Avenida Tiradentes. De cima da passarela, uma nostalgia quase inevitável pelo passado que não vivemos

Outro dia, estava caminhando com um amigo. Depois do Bom Retiro, cruzamos o Parque da Luz e resolvemos ir ao Museu de Arte Sacra, ali, do outro lado da Avenida Tiradentes. no lindo prédio do Mosteiro da Luz. A rampa da passarela sobe bastante, em zigue zague. Lá em cima, o choque.

O mar de carros invadiu a visão, o olfato, a audição, talvez até o paladar.

A cena automobilística me fez lembrar de uma foto antiga da avenida Tiradentes que eu tinha visto em alguns blogs. É do fotógrafo suíço Guilherme Gaensly, que ficou famoso pelas fotos das paisagens urbanas que fez de Salvador e São Paulo do finzinho do século XIX até 1925 . Ela mostra a av. Tiradentes como um bulevar, com fileiras de árvores, limpo, imaculado. De outro ângulo, dá para ver também o mosteiro, imponente, cercado de árvores e não  de carros e grades como agora.

A nostalgia pelo passado é um culto perigoso. Nunca as coisas eram tão boas quanto achamos que eram. A memória prega peças, selecionamos fatos bons e deixamos de lado coisas ruins. É fácil sentir nostalgia de um tempo em que éramos jovens e não tínhamos dor nas costas. A visão da cidade também corre esse risco. Diante de fotos lindamente enquadradas, uma paisagem limpinha, esquecemos de injustiças e segregações de outros tempos que nem chegamos a viver.

Seminário Episcopal. Foto: Guilherme Gaensly.

Mesmo assim, conhecer o passado é essencial para entender as contradições da cidade hoje.

Diante desses pensamentos sobre o passado, lembrei-me dos bons blogs de pessoas e grupos que se dedicam a lembrar a história de São Paulo. Há o  São Paulo antiga, com boas histórias de lugares e pessoas. Uma página no facebook mantida pelos usuários tem mais de 70 mil pessoas conversando sobre memórias e contando histórias: Memórias Paulistanas, Outro blog interessantíssimo é Quando a cidade era mais gentil, do professor de políticas públicas Martin Jayo, que faz pesquisas minuciosas e produz textos saborosos sobre as transformações da cidade. Outro site bacana é o Sampa histórica, de onde puxei essas duas imagens. Vários museus mantém páginas com imagens antigas, o acervo do IMS é maravilhoso e os acervos da Folha e do Estado são muito ricos e interessantes.

Há muitos outros sites, claro; a cidade é rica em lembranças e em mudanças. A profusão de sites e iniciativas para conhecê-las mostra que estamos todos tentando encontrar nosso papel nessa história.

***
Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no blog Caminhadas Urbanas do Estadão. 
 

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