A São Paulo de Rita Lee

É um luxo conhecer um pedaço de São Paulo das décadas de 1950 e 60 pelos olhar especialíssimo da menina que viria a ser uma das cantoras mais importantes do Brasil, e uma das poucas paulistanas na cena artística brasileira.

Os bondes – Rita Lee ia de bonde da sua casa, na Vila Mariana até a escola, os cinemas, o centro. Os trilhos são parte das referências da sua cidade: a doceria Kopanhagen, onde ela comia o Açucar Candy ficava na parada final; o cinema Leblon ficava “duas paradas de bonde em direção ao centro”. A propósito, os bondes fizeram parte da rotina dos paulistanos até seu melancólico fim, em 1967.

A feira – Como para várias outras famílias, a feira também era um programa semanal para a família Jones. Enquanto os adultos faziam as compras da casa, as meninas iram atrás das balinhas.
O aeroporto – O programa de sábado à tarde era assistir aos aviões pousarem e decolarem de Congonhas. As meninas, molecas, fingiam conhecer os passageiros que partiam e mandavam gritos e gestos exagerados, que, embasbacados, respondiam animadamente.

A floresta do Ibirapuera – O Parque do Ibirapuera foi inaugurado em 1954. Pois a família de Rita Lee frequentava essa área antes disso. Eles abriam um espacinho entre as árvores e até plantavam coisas por lá: cana, café, milho, verduras, legumes. A inauguração do parque acabou com a plantação e os piqueniques, para desconsolo de seu pai, Charles.

A vida na rua – A partir do seu “casarão” na rua Joaquim Távora, Rita e suas irmãs exploravam a rua, interagiam com os vizinhos, faziam brincadeiras com os passantes, andavam de bicicleta e até participavam da procissão da sexta-feira da Paixão…

Os cinemas – Surpreendentemente para quem vê os poucos cinemas de rua em São Paulo de hoje, naquela época, cada bairro tinha o seu. Ou vários: Rita conta de ir a pelo menos a quatro cinemas diferentes na região da Vila Mariana; o Cruzeiro, o Phoenix, o Cine Leblon, onde ela assistia aos festivais do Tom e Jerry, e o Liberdade, com programação “só para adultos”. Para assistir 14 vezes ao Hard Day´s Night, dos Beatles, alguns anos mais tarde, ela tinha que ir de ônibus até o cine Metrópole.

Rita e parte da família na Vila Mariana. Foto: Reprodução do livro.

As viagens – O Guarujá da infância de Rita era “um paraíso perdido”. Outra cidade para onde a família viajava, Rio Claro, onde morava parte da família da parte de mãe, ainda era um lugar onde as crianças podiam cometer aventuras como entrar na fonte da praça principal…

No livro, as memórias da rua vão dando lugar à música, aos festivais, aos discos, casamento, filhos, viagens, baladas, internações, mortes. A vida segue mas dá para ver como as memórias da infância são fortes, sensoriais, essenciais. O livro é ótimo. E mais ainda para quem quiser viver um pouco da cidade de São Paulo em outras épocas, a partir da prosa fácil de Rita Lee.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional.  *Artigo publicado originalmente no blog Caminhadas Urbanas do Estadão. 

 

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