Caminhar na cidade, caminhar no mato. Dois percursos de distância igual e sensações muito diferentes

KM 1 

São Paulo – Parto do Largo da Batata, em Pinheiros. As calçadas são planas, cinzas. Fico atento aos buracos no cimento e aos postes. Penso em faixas de pedestre, tempos semafóricos. O toque do celular anuncia uma mensagem que não preciso ouvir agora. Desligo, irritado.

Ibitipoca – Parto da sede do Parque Estadual. Há uma placa que indica o início da subida. Ouço meus pés que começam a se entender com a areia grossa e branca do chão. Fico atento aos desníveis na pedra áspera.

Fotos: Mauro Calliari.

KM 5

São Paulo – Procuro um ritmo, mas paro nas travessias. Enquanto espero, procuro não pensar no barulho dos carros. Atravesso o bairro do Itaim.  Vejo clientes nas lojas abertas, pessoas nas mesas nas calçadas, motoristas, motoqueiros, vendedores.

Ibitipoca – Meus passos são regulares, não há obstáculos. Só uma longa e difícil  subida que me faz respirar forte. Paro ao pé do Cruzeiro, intrigado com o silêncio. Não há carros, não há pessoas, não há nada que faça barulho, a não ser um rumor leve do vento.

Fotos: Mauro Calliari.

KM 7

São Paulo – Respiro um pouco mais forte, mas o ritmo é irregular. Vejo uma pessoa conhecida rindo alto numa mesa com amigos. Dou um alô rápido, evito engatar numa conversa longa e sigo em frente.

Ibitipoca – A respiração agora é regular, mas o ritmo é forte.  De um lado, vejo um mar de montanhas. Do outro, a entrada de uma caverna. Tomo um gole de água e dou uma espiada.

Fotos: Mauro Calliari.

KM 9

São Paulo – Desisto de conferir onde estou indo. Não tenho guia nem waze. Vou seguindo em frente até achar uma rua simpática, que tenha árvores, casinhas coloridas, vitrines, ou um velho passeando com seu cachorro. Quando encontro, viro entro nela e sigo em frente.

Ibitipoca – Procuro não me afastar do caminho. Já me perdi uma vez no mato e passei uma noite gelado. Nas encruzilhadas, uma conferida no mapa para checar a rota.

KM 10

São Paulo – Cruzei o bairro de Moema. Como em outros pedaços da cidade, o bairro é uma quadrícula, os quarteirões regulares. A cada cem metros, uma nova placa de rua, um novo pássaro. Os nomes do sabiá e rouxinol alegram a paisagem que tem poucos pássaros de verdade.

Ibitipoca –Saio do paredão de pedra e ando em meio a uma vegetação rala, árvores retorcidas. Os cactos parecem ser o testemunho da falta de água no chão arenoso, que às vezes parece neve. Há alguns pássaros que se aventuram entre os espinhos. Um dos cactos têm uma flor roxa em cima.

Fotos: Mauro Calliari.KM 11

São Paulo – Cruzo a 23 de maio. Demorou para encontrar uma passagem de pedestres em meio ao mar de carros, mas dei sorte. Do lado de lá, casas com saídas de garagens me fazem andar na rua. Dou bom dia a um homem que limpa a frente da loja de material de construção. Recebo um bom dia surpreso.

Ibitipoca – Cruzo um riozinho de água preta limpa e gelada. Estamos na época da seca, foi preciso só um passo mais longo para alcançar uma pedra e chegar ao outro lado. Acompanho o rio até que ele se jogue lá de cima, numa cachoeira inesperada que o pessoal chama de janela do céu. Dou boa tarde a uma das pessoas que chegaram até ali, como eu, para ver o rio. Recebo um sorriso de volta e fujo rápido da conversa alta dos grupos que se formam para ver a paisagem.

Fotos: Mauro Calliari.

KM 13

São Paulo – Cruzo a Avenida Bandeirantes e me detenho em cima de um viaduto. Olho para o mar de carros. Uma senhora passa por mim e pergunta: – “precisa de ajuda?”. Agradeço e pergunto em que bairro estamos. — “Jabaquara”, diz ela, “a partir do lado de lá”.

Ibitipoca – Cruzo o rio pela enésima vez. Sento numa pedra. Vejo um casal caminhando. De algum modo, estamos juntos nessa pequena aventura. Eles perguntam: “tudo bem com você?”. “Opa, claro!”, respondo, tranquilo.

Fotos: Mauro Calliari.

KM 15

São Paulo – Ando até encontrar um bar minúsculo que tem dois banquinhosna calçada de frente para uma janelinha. Peço uma cerveja e converso com o dono do bar enquanto comentamos um jogo de futebol. A televisão fica em cima de uma geladeira, a imagem está um pouco chuviscada, mas a cerveja está gelada. Sinto-me em outra cidade.

Ibitipoca – De volta à sede, sento nas mesas que olham para o maciço e o vale. Encontro um grupo de pessoas que comenta com excitação o trajeto que fizeram. Fico em silêncio respeitoso, sentindo o prazer de ter ido e voltado.

Depois de caminhar

São Paulo – Cansado, pego o metrô de volta para casa. Na estação, uma multidão. A caminhada acabou, mas a mente está limpa e calma. No dia seguinte, lembro de passos, pessoas, ruas, casas, uma árvore numa praça e percebo ainda estou falando mais baixo que o normal.

Ibitipoca – Cansado, pego o carro de volta à pousada. Não consigo pensar em nada, mas cumprimento o guarda do parque com efusão inesperada. No dia seguinte, lembro de passos, água, árvores agressivas, cachoeiras, em imagens que se embaralham. Passo o dia sorrindo sem saber por quê.

***
Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas do Estadão.

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