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São Paulo São Causas


Em uma cidade como São Paulo, onde um trajeto pode significar horas no trânsito ou de espera em estações, ler no transporte público é um hábito comum e, por sinal, muito saudável.

Para estimular a leitura no metrô, a editoria L&PM aproveitou o Dia do Livro para unir estes dois elementos que fazem parte do dia-a-dia de muitos paulistanos. Durante a manhã de hoje, passageiros da linha 4-Amarela foram presenteados com diferentes clássicos da literatura.

Os títulos fazem parte do portfolio da editora, são eles: A Arte da guerra, Sun Tzu; Assassinato no Beco, Agatha Christie; Hamlet, William Shakespeare; Cem sonetos de amor, Pablo Neruda; Cebolinha em apuros!, Mauricio de Sousa; Garfield –"Foi mal", Jim Davis; O grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald; Quintana de bolso, Mario Quintana; Sherlock Holmes: O cão dos Baskerville, Sir Arthur Conan Doyle e Peanuts: "Amizade, é pra isso que servem os amigos", Charles M. Schulz.

Foram 1.500 livros distribuídos gratuitamente. Destes, 300 traziam uma surpresa: funcionam como bilhetes do metrô. Criados especialmente para a ação, os Ticket Books possuem um chip em suas capas com tecnologia equivalente a do Bilhete Único, tornando-os recarregáveis.

A ideia é que a obra seja lida durante os percursos de cada passageiro. Basta encostar o livro na catraca, para a entrada ser liberada. Depois de ler, o usuário pode recarregar seu livro e presentear um amigo, estimulando o prazer da leitura.

Para comprar novas passagens basta acessar o site do projeto e inserir o código do portador do livro disponível na contracapa. O Ticket Book não tem prazo de validade e pode ser recarregado sempre que a pessoa desejar.

Assinadas pelos diretores de arte Ricardo Matos e Ana Novis, as capas foram criadas especificamente para o projeto e inspiradas em mapas do metrô de diversas partes do mundo.

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Fonte: Adnews.


Uma iniciativa iraniana está promovendo a doação de roupas nos muros das cidades do país para ajudar moradores sem teto e famílias pobres a suportarem o clima o frio dessa época do ano.

Os "muros da gentileza", como a iniciativa ficou conhecida, apareceram nas maiores cidades do Irã e desataram um amplo debate nas redes sociais sobre como ajudar os mais pobres.
 

A ideia parece ter surgido na cidade de Mashhad, no nordeste do país. Uma pessoa que, segundo um jornal local, deseja permanecer no anonimato colocou ganchos e cabides em um muro e escreveu: "Se você não precisa, deixe aqui. Se você precisa, leve."

Aos poucos, as pessoas começaram a deixar casacos, sapatos e outras roupas de inverno nos muros para moradores sem-teto ou famílias pobres.

E a ideia se espalhou rapidamente para outras cidades iranianas graças às redes sociais, onde fotos de muros com doações começaram a ser postadas com mensagens pedindo colaboração.

"Não deixem nenhum (sem-teto) tremer de frio neste inverno", diz uma delas. "Esta é uma ótima iniciativa. Espero que se espalhe para o resto do Irã", disse um usuário do Facebook.

"Os muros nos lembram da separação, mas, em algumas ruas de Shiraz, eles uniram as pessoas", comentou outro, sobre um muro da gentileza instalado em uma cidade no sul do Irã.

Uma das geladeiras deixadas nas ruas de Teerã com comida para os sem-tetoUma das geladeiras deixadas nas ruas de Teerã com comida para os sem-teto

Uma das geladeiras deixadas nas ruas de Teerã com comida para os sem-teto. Foto: Reprodução/Twitter

 

Governo

Algumas pessoas, porém, viram na necessidade dessa iniciativa indícios de que o governo não está cumprindo suas promessas.

"Os que estão no comando (do país) não parecem ter as mesmas preocupações das pessoas (que estão ajudando)", diz um comentário no Facebook.

"Se nós tivéssemos um estadista sábio e solidário, não teríamos nenhuma pessoa passando necessidade neste país, já que temos uma grande quantidade de riquezas", reclama outro.

Apesar dos esforços do governo do presidente Hassan Rouhani para tirar o Irã do isolamento da comunidade internacional - que resultaram no histórico acordo nuclear fechado em julho -, o país ainda enfrenta uma recessão econômica e o desemprego continua grande.

Muitos iranianos foram afetados pela situação e, segundo alguns dados, o número de sem-teto nas grandes cidades teria aumentado.

Estatísticas oficiais sugerem que existem 15 mil sem-teto no Irã, mas outras estimativas dizem que são 15 mil apenas na capital, Teerã.

Várias organizações governamentais são encarregadas de cuidar dessas populações. Mas há dúvidas sobre sua eficácia e transparência.

"Precisamos fazer isso sozinhos (ajudar as pessoas). A vida é muito curta. Seja gentil", disse um usuário do Instagram.

Recentemente, uma organização iraniana criou outra iniciativa semelhante, na qual geladeiras eram distribuídas pelas ruas de Teerã para que as pessoas deixassem comida para os sem-teto.

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Fonte: BBC Brasil.

 


Brandon Stanton, responsável pelo blog Humans of New York, conseguiu um feito natalício: recolheu mais de milhão de dólares (cerca de 505 mil euros) em donativos apenas num dia. A verba recolhida vai beneficiar 11 famílias de refugiados sírios que abandonaram o seu país de origem e se preparam para recomeçar a vida nos Estados Unidos.

No início de dezembro, Stanton – que tem fotografado pessoas de todo o mundo com o apoio da ONU – publicou o perfil de cada uma das 11 famílias no blogue. E na véspera de Natal lançou uma campanha decrowdfunding na plataforma Generosity.com para ajudar as famílias sírias a estabelecerem-se nos Estados Unidos, onde conseguiram entrar com o estatuto de refugiados. A campanha foi lançada com a duração de 48 horas (24 e 25 dezembro) e no final do primeiro dia, já tinha conseguido mais 554 mil dólares (cerca de 505 mil euros) refere o site Mic. O dinheiro arrecadado vai ser distribuído pelas famílias e cada uma vai receber cerca de 40 mil dólares (cerca de 36 mil euros). 

Os números, em especial números grandes não são estranhos ao fotógrafo. A página que criou na rede social Facebook com o mesmo nome Humans of New York  também conhecida pelo acrónimo HONY – já atingiu quase 16 milhões e meio de likes e 382 mil seguidores no Twitter.

humans sirioshumans sirios


O norte-americano começou por fotografar pessoas em Nova Iorque no verão de 2010. Inicialmente, a sua ideia era criar um “catálogo exaustivo” dos habitantes da Grande Maçã, e começou o projeto com o objetivo de retratar 10.000 nova-iorquinos. As fotografias que publica são sempre acompanhadas de um episódio contado pelos retratados – muitos deles de caráter pessoal.

Esta não foi a primeira vez que Brandon Stanton se envolveu numa campanha de recolha de fundos. Em janeiro deste ano, uma das fotos que publicou na página do Facebook gerou uma onda de solidariedade que permitiu angariar mais de 365 mil dólares (cerca de 325 mil euros),que permitiram a uma turma do 6º ano de uma escola de Brooklyn (num dos bairros mais pobres dos EUA) visitar a Universidade de Harvard.

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Elsa Araújo Rodrigues no Observador.

 


Em 1992, na região de Argyll, Escócia, Magnus MacFarlane-Barrow estava em um bar com seu irmão Fergus quando notícias e imagens da guerrana Bósnia invadiram o noticiário. Emocionados, os dois decidiram juntar doações para ajudar as famílias afetadas pela violência do conflito.

Com os mantimentos estocados, foram à Bósnia entregar o que arrecadaram e lá passaram alguns dias. Ao retornarem para a Escócia, a surpresa: amigos e vizinhos continuavam a levar doações. Como resultado, Magnus acabou deixando o trabalho para trás e viajou 23 vezes para a região apenas naquele ano.

Os irmãos fundaram uma entidade beneficente chamada Scottish Relief Fund (SRF), que se expandiu e acabou por virar a Mary’s Meals (Refeições de Maria, em português) em 2002, iniciativa que oferece uma refeição por dia escolar a crianças em situação de vulnerabilidade.

Esse projeto deu tão certo que ultrapassou em 2015 a impressionante marca de um milhão de crianças atendidas em 12 países da ÁfricaÁsia e América Latina.

Um milhão de crianças em idade escolar agora são alimentados por refeições da Mary's Meals. / Imagem: Third Force News.

 

Da Escócia, Magnus conversou com EXAME.com sobre a Mary’s Meals, os planos para o futuro da entidade e também sobre a crise humanitária que envolve imigrantes e refugiados da África, Ásia e Oriente Médio. Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

EXAME.com – Vocês hoje alimentam mais de um milhão de crianças em todo o mundo. Essa é uma marca impressionante. Como você se sente sabendo que muitas delas sobrevivem por causa desse trabalho?

Magnus – Eu ainda fico surpreso em saber que mais de um milhão de crianças em escolas de todo o mundo estão comendo as refeições da Mary’s Meals. Sou muito grato em ver as maneiras como esse movimento cresceu e pelos esforços da nossa família global, cujos atos de amor tornaram esse trabalho possível.

Todas as pessoas envolvidas na Mary’s Meals devem se orgulhar, desde aquelas que nos ajudaram a arrecadar os primeiros fundos até as mães e avós que acordam cedo todos os dias para cozinhar e servir as refeições nas escolas. Nossa crença de que toda criança merece uma refeição no local onde recebe educação nos une e nos motiva a sempre seguir em frente.

EXAME.com – Como surgiu a ideia de fundar a Mary’s Meals? 

Magnus – Em uma viagem ao Malawi em 2002, um garoto chamado Edward me contou que seu sonho era ir para a escola e ter comida o suficiente para sobreviver. Sua mãe, Emma, estava morrendo de Aids e ele tinha outros cinco irmãos mais novos.

O fato de que esse era um sonho dele e também a sua esperança mexeram comigo. As palavras de uma criança de 14 anos despertaram em nós a missão de atrair crianças para a escola ao oferecermos uma refeição por dia. Mary’s Meals é uma ideia simples que funciona.

EXAME.com – Qual a importância de se oferecer uma refeição por dia para essas crianças?

Magnus - Trabalhamos com crianças em situação de vulnerabilidade em muitos dos países mais pobres do mundo. Na maioria das vezes, a refeição que oferecemos é a única que eles têm acesso durante todo o dia.

A comida permite que necessidades imediatas dessas crianças sejam atendidas, reduzindo a fome, contribuindo para o aumento da concentração e da aprendizagem e melhorando a saúde e o bem-estar. Testemunhei os impactos dos nossos programas e temos registros que mostram que melhoramos as taxas de matrícula nas escolas, de frequência escolar e de progressões entre séries. 

O programa de alimentação encoraja o apoio à educação pela população local e contribui para a economia, já que adquirimos a comida de produtores locais. Ainda deixamos os governos observarem os benefícios da merenda escolar e como é o funcionamento de um programa eficiente e barato.

A Mary’s Meals permite que crianças em todo o mundo saibam que elas são importantes. A educação traz esperanças de um futuro melhor e investir nisso contribuirá para que gerações futuras tenham os meios para se sustentar e atingir todo o seu potencial.

EXAME.com – Como é uma refeição típica da Mary’s Meals?

Magnus – Oferecemos uma variedade de refeições, dependendo do local no qual estamos atuando, e tentamos sempre garantir que ela seja adequada à cultura daquela região. Todas elas são escolhidas por seus valores nutricionais, popularidade e facilidade no preparo. Quando possível, preferimos apoiar as economias locais e compramos os ingredientes direto com os produtores. 

Somos uma caridade de baixo custo e gastamos 93% das nossas doações nessas atividades. O custo de uma refeição em âmbito global é de cerca de 9 centavos de dólares (em média 40 centavos de real) e o custo médio anual de se alimentar uma criança é de cerca de 19,50 dólares (cerca de 78 reais). 

EXAME.com – Quais os planos para o futuro da Mary’s Meals?

Magnus – Vamos continuar trabalhando para espalhar a nossa mensagem, incentivando o movimento global e alcançando cada vez mais crianças que precisam de uma refeição diária para aprender e para crescer.

Ainda há 59 milhões de crianças fora das escolas em todo o mundo e milhões delas passam fome. Então, embora estejamos felizes de ter alcançado a marca de um milhão de crianças atendidas, consideramos que esse é “nosso primeiro milhão”. O trabalho está apenas começando e ainda há muito para ser feito.

EXAME.com – Você já trabalhou ajudando refugiados a retornaram para seus lares. Como enxerga a crise de refugiados que acontece no mundo hoje?

Magnus – Toda a sociedade foi profundamente impactada por essa crise, que é a emergência humanitária mais grave da atualidade. Com isso em mente, Mary’s Meals está explorando a possibilidade de lançar um programa de alimentação para as crianças afetadas. Esperamos que isso possa ajudar a aliviar a pressão em suas famílias nesse momento tão difícil. 

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Gabriela Ruic no canal Mundo de EXAME.com


Incomodada em ver pessoas passando fome enquanto há desperdício de comida, uma professora universitária decidiu recolher legumes e frutas descartados por supermercados para preparar refeições para moradores de rua de Brasília. A ideia surgiu há quatro anos, e desde então Lisa Minari Hargreaves dedica uma hora de três dias da semana para a coleta. Ela conta que também se alimenta com os itens, além de distruibuí-los para a família e vizinhos.

Lisa costuma ir aos supermercados e feiras na hora em que as caixas com os vegetais não comercializados são esvaziadas. Ela analisa um a um e separa os que não estão extremamente maduros e não têm mofos, cortes e estragos. Pesquisas feitas pela professora apontam que 30% de tudo o que é produzido acaba indo para o lixo.

"[Há] Muito desperdício. Fico muito triste, vendo tantos que precisam", afirma a mulher, que defende o reaproveitamento. "Também como o que cato, porque acho que sobras são para todos, não só para as pessoas mais necessitadas."

Em média, Lisa consegue 25 kg de alimentos nos dias de coleta. As frutas e legumes são então higienizados e guardados na geladeira. A sopa é feita na casa dela, e a distribuição acontece às 20h30, na calçada em frente à Rodoviária do Plano Piloto. Ela também leva pães – que se não fosse pela iniciativa, iriam para o lixo – doados por uma padaria.

Sopa feita por professora do DF para moradores de rua (Foto: Lisa Hargreaves/Arquivo Pessoal)Sopa feita por professora do DF para moradores de rua (Foto: Lisa Hargreaves/Arquivo Pessoal)

Sopa feita por professora do DF para moradores de rua. Foto: Lisa Hargreaves / Arquivo Pessoal.

"Eu faço o caldo. É na minha casa, demoro três horas. Coloco em recipiente térmico", explica a professora, que mora a dez quilômetros do ponto onde faz as doações. "Às vezes [essa] é a única refeição do dia [desses moradores de rua]. Nas distribuições, atendo cinco, seis famílias. Às vezes [há] mais."

Lisa conta com a ajuda de uma amiga no transporte e distribuição dos alimentos. Há algumas semanas, outra pessoa se inspirou na atitude dela e passou a catar alimentos de um supermercado para distribuir em uma creche, um abrigo de deficientes e a famílias pobres de Águas Lindas, no Entorno do DF.

"As pessoas ficam impressionadas com a ideia, gostam e geralmente apoiam. Os beneficiados só agradecem. [...] As doações de alimentos são raras, mas às vezes algum amigo doa uma cesta, um pacote de feijão", diz.

Lisa afirma que gostaria que o projeto se expandisse. Para ela, o ideal seria que as pessoas catassem alimentos perto de casa ou do trabalho e os distribuíssem a quem tivesse necessidade. A professora também destaca a importância de olhar o que está na geladeira e não vai ser usado.

"E quem precisa pode ser seu vizinho de casa, um amigo doente, um colega de trabalho sozinho. A comida se torna um pretexto para olhar e se aproximar do outro. Eu distribuo também para uma vizinha e para os dois porteiros do prédio onde moro. Vivemos um momento de solidão crônica, e precisamos pensar em estratégias criativas e sustentáveis para cuidar mais um do outro", defende. "[Quando doo me sinto] Muito feliz e satisfeita. Missão cumprida."

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Raquel Morais  / Do G1 DF.

 


Um arco-íris e uma bandeira totalmente negra estão no alto da imagem criada por Fel, 28, grafiteiro ligado à enorme tradição paulistana de pichadores. É uma alegoria sobre a anarquia, mas também representa a causa LBGT e as populações indígenas latino-americanas. O traço não é para ser – e não é - apuradamente bonito nem esteticamente perfeito. Vale mais a provocação. O trabalho, que toma uma das faces de um conjunto do Cingapura Água Branca, na subprefeitura da Lapa, zona oeste de São Paulo, coloca a juventude negra para brincar no alto dos prédios. É o que Fel vê como primeira necessidade. E ele parece não estar só.
 
A missão do Revivarte, com apoio do projeto 'Tudo de cor para você’, das Tintas Coral, é levar aos moradores um respiro no dia a dia, ainda que a estética não seja exatamente a maior das prioridades. “A arte em si não vai mudar a vida das pessoas. A opressão policial, a ausência efetiva de dinheiro, a carência de políticas públicas... A arte não vai alterar isso. Mas ela estreita a própria comunidade dentro de si. É um passo para que eles ganhem capital político e humano para se mobilizarem diante de outras demandas”, explica Fel. Se o papel do grafite é esse, as coisas definitivamente estão caminhando lá no Cingapura. De 14 de setembro - quando começaram as pinturas - para cá, conta ele, o efeito das tintas e do spray começa a florescer. “Antes as crianças ficavam atentas se havia um (policial) civil à paisana por aí. Agora elas param, conversam, falam, aproveitam o dia”, completa o artista.
 

Pelas esquinas, o que se ouve é que o grafite teve um efeito imediato na ostensiva presença policial. As abordagens têm se tornado menos agressivas, ainda que velhos hábitos não se alterem com tanta velocidade. “A comunidade é muito próxima da Marginal Tietê e é bem pequena. Então é fácil para (os policiais) chegarem de surpresa. E eles estão aqui diariamente”. A fala é de Subtu, grafiteiro com trabalhos espalhados por grande parte da capital e idealizador do Revivarte. “A própria comunidade quer que a gente fique. Como estamos aqui, a polícia está pegando bem mais leve. Eles vêem que tem gente tirando fotos... Aí eles chegam de outra forma”. Subtu ainda não colocou seu trabalho em prática, mas a ideia já está definida: “Vai ser um palhaço fazendo malabares com a palavra paz. Porque aqui a polícia é muito repressora”.

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O beco agora é motivo de orgulho. André Murched / HuffPost Brasil.

São oito empenas grafitadas. As obras têm entre oito e dez metros de altura. Com tudo pronto, são 850 metros quadrados de área transformada em arte. Chama a atenção a disposição de quatro obras, que não foram produzidas para serem vistas por quem chega à comunidade ou está de passagem, mas para fazerem parte da paisagem de quem vive por ali. O que apareceu como sugestão dos grafiteiros, bateu como um alívio para os moradores. “É que o beco já teve umas histórias trágicas”, disse Subtu. Ana Carolina Pereira dos Santos, 30, cabeleireira e representante da Associação de Moradores, confirma a história. “Na verdade, já tivemos usuários de drogas e outras pessoas que morreram ali. Era um beco que todo mundo até evitava passar. Agora já estão até colocando nome. Chamam de ‘Beco da Arte’, de ‘Beco da Alegria’”.

Os artistas só foram parar ali após convite dos moradores. A comunidade ficou sabendo do sucesso da empreitada da passagem dos grafiteiros pelo Parque do Gato, outro conjunto de baixa renda periférico, e tentou a sorte. Era a chance de fazer uma parceria para incluir cores nas instalações deterioradas pelo tempo e pelo esquecimento do poder público. Já são quase 20 anos sem o reboco do Cingapura Água Branca qualquer pintura. A proposta soou como música aos ouvidos de Mundano, Fel, Subtu e RMI, os residentes do projeto. Cada um já tinha garantido um espaço para seus traços. Eles e a comunidade queriam mais. Para os demais trabalhos foi aberto um edital, que contou com a participação popular e a inscrição de vários interessados. Só uma demanda parecia irremediável. Entre os contemplados precisava haver uma grafiteira. “Todas queriam uma mulher. Era geral. Não eram só as jovens. Todas diziam: precisa ter mulher”, conta Carol. A felizarda foi a artista Suzue, que foi estudar no Japão os traços orientais para agora deixá-los à mercê do tempo na gueixa grávida que registrou na parede do tal beco que um dia foi mais do que assombrado. Além da inclusão feminina, outras etapas do processo foram ratificadas democraticamente. Eleição é para ser respeitada, certo? “Foram 700 votos para os quatro desenhos principais”, lembra a representante da comunidade.

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Ítalo e a viagem (quase) psicodélica da periferia. André Murched / HuffPost Brasil.

Ítalo, 24, grafita desde 2008 e é outro que acabou selecionado diretamente pela comunidade. “Não sou daqui. Sou da zona leste. Então observei o que rola. A minha imagem tem um pouco do que é a estrutura dos prédios. E fala das pessoas que estão esperando para ir além do dia, para escapar de onde vivem. É uma janela aberta para outros mundos”. Diz ele que a aproximação e troca de experiências aconteceu também enquanto colocava a mão nas tintas. “As daqui pessoas querem entender o que está acontecendo. Todos dão bom dia, trocam ideia... O povo se conhece. E eles dão um suporte dentro do que elas podem”. O tal suporte inclui comida, suco, incentivo e papo. Muito papo.

Um simpático senhor de boné e sacola plástica confundiu a reportagem com os integrantes do Revivarte. Do Fel, cobrou os retratos "que estavam faltando". O grafiteiro Mundano havia levado uma máquina fotográfica de revelação instantânea alguns dias antes e ele agora quer ter uma imagem em frente de todos os painéis.

A Severina Josefa Cardoso, 50, que toca o boteco colado na comunidade não se cansa de sugerir a fachada de seu comércio para os rabiscos. "É muito bonito, né? Vamos ver se quando eles terminarem dá um tempinho para fazer alguma coisa por aqui".

 

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Mundano e a seca que já chegou para quem nada tem. André Murched / HuffPost Brasil.

Com a faísca acesa nos moradores, é hora de passar o bastão. A ideia é que moradores passem de espectadores a produtores de arte. Quem sabe não sai dali mais um grafiteiro dos bons para combater o cinza monótono da maior cidade da América Latina? Os pincéis já estão com a comunidade para revitalizar a quadra local. A missão é das meninas, meninos, mulheres e homens que moram por ali. “Nosso objetivo é claro: queremos a transformação social por meio da arte”, metralha Fel. “O grafite é um braço armado do hip hop. Armado de tinta e de ideias. E a ideia quando é expressa plasticamente é muito mais direta. Nós atacamos o olho, a visão”. E se a ideia do grafite é iniciar uma nova fase por ali, vai ser difícil encontrar alguém que tenha dúvidas de que o plano está dando certo.
 
 

Bruno Perê gasta o spray no beco. André Murched / HuffPost Brasil.


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Rafael Nardini no HuffPost Brasil.

 

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