No Rio, artistas, movimento negro e pesquisador mantêm vivo o passado do Leblon - São Paulo São

Um episódio pouco lembrado e conhecido da nossa História foi resgatado, com a sutileza de sempre, por Gilberto Gil e Caetano Veloso. Em meio à polêmica de ir ou não a Israel para a apresentação de um show, eles compuseram “As camélias do quilombo do Leblon”, numa referência ao passado abolicionista do Brasil e num paralelo com a ocupação da Cisjordânia por Israel.
A canção, que será reapresentada em show no próximo mês no Metropolitan, na Barra da Tijuca, é um convite para a reflexão e uma menção ao livro homônimo do pesquisador da Casa de Rui Barbosa, Eduardo Silva, lançado pela Companhia das Letras.

Silva conta que, muito antes de se tornar um dos bairros mais conhecidos e valorizados do Rio, na década de 1880, o Leblon foi um local de refúgio de escravos. O quilombo ficava na chácara do comerciante português José de Seixas Magalhães, no Alto Leblon, onde hoje está parte do Clube Campestre, e na Chácara do Céu. Antes disso, o local integrava as terras do francês Le Blond, que deu nome ao quilombo e, posteriormente, ao bairro.

Num Rio cada vez mais abolicionista, Seixas e outros simpatizantes da causa ajudavam os escravos a fugirem. Segundo Silva, o quilombo se diferenciava de outros porque era um movimento político. Por ser relativamente perto do centro urbano, sua existência era sabida; e o local, frequentado por abolicionistas e imigrantes.

Ex-escravos fazem reverência à Princesa Isabel com camélias em ilustração de Angelo Agostini.

Para Eduardo Silva, o quilombo do Leblon é uma síntese do Brasil moderno, já que contou com a participação ativa de negros e de mulheres. Havia no local um modelo social que se articulava para transformar a estrutura da sociedade escravista vigente na época. Apesar disso, sabe-se muito pouco sobre a liderança negra do movimento, já que quase todos os escravos fugidos não tinham seus nomes registrados. Por outro lado, é conhecido o apoio de políticos, como Rui Barbosa, e jornalistas, como José do Patrocínio.

— O quilombo do Leblon já é a modernidade penetrando o Brasil. É a participação das mulheres, dos negros, dos imigrantes. Não são os negros isolados rompendo com a sociedade, mas sim os negros articulados transformando essa sociedade. Isso que é o Leblon. O modelo foi replicado depois em outros lugares do país — explica Silva.

Seixas e os quilombolas cultivavam camélias na chácara. A flor, muito rara no país, era fornecida ao Palácio das Laranjeiras, onde residia a Princesa Isabel. Ela, por sua vez, fez aparições públicas com buquês de camélias, que também enfeitavam sua mesa e sua capela. A flor se tornou um símbolo do abolicionismo. Os apoiadores da causa não poupavam camélias em seus jardins e lapelas.

— A Princesa Isabel é a redentora não porque ela assinou a Lei Áurea, como muita gente pensa. O Brasil era uma monarquia parlamentarista, a lei era discutida na Câmara dos Deputados, passava para o Senado e ia para ela. Mas porque ela aparecia publicamente com camélias, que eram um símbolo abolicionista e subversivo — afirma Silva.

A flor foi anos depois usada como símbolo de debates sobre as cotas raciais e as ações afirmativas, dando nome ao projeto Camélias da Liberdade e ao Prêmio Camélia, voltado para a comunidade negra. Segundo o conselheiro do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas, Ivanir dos Santos, a camélia, além de seu significado histórico, consegue sensibilizar as pessoas.

— Ela já era um simbolo dos abolicionistas radicais, que não queriam negociação com os donos dos escravos. Quando começou o debate sobre as cotas na sociedade brasileira, houve muita resistência. Nós resolvemos usar as camélias, já que negros e brancos tinham usado o símbolo para a abolição. Quem pode ser contra uma flor? — questiona.

Mesmo com as recorrentes lembranças do simbolismo das camélias e da história do Leblon, seja pela comunidade negra, seja pelos artistas, Santos lamenta que esse passado seja ignorado pelos brasileiros:

— Parte da sociedade quer ignorar a História e a escravidão. Aconteceu no passado, mas ainda há resquícios. É uma marca da sociedade que ela quer ignorar, como se não tivesse existido. As pessoas acham que com a abolição houve igualdade. A camélia trabalha a lembrança e a perspectiva das políticas de inclusão.

Silva completa:

— Há uma má compreensão do que é o Leblon, de que é um bairro branco e rico, assim como do que é o Brasil. As pessoas querem rejeitar, mas a formação do Leblon nasce e inclui a comunidade Chácara do Céu. E com a a abolição, houve a continuação dessa comunidade e o surgimento de comunidades no Vidigal e a na Rocinha. Assim nasceu o Leblon.

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Júlia Amin em O Globo.



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