Causas - São Paulo São

São Paulo São Causas

 
No pátio da escola Maestro Pixinguinha, na zona norte do Rio, um grupo de alunos do 9º ano manejam latas de spray e pincéis para colorir o muro interno com mensagens contra a violência doméstica.
 
Pouco antes, Ana, 14, Renata, 15 e Paula, 14, (nomes fictícios) estavam reunidas na oficina promovida pela Rede Nami para debater questões de gênero. Ao final, as estudantes se dirigem à assistente social para fazer uma denúncia de abuso.
 
"Todo dia quando o pai da nossa amiga a traz para escola, ele dá um beijo na boca dela. Meu pai não faz isso", incomoda-se uma delas. O caso foi encaminhados ao conselho tutelar.

Situações como essa são rotineiras no trabalho de campo que a Nami, associação sem fins lucrativos, que usa as artes urbanas para promover os direitos das mulheres, já realizou em mais de 40 escolas públicas do Rio. 
 
Formalizada em 2012 por um grupo de 30 feministas, a rede de grafiteiras tem a artista plástica Panmela Castro, 34, como líder e 500 integrantes de várias partes do país. 
 
Um grupo de mulheres engajadas para tentar mudar um cenário desafiador: cinco mulheres são espancadas a cada dois minutos no Brasil, de acordo com dados da Fundação Perseu Abramo, de 2011. É no ambiente doméstico que acontecem 27,1% dos homicídios de mulheres, de acordo com Mapa da Violência 2015 - Homicídio de Mulheres no Brasil. 
 
Para atuar nesse campo minado, a Rede Nami promove as oficinas do projeto Grafite pelo Fim da Violência Doméstica Contra a Mulher. 
 
Comandadas por Panmela e grafiteiras capacitadas pela Nami e com a participação de uma assistente social, os encontros duram uma hora. 
 
O bate-papo aborda percepção de gênero, tipos de violência e ferramentas da Lei Maria da Penha, marco legal para responsabilização de agressores. Os temas são depois transpostos para os muros como atividade final da oficina. "O grafite é uma solução nova para antigas demandas, é revolucionário, é como a arte sempre foi usada", diz Panmela. 
 
A iniciativa de Panmela tem o "carimbo" de aprovação de Maria da Penha, farmacêutica bioquímica que inspirou "a carta de alforria das mulheres brasileiras", como a cearense define a regra. 
 
"A Nami se utiliza da arte urbana para, em um primeiro momento, esclarecer sobre a história da submissão da mulher durante séculos", considera Maria. "Depois multiplica os conhecimentos através da arte dessas mulheres, agora mais conscientes sobre os direitos que nós temos de viver numa sociedade com equidade de gênero", completa. 
 

Panmela Castro após oficina de sobre questões de gênero em escola pública no Rio de Janeiro. Foto: Na Lata.
 
Impacto
 
De 2012 a 2014, 5.000 pessoas participaram das oficinas. Outras 50 mil foram impactadas por campanhas via internet. O total é de 5.000 m² muros grafitados em ações da Nami, processo no qual foram consumidas cerca de 5.000 latas de spray. 
 
Muitas delas manejadas por Alexandra Fonseca, 41, a Mel Graffiti. Abusada sexualmente por um vizinho dos 10 aos 16 anos, ela se redescobriu na arte urbana.

"Eu me libertei dessa situação e passei a falar sobre há pouco tempo, após entrar na Nami e estudar sobre a Lei Maria da Penha", conta. "O grafite mudou a minha vida." 
 
E de outras companheiras de rede. "A Nami dá oportunidade para as mulheres terem independência. Elas têm a autoestima de volta, são abraçadas e valorizadas", diz Alexandra. 
 
A ONG mantém um diálogo ativo também com o poder público. "Sugeri que a Prefeitura do Rio criasse um decreto que determinasse os espaços na cidade onde os grafiteiros poderiam intervier de forma livre", conta Panmela. Desde 2014, colunas, muros (que não sejam de patrimônio histórico), paredes cegas, pistas de skate, postes e tapumes de obras são livres para os artistas de rua.
 
Quem passa ao longo da linha 2 do metrô, pode ver os efeitos da norma. É na extensão desses 40 km, em Irajá, zona norte do Rio, que mora e grafiteira Jennifer Borges, ou simplesmente J-Lo, 27. 
 
Formada em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), ela integra o Afrografiteiras, projeto de promoção do protagonismo de mulheres negras. 
 
Por meio do programa da Nami, J-Lo teve duas obras expostas na Galeria Scenarium, no Rio, uma delas, a mais cara, à venda por R$ 10 mil. "Sempre quis ser artista, mas nunca imaginei que uma menina preta, pobre, periférica e sapatão conseguiria um dia estar em uma galeria de arte.

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Olivia Freitas enviado especial ao Rio de Janeiro na Folha de S.Paulo.
 
 


Barcelona, na Espanha, possui cada vez mais moradores de rua, apesar de ser uma cidade que continua a crescer como destino turístico, sendo nos dias de hoje a quarta cidade mais visitada da Europa.

Como juntar esses dois fatos e transformar isso em algo bom? Foi nisso que a agência Hidden City Tours pensou quando resolveu entrar em contato com instituições de caridade que lidam com moradores de rua. Afinal, quem melhor para te apresentar a verdadeira cidade e suas coisas escondidas, do que uma pessoa que teve a falta de sorte de precisar morar nas ruas dela?

Com essa oportunidade, pessoas sem-teto podem trabalhar e caminhar novamente para uma vida melhor.

Os guias são recrutados nos serviços sociais, refeitórios e instituições de caridade de sem-teto. No treinamento são aplicados alguns filtros: o inglês, alemão ou francês tem que ser fluentes, eles tem que ter boa apresentação, tem que ser livres dos vícios do álcool e drogas, ser bons oradores e ter um desejo de trabalhar e fazer parte de uma equipe pequena, mas ambiciosa.

Cada guia segue um programa de treinamento completo que vai de 60 a 80 horas, liderada pela fundadora da agência, Lisa Graça, e uma historiadora local, Natalia Baque. E para aqueles guias que precisarem de suporte adicional em Inglês, eles também oferecem aulas semanais do idioma. Por isso é muito difícil encontrar bons guias, segundo a Hidden City Tours.

E eles tem um conhecimento incrível da cidade e podem levar as pessoas não só para mostrar as áreas turísticas conhecidas mas também para lugares onde há segredos e histórias desconhecidas que a cidade quer compartilhar.

Então, se você for pra Barcelona ou estiver de férias aí no momento, que tal dar uma chance para essa agência e conhecer Barcelona de uma forma completamente diferente?

Confira nesse link o vídeo oficial do tour como os guias moradores de rua.

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Com informações de Lila Varo no Mistura UrbanaHidden City Tours.


Abigail Pellegrini mora há 28 anos no Jardim Felicidade, favela na zona sul de São Paulo. A casa onde mora com quatro filhos e uma sobrinha é própria, mas os sinais de que precisa de uma boa reforma estão por toda a parte. 
"Tem goteira no telhado. Lá no meu quarto até escorre água pela parede e eu não tenho janela. A única que tinha foi fechada pelo vizinho", conta ela, apontando ainda para a escada enferrujada.

Desempregada, ela está sem condições de trabalhar devido a uma obesidade mórbida, não poderia pagar uma reforma apenas com o salário da filha e o Bolsa Família, que somados geram uma renda familiar que não chega a R$ 1.000.

A oportunidade de ter um novo banheiro surgiu quando o Programa Vivenda, negócio social que realiza reformas de baixo custo e alto impacto social em favelas da capital, bateu em sua porta depois da indicação de uma amiga.

Com o subsídio do Instituo Azzi, parceiro do programa, Abigail pode reformar o único banheiro da casa. "Era feio, sujo, só tinha o vaso e o chuveiro. O piso era de cimento grosso." Hoje, ela fala com orgulho de seu novo cômodo.

"Eu até faço questão de deixar a porta aberta para todo mundo ver. Você olha branquinho, bonitinho, não faz vergonha pra ninguém."

Abigail foi uma das 134 reformas realizadas pelo Vivenda desde o início de 2014. O negócio social foi fundado pelo administrador Fernando Assad, 32, finalista do Prêmio Empreendedor Social de Futuro e concorre também na categoria Escolha do Leitor; vote.

Leia a seguir o depoimento de Abigail à Folha de S.Paulo.

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Sou carioca, de mãe baiana e pai pernambucano e moro aqui no Jardim Felicidade [zona sul] há 28 anos. Divido minha casa com meus quatro filhos e uma sobrinha.

Quando eu me separei, eu fui morar de aluguel e meu ex-marido ficou aqui. Depois ele alugou para um pessoal que destruiu a casa. Antes não era assim.

A fiação está toda para fora, não tem piso. Eles quebraram tudo.

Quando eu voltei, minha ex-sogra comprou o azulejo, mas eu ainda não consegui colocar. Já estava doente e os meninos eram pequenos.

Eu tenho obesidade mórbida devido a problemas na minha última gravidez. Recentemente, consegui o tratamento adequado pelo SUS e já perdi 20kg.

Também tenho problemas respiratórios e minha filha de 16 anos tem bronquite e rinite. A casa é abafada, toda fechada desse jeito. É escura. A gente tem que estar sempre com luz acesa durante o dia.

Não tenho janela. A única que tinha foi fechada pelo vizinho.

Quando chove, a casa fica cheia de goteira. No meu quarto até escorre água pela parede.

O lugar mais claro é a cozinha porque tem janela. O resto da casa não tem. A escada está quebrando e eu tenho medo porque, afinal de contas, perdi 20kg, mas ainda tem 140kg aqui. Eu tenho medo de ela arrebentar comigo.

O banheiro era feio, sujo, só tinha o vaso e o chuveiro. O piso era cimento grosso, a porta era 'portátil' [risos]. A gente tirava para entrar e escorava para usar o banheiro.

Não tinha o que fazer para limpar e, se jogava um cloro, cheirava demais e me prejudicava. Eu morria de vergonha porque é a parte da casa que uma vista mais visita.

 

No antigo banheiro de Abigail, não havia piso e a fiação era exposta. Foto: Na Lata.


Surpresa

Uma amiga, que me acompanha há muito tempo e conhece minhas dificuldades, soube do Vivenda porque outra conhecida nossa fez a reforma com eles. Ela perguntou se poderia me indicar e fez essa surpresa.

Em uma semana já estava todo mundo aqui. Foi tudo bem feito e de maneira rápida, dentro do prazo de cinco dias.

O pedreiro que estava fazendo o banheiro viu o piso que minha ex-sogra comprou e fez mais esse favor, colocou esse pedaço [em frente ao banheiro].

O banheiro está 'nos trinques'. Não queima mais o chuveiro, eles trocaram o fio e o banho agora é sempre quentinho. Por mim, o banheiro agora tem que ser limpo toda hora para continuar brilhando.

Eu até faço questão de deixar a porta aberta para todo mundo ver. Você olha branquinho, bonitinho, não faz vergonha pra ninguém.

Crédito facilitado

Eu consegui reformar porque a proposta de pagamento ficou bem dentro do orçamento. Só uma filha minha trabalha e recebo R$ 150 do Bolsa Família por dois que estão na escola. Mesmo assim ainda aperta um pouquinho

Começo a pagar agora em novembro. O valor do banheiro seria de R$ 3.900, mas eles reduzem e eu vou pagar R$ 900, dividido em dez prestações.

Conversei com minha filha, a gente apertou um pouquinho e vamos tirar do Bolsa Família e do salário dela e pagar assim.

É difícil conseguir crédito [fora]. Eu não tenho renda, desempregada, só tenho uma filha trabalhando. O meu filho de 19 anos também está desempregado há pouco tempo.

Então fica muito difícil conseguir crédito, principalmente quando se ganha menos de R$ 1.000 como ela pra manter a casa.

O sonho

Quando eu consegui o crédito [com o Vivenda], eu fiquei feliz. Quando eu vi o banheiro pronto, eu fiquei feliz duas vezes. Conseguindo arrumar a casa toda, pode ter certeza, que eu vou ficar mais feliz ainda. Elas [as filhas] também estão contentes. Graças a Deus.

A prioridade agora seria o meu quarto e a escada. Depois, o resto da casa porque está pingando, a calha já está começando a dar defeito.

Meu sonho de moradia seria uma casa térrea, para eu abrir a porta e ter um quintal para sentar na minha cadeira e tomar um ventinho.

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Depoimento a Eliane Trindade, editora do Prêmio Empreendedor Social.  Com Patricia Pamplona de São Paulo.

 


Barragem é o bairro mais extremo da capital paulistana, a 48 quilômetros do centro. Apenas uma linha de ônibus, com o sugestivo nome de Terminal Parelheiros, chega ao local que ainda não tem nem imagem disponível no Google Street View.

Um simples pedido de uma aluna, no entanto, fez três voluntárias ignorarem o distanciamento e irem até a única escola do bairro.

Jéssica Rodrigues, 16 anos, assumiu a presidência do primeiro grêmio oficial da Escola Estadual Joaquim Alvarez Cruz. Uma das bandeiras da chapa, só de mulheres, era o combate ao machismo e ao racismo. E ela encontrou uma forma de trazer a pauta para a escola em apenas duas semanas.

Por indicação de uma amiga nas redes sociais, ela encontrou o site Quero na Escola, canal para qualquer aluno de escola pública pedir o que quiser aprender além do currículo obrigatório. Em meio a outros pedidos como fotografia, cerâmica e quadrinhos, fez o seu: uma palestra contra racismo e machismo.

No mesmo dia em que a solicitação apareceu no site, usuários começaram a marcar pessoas com engajamento nos temas e três voluntárias se cadastraram. Uma delas, a jornalista Marcella Chatier, avisou que não ia sozinha. “Estamos organizando um bonde para atender a aluna”.

A organização do site conversou com a direção da escola para saber se a palestra poderia ocorrer na instituição ou se teria de ser em outro lugar. Com a intermediação do grêmio, a escola não apenas aceitou receber as visitas, como liberou todos os alunos e professores do período noturno para assistir.

Na quarta-feira passada, as feministas Marcella e Martha Lopes, jornalistas sócias na empresa de curadoria criativa Cobogó, e a presidente da ONG de empoderamento feminino Casa de Lua, Vanessa Rodrigues, saíram da Vila Madalena às 16h55 para a missão. Chegaram pontualmente às 19h na escola.

Os rostos desconhecidos foram logo reconhecidos pelos alunos. “Chegaram as palestrantes”, gritou um rapaz pela grade para que o portão fosse aberto. Jéssica e as demais integrantes do grêmio receberam as voluntárias, seguidas pela coordenadora pedagógica do período noturno, Benedita Pereira Martins.

Escolhido o espaço do pátio, as alunas avisaram nas salas e um a um 170 alunos trouxeram suas cadeiras e se enfileiraram em frente ao palco. Nove professores ficaram de pé nos fundos ou na lateral.

Foi tanta gente, que fez falta um microfone. “A gente tem, mas alguém esqueceu a bateria dentro e oxidou”, disse a coordenadora. Durante todo o ano o equipamento não havia sido usado.

ee joaquim alvarez cruz quero na escola protagonismo estudantil participação

Chegada das feministas na escola estadual Joaquim Alvarez Cruz.
 

A palestra incluiu vídeos de campanhas por igualdade de gênero, falou de diferença de acesso à educação e ao esporte, de direito a sexualidade, gravidez, da necessidade de gênero aparecer nos planos educacionais e de racismo. Quando iam encerrar, umas das meninas tomou coragem e falou que queriam abordar o Top 10, bullying comum na periferia de São Paulo que também ocorreu naquela escola.

Vanessa Rodrigues, usou um tom de voz mais elevado para repudiar a agressão. “Isso pode acabar com a vida de uma menina ou deixar marcas muito sérias”. Diante das voluntárias, as jovens tomaram coragem e impressionaram as feministas experientes.

comentou Martha. “Queremos voltar e falar mais vezes com elas, foi muito enriquecedor e pode ser ainda mais em grupos menores”, completou Marcella.

Jéssica contou que se organiza com outras mulheres na luta contra o machismo na região. A família dela sofre com a questão desde que a irmã era adolescente e sofreu um bullying que venceram com a família unida. “Não é um assunto fácil de abordar, vocês aqui dão muita força para a gente seguir firme”, agradeceu.

Saiba mais:
www.queronaescola.com.br

 - Carta na Escola.

 


Neste sábado, dia 31 de outubro, a partir das 11h30, a Baixada do Glicério (centro de São Paulo) receberá a sua primeira 'Viradinha'. O evento contará com a presença de vários artistas da região, uma parceria da São Paulo Carinhosa, com a Secretaria de Cultura e o coletivo Glicério pela Vida.

A Viradinha terá em sua abertura um cortejo que sai da Praça Costa Manso e será acompanhado pelo Batuq do Glicério, bloco carnavalesco que busca retomar a cultura dos carnavais de rua, e pela Escola de Samba Lavapés, tradicional escola de samba do Glicério. Também por aproximadamente 100 crianças do projeto “Criança Fala na Comunidade – Escuta Glicério” da organização CriaCidade.

Os grupos Rodas de Festas, Pé de Zamba, Trupe Pé de Histórias, Três Marias e Um João, Água e a Mc Sofia se apresentarão, também, no dia. E Xand, DJ da região, será o mestre de cerimônia da festa.

O evento contará com várias oficinas e brincadeiras, uma delas será oferecida pelo grupo Palavra Cantada. Destaque para a oficina de DJ e brincadeiras com a Parafernalha Circense.

A Viradinha estará, também, no espaço do projeto “Direitos Humanos no Viaduto”. Lá haverá apresentações de Rudy Alves, rapper da região, Dionatan Cardoso “B.boy Jotta”, Edgar Santos e um Sarau a Luz de Velas.

Serviço

O que? Viradinha no Glicério.
Quando?  Sábado, 31 de outubro, a partir das 11h30.
Onde? Na Baixada do Glicério – Rua dos Estudantes, entre os n.ºs 524 e 572.

Carina Barros no Periferia em Movimento.

 


Como os investidores sociais tem articulado seus projetos e programas às políticas públicas? Quais resultados têm obtido nessa prática? Quais desafios têm enfrentado no alinhamento? Essas foram algumas perguntas que nortearam o segundo encontro da Rede Temática de Políticas Públicas do GIFE, promovido no dia 22 de outubro, em São Paulo. Na ocasião, empresas, fundações, institutos associados tiveram a oportunidade de compartilhar sete iniciativas no campo e também trocar experiências e aprendizados nesta forma de atuação do ISP (conheça abaixo todos os cases).

Rafael Gioeilli, gerente geral do Instituto Votorantim e um dos coordenadores desta Rede Temática, abriu a reunião destacando que a proposta da atividade foi uma das demandas levantadas pelo grupo no primeiro encontro do ano, tendo em vista as diversas perspectivas de atuação do ISP junto às políticas públicas e os riscos e receios ainda existentes nessa aproximação. “A troca e a integração dos participantes, assim como possibilidades de encontrarmos interesses convergentes, é uma das propostas dessa Rede Temática também”, disse.

Após as apresentações, a socióloga e consultora Anna Peliano e Bruno Gomes, diretor de projetos da Agenda Pública, trouxeram suas contribuições ao debate sistematizando os principais pontos de convergência entre as iniciativas.

Anna Peliano destacou que as parcerias entre o ISP e os governos são relativamente novas e que fica evidente em todas as experiências a preocupação do alinhamento ao negócio, o que também se apresenta como uma nova tendência. Outros aspectos importantes a serem destacados são as diferentes formas do investimento social privado se relacionar com as políticas públicas, seja vislumbrando as grandes políticas nacionais, seja no atendimento mais direto às demandas do poder público local.

Há experiências no sentido de construção de capacidades dos gestores públicos, de fortalecimento das instituições e também da entrega de um produto final, como, por exemplo, assessorar na construção de planos municipais. “O que percebemos é um movimento de complementação e não de substituição de políticas públicas, ajudando a fortalecer o que já existe, além de inovar e criar novas metodologias de trabalho que podem ser incorporadas. Os investidores não são os protagonistas, mas, sim, atores participantes do processo”, ressaltou Anna Peliano.

Segundo a especialista, a principal e maior contribuição que as empresas, fundações e institutos estão dando nesse contexto é o de articulação. “Inclusive é algo interessante de se observar, pois estão articulando não somente a sociedade com o governo, mas também ajudando as próprias instâncias governamentais a se articularem. É algo muito rico e fundamental”.

Anna destacou ainda que outra contribuição do setor no campo das políticas públicas tem sido o de geração e compartilhamento de conhecimentos, ou seja, de partilhar novas informações que podem contribuir para uma política pública mais eficaz e eficiente.

Bruno Gomes apontou também os principais desafios ainda a serem enfrentados nessa forma de atuação, como, por exemplo, as diferenças entre os tempos da empresa e do governo – inclusive o tempo político -; as diferenças de prioridades, o que pode impactar, inclusive, na definição de indicadores e seu monitoramento; o estabelecimento de contrapartidas; e a garantia da participação da sociedade civil. “Me parece que ainda há um certo receio em envolver a comunidade nesta relação tripartite. No entanto, trata-se de algo fundamental para o controle social, eliminando riscos e tornando a relação mais estável e sustentável”, pontuou o diretor da Agenda Pública.

Juliana Santana, gerente de projetos da Fundação Bunge, destacou que um caminho para atender “à ansiedade da empresa por resultados” mesmo diante da complexidade que é um trabalho pelo desenvolvimento de um território, é trazer no planejamento propostas de ações que consigam apontar resultados a curto prazo e que demonstrem os ganhos de melhoria no diálogo e relacionamento com a comunidade, por exemplo.

Na avaliação de Anna Penido, a Rede Temática é um espaço com grande potencial para identificar possibilidades de atuações conjuntas e alinhamento de conceitos, inclusive, para fortalecer as ações já realizadas. “Fazer esse alinhamento é essencial, pois precisamos trazer o entendimento sobre é o que é relacionar o ISP com políticas públicas. Esse grupo é de uma riqueza imensa”, ressaltou Andreia Rabetim, gerente de Parcerias Intersetoriais da Fundação Vale.

Conheça as práticas compartilhadas na Rede Temática:

Instituto Votorantim

O Instituto Votorantim fez uma parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) para apresentar as reais demandas de formação e qualificação profissional da empresa para serem desenvolvidas por meio do Pronatec Brasil Maior, do Governo Federal, que oferece tanto a requalificação de trabalhadores em atividade, quanto a formação de trabalhadores para ocupação de novas vagas.

O Instituto colabora na articulação local das Unidades de Negócio da empresa para a realização do Pronatec, que ocorre por meio do Sistema S ou dos Institutos Federais e Estaduais de Ensino. A empresa viabiliza estrutura ou transporte para que os cursos possam ser realizados, caso seja necessário.

O IV criou um guia sobre como fazer esse alinhamento ao Pronatec para que as empresas saibam como proceder, assim como  um sistema de monitoramento e avaliação de processos e resultados. O material está sendo disseminado pelo Ministério para outras empresas.
Em 2014, foram realizados 178 cursos em oito Estados, 19 municipios, beneficiando mais de 4 mil pessoas. Num levantamento interno, 96% das Unidades declararam estar satisfeitas e muito satisfeitas com os cursos e 48% das Unidades contrataram pessoas que saíram do Pronatec.

Fundação Nestlé e Nestlé

A Fundação Nestlé e a empresa desenvolvem o Programa Nestlé Nutrir Crianças Saudáveis no Brasil desde 1999 – trata-se de um programa que acontece em 80 países – e, a partir de 2001, teve início também o Nutrir nas Escolas. Na iniciativa, a Fundação estabelece parcerias com secretariais municipais de Educação para a implementação do programa, que visa promover hábitos saudáveis de alimentação atrelados à atividades físicas, alinhado ao Plano Nacional de Alimentação Nacional e às diretrizes da Organização Mundial da Saúde.

Em 15 anos, o programa já atingiu 2.33 milhões de pessoas e não acontece, necessariamente, em cidades onde há a presença da empresa. O programa colabora também na orientação das secretarias em como tornar o ambiente da alimentação e da atividade física dentro das escolas mais adequados e interessantes para as crianças.

Fundação Bunge

O “Projeto Comunidade Integrada”, realizado nas cidades de Bom Jesus do Tocantins, Pedro Afonso e Tupirama, em Tocantins, foi a iniciativa apresentada pela Fundação Bunge. O projeto está no seu quinto ano de realização e veio atrelado à instalação de uma usina de açúcar da empresa na região, com a proposta de criar condições para o desenvolvimento territorial de forma sustentável.

O projeto conta com três frentes de atuação. Na parte de relacionamento com stakeholders, foi criado um Fórum permanente de debate, que conta com a participação do governo, empresas, lideranças etc. Já na frente de fortalecimento da gestão pública, são realizadas capacitações dos gestores que atuam nas áreas técnicas, formação de conselheiros, formação da rede proteção da infância, com a regularização dos fundos municipais de educação etc, e, na frente de apoio ao desenvolvimento humano e econômico, são oferecidos cursos profissionalizantes, formação empreendedora para mulheres, capacitação de educadores etc.

Em parceria com a Universidade local, foi estruturado também o Plano Diretor Urbano.

Instituto Gerdau

O Instituto Gerdau compartilhou sua experiência com o Projeto Cooperativas de Reciclagem, realizado de 2011 a 2014, que tinha como proposta a profissionalização das cooperativas e fortalecimento de organizações intermediárias em encontro com a Política Nacional de Resíduos Sólidos. A iniciativa está alinhada ao negócio também, tendo em vista que, atualmente, a Gerdau é maior recicladora das Américas.

O projeto foi desenvolvido em parceria com a Aliança Empreendedora, Sebrae e Senai em quatro municípios. Entre os resultados alcançados está o fato de que 100% das cooperativas foram formalizadas e com venda direta de sucata ferrosa para a Gerdau, além de terem recebido equipamentos de segurança adequados e serem capacitadas quanto à utilização. A renda média dos catadores passou de R$475,00 (em 2010) para R$751,00 (em 2013).
A experiência motivou o Instituto a se unir a outras empresas, como Brasken, Bunge e Ambev, em 2014, para criar uma Rede empresarial na Bahia para maximizar os resultados de todos os projetos que vêm sendo realizados nessa área de reciclagem na região.

Instituto Desiderata

O Instituto Desiderata destacou a sua atuação que visa fortalecer duas políticas públicas: na área de saúde, principalmente em relação ao diagnóstico e tratamento do câncer infantil, e na área de educação, visando a melhoria da qualidade do ensino de adolescentes. Para isso, atua em quatro frentes: produção e disseminação de conhecimento; formação de profissionais; ambientação de espaços; e articulação e mobilização.

Entre as iniciativas desenvolvidas em saúde, está a articulação do “Unidos pelo Cura”, que visa a promoção do diagnóstico precoce em até 72h na rede pública de saúde por meio da da capacitação de profissionais de saúde e do fluxo organizado de atendimento.

Já em educação, por exemplo, foi criada a Plataforma Prisma, que dissemina práticas educativas para adolescentes feita por professores e adolescentes, assim como a Latitude, uma plataforma de indicadores com reflexão dos dados. Todas as ações são em parcerias.

Instituto Walmart

O programa “Escola Social do Varejo” foi o case apresentado pelo Instituto Walmart. A iniciativa, realizada em parceria com o Instituto Aliança, trabalha na formação de jovens para o mundo do trabalho. Atualmente, o programa conseguiu incidir no currículo do Ensino Médio na rede pública do Estado do Ceará.

Além das atividades no contraturno para os alunos do Ensino Médio, no Estado, foi possível também desenvolver outras experiências: oferta de duas disciplinas “projeto de vida” e “mundo do trabalho” durante os três anos do Ensino Médio dentro das escolas de ensino profissional; criação do Núcleo de Trabalho, Pesquisa e Práticas Sociais (NTPPS), que discute temas como criação da identidade, comunidade e mundo do trabalho de forma interdisciplinar em trabalho de pesquisas dos alunos; e o Aprendiz na Escola, visando formar aprendizes nas escolas.

Em 2015, estão sendo atendidos 83 mil jovens e 885 educadores em 129 municípios, o que corresponde 40% de toda a rede escolar do Ceará.

Fundação Vale 

A Fundação Vale compartilhou sua experiência na forma de atuação nos territórios, que tem como pilares saúde, educação e geração de trabalho e renda. Uma das iniciativas foi a revisão do Plano Diretor de Canaã dos Carajás, assim como o Pacto pela Educação na cidade, que tem mobilizado toda a comunidade.

Para suas ações nos territórios, a Vale estabelece cooperações técnicas com os Ministérios. Com isso, estimulam que os municípios captem recursos federais e estaduais, produção de material para facilitar e gerar entendimento sobre as políticas públicas, aumento de controle social e aplicação do investimento social voluntário de forma estruturante.

Fonte: GIFE.

 
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