Cidades que caminham: a agenda urbana a favor dos pedestres

Cidades caminháveis é um termo que deriva da pesquisa e do livro homônimo do arquiteto e urbanista norte-americano Jeff Speck. Imagem: Jeff Speck.

Por Antoní Gutíerrez-Rubí.

As cidades que caminham – as que pensam e vivem para caminhar – são cidades humanas: de escala, design, planejamento. Vamos deixar de lado por um momento o ponto de vista urbano, ao qual vamos voltar mais à frente.
São muitas as pessoas que têm refletido sobre a ação de andar e a tem dotado de múltiplos significados. Desde o lado literário e ensaístico, aos passeios solitários de Hazlitt e Stevenson ou a reinvindicação do poeta Whitman sobre a cultura do andar “recuso uma civilização corrupta, poluída, alienante e miserável.”
Há também inúmeros relacionamentos entre caminhar e pensar, com peculiaridades e costumes de vários pensadores como Kant, Nietzsche ou Thoreau, recolhidos pelo filósofo Fréderic Gross. Se pensa melhor – e se ensina – quando se caminha, como bem sabiam os peripatéticos – e sua escola filosófica – em Atenas há mais de 2.000 anos. Locomover-se a pé é também uma ação para descobrir uma experiência estética, de liberação e, se praticada nas cidades, uma ação com significado político e social. Para alguns, é mesmo o último ato de verdadeira libertação. Andar a pé é a primeira… e a última revolução e resistência civis.


Para Frédéric Gros, caminhar é um ato de exibição e cortejo. Foto: Divulgação.

“O walkability atingiu um ponto de inflexão”. Isto é como a Consultoria ARUP resumiu os resultados de um estudo – Cities Alive: Towards a walking world, realizado em mais de 80 cidades no mundo, que analisa os efeitos das políticas destinadas a promover pedestrianização dos espaços públicos e quais são medidas que podem ajudar a sua implementação. Uma das conclusões do relatório é que estas políticas são parte essencial da recuperação do espaço público por parte dos cidadãos, ou seja, sustenta que facilitar a ação de caminhar é fundamental no planejamento do futuro das cidades.
Caminhar define a nossa relação com a cidade, a nossa atitude para com ela. Como um espaço para a descoberta de uso diário, como turistas andando sem rumo – o mítico flanar – ou sem compromisso. Talvez o que tenha mudado, o que é novo, é que começamos a ter consciência do que ele significa para reivindicar cidades mais caminháveis. Não há muito tempo era estranho ouvir palavras como walkability e agora os principais especialistas, tais como Jan Ghel, a colocam no centro das discussões. Iniciativas como Cidades que Caminham, exemplificam essa mudança.
Walkability é o termo, em inglês, referente ao quanto uma área é apropriada para o caminhar. Foto: Copenhague / Smart Cities Dive.
Copenhague foi considerada a “cidade mais caminhável do mundo”, de acordo com a ONG Walk 21. Smart Cities Dive.
A agenda urbana definitivamente mudou em favor dos pedestres. Agora é o momento para os governos internalizá-la como mais um elemento a considerar nas políticas para as cidades. Os grandes debates que estão surgindo nas cidades terão que se ocupar dessa prática e ela deve ser um tema transversal em questões como saúde, educação e planejamento urbano. Cidades com maiores espaços caminháveis trazem benefícios econômicos, ecológicos e de mobilidade.
Os dados e estudos apontam para os benefícios da aplicação dessas medidas. Algumas são muito óbvias e bem conhecidas, e o fato de que as cidades com áreas mais caminháveis experimentam benefícios econômicos, uma vez que o comércio é favorecida por maior tráfego de pedestres ou mesmo benefícios ecológicos e de mobilidade, com a redução do tráfego motorizado, especialmente de veículos privados. Outros também são bastante previsíveis, como a relação entre a prática da caminhada e a melhoria geral na saúde, como aponta um estudo da Universidade de Queensland, sobre saúde mental, ou o fato de que os bairros com grandes áreas de pedestres atraem cidadãos de bom poder aquisitivo para viver neles.
Vista das supermanzanas (superquadras) no bairro de Poble Nou, em Barcelona. Foto: Fundación Consejo España Australia.
A supermanzanas (superquadras) no bairro de Poble Nou, em Barcelona. Foto: El País.
Para realizar este processo não será fácil. No fundo é uma mudança no conceito de espaço público que se choca com práticas e costumes arraigados. Por estes dias estamos vendo um exemplo num teste piloto com as supermanzanas (superquadras) no bairro de Poble Nou, em Barcelona. Mas além disso e das complicações das medidas, o mais interessante é a maneira com que você pode reocupar áreas que têm sido sempre mais identificadas com otrânsito. Este é o tipo de mudança que promove reivindicações para que as cidades sejam mais caminháveis. Imaginar novos usos, novas formas de passar o tempo e, é claro, de se mover. Quase como gostar de explorar a cidade pela primeira vez, ou de um modo absolutamente novo. Como, por exemplo, a proposta do projeto do coletivo holandês If I Can’t Dance, inspirado nos The Reading Groups que propõe a divisão de conhecimento de forma íntima e, dinâmicas através da discussão de textos durante a caminhada a dois.
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Antoní Gutíerrez-Rubí no El País. *Original em espanhol.

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