo seus idealizadores e a prefeitura: Os cinco andares da praça abrigariam estacionamento subterrâneo, centro esportivo, centro educacionais, polícia, lojas de souvenir, um centro cultural (que não foi executado) e um mercado distrital (trocado posteriormente por um supermercado).

Como se suspeitava, a utilização foi decaindo com o tempo. A degradação física se acentuou na década de 1980 e 90. A praça sofria cada vez mais com violência, sujeira, poluição visual e obstrução do trânsito para pedestres – e coincidiu com o fechamento de lojas, bares e restaurantes no seu entorno.

A reforma de 2012

A praça em 2012. Foto: Mauricio Cremonini.A praça em 2012. Foto: Mauricio Cremonini.

No ano 2000, o grupo de teatro Os Satyros se instalou ao lado da praça. Sua chegada é emblemática por trazer novos usos para a Praça, estimular a vinda de novos públicos e de outros grupos e, principalmente, por ser um porta-voz da urbanidade e da convivência entre grupos diferentes no mesmo espaço.

As discussões sobre uma possível reforma da praça ganharam força em 2004, quando a cidade conseguiu um grande financiamento do BID para o programa Procentro, destinado a promover melhorias no ambiente urbano da área Central. Apesar disso, ainda foram necessários mais cinco anos até que o novo projeto fosse aprovado.

Hoje, um espaço que reflete a complexidade de São Paulo

A Praça Roosevelt é das pessoas. Foto: Mauro Calliari.A Praça Roosevelt é das pessoas. Foto: Mauro Calliari.Todo esse processo conta parte da história da própria cidade: o abandono dos espaços públicos, a retomada a partir da iniciativa das próprias pessoas, o poder público que paga por um novo projeto, mas não consegue conciliar interesses distintos nem fazer uma manutenção digna.

Como pano de fundo disso tudo, existe a vontade das pessoas de estar na praça. Elas vêm de perto ou de longe para tomar sol, ler, andar de skate, levar o cachorro para passear, tomar um café, assistir a uma peça, encontrar outras pessoas.

Essa vontade de ocupar os espaços públicos merece ser comemorada no aniversário de cinco anos da praça.

Com os votos de que nos próximos cinco anos nós possamos ver avanços na infraestrutura, na manutenção, na mediação dos conflitos e no prazer de freqüentar um espaço tão importante quanto simbólico na história da cidade.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas.