Ana Estela Haddad, Anna Muylaert e outras personalidades falam sobre o primeiro assédio

Segundo a pesquisa Datafolha, que entrevistou 1.092 homens e mulheres entre 28 e 29 de outubro, o transporte público é o local onde mais ocorre assédio às mulheres em São Paulo: 35% dizem já ter sido alvo de algum tipo de assédio nesses apertos.

22% delas dizem ter sofrido assédio físico, enquanto 8% foram alvo de assédio verbal e 4% de ambos. O estudo também revela que 51% das mulheres que sofreram assédio na vida foram alvo até os 17 anos.

Depoimentos

Ana Estela Haddad, primeira-dama de São Paulo:
Eu tinha 12 anos. Havia visto um filme romântico no cinema com uma prima minha. Gostei do filme e resolvi assistir de novo, mas não tinha ninguém para me fazer companhia. Fui numa sessão de tarde, havia poucas pessoas. Um senhor bem mais velho sentou do meu lado, com um intervalo de uma cadeira. Durante a sessão, ele começou a se masturbar. Eu não entendi direito o que ele estava fazendo… Aquilo me perturbou demais. Eu não estava preparada para aquela situação. Saí um pouco antes de terminar a sessão. Tinha apagado essa memória da minha mente. Comecei a ler um pouco sobre o assunto [do primeiro assédio] e a lembrança foi vindo.

*

Paola Carosella, 43, chef e jurada do ‘Marsterchef’:
Tinha 11 ou 12 anos e estava num ônibus na Argentina indo para a escola. Um homem colou em mim e começou a se masturbar. Tentei achar um espaço para fugir, mas ele bloqueava todos os meus movimentos com o corpo. Lembro do medo de que as pessoas olhassem para mim como se a culpa fosse minha. Quando consegui força e coragem, empurrei ele e desci do ônibus. Não conseguia andar. Minhas pernas tremiam. Nunca contei isso a ninguém, pois a sensação era de vergonha, como se a culpa fosse minha.

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Betty Gofman, 50, atriz:
Tinha 16 anos e fazia ginástica muito cedo na academia. Era sempre só eu e o professor. Um dia, ele me chamou para uma salinha e me encurralou. Me agarrou e encoxou. Travei. Ele percebeu e parou. Não contei a ninguém porque era conhecido da família. Hoje faria tudo diferente.

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Mara Gabrili, 48, deputada federal (SP):
Tinha 26 anos e acabado de quebrar o pescoço. Fui para os EUA para um tratamento. Nem a cabeça eu sustentava. Na ambulância, o paramédico resolveu que tinha de me examinar. Achou que eu não sentia nada, e eu percebi que ele começou a mexer na minha calcinha. Comecei a fazer um escândalo. Ele parou, mas ficou se justificando.

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Anna Muylaert, 51, cineasta:
Tinha 11 anos e descia todos os dias do ônibus na praça Panamericana (zona oeste) para caminhar até em casa. Um cara ficava sempre por ali. Um dia, saiu de trás da árvore, batendo punheta, quando passei. Saí correndo.

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Elke Maravilha, 70, atriz:
Tinha uns dez anos, morava na roça e ía para a escola de bicicleta. Parei para tomar água. Apareceu um cara e mostrou o pênis. Virei as costas e fui embora. Quando acontece algo assim, não se trata de sexo, mas de poder. Mais velha, um cara tentou me estuprar. Tirei a roupa e disse: vem! Ele brochou.

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Manuela D’Ávila, deputada estadual (RS):
No verão de 1994, minha mãe alugou uma casa na praia do Cassino, em Rio Grande (RS). Numa tarde, saí de casa de bicicleta para pedalar na “avenida”. O motorista de uma caminhonete pediu informações sobre a localização de uma rua. Respondi e sai pedalando com ele me acompanhando ao lado. Em poucos metros, o cara de uns 30 e tantos anos, completamente bêbado, desceu e emparedou a mim e a minha bicicleta em um muro branco de uma rua perpendicular. Tentou me agarrar. Saí correndo com a bicicleta, e ele gritando atrás. Vinte e um anos depois, ao me deparar com a campanha “primeiro assédio” e me perguntar se havia acontecido algo parecido comigo, me lembrei dessa tarde. E do hálito de cerveja do bêbado da caminhonete.

Entenda:

Assédio verbal
Palavras desagradáveis, ameaças ou cantadas sem consentimento de ambas as partes. É uma contravenção penal e o autor pode ser multado.

Ato obsceno
Ação de cunho sexual em local público a fim de constranger ou ameaçar alguém. É crime.

Assédio sexual
Constrangimento ou ameaça para obter favores sexuais feito por alguém de posição superior à vítima. É crime.

Estupro
Obrigar alguém, perante violência ou ameaça, a ter relações sexuais ou a praticar outro ato libidinoso. É crime.

***
Fernanda Mena e Juliana Gragnani na Revista São Paulo da Folha de S.Paulo.

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