Da escolha do tema ao desfile final: os bastidores da 23ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo - São Paulo São

23.a Parada LGBT de SP terá 19 trios e espera público de mais de 3 milhões de pessoas. Foto: Divulgação.23.a Parada LGBT de SP terá 19 trios e espera público de mais de 3 milhões de pessoas. Foto: Divulgação.

Preparar a maior Parada LGBT do mundo não é fácil. São esperadas 3 milhões de pessoas para percorrer cerca de 5 km. Serão 19 trios elétricos, além de 8 eventos que acontecerão na mesma semana. Tudo isso organizado por um grupo de 20 pessoas.

A rotina da APOGLBT se aperta um mês antes do dia 23 de junho, data do evento, mas é desde setembro do ano anterior, que os preparativos começam. “Além da Parada, temos nossos trabalhos. Nem todos conseguiram licença de seus empregos, então acabam fazendo uma jornada dupla”, conta Renato Viterbo, vice-presidente da APOGLBT, que entre dezenas de atendimentos, conseguiu um intervalo para falar com a Agência de Notícias da Aids. 

A rotina da APOGLBT se aperta um mês antes do dia 23 de junho, data do evento. Foto: Agência de Notícias da Aids. A rotina da APOGLBT se aperta um mês antes do dia 23 de junho, data do evento. Foto: Agência de Notícias da Aids.

Devido à essa jornada, muitos dos organizadores acabam trabalhando de casa. Aqueles que conseguem estar presentes no escritório na ONG, no centro de São Paulo, se dividem em multitarefas, como atender aos telefones que não param de tocar e, principalmente, responder à dezenas de e-mails, em sua maioria de patrocinadores, apoiadores e fornecedores responsáveis pela estrutura física do evento.

Foto: Agência de Notícias da Aids.Foto: Agência de Notícias da Aids.O horário de trabalho dos integrantes da ONG nos dias que antecedem a Parada é de 9 da manhã às 21h, mas Renato sabe bem que as horas de produção vão pela madrugada. Ele conta que há dias em que praticamente não dorme. “Há noites que às 3h da manhã já estou de olhos acesos. Tem dia que às 5h da manhã já estamos respondendo e-mails.”

Por isso, é no período da tarde que a sala da APOGLBT ganha vida. Na parte da manhã, a maior parte dos colaboradores trabalham fora da associação. “Colocar a Parada na rua todo ano é uma dificuldade. Mas começamos os preparativos bem antes. A gente chega agora pensando que está tudo adiantado, mas ao longo do caminho você percebe que ainda é necessário fazer muito.” Renato conta que dentre os maiores desafios estão as burocracias de contratos entre com os patrocinadores e a preocupação com a segurança do evento. Foto: Agência de Notícias da Aids.Foto: Agência de Notícias da Aids.

“Esse ano estamos esperando muito mais de 3 milhões de pessoas devido ao momento político atual, já que as pessoas aproveitam a Parada para buscar visibilidade. Esperamos um número tão grande quanto em 2017, que foi estimado em 5 milhões de pessoas.”

Em relação ao momento político, Renato vê com positividade o fato de as pessoas entenderem a importância de atos políticos como o que acontece na Parada. “Entendemos que foi um governo legitimamente eleito, mas que não foi eleito por sua maioria. Para nós, como movimento social, é muito importante que as pessoas estejam lá representando suas categorias, suas demandas para que mostrem que a força emana do povo.”

No dia do evento, Renato e grande parte da equipe já está às 5h da manhã ao lado dos trios, que vêm de outros estados apenas para a realização da Parada. Uma vez em São Paulo, eles saem da Av. das Nações e vão em direção à Av. Paulista. Ele acompanha a saída de cada carro e de cada bloco até o final. É no último trio elétrico que ele sobe e consegue vislumbrar a vista das milhões de pessoa do alto.

Histórico

A primeira Parada LGBT de São Paulo aconteceu no ano de 1996, na Praça Roosevelt. No ano seguinte, o movimento foi transferido para a Avenida Paulista, onde acontece até hoje. A quantidade de pessoas que vão à rua nesse dia não é exatamente uma novidade, desde 1999 o número já era significativo, cerca de 300 mil pessoas ocupavam a Avenida Paulista, já nessa data.

Convite da Parada em 1997 quando ela se instala na Avenida Paulista. Imagem: Reprodução.Convite da Parada em 1997 quando ela se instala na Avenida Paulista. Imagem: Reprodução.

Clicando aqui, é possível ver um vídeo que conta as história das Paradas de São Paulo. “Aconteciam com um caráter mais de protesto mesmo. Hoje, ainda que algumas pessoas pensem que se trata de um carnaval fora de época, o fervo também é uma forma de luta. Chegamos a rever e repensar o conceito da Parada, estudamos o movimento europeu, o norte americano, mas foi unânime a vontade do movimento em manter os trios elétricos na avenida.”

Para Renato, ver a Parada apenas como carnaval é falta de conhecimento. Todas as pautas LGBTs que entram em discussão em algum momento, seja no STF, seja no Congresso Nacional, vêm da Parada de São Paulo, que escolhe um tema, o leva para a rua, as pessoas começam a refletir e, então começamos a batalhar. A união civil, por exemplo, foi um tema que levamos para as ruas já em 2002. A criminalização da homofobia também é um tema que falamos desde 2004. As pessoas estão livres para ir até a Parada protestarem da melhor maneira que acharem. Além de manifestação é uma festa.”

Na oitava edição, em 2008, o evento foi considerado o maior do mundo no gênero, com a presença de 1.5 milhões de participantes. Foto: Divugação.Na oitava edição, em 2008, o evento foi considerado o maior do mundo no gênero, com a presença de 1.5 milhões de participantes. Foto: Divugação.

Renato defende que, hoje, a Parada abraça todos os movimentos. Para evidenciar essa inclusão, quem abre o desfile, desde 2017 é um cordão de isolamento com pessoas com deficiência. “Esse ano, espera-se ao menos mil pessoas com deficiência à frente do desfile. Já levamos questão indígena, questão cigana, ou seja, percebemos que a Parada também deve abarcar outras pautas.”

Temática 

A cada ano, a organização escolhe um tema que norteará seu desfile. Logo após a prestação de contas da Parada, é chamado um Fórum que acontece desde 2016, nomeado “Que Parada Nós Queremos?”. Ali são reunidas pessoas, movimentos e ideias para definir o tema do próximo ano. São escolhidos os três melhores temas que seguem para votação.

No primeiro aniversário da Revolta de Stonewall, em 28 de junho de 1970, as primeiras marchas do orgulho gay aconteceram nos EUA. Foto: Getty Images.No primeiro aniversário da Revolta de Stonewall, em 28 de junho de 1970, as primeiras marchas do orgulho gay aconteceram nos EUA. Foto: Getty Images.

Para 2019, o tema será 50 anos de Stonewall: nossas conquistas, nosso orgulho de ser LGBT+. Ao longo da história, a humanidade aprendeu que as conquistas e os progressos são acompanhados por derrotas e retrocessos. Foi assim que movimentos por liberdade nasceram, guerras surgiram e direitos foram estabelecidos. Neste ano, comemoramos os 50 anos da Revolta de Stonewall, um exemplo de que vitórias podem surgir a partir do sofrimento e da repressão. Na madrugada de 28 de junho de 1969, um grupo de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) frequentadoras de um bar, o Stonewall Inn, em Nova York, nos Estados Unidos, resolveram, após uma batida policial, dar um basta às agressões, preconceitos, humilhações e perseguições que sofriam. Foram três dias de resistência e enfrentamento com a polícia. Naquela época, ter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo era ilegal em todos os estados americanos.

Junho é conhecido por ser o mês em que a população LGBT+ vai às ruas de diversas cidades no País em defesa dos seus direitos e em homenagem à comunidade. Foto: Getty Images.Junho é conhecido por ser o mês em que a população LGBT+ vai às ruas de diversas cidades no País em defesa dos seus direitos e em homenagem à comunidade. Foto: Getty Images.

“Para reforçar o nosso compromisso com a luta por mais respeito, aceitação, tolerância e direitos, a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP) resgata nossa história e convida todas as pessoas e movimentos que compartilham dos mesmos valores para celebrar a 23ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, no dia 23 de junho de 2019, com ritmo de alegria, desconstrução e muita lacração, o tema “50 anos de Stonewall: nossas conquistas, nosso orgulho de ser LGBT+”. Esse tema reforça a ideia de que pessoas LGBT+ possuem representação social, política, cultural e jamais se renderão ao autoritarismo, ao conservadorismo, nem às ameaças de retrocessos de conquistas, arduamente alcançadas nesses 40 anos de história do movimento LGBT no Brasil e 50 anos pelo mundo. Sim, isso é um grande motivo de orgulho!”

Muito Além do Desfile

A 23ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo acontecerá no próximo dia 23 de junho. Foto: Getty Images.A 23ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo acontecerá no próximo dia 23 de junho. Foto: Getty Images.

Além do desfile, estão programados uma série de eventos que complementam a Parada e que fazem alusão ao mês de junho, conhecido como mês do orgulho LGBT em muitos países pelo mundo.

Acompanhe quais serão os outros eventos que acontecem:

3ª Cãominhada da Diversidade
Dia: 20 de Junho
Hora: 10h
Local: Praça da República

19ª Feira Cultural da LGBT 
Dia: 20 de Junho
Hora: 10h
Local:  Praça da República

19º Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade
Dia: 21 de Junho
Hora: 19h
Local: Audio Casa de Shows

ParadaSP Fest
Dia: 21
Hora: 22h
Local: Audio Casa de Shows

Miss Brasil Gay Universo
Dia: 22 de Junho
Hora: 10h
Local: Clube Esperia

Serviço

23ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo
Data: 23 de Junho de 2019
Tema: 50 anos de Stonewall - Nossas conquistas, nosso orgulho de ser LGBT+
Portal e redes sociais: http://paradasp.org.br


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Artigo publicado originalmente no site da Agência de Notícias da Aids.

 



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