A cultura do carro: o que ela diz sobre nós mesmos?

Quem já se interessou pelo tema da mobilidade sabe que o advento do carro trouxe diversas mudanças importantes relacionadas ao ambiente construído das cidades e à vida das pessoas. Essas transformações já foram e ainda são amplamente discutidas nos mais diversos campos de estudo. Na história, por exemplo, ele serve como recorte do período da industrialização, na engenharia ele é relevante na tecnologia de motores, e no planejamento urbano é estudado pelo seu papel no processo de urbanização.Da sua invenção até os dias de hoje, o carro foi ganhando espaço e tornou-se cada vez mais presente em ruas e prédios, sendo incorporado na vida cotidiana e na imaginação das pessoas.

Anos após a adoção de um modelo em que o carro pudesse transitar pelas cidades e entre elas, diversos problemas emergiram sinalizando a necessidade de repensarmos nossas cidades, bairros e ruas para serem menos dependentes dele. Nesse contexto, precisamos entender como rever o espaço que ele ocupa na dimensão física tal qual na simbólica.

Mais do que um produto ou um meio de transporte, o carro é hoje um estilo de vida disseminado nos quatro cantos do mundo. Tanto que, para expressar o significado simbólico e social em torno dele, foi difundido em muitas línguas diferentes o termo ‘cultura do automóvel’ com seus diversos contornos temporais e geográficos. Aqui, vamos discutir três abordagens do que seria essa ‘cultura do automóvel’: primeiro, compreender o carro como produto e seu papel no consumo, seguido pelo seu significado social e, então, sua relação com a nossa humanidade.

1. Carro é um produto multifuncional

Inicialmente, o carro era restrito às classes mais ricas e usado apenas para o lazer, levando pessoas da cidade para o interior aos finais de semana. Chevy BelAir, 1957. Foto:

Podemos olhar para o carro, antes de tudo, como um produto consumido por pessoas. No entanto, ele possui algumas singularidades, principalmente quando consideramos a dimensão multifuncional e experimental que permite ao usuário explorar seu uso e até criar novos. Considerando essa perspectiva, o carro foi, desde sua criação, um produto que possibilitou a inovação no cotidiano social [1], sendo suas possibilidades ampliadas ao longo do tempo juntamente com o uso e a expansão do consumo para uma maior variedade de grupos.

Inicialmente, o carro era restrito às classes mais ricas e usado apenas para o lazer, levando pessoas da cidade para o interior aos finais de semana. É só no início do século XX que o carro se torna mais acessível à classe média e que a má qualidade do transporte público ajuda a construir uma narrativa do automóvel como meio de transporte. A ampliação das possibilidades sociais do carro para os deslocamentos diários atinge seu auge nas décadas de 1950 e 1960 na maioria dos países desenvolvidos [2], confirmando o caráter multifuncional e experimental do carro. Nessa nova configuração, não apenas o carro ganhou novos usos como ele desencadeou a criação de diversos outros produtos e serviços para suportar suas necessidades: shoppings, cinemas ‘drive-in’, grandes centros de compra (supermercados e outros), restaurantes com drive thru, postos de gasolina, motéis e outras acomodações turísticas, e impulsionou o desenvolvimento imobiliário em áreas afastadas do centro. 

Se considerarmos o carro como um produto no qual o usuário foi aos poucos moldando sua vida social, nos aproximarmos da abrangência de atividades realizada no e pelo carro nos dias atuais, como: dormir, comer, trabalhar, fazer sexo, assistir a um filme, ouvir as notícias, se aquecer ou se refrescar, proteger-se da chuva, guardar objetos, ler, colocar o bebê pra dormir, tocar música em uma festa e assim por diante. Mais do que transportar pessoas, o carro foi sendo adaptado ao longo do tempo pela indústria automobilística para permitir essa nova diversidade de hábitos e atividades, numa interação social entre o design e os diferentes usuários. A possibilidade de expansão de usos é fundamental para entender o entusiasmo criado em torno do carro uma vez que, quanto mais atividades os usuários podem fazer com um produto, mais popular ele se torna [3].

2. O significado social do carro

O carro carrega significados para além de sua representação inicial como produto, e que estão em constante mudança ao longo do tempo e dos contextos em que está inserido [4]. Como descrito anteriormente, no início ele simbolizava o “brinquedo do homem rico”, sendo posteriormente representado como um veículo de transporte. Com a popularização do carro, vários significados diferentes emergiram dele, com identidades e papéis sociais atribuídos ao seu usuário. É por isso que estudiosos, como John Urry, sugeriram que deveríamos “abandonar a idéia do carro como uma coisa, um simples objeto de produção e consumo, e considerá-lo como um sistema de práticas sociais e técnicas interligadas que reconfigurou a sociedade civil” [5].

Os proprietários de carros estavam cientes dessa diferenciação de valor, baseada em estética e acessórios, e na distinção social que lhes era atribuída. Show room no Chicago Auto Show, 1974. Foto: Pinterest.

Essa construção social de significados que indica a posição de classe de um indivíduo através de seu carro foi amplamente estudada nos Estados Unidos. No país, na década de 1920, a única razão que impedia as pessoas de ter um carro era sua renda. A restrição de um automóvel novo entre famílias de baixa renda impulsionou o mercado de carros usados, no qual os proprietários foram encorajados a substituir seus veículos por um modelo mais caro e  com mais acessórios. Num contexto de mercado saturado, onde a indústria automobilística teve que incentivar a substituição de modelos, passou-se a ressaltar a importância da aparência, design, beleza e inovação tecnológica, criando uma hierarquia de preços que refletia o valor do produto [6]. Os proprietários de carros estavam cientes dessa diferenciação de valor, baseada em estética e acessórios, e na distinção social que lhes era atribuída.

Nas décadas seguintes, a posse de um carro se tornaria sinônimo de “boa vida” e status. Para a classe trabalhadora, ele passou a ser a ferramenta que lhes permitia ter lazer e escapar dos aspectos desumanizantes do seu dia-a-dia, sendo visto uma solução para certos problemas sociais [8]. Uma vez que o carro criava a liberdade de acessar qualquer lugar da cidade – e fora dela -, ele permitia negar a segregação de classe, criando um sentimento de mobilidade social no qual seria possível melhorar seu status. É nesse contexto que surge a ideia de mudança anual do modelo do carro, com pequenas transformações no design e acessórios, estratégia que convencia os usuários de que seus carros estavam melhorando porque pareciam mais com carros da burguesia e, assim, de que suas vidas também estavam melhorando.

A mudança simbólica aconteceria na década de 1960 com a constatação do automóvel como um grande problema social. Foto: ABC News.

Quando problemas relacionados ao trânsito nas cidades, como congestionamento e falta de vagas, começaram a aumentar em muitas cidades, a resposta foi implementar políticas para acomodar o carro, mantendo o status quo do seu significado social. A mudança simbólica aconteceria na década de 1960 com a constatação do automóvel como um grande problema social, revelado pelos movimentos ambientalistas e de consumo [9]. Ainda assim, com o surgimento de um novo padrão de consumo, que é seguido pela indústria automobilística, o carro passa a simbolizar um modo de vida. Com uma oferta variada de modelos, o indivíduo passa a escolher um carro que expresse seu estilo de maneira mais personalizada. Não mais uma expressão de distinção de classe de um grupo, o carro se torna uma marca da identidade do indivíduo em meio a muitos tipos de modo de vida.

3. Carro e a humanidade

Outro aspecto a ser debatido com relação à cultura do carro é a humanidade do automóvel, ou seja, o grau em que ele se tornou parte integrante do ambiente cultural dentro do qual nos vemos como humanos. Embora muitos estudos enfoquem em sublinhar as conseqüências negativas da relação homem-carro, poderíamos entender de maneira mais profunda o papel do carro na mediação do que nos define como seres humanos, uma vez que criamos o ambiente do carro como nosso próprio ambiente.

Ao dirigir, a conexão criada entre o carro e o humano vai além da dimensão mecânica e chega à psicológica e emocional. Foto: Getty Images.

Confrontando a ideia do carro como a antítese da natureza, o estudioso Daniel Miller apontou para o fato que o ato de dirigir se tornou tão natural que sua prática diária não requer nenhuma mediação consciente [10]. Ao dirigir, a conexão criada entre o carro e o humano vai além da dimensão mecânica e chega à psicológica e emocional. Um certo esquecimento do eu é possível quando o controle do automóvel se torna inconsciente, numa relação próxima entre movimento e emoção. “Parecia vivo sob minhas mãos, alguma criatura de metal criada pelo vento e pela velocidade … Corria como o vento. Eu corri como o vento. Foi como se eu me tornasse o carro, ou o carro se tornasse eu, e que era o que não importava mais” [11]. Nesse sentido, podemos considerar que, assim como o carro seria uma extensão de nós mesmos, definindo quem somos e nossa humanidade, também o carro poderia ser humanizado.

No espectro do carro definindo nossa individualidade, Daniel Miller ilustrou o estudo que ele realizou em Trinidad, onde ele “logo aprendeu que os indivíduos eram localizados mais frequentemente através do carro estacionado em frente a uma casa do que pelo número da casa” [12]. Através de personalizações internas e externas, as pessoas passaram a construir intimidade na relação homem-carro e reforçaram a importância dele como um elemento da sua identidade. No outro espectro, a humanização do carro seria enfatizada nas práticas de cuidado de carro – lavagens frequentes de carros, pequenos reparos, ou mesmo normas sobre como fechar a porta do carro sem bater – mas também através da personificação – nomeação de veículos, criação de personagens de carros em filmes, atribuição de qualidades e sentimentos humanos. Em ambos os cenários, há um investimento emocional na criação de afeto, de modo que o carro desempenha um papel importante na forma como nos vemos, como vemos o outro e em como nos relacionamos, estando integrado com a sua humanidade nas redes públicas de sociabilidade e também na nossa imaginação.

Ao considerar a intimidade e o afeto, fica mais claro até que ponto o carro e todas as suas externalidades, como trânsito, lesões, poluição, são realizadas na vida cotidiana das pessoas. Nos conflitos comuns dentro de um ambiente naturalizado, o carro representa uma ferramenta pessoal e única para lidar com a frustração e o fracasso do dirigir. É dentro deste pequeno e confinado mundo próprio chamado carro que as pessoas podem enfatizar sua humanidade através da experiência de dirigir. Segundo Daniel Miller, o elemento chave para entender a ambiguidade dentro da frustração e do refúgio seria a capacidade de um carro se desligar do mundo. Aqui, a música desempenha um papel vital em criar dentro do carro “mais um espaço em casa que a própria casa” [13], tão confortável e privado quanto o sofá da sala de estar. Imersos em um ambiente feito para o carro e considerado como nosso próprio ambiente, o modo de expressar nossa humanidade, ou seja, existir e não existir, se dá através do carro.

O que está em jogo na persistência da cultura automobilística é o sentimento de “inevitabilidade do carro” . Cena do desenho animado Cars. Imagem: Divulgação.

As várias tentativas e perspectivas diferentes para explicar o entusiasmo, o afeto e a identificação dos seres humanos com carros revelam a complexidade que está enraizada nessa relação. Grande parte da literatura sobre a cultura do carro busca compreender a inserção social e cultural do automóvel em nossas sociedades como forma de superá-lo. Tendo moldado profundamente nossos ambientes e vidas, a cultura automobilística traz preocupações e contradições que nos fazem imaginar como seria um mundo sem carros e refletir seriamente sobre uma transição para práticas mais sustentáveis.

Dentro do estado da arte do automóvel, emergem dimensões ambivalentes em relação à consciência das questões ambientais de um lado, e os compromissos de um modo de vida do outro. O que está em jogo na persistência da cultura automobilística é o sentimento de “inevitabilidade do carro” aninhado nas práticas, reconhecimentos e emoções de nossa humanidade. No caminho para a fraqueza ou superação, enquadrar o carro como peça integrante da cultura humana é fundamental para entender essas significações e encorajar um uso mais racional que priorize e dê espaço também outras práticas.

Referências

[1] Bladh, Mats. “Origin of Car Enthusiasm and Alternative Paths in History.” Environmental Innovation and Societal Transitions, 2018.
[2] Parment, Anders. “Auto Brand”. Kogan Page, 2014.
[3] Bladh, Mats. “Origin of Car Enthusiasm and Alternative Paths in History.” Environmental Innovation and Societal Transitions, 2018.
[4] Gartman, David. “Three Ages of the Automobile: The Cultural Logics of the Car”. Theory, Culture & Society, vol. 21, no. 4-5, 2004, pp. 169-195.
[5] Urry, John (2000) Sociology beyond Societies: Mobilities for the Twenty-first Century.
[6] Flink, James. “The Car Culture”. The MIT Press, London;Cambridge (Mass.), 1978.
[7] Bourdieu, Pierre (1984) Distinction: A Social Critique of the Judgment of Taste. Cambridge, MA: Harvard University Press
[8] [9] Gartman, David. “Three Ages of the Automobile: The Cultural Logics of the Car”. Theory, Culture & Society, vol. 21, no. 4-5, 2004, pp. 169-195.
[10] Miller, Daniel (ed.). “Car Cultures”. Oxford: Berg, 2001.
[11]  Lesley Hazleton citada em Sheller, Mimi. “Automotive Emotions: Feeling the Car”. Theory, Culture & Society 21, 2004, p. 11.
[12] [13] Miller, Daniel (ed.). “Car Cultures”. Oxford: Berg, 2001.

***
Por Rafaella Basile no Cidade Ativa. Edição: São Paulo São.

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