Ainda não é verdade que 8 em cada 10 pessoas vivem em áreas urbanas

Segundo, a regularidade na dimensão das populações urbanas, conhecida como Lei Zipf, permite que estimemos a população das cidades com mais de 5 mil pessoas com bastante precisão. Seguindo esse modelo, estimamos que 3,6 bilhões de pessoas viviam em cidades em 2010, aproximadamente 52% da população mundial.

Terceiro, o baixo “limiar da densidade urbana” adotado pela Comissão Europeia resulta na inclusão de regiões inteiras de terras de cultivo assim como áreas de periferia mais levemente povoadas das cidades como sendo urbanas.

A Comissão classifica uma densidade de 300 pessoas por quilômetro quadrado como seu limiar da densidade urbana. Pode parecer um número plausível, mas, após uma avaliação mais profunda, acaba sugerindo que, em média, a área de um único terreno residencial na periferia de cidades ricas e pobres teria aproximadamente o tamanho de dois campos de futebol.

O resultado disso é um registro superestimado das cidades, exagerando seus tamanhos. Um limiar tão baixo também classifica erroneamente muitas regiões agrícolas densamente povoadas como urbanas. Em Java, na Indonésia, por exemplo, 96% da população vivendo em terras de plantio são classificadas como urbanas.

Agricultores trabalham em área irrigada na zona rural do interior da Índia. Foto: India News.

Globalmente, de acordo com a Comissão Europeia, cidades ocupavam 2,27 milhões de quilômetros quadrados em 2015 e cobriam 7,6% da área terrestre do nosso planeta (ainda que isso já pareça estranho: dividindo 2,27 milhões de quilômetros quadrados pela área terrestre global correta leva a um total de 1,5% de área urbana, de acordo com a nossa matemática¹).

Se alguém pretende acreditar nas estimativas da Comissão Europeia, então essa pessoa pode concluir com segurança que as cidades precisam parar de crescer agora mesmo e que tudo deve ser feito para contê-las. Se o mundo já é 84% urbano, então essa pessoa deve também concluir que a era da urbanização – a incansável migração de pessoas de aldeias para cidades – chegou basicamente ao seu fim.

Da nossa parte, acreditamos que essa tendência não está de forma alguma no fim, e que ainda temos uma oportunidade para preparar as cidades de países menos desenvolvidos para absorver os mais 2,5 bilhões de novos habitantes até 2050, muitos dos quais ainda moram em áreas rurais atualmente. De acordo com os últimos dados da ONU, para cada pessoa a mais nas cidades em países mais desenvolvidos, 18 mudam-se para cidades em países menos desenvolvidos.

Além de reequipar e possivelmente densificar as cidades existentes – o que, se quisermos acreditar na Comissão Europeia, é o que nos resta fazer – acreditamos que preparar cidades para a expansão inevitável e maciça nas próximas décadas, enquanto fazemos cidades mais produtivas, mais inclusivas, mais sustentáveis e mais resilientes ao clima, é o principal desafio que enfrentamos.

Nota:

1. A Comissão Europeia percebeu que seu cálculo inicial de área terrestre foi um erro e será corrigido na edição de 2018 do Atlas do Planeta Humano.

***
Esse artigo foi escrito por Shlomo Angel, Patrick Lamson-Hall, Bibiana Guerra, Nicolás Galarza e Alejandro M. Blei e publicado originalmente em TheCityFix
Via WRI Brasil.

Shlomo (Solly) Angel é professor de Planejamento Urbano no Instituto Marron da Universidade de Nova York e lidera o Programa de Expansão Urbana da NYU e o Projeto Stern de Urbanização da NYU.

Patrick Lamson-Hall é um pesquisador; Bibiana Guerra é economista e profissional de gestão e desenvolvimento urbano; Yang Liu é um pesquisador; Nicolás Galarza é pesquisador acadêmico; e Alejandro M. Blei é pesquisador do Programa de Expansão Urbana da NYU.

 

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