Como os romanos conseguiram construir Veneza sobre lama e água 15 séculos atrás

Veneza é uma das cidades mais bonitas do mundo, erguida em um dos cenários mais improváveis. Foto: Getty Images.
Veneza é uma das cidades mais bonitas do mundo, erguida em um dos cenários mais improváveis. Foto: Getty Images.

Fonte: BBC News.

A Europa passava por um período que posteriormente ficaria conhecido como o das “invasões bárbaras”, e o superestado que existia havia 500 anos no continente desaparecia. Os habitantes da região norte do que futuramente se tornaria a Itália já buscavam há algum tempo um lugar seguro para se proteger das investidas de povos como os visigodos e de conquistadores temidos como Átila, rei dos hunos. Foi nesse contexto que começou a ser construída, 15 séculos atrás, uma das cidades mais bonitas do mundo, erguida em um dos cenários mais improváveis.

A construção de Veneza remonta ao período das invasões bárbaras. Foto: Getty Images / BBC.

Veneza está localizada em uma laguna, termo da geografia que descreve uma depressão localizada na costa, preenchida por água salobra ou salgada. Ela tem 550 km² de extensão e 118 ilhas poucos centímetros acima do nível do mar.

“Construir uma cidade onde em tese seria impossível fazê-lo já seria uma loucura; mas construir uma das cidades mais elegantes do mundo em um lugar como esse é uma loucura colossamente genial”, escreveu no século 19 o pensador russo Aleksandr Herzen. E ele não estava errado.

Um bosque submarino

Veneza é sustentada por um 'bosque submarino'. Imagem: Reprodução.
Veneza é sustentada por um ‘bosque submarino’. Imagem: BBC News.

Os venezianos enterraram um bosque inteiro embaixo d’água para dar sustentação às edificações que se tornariam legado turístico da cidade.

Da área que hoje compreende Eslovênia, Montenegro e Croácia, trouxeram grandes troncos de árvores, que mediam entre 2 e 8 metros de comprimento. Afiaram um dos extremos, de forma que eles pareciam lápis gigantes, com os quais perfuraram a lama e o barro que tomavam conta da cidade italiana naquela época.

Colocação de cimento sob a fundação de madeira em Veneza, na ilustração de Jan van Grevenbroeck (1731-1807). Imagem: Getty Images.
Colocação de cimento sob a fundação de madeira em Veneza, na ilustração de Jan van Grevenbroeck (1731-1807). Foto: Getty Images/BBC.

Posteriormente, passou-se a usar, além de madeira, também pedra para dar sustentação à fundação.

Sem oxigênio

Assim, os belos palácios venezianos são sustentados na prática por milhares de palafitas “invisíveis”, encravadas na lama.

Com o tempo, os troncos de madeira se petrificaram. Imagem: Getty Images.
Com o tempo, os troncos de madeira se petrificaram. Imagem: Getty Images / BBC.

Apesar de estar debaixo d’água, entretanto, a madeira em todo esse tempo nunca apodreceu. Isso porque os pilares foram completamente submersos. Sem acesso ao ar (e, por consequência, com o oxigênio), a madeira não teve contato com bactérias, fungos e outros organismos responsáveis por sua putrefação.

Além das características anaeróbicas do lodo que recobriu — e protegeu — as estacas, as águas da laguna tinham grande concentração de minerais, que foram sendo absorvidos pela madeira até que ela se petrificasse.

Trabalhadores constroem a base para o novo campanário da Basílica de São Marcos, em fotografia publicada na revista L'Illustrazione Italiana em 1905. Imagem: Getty Images.
Trabalhadores constroem a base para o novo campanário da Basílica de São Marcos, em fotografia publicada na revista L’Illustrazione Italiana em 1905. Imagem: Getty Images / BBC.

Essa astuta obra de engenharia foi o que sustentou o conjunto de ilhas que no século 8 se uniram para formar a Sereníssima República de Veneza, que dominou a região do Adriático no período e controlou o comércio entre a Europa e o chamado Crescente Fértil (formado pelo que hoje é Palestina, Israel, Kuait, Líbano e parte de outros países do Oriente Médio).

Esse mesmo bosque sepultado segue sustentado sobre a água, apesar das ameaças, essa “Veneza com seus templos e palácios” que parecem “pedaços de encantamento empilhados”, como descreveu o poeta inglês Percy Bysshe Shelley.

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