Cidade do México discute como desenterrar seus rios

Sob o viaduto Miguel Alemán, na Cidade do México, corre o que um dia foi o rio Piedad. Pavimentada em 1942, uma avenida encobre o curso d’água, um dos inúmeros que foram canalizados na capital mexicana – algo recorrente em grandes metrópoles.

Desde 2013, porém, um grupo que reúne acadêmicos, designers, planejadores urbanos, ambientalistas e artistas briga para, de alguma forma, resgatar 45 desses rios. O plano começaria trazendo à superfície cerca de 15 Km do rio Piedad.

“Esse projeto estilhaça paradigmas. Propõe acabar com uma estrada privada, que não pode ser usada a não ser que você tenha um carro. O que propomos é remover os carros, abrir os canos e tratar a água. Precisamos transformar o modelo de nossa cidade.” Delfín Montaña, biólogo, em entrevista ao site “CityLab”.

Ainda em fase teórica, a proposta consiste em remover os canos que abrigam as águas do rio e substituí-los por uma espécie de corredor biológico, que parte da área de Santa Fé e vai até o aeroporto da cidade.

O corredor eliminaria as pistas do centro da avenida, mantendo as laterais para a passagem de veículos. Incluiria ainda linhas de transporte público, um metrô, ciclovias, calçada e espaços verdes. Calcula-se que o projeto custaria US$ 863 milhões.

Para além da barreira financeira, porém, ele enfrenta resistência política. Há alguns anos, o grupo recebeu apoio na Assembleia Legislativa da Cidade do México, a proposta, porém, foi engavetada.

Projeto Rio la Piedad e Cidade Esportiva prometem devolver a Cidade do México sua relação com a água. Imagem: Aldo Urban.

O soterramento dos rios mexicanos

Em tempos pré-hispânicos, a Cidade do México era cercada por cinco lagos e cortada por inúmeros rios. O crescimento desgovernado da capital, porém, fez com que suas águas se tornassem grandes esgotos à céu aberto.

Entubados devido à grande poluição, os cursos de água cederam espaço a largas avenidas na metade do século 20, ocupadas por veículos nas décadas seguintes, com o desenvolvimento urbano local. O projeto posto em prática era de autoria do arquiteto Carlos Contreras.

A área em torno do viaduto Miguel Alemán é atualmente uma das mais prejudicadas em épocas de chuva no México, quando a água da precipitação excede a capacidade do sistema de drenagem. A proposta de Montaña criaria um sistema integrado para manusear e tratar a água.

Rios já foram desenterrados em outros lugares. Seul, na Coreia no Sul, trouxe de volta à vida o Cheonggyechon, que corria sob uma rodovia. Cidades como Singapura, Madri, Los Angeles, Portland e Caracas também têm iniciativas para recuperar seus cursos de água.

Na Europa, rios que não foram soterrados, porém modificados de alguma forma pela ação humana, estão sendo devolvidos a seus cursos naturais.

Os rios subterrâneos de São Paulo

São mais de 300 rios, córregos e riachos que correm no subsolo de São Paulo. Por ser proibido erguer prédios sobre rios soterrados, a maior parte fica sob o asfalto. Tal como no México, cederam espaço a avenidas e carros.

O córrego Saracura foi o primeiro a ser coberto, já em 1906. Desde então, ele segue por baixo do bairro paulistano do Bexiga, até o viaduto Doutor Plínio de Queirós.

Na altura da Praça da Bandeira, tem um encontro subterrâneo com o rio Itororó, que percorre a Avenida 23 de Maio, e o córrego Bexiga, que vem sob a rua Japurá, formando o Anhagabaú. Os três desembocam no Tamanduateí, que corre sob a Avenida do Estado.

“A cidade foi habituada a viver de costas para o rio. Nossa relação com a água é de medo: medo que haja enchente ou medo de que falte água.” José Bueno, arquiteto e cofundador na iniciativa Rios e Ruas, ao Nexo.

Esses cursos foram aos poucos soterrados ou canalizados durante o processo de crescimento desgovernado da cidade ao longo do século 20, uma forma de abrir espaço para que ela se expandisse e facilitar o escoamento de esgoto.

A intenção era melhorar as condições de escoamento, rebaixar o nível da água em tempos de cheias e viabilizar a irrigação. Porém, como consequência, alterou o ecossistema local, o que provoca alagamentos constantes nas regiões onde o rio costumava correr.

“Os rios estão enterrados na cabeça das pessoas. Houve um processo educativo que levou a população a achar que os rios enterrados eram melhores. Que possibilitariam o desenvolvimento, evitaria enchentes e mal cheiro”, diz José Bueno, arquiteto e cofundador da iniciativa Rios e Ruas, que desde 2010 faz campanhas para conscientizar a população sobre a realidade hidrográfica da cidade.

Para ele, antes mesmo de se criar um projeto que traga rios de volta a superfície, é necessário haver uma mudança de mentalidade. “Existe um conflito: ou tem rio, ou tem rua. Se eu falar com alguém sobre abrir um rio vão me responder: ‘Como assim? Abrir a 23 de Maio? O que vamos fazer com os carros? Precisamos estimular a reflexão sobre essa convivência.”

A situação, explica Bueno, é facilmente revertida em lugares em que não existe uma consolidação urbana muito intensa em termos de ocupação, e portanto os gastos com desocupação não seriam exorbitantes – como seriam no centro da cidade, por exemplo, região em que os rios começaram a ser soterrados. Áreas perto de nascentes, por sua vez, são mais fáceis de monitorar.

Segundo o arquiteto, projetos que pretendem trazer rios de volta à superfície são possíveis graças à sua resiliência. “Quando você dá mínimas condições para ele [o rio] voltar ao estado natural, ele responde.”

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Beatriz Montesanti no NEXO Jornal.

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