Causas - São Paulo São

São Paulo São Causas

Levantamento revela que 49% dos paulistanos concordam que dificuldades de acesso à renda, educação e saúde podem desencadear ou agravar problemas psicológicos. Foto: Getty Images.Levantamento revela que 49% dos paulistanos concordam que dificuldades de acesso à renda, educação e saúde podem desencadear ou agravar problemas psicológicos. Foto: Getty Images.

A desigualdade social, que inclui o acesso à renda, trabalho, educação, moradia e saúde, é o fator que mais contribui para desencadear ou agravar problemas de saúde mental na opinião de 49% da população negra de São Paulo. É o que afirma a edição de 2021 da pesquisa “Viver em São Paulo: Relações Raciais”, realizada pela Rede Nossa São Paulo. O levantamento traz dados sobre a percepção da população paulistana em relação ao racismo e as consequências da discriminação no cotidiano da população negra na cidade.

Realizado em conjunto com o Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica), o estudo mostra que o medo constante de sofrer abuso ou violência policial também é um fator decisivo na saúde mental de 45% dos negros da cidade. Já 42% das pessoas entrevistadas afirmam que têm grande insegurança de não saber lidar com racismo e sentem medo de sofrer preconceito racial.

Imagem: reprodução.Imagem: reprodução.

Para 47% dos paulistanos, a pandemia também teve um impacto maior sobre o trabalho e a capacidade de gerar renda das pessoas negras em relação às brancas. A concentração de serviços e postos de trabalho em regiões de maior renda, os desafios da mobilidade urbana e de acesso às oportunidades da cidade contribuem para para agravar e manter as diferenças sociais que sustentam o racismo, de acordo com a pesquisa.

Percepção da discriminação racial

O estudo aponta que houve queda leve, de 3 pontos percentuais, na percepção do preconceito em shoppings e comércios em relação ao ano anterior, quando havia sido notada uma subida elevada nos números, em comparação aos de 2019, mas prevalece a percepção da maioria da população (78%) de que há diferença no tratamento de pessoas negras e pessoas brancas.

Em escolas ou faculdades, 74% da população percebe diferença no tratamento de pessoas negras em comparação às brancas. Nas ruas e espaços públicos, a percepção é de 72%; no trabalho, 68%; no transporte público, 64%; em hospitais ou postos de saúde, 57%; no local em que mora, 48%; e no ambiente familiar, 32%.

“Alguns indicadores apontam que as pessoas estão esperando medidas mais práticas de combate à violência e responsabilização das pessoas brancas, entendendo que o problema racial é uma questão para toda a sociedade”, diz o estudo.

Houve queda leve na percepção do preconceito em shoppings e comércios em relação ao ano anterior. Foto: iStock.Houve queda leve na percepção do preconceito em shoppings e comércios em relação ao ano anterior. Foto: iStock.

Melhorar a educação e o nível de informação sobre as questões raciais é a opção mais citada quanto ao papel das pessoas brancas no combate ao racismo (56% dos pretos e pardos), seguida de intervenção em situações de tratamento diferenciados entre brancos e negros (44% da população total).

Participar de protestos (físicos ou online) é a opção que apresenta maior queda quando comparado a 2020 (de 27% para 13%, em 2021), passando a ser visto por menos gente como uma ação válida de combate ao racismo. Se reconhecer como parte do problema também cai de forma acentuada (53% ante 47%).

Para os entrevistados do levantamento, as punições a policiais que são violentos com pessoas negras podem contribuir com a diminuição do preconceito racial. “Isso significa um melhor entendimento por parte da população sobre as complexidades que envolvem o racismo estrutural no Brasil”, pontua o estudo. Já o aumento da punição por injúria racial e o debate sobre o tema nas escolas apareceram como as medidas que mais contribuem para o combate do racismo na cidade de São Paulo.

O papel de empresas no combate ao racismo

86% da população entende que o racismo prejudica o desenvolvimento da cidade. Foto: Getty Images.86% da população entende que o racismo prejudica o desenvolvimento da cidade. Foto: Getty Images.

Apenas 8% dos entrevistados não declararam alguma medida que as empresas deveriam adotar para assegurar um ambiente de trabalho sem racismo e apenas 2% dos apontaram que não existe racismo no ambiente corporativo da cidade.

“Ou seja, praticamente 90% da população paulistana afirma que as empresas devem prevenir e assegurar um ambiente de trabalho sem racismo”, diz a pesquisa. Ao mesmo tempo, 86% da população geral entende que o racismo prejudica o desenvolvimento da cidade.

Posicionar-se contra qualquer tipo de preconceito racial é a medida mais eficaz que uma empresa pode adotar para assegurar um ambiente de trabalho sem racismo para 46% da população total, chegando aos 61% na zona oeste da cidade.

“Ter canais próprios de denúncia é mais citado por pretos e pardos (37%) do que pelos brancos (29%), enquanto ter protocolos e políticas institucionais para dar encaminhamento aos casos foi a medida menos apontada, por 46% do total de entrevistados”, finaliza o informe.

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Fontes: Alma Preta e Rede Nossa São Paulo.

No fim dos anos 1980, os irmãos Fábio e Cláudio Miranda se reuniram com amigos do Jardim Ângela, periferia do extremo sul de São Paulo, para formar uma banda de samba. Moradores de um dos lugares mais pobres da capital paulista na época, o grupo decidiu criar os próprios instrumentos com materiais reciclados. Era a gênese de um projeto que três décadas depois se tornaria referência em sustentabilidade no mundo.

Fábio e Cláudio Miranda são os fundadores do Favela da Paz, que surgiu após perceberem que moradores do Jardim Ângela se orgulhavam da banda e se interessavam em fazer música como eles. O projeto começou como estúdio na década de 90 para dar aulas de música para a comunidade. Depois, passou a ter projetos de sustentabilidade e energia renovável e se tornou Instituto Favela da Paz. Na recente edição da Conferência do Clima (COP), foi reconhecido como um dos 17 projetos de sustentabilidade mais inspiradores do mundo e ganhou espaço em pavilhão virtual do evento.

Quando a iniciativa surgiu, o Jardim Ângela era considerado o lugar mais perigoso do mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU) - título que só foi revogado em 2013, com participação ativa dos irmãos. "Percebemos que éramos agentes transformadores e poderíamos ajudar a mudar a realidade à nossa volta. Todo mundo queria sair, e a gente teve a sacada: por que não mudar o Jardim Ângela sem se mudar daqui?", indaga Fábio, de 42 anos.

Claudio promove oficinas para ensinar os moradores a gerar energia a partir do lixo orgânico. Foto: Raphael Poesia / Instituto Favela da Paz. Claudio promove oficinas para ensinar os moradores a gerar energia a partir do lixo orgânico. Foto: Raphael Poesia / Instituto Favela da Paz.

Os dois chegaram a ter 300 estudantes de música no estúdio. Muitos tentavam formar bandas, mas não conseguiam. Para resolver isso, a produção dos instrumentos continuava a ser feita com materiais reciclados - hoje cerca de 80% do estúdio é de materiais sustentáveis. A mudança para instituto só aconteceu em 2010. Um ano antes, Cláudio viajou a Portugal e teve contato com as energias renováveis. "Um dia, ele me ligou, disse que tinha umas placas azuis que faziam energia do sol e que ele queria trazer para o projeto. Eu achei que ele estava ficando doido", relembrou Fábio.

No ano seguinte, ele fez a mesma viagem, conheceu a energia solar e teve contato com sistemas de biogás, que convertem o lixo orgânico da cozinha em gás. Quando retornou, criou e passou a comandar o projeto Periferia Sustentável, com o objetivo de desenvolver tecnologias sustentáveis e de baixo custo que pudessem ser replicadas. O músico também passou a estudar sobre energias renováveis e criou o primeiro sistema de biogás no Brasil, replicado em diversas comunidades no País.

Hoje, o Instituto desenvolve oficinas que ensinam à população como fazer o biodigestor e influenciam centenas de jovens. Conseguiu se tornar autossuficiente, gerando a própria energia consumida. Ele também conta com um aquecedor de água espiral solar no telhado, que abastece os chuveiros, e com um tanque que coleta a água de chuva.

Elem Coelho, chef do projeto Vegearte, leva os ensinamentos da culinária vegetariana que aprendeu com a sua mãe. Foto: Raphael Poesia / Instituto Favela da Paz. Elem Coelho, chef do projeto Vegearte, leva os ensinamentos da culinária vegetariana que aprendeu com a sua mãe. Foto: Raphael Poesia / Instituto Favela da Paz.

Os irmãos também transformaram o instituto em uma ecovila e criaram um curso de culinária vegana, o Vegearte. Por meio de hortas comunitárias e ensino de manejo com os alimentos para crianças, incentivam a alimentação saudável e barata.

Para Felipe Faria, CEO da Green Building Council Brasil, empresa parceira do instituto, a iniciativa mostra que a sustentabilidade pode ser aplicada em qualquer lugar, independentemente da faixa de renda, sem contar a quebra de um dos preconceitos que giram em torno da sustentabilidade: o custo. "O instituto é totalmente filantrópico e mostra que quem tem recursos não tem desculpas para não fazer."

Custo de R$ 50 e passo a passo no YouTube

O nome, Instituto Favela da Paz, é um contraponto à violência vivida na região; o Jardim Ângela (que compreende o Jd. Nakamura) O nome, Instituto Favela da Paz, é um contraponto à violência vivida na região; o Jardim Ângela (que compreende o Jd. Nakamura)

A maioria das iniciativas sustentáveis do Instituto Favela da Paz são de baixo custo. A construção de uma horta vertical, por exemplo, não supera R$ 50. No canal do Instituto Favela da Paz no YouTube, Fábio também ensina o passo a passo da construção de sistemas de sustentabilidade mais complexos, como biogás. "Tudo é possível de ser feito por qualquer um, utilizando tambores, PVC, barbante", diz.

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Fonte: Estadão Conteúdo.

Há vários projetos sociais pelo país, que visam promover a inclusão e maneiras de implementar a educação inclusiva. Foto: Rode Marques Abreu.Há vários projetos sociais pelo país, que visam promover a inclusão e maneiras de implementar a educação inclusiva. Foto: Rode Marques Abreu.

Dentro do campo acadêmico muito se discute, sobretudo em cursos como a pedagogia e cursos de licenciatura nas mais variadas áreas, sobre a educação inclusiva e métodos de inclusão educacional em escolas.

No âmbito acadêmico são traçados projetos, trabalhos e até metodologias de TCC sobre autismo e outros projetos acadêmicos de extensão ligados à educação inclusiva.Contudo, uma das grandes críticas feitas por parte da opinião pública em relação às universidades e ao meio acadêmico é a falta de contato direto com a sociedade.

Muitos argumentam que as pesquisas realizadas dentro de universidades, laboratórios e departamentos de pesquisa são elitizadas e não possuem efeito real na vida dos cidadãos comuns.

Mas isso acaba sendo uma crítica infundada e falaciosa, por mais que bem intencionada, pois projetos que mudam a vida das pessoas diariamente são desenvolvidos dentro dos ambientes citados acima.

O percentual de alunos e alunas com deficiência matriculados no ensino regular evidencia que a inclusão aumentou. Foto: Getty Images.O percentual de alunos e alunas com deficiência matriculados no ensino regular evidencia que a inclusão aumentou. Foto: Getty Images.

Grande exemplo disso é a produção de vacinas e insumos para o combate da pandemia de coronavírus e tratamento dos doentes cujas pesquisas foram e são desenvolvidas em grande parte pelo meio acadêmico.

Ao se pensar na necessidade de debater a educação inclusiva em escolas, creches e inúmeros outros espaços de educação informal, pode identificar alguns projetos sociais que visam promover esta inclusão e também maneiras de se implementar a educação inclusiva nestes espaços.

Iniciativas sociais para a educação inclusiva

Como visto, apesar de as universidades brasileiras renomadas trabalharem exaustivamente no desenvolvimento de projetos políticos e pedagógicos, é necessário que esta discussão seja trazida ao ambiente escolar e social.

Uma publicação do site Hypeness de março de 2020 ressalta algumas ações sociais que transformaram a vida de jovens alunos PCD e PNE.

Educação física inclusiva

Em Contagem, MG, Projeto de Educação Física Inclusiva promove integração de estudantes com deficiência nas escolas. Foto: Prefeitura de Contagem. Em Contagem, MG, Projeto de Educação Física Inclusiva promove integração de estudantes com deficiência nas escolas. Foto: Prefeitura de Contagem.

A escola municipal Eli Horta Costa, do município de Contagem em Minas Gerais, conta com um projeto chamado Projeto Educação Física Inclusiva.

Este projeto é fruto de uma parceria entre a Rede Municipal de Ensino de Contagem e o Projeto Circuito Inclusão Solidária e é responsável por fornecer diversos brinquedos adaptados para alunos PCD, como balanços, skates, carrinhos, entre outros.

Projeto Ser Diferente é Normal

É preciso garantir o apoio necessário à aprendizagem, o que é feito por meio do atendimento educacional especializado. Foto: Divulgação.É preciso garantir o apoio necessário à aprendizagem, o que é feito por meio do atendimento educacional especializado. Foto: Divulgação.O município de Içara em Santa Catarina promove a inclusão de alunos portadores de deficiência da educação infantil, através de histórias, músicas, e bonecos.

O projeto é idealizado pela Associação Amigos da Inclusão do município de Içara que o realiza em parceria com a Secretaria de Educação, Ciência e Tecnologia do município.

A ideia de todo este projeto é a de conscientizar crianças, adultos e toda a sociedade e também promover o acolhimento e inclusão de colegas portadores de deficiência.

Unisinos e suas políticas de inclusão

A parceria entre universidades e escolas é um bom caminho para construir saberes e práticas pedagógicas. Foto: Divulgação.A parceria entre universidades e escolas é um bom caminho para construir saberes e práticas pedagógicas. Foto: Divulgação.

Pensando agora em educação inclusiva e inclusão de alunos com deficiência em nível universitário, não podemos deixar de ressaltar o caso da Unisinos, a Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Através de seu comitê de acessibilidade e inclusão, a Unisinos busca se tornar referência e uma universidade cada vez mais inclusiva ao longo de sua trajetória.

Além de ações diretas promovidas pela universidade, como:

  • Acolhimento
  • Campanhas de conscientização
  • Trabalho e acompanhamento psicológico
  • Implementação de planos de acesso
  • Contratação
  • Permanência
  • Oferecimento de Estágios

A Unisinos ainda promove cursos teóricos e práticos de extensão nos temas Práticas de Inclusão, Inclusão e Diferenças, além de fóruns e encontros sobre educação inclusiva.

Estratégias para promover a educação inclusiva

Com a tecnologia têm-se diversas possibilidades e materiais para se usar na inclusão da pessoa deficiente, tornando mais autônoma. Foto: iStock.Com a tecnologia têm-se diversas possibilidades e materiais para se usar na inclusão da pessoa deficiente, tornando mais autônoma. Foto: iStock.Agora que foram vistos alguns casos de projetos sociais voltados para a educação inclusiva e conscientização sobre o acolhimento e respeito à diversidade, é hora de serem analisadas algumas maneiras e estratégias pedagógicas que possam possibilitar esta inclusão em um ambiente escolar.

  1. Promoção de campanhas de conscientização.
  2. Conhecer as necessidades individuais de cada aluno.
  3. Realização de avaliações individuais.
  4. Investimento em tecnologia.

O investimento em tecnologia, por exemplo, pode ser responsável por personalizar o ensino e o aprendizado de cada aluno, o que por sua vez pode proporcionar uma educação mais humanizada, entendendo as individualidades e particularidades de cada aluno.

Ainda, este investimento, auxiliado de profissionais capacitados, bem-intencionados e de metodologias pedagógicas destinadas a estes alunos, a educação inclusiva tende a ser uma realidade em cada vez mais escolas, promovendo uma sociedade mais igualitária, justa, humanitária e respeitosa.

Por fim, a importância da educação inclusiva vai além de propor a escolarização de portadores de necessidades especiais. Incluir significa juntar, inserir, fazer parte de um certo grupo. A inclusão é uma oportunidade de convivência com a diversidade, para todos os alunos.

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Da Redação.

O bar Stonewall Inn onde tudo começou. Foto: The New York Times.O bar Stonewall Inn onde tudo começou. Foto: The New York Times.

Nos anos 1950 e 60, os gays, lésbicas, travestis e transexuais (LGBT) norte-americanos enfrentavam um sistema legal mais anti-homossexual do que os de alguns países do leste europeu. Porém, nos últimos anos da década de 60, tais políticas repressoras começaram a ser contestadas. Era uma época de mudanças e muitos movimentos sociais tornaram-se subitamente visíveis, como, por exemplo, o Movimento dos Direitos Civis Afro-americanos, a contracultura hippie e as manifestações contra a Guerra do Vietnam. Estes movimentos, juntamente com o ambiente liberal do bairro de Greenwich Village, serviram como catalisadores para os conflitos que ocorreram em Stonewall.

Os conflitos de Stonewall foram uma série de violentas manifestações protagonizadas por membros da comunidade LGBT contra uma batida policial que teve lugar nas primeiras horas da manhã de 28 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn, na Christopher Street, no Village de Nova York. O fato é considerado um marco do movimento e, até hoje, marca o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Mas voltemos ao Stonewall.

Clientes resistem à prisão em frente ao Stonewall Inn, na região de Greenwich Village em Nova York, no dia 28 de junho de 1969. Foto: Getty Images.Clientes resistem à prisão em frente ao Stonewall Inn, na região de Greenwich Village em Nova York, no dia 28 de junho de 1969. Foto: Getty Images.Numa época em que poucos estabelecimentos aceitavam receber pessoas abertamente homossexuais, o Stonewall Inn era conhecido por ser popular entre as pessoas mais pobres e marginalizadas das comunidades gay e lésbica. Também era o local das drag queens, travestis, transsexuais, dos prostitutos, prostitutas e sem-teto. As batidas policiais neste gênero de estabelecimentos eram rotina nos Estados Unidos da década de 60. Durante as sessões, os frequentadores normalmente recebiam castigos físicos de forma indiscriminada, mas, naquela manhã no Stonewall, os oficiais perderam o controle da situação.

Os fatos

Toda vez que a polícia chegava próxima do bar, o porteiro dava o sinal e o barman ligava todas as luzes do teto como um sinal para que todos se preparassem. Naquele verão de 1969, as batidas policiais tornaram-se cada vez mais frequentes, porém, na noite de 28 de junho, quatro policiais à paisana tiveram acesso ao bar sem que o porteiro pudesse acionar o alerta.

Era 1h20 da madrugada quando os policiais se anunciaram. Alguns dos 200 presentes no Stonewall entraram em pânico e tentaram fugir, mas outro policiais já tinham fechado portas e janelas.

Antes que chegasse o primeiro camburão a multidão havia aumentado em dez vezes e, com isso, elevou-se também a tensão. Foto: Getty Images.Antes que chegasse o primeiro camburão a multidão havia aumentado em dez vezes e, com isso, elevou-se também a tensão. Foto: Getty Images.

Nada saiu conforme o planejado. O procedimento padrão era o de alinhar os frequentadores a fim de verificar suas identidades. As policiais mulheres tiravam os vestidos dos clientes a fim de checarem seu sexo. Todas as drag queens, travestis e pessoas consideradas “homens caracterizados como mulheres”  e vice-versa eram presas. Só que, naquela manhã, as pessoas recusaram-se a obedecer os oficiais. Ninguém quis identificar-se. Então, a polícia decidiu levar todos para a delegacia. A drag queen Maria Ritter, que era conhecida como homem em sua família, lembrou: “Meu maior medo era de que eu ia ser presa. Meu segundo maior medo era que minha imagem sairia em um jornal ou em uma reportagem na televisão e eu estava com um vestido de minha mãe”.

A situação ficou tensa, estimulada pelo comportamento da polícia, que começou a ofender algumas lésbicas enquanto as revistavam.Na porta do bar, uma multidão assistia à batida policial. Lá de dentro vinham sons de gritos e de prováveis espancamentos. Na verdade, o nível de confrontação no Stonewall chegara ao ponto de alguns clientes do bar começarem uma “performance” especial para os policiais. Ouviram-se aplausos vindos do bar. Quando o primeiro camburão chegou, a multidão começou a vaiar. Alguém gritou “Gay Power!”.

A batalha

Pedras e tijolos eram atirados contra os policiais. Foto: Getty Images.Pedras e tijolos eram atirados contra os policiais. Foto: Getty Images.

O grito foi complementado por  sua antítese. Um oficial saiu do bar empurrando violentamente uma travesti, que lhe respondeu com uma violenta “bolsada” em pleno rosto. Logo depois, uma mulher foi arrastada para fora do bar, reclamando que suas algemas estavam muito apertadas. O policial que a arrastava respondeu golpeando-a na cabeça com um cassetete. Ela não apenas conseguiu permanecer em pé como olhou para a multidão e gritou: “Por que vocês não fazem alguma coisa?”. Para a surpresa geral, mas principalmente da polícia, uma multidão veio em solidariedade aos habitués do Stonewall Inn. Voavam pedras, moedas e garrafas de cerveja. O escritor Edmund White, frequentador do bar, lembra que todos estavam muito agitados. “Não tínhamos slogans nem atitudes, só cerveja e uma imensa raiva”.

A multidão tentou virar o camburão. Os policiais investiram contra as pessoas, o que só serviu para incitá-las ainda mais. Rapidamente, a polícia via-se em uma luta contra aproximadamente 500 pessoas, que começaram a arremessar tijolos de uma construção próxima. Os policiais jamais imaginaram que teriam de correr para o Stonewall a fim de se protegerem dos moradores do bairro.

Das janelas dos edifícios próximos, as pessoas jogavam quaisquer objetos em chamas. Parquímetros foram arrancados da calçada para servir de aríete contra as portas dos carros policiais. Depois de 45 minutos de violenta luta, chegaram mais policiais. A ordem era de prender qualquer um, mas era quase impossível capturar alguém.

As revoltas tomaram as ruas do Village nas noites seguintes. Foto: Getty Images.As revoltas tomaram as ruas do Village nas noites seguintes. Foto: Getty Images.

Os policiais recém-chegados foram dispostos em uma linha que impedia a saída de pessoas da confusão sem passar por eles. Então, os clientes do bar começaram a zombar deles, formando uma linha paralela que os encarava. A polícia, enfurecida, avançou, batendo no que encontrasse pela frente. Um erro. A multidão não recuou, antes respondeu virando carros e fazendo barricadas contra a polícia. Em menor número e surpreendida pelo ódio da multidão, a polícia começou a fugir. A luta continuou até às 4h da madrugada. Ninguém dormiu.

Durante toda a manhã seguinte, as pessoas visitaram o muito danificado Stonewall Inn, tentando entender o que tinha acontecido.

A noite seguinte

A notícia se espalhou e, na noite seguinte, a multidão voltou à Christopher Street em muito maior número. Alguns eram “veteranos” da noite anterior; outros eram meros turistas; e a maioria veio para brigar. O que houve foi que, pela primeira vez na história de Nova Iorque, gays trocavam carinhos a céu aberto. De mãos dadas, abraçavam-se e beijavam-se. Nada de esconderijos ou bares, nada de armários.

Quando a noite caiu em 29 de junho, a multidão ainda crescia. Então, a polícia de choque voltou. A multidão tratou de queimar cada lata de lixo, novos carros foram capotados e para-brisas quebrados. Quando alguém era levado ela polícia, a multidão recuperava rapidamente o refém. Mesmo em ruínas, o Stonewall Inn permaneceu todo o tempo aberto. A violência foi novamente até a madrugada. Mas a sensação era nova: era a de que algo tinha mudado para a comunidade LGBT.

A influência

A primeira Marcha do Orgulho Gay em 1970, na cidade de Nova York. Foto: Getty Images.A primeira Marcha do Orgulho Gay em 1970, na cidade de Nova York. Foto: Getty Images.

A chuva impediu os tumultos nos dias seguintes e a vida parecia voltar ao normal, mas o movimento dos direitos dos homossexuais tinha nascido. Em 28 de junho de 1970, no aniversário do início dos motins de Stonewall, “O Dia da Libertação de Christopher Street”, foi comemorado com um desfile do Stonewall até a 6ª Avenida em direção ao Central Park. Foi a primeira Parada do Orgulho Gay na história dos EUA. Desfiles também foram realizados em Los Angeles e Chicago. Boston, Dallas, Milwaukee, Londres, Paris, Berlim Ocidental e Estocolmo seguiram o exemplo em 1971. E em 1972, Atlanta, Buffalo, Detroit, Washington, Miami, Filadélfia e San Francisco uniram-se ao movimento.

Dois anos depois do conflito, já havia organizações dos direitos dos homossexuais estabelecidas em quase todas as grandes cidades dos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental. Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade da seu manual das doenças mentais. Até hoje, a Christopher Street é considerada a “rua LGBT” de Nova York, e o Stonewall Inn recebe bandeiras de arco-íris em sua fachada para afirmar seu status de “local do nascimento do movimento moderno de libertação gay e lésbico”.

Em 2015, o bar Stonewall Inn foi declarado monumento histórico de Nova York; em 2016, tornou-se o primeiro monumento nacional aos direitos dos LGBT nos EUA. Foto: AFP.Em 2015, o bar Stonewall Inn foi declarado monumento histórico de Nova York; em 2016, tornou-se o primeiro monumento nacional aos direitos dos LGBT nos EUA. Foto: AFP.

Em 1994, para marcar o 25º aniversário do episódio, o desfile de 28 de junho foi do Village em direção à sede da ONU e depois do Central Park. Estima-se que mais de um milhão de pessoas compareceram. Em 1999, o Stonewall Inn foi colocado no National Register of  Historic Places. E em junho de 2011, pouco antes do 42º aniversário do conflito, o Estado de Nova Iorque legalizou o casamento gay. Milhares de pessoas acorreram a uma festa espontânea no único lugar que serviria para comemorar qualquer coisa relacionada ao Orgulho Gay: o pequeno bar em um quarteirão tranquilo de Christopher Street.

As paradas do orgulho LGBT que acontecem todos os anos nas principais cidades do mundo começaram por causa da revolta de Stonewall. Foto: AFP.As paradas do orgulho LGBT que acontecem todos os anos nas principais cidades do mundo começaram por causa da revolta de Stonewall. Foto: AFP.

Para finalizar, uma última informação: em 76 países do mundo a homossexualidade ainda é considerada crime. Em 7 deles a pena prevista é a de morte.

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Por Amilton Ribeiro no Sul21. Edição: São Paulo São.

Rosana Freire, manicure, e Renata Lima, assistente administrativa da AgroFavela Refazenda. Horta comunitária produziu até março mais de 500 quilos de alimentos. Foto: Rosana Freire / Arquivo Pessoal.Rosana Freire, manicure, e Renata Lima, assistente administrativa da AgroFavela Refazenda. Horta comunitária produziu até março mais de 500 quilos de alimentos. Foto: Rosana Freire / Arquivo Pessoal.

Sob os parcos raios de sol que superam as águas de telhado das muitas casas vizinhas e iluminam a laje, crescem um pimentão, uma couve kale, cebolinhas, hortelãs, entre outros temperos. A casa pertence a Rosana Freire, manicure de 30 anos, e uma dos cerca de 120 mil moradores de Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo.

Ainda em novembro de 2020, ela foi aluna da segunda turma da AgroFavela Refazenda, projeto de horta comunitária que não apenas fornece alimentos aos moradores na região, mas oferece cursos preparatórios para que as mulheres de Paraisópolis possam plantar em casa.

Assim como outras habitantes da favela com população de cidade média, Rosana saiu da aula com uma muda de sua escolha entre os braços. No caso dela, uma couve kale. A hortaliça plantada há sete meses está prestes a atingir o tamanho ideal para consumo.

A manicure contou à revista Globo Rural que sempre teve interesse em hortifruticultura, mas, com o tempo tomado pelo trabalho, nunca havia se dedicado de fato à prática até frequentar as primeiras rodas de conversa da Refazenda.

“O pessoal do projeto dá todo o suporte, além de ajudar com insumos e equipamentos. São coisas simples. Por exemplo, a Renata [Lima, assistente administrativa da AgroFavela] foi à minha casa me ajudar. Colocamos brita nos fundos dos vasos, e plantas que nunca tinham vingado começaram a ficar mais bonitas”, recorda Rosana, que planeja cultivar seu primeiro pé de morango nos próximos dias.

As educandas do projeto ainda recebem a oportunidade de participar das colheitas semanais do projeto. Desde novembro do ano passado, foram colhidas 3.486 hortaliças, como mostarda, alface, couve, espinafre, alecrim, orégano, louro, tomilho, menta e alho-poró, entre um total de 63 espécies e variedades de vegetais.

A mão boa por trás de cada muda é da jardineira Adélia Maria de Oliveira. Enquanto ela faz as plantas brotarem ou prepara enxertos, divide a responsabilidade pela horta com o também morador da comunidade Ismael Walker, que fica com o trabalho pesado, empurrando a carriola e manejando a terra. O plantio é feito em uma área de 900 metros quadrados à beira da avenida Hebe Camargo, que delimita o início do território de Paraisópolis.

Atrás da tenda de jardinagem onde Adélia trabalha, estão situadas as estruturas verticais dedicadas à hidroponia (meio para cultivar vegetais sem o uso do solo com auxílio de irrigação). “Graças a deus ainda não teve uma cultura que tenha dado errado aqui. Cresci na fazenda, em Vitória da Conquista (BA). Comecei a plantar ainda menina”, afirma.

Adélia Maria de Oliveira e Ismael Walker, os dois jardineiros da AgroFavela Refazenda. Foto: AgroFavela Refazenda / Reprodução / Instagram.Adélia Maria de Oliveira e Ismael Walker, os dois jardineiros da AgroFavela Refazenda. Foto: AgroFavela Refazenda / Reprodução / Instagram.

O orgulho não é injustificado. Fora as folhagens e temperos distribuídos entre as treliças e os boxes, estão plantadas na horta pés de morango, pimenta, quiabeiros, maxixeiros, dentre outras outras árvores frutíferas, além de tubérculos como batatas-doces. “Nada leva agrotóxico. Tudo é orgânico”, diz a responsável, que combate as pragas com uma solução de ervas aromáticas cultivadas na própria AgroFavela.

Esse sem-fim de cores, odores e sabores deslumbra as alunas do curso, que são apresentadas a alimentos aos quais não tinham acesso antes do projeto, segundo Adélia. “A gente ensina a elas como aproveitar cada uma das hortaliças na cozinha e fala dos benefícios do consumo”, conta ela, uma das orientadoras.

Outra faceta da fazenda urbana é abastecer a cozinha solidária do Mãos de Maria, projeto voltado ao empoderamento de mulheres por meio da gastronomia, que passou a distribuir 10,9 mil quentinhas por dia na comunidade desde março de 2020, quando o novo coronavírus passou a assolar o país.

Adélia começou, inclusive, a cuidar de plantas em Paraisópolis muito antes da inauguração da AgroFavela Refazenda, há pouco mais de sete meses. Ela cultiva temperos, frutas e folhosas no terraço do Bistrô Mães de Maria faz três anos, no âmbito do Horta na Laje, o primeiro passo do G10 Favelas (bloco de líderes e empreendedores de impacto de comunidades brasileiras) para levar o conceito de agricultura comunitária para Paraisópolis.

Quem financia a empreitada desde os seus primórdios é o movimento contra a fome e a má nutrição Stop Hunger. O superintendente do Instituto Stop Hunger Brasil, Davi Barreto, ressalta a importância da AgroFavela na conjuntura em que o Brasil retornou ao Mapa da Fome, do qual saiu após luta de décadas em 2014. “É uma iniciativa de alto impacto, pois dá uma chance à população local sem a dependência de uma ação do governo”, diz.

Barreto defende que o foco da iniciativa nas mulheres, além de pretender empoderá-las, visa conferir mais eficiência ao empreendimento social. No Brasil, o crescente número de mulheres chefes de família atingiu 45% em 2018 ante 25% em 1995. Dentre as pessoas que receberam auxílio emergencial em 2020, 55% eram mulheres.

Mais um ponto forte do projeto, na visão do superintendente, é a reprodutibilidade. Embora tenha um planejamento minucioso de duas paisagistas voluntárias, os processos da horta são fáceis de serem repetidos em casa.

As estruturas verticais e os boxes são feitos com materiais simples, muitas vezes reaproveitados. De mais complexo, há o sistema de hidroponia. “Planejamos começar a distribuir uma versão compacta dele para as moradoras ainda nos próximos meses”, adianta.

Ele ainda salienta o êxito do projeto em levar o modelo de fazenda urbana, “tão comum em grandes cidades, como Paris”, à periferia.

Planos de expansão

O presidente do G10 Favelas, Gilson Rodrigues, em meio aos pés de alface plantados em estrutura hidropônica. Foto: AgroFavela Refazenda / Reprodução / Instagram.O presidente do G10 Favelas, Gilson Rodrigues, em meio aos pés de alface plantados em estrutura hidropônica. Foto: AgroFavela Refazenda / Reprodução / Instagram.

A fazenda urbana que já colheu mais de 500 kgs de alimentos em seus primeiros cinco meses é fruto de um antigo sonho, diz Gilson Rodrigues, atual presidente e idealizador do G10 Favelas. Quem vê a horta banhada pelo sol da tarde não imagina que o espaço era o estacionamento do pavilhão social da entidade há cerca de um ano.

Como na música de Gilberto Gil, o G10 Favelas refez tudo dando origem à Refazenda. “Durante o processo de pandemia, nós começamos a pensar em alternativas para que as nossas ações pudessem ser sustentáveis. E, nas doações que recebemos, normalmente, não chega tempero ou hortaliça. Geralmente, é arroz, feijão ou produtos mais industrializados. Começamos a plantar as coisas que a gente sentia falta”, detalha Rodrigues.

Embora esse pontapé inicial pareça singelo, abastecer um projeto com as dimensões do Mãos de Maria trata-se de um feito. Tanto é que o Horta na Laje, de menor escopo, foi reconhecido em 2019 com o Prêmio GEEIS-SDG (Padrão Internacional de Equidade de Gênero Europeu - Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em tradução livre), na sede da ONU em Nova York.

A  Associação das Mulheres de Paraisópolis estima ter impactado 1.607 pessoas diretamente e 8.035 de forma indireta, desde o início da AgroFavela Refazenda.

Mas o objetivo final das iniciativas é gerar trabalho e renda na cozinha e na horta para as mulheres de Paraisópolis. “Tem aquela campanha Agro é pop, agro é vida, agro é tudo. A AgroFavela veio mostrar que a favela também pode ser agro. Produzir seus alimentos, combater a fome e a má nutrição”, defende Rodrigues.

"E como na favela todo o espaço é valioso, e as casas acabam tendo de crescer para cima. A solução que encontramos foi plantar nas lajes", ele acrescenta. E a iniciativa tem tido sucesso com o auxílio de técnicas de envazamento e agricultura vertical.

O presidente do G10 Favelas disse que pretende expandir a operação da AgroFavela para todo o Brasil. “A próxima vai ser inaugurada em Betim, na Grande Belo Horizonte, no dia 23 de julho. E teremos outra no bairro Casa Amarela em Recife”, adianta. Em março, ele já havia inaugurado uma horta comunitária em Heliópolis, a maior favela de São Paulo.

Imagem de satélite de Paraisópolis. O pavilhão social é o galpão com cobertura em arco, ao lado dos terrenos vazios. Imagem: MapBox.Imagem de satélite de Paraisópolis. O pavilhão social é o galpão com cobertura em arco, ao lado dos terrenos vazios. Imagem: MapBox.

Os planos de expansão também valem para a primeira sede da AgroFavela. “Estamos preparando a infraestrutura para começar a plantar nos dois terrenos ao lado”, afirma o líder comunitário e empreendedor. De acordo com ele, a horta vai ter sua área de 900 metros quadrados mais do que triplicada com os novos canteiros.

Os sonhos são de Gilson Rodrigues, mas quem faz os cálculos para torná-los realidade é a assistente social de 29 anos, Graziele Jesus Santos, a gerente da AgroFavela.

Junto à presidente da Associação das Mulheres de Paraisópolis, Flávia Rodrigues, ela comanda a equipe de cinco pessoas que planta, ministra aulas, controla a entrada de insumos e materiais, além da saída de alimentos para o Projeto Mãos de Marias e para as alunas. Isso inclui a horta vertical de Heliópolis, a maior favela de São Paulo.

Imagem: Instagram / Reprodução. Imagem: Instagram / Reprodução.

Embora nunca tivesse trabalhado com agricultura de forma profissional, os resultados do trabalho da administradora fala por si. “Desde que começamos o plantio, colhemos todos os meses”, diz ela, que começou a contribuir com o G10 Favelas de forma voluntária, como presidente de rua.

A ação se reflete na vida das mulheres de Paraisópolis. Além de Rosana Freire, citada no início da reportagem, basta acessar o Instagram da AgroFavela Refazenda para ver a horta de outras moradoras, felizes com o próprio sucesso enquanto fazendeiras urbanas.

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Por Pedro Teixeira e Leandro Becker no Globo Rural.

O projeto tem dois focos: beneficiar diretamente as pessoas que estão na rua e, ao mesmo tempo, dar trabalho - com remuneração justa - para costureiras que viram sua renda minguar no último ano. Ilustração: Luli Penna. O projeto tem dois focos: beneficiar diretamente as pessoas que estão na rua e, ao mesmo tempo, dar trabalho - com remuneração justa - para costureiras que viram sua renda minguar no último ano. Ilustração: Luli Penna.

Nas noites frias, a estilista e costureira Bibi Fragelli nunca dormiu direito, preocupada com os milhares de brasileiros que vivem nas ruas das cidades, com frio, medo de serem roubados e agredidos, além do imenso desconforto. “Acho muito abissal a diferença entre o meu conforto e o desconforto de algumas pessoas, é uma diferença absurda e injusta”, diz Bibi. E foi numa dessas noites insones que surgiu a ideia de produzir um sleeping bag para os moradores de rua de São Paulo. 

Bibi acordou animada e compartilhou seu desejo com a amiga Patricia Curti, envolvida em várias ações solidárias; o projeto Casulo começou a ganhar corpo a partir daí. Elas idealizaram então um saco de dormir com velcro, para ser rápido de abrir e fechar, com bolso secreto para guardar os pertences (porque os moradores são constantemente roubados), quentinho, macio e portátil: dobrado, ele vira uma bolsa a tiracolo. 

Bibi Fragelli e Patricia Curti com seus carros cheios de material para a produção dos casulos. Foto: Divulgação.Bibi Fragelli e Patricia Curti com seus carros cheios de material para a produção dos casulos. Foto: Divulgação.

“Ele também é impermeável, pois as pessoas em situação de rua sempre têm suas barracas e cobertores molhados pela polícia, pela prefeitura”. E não é inflamável. Bibi acordou um dia pensando no índio Galdino, vítima de um crime hediondo em Brasília, em 20 de abril de 1997. O cacique Galdino Jesus dos Santos foi queimado enquanto dormia por cinco rapazes da elite de Brasília.

Imagem: Bibi Fragelli.Imagem: Bibi Fragelli.

Manual de Instruções acompanha o equipamento do Casulo. Imagem: Bibi Fragelli.Manual de Instruções acompanha o equipamento do Casulo. Imagem: Bibi Fragelli.

Por isso ela fez vários testes com tecidos e conseguiu chegar a um material seguro e ao mesmo tempo confortável. O Casulo tem três camadas: no miolo, uma rede com espuma não inflamável, depois tem o nylon resinado, que fica em contato com a pele, e uma camada externa impermeável de nylon emborrachado. 

Um refúgio para um casal

Um casal recebe seus casulos, que podem ser unidos com o velcro, acolhendo bem a dupla. Foto: Bibi Fragelli. Um casal recebe seus casulos, que podem ser unidos com o velcro, acolhendo bem a dupla. Foto: Bibi Fragelli.

O nome Casulo surgiu quando Bibi viu um casal deitado na calçada. “A mulher, grávida de nove meses, estava com a cabeça no peito do cara e com a barriga dela na calçada, uma cena triste e chocante”, conta Bibi. Veio então a ideia desse “ninho” aconchegante, um saco de dormir que possa grudar em outro, acolhendo um casal. 

Casulos prontos para distribuição. Foto: Bibi Fragelli Casulos prontos para distribuição. Foto: Bibi Fragelli

O projeto é lindo e impacta positivamente em todo o seu processo. A maior parte dos Casulos vem sendo produzida por costureiras do Instituto Alinha, uma ONG que conecta estilistas com oficinas que remuneram bem e oferecem boas condições de trabalho. “Cada peça produzida ali tem um código que, rastreado, informa quem costurou a peça e quanto essa pessoa recebeu pelo trabalho”. 

No miolo, uma rede com espuma não inflamável, depois tem o nylon resinado, que fica em contato com a pele, e uma camada externa impermeável de nylon emborrachado. Imagem: Divulgação.No miolo, uma rede com espuma não inflamável, depois tem o nylon resinado, que fica em contato com a pele, e uma camada externa impermeável de nylon emborrachado. Imagem: Divulgação.

Desde que começou a postar sobre seu sonho/projeto nas redes sociais, no dia 16 de abril, Bibi Fragelli tem se surpreendido com a solidariedade e a iniciativa das pessoas. Vários parceiros surgiram para ajudar, como o amigo dos tempos do colégio, Renato Levy, que abraçou a causa, além de especialistas nas mais diferentes áreas. Caso de Luciana Martins e Gerson de Oliveira, designers fundadores da Ovo. Eles criaram a marca desenharam uma cartilha de como montar um Casulo, e esse manual já foi distribuído para Pelotas, Curitiba, Belo Horizonte e até Nova York. O objetivo é multiplicar a produção dos sacos de dormir, que podem ser replicados em qualquer lugar e confeccionados pelas costureiras de cada região, agasalhando as pessoas necessitadas da comunidade. A ideia é totalmente descentralizada e independente, explica a fundadora.

Encontros emocionantes

Patrícia Curti, Padre Júlio Lancellotti e Bibi Fragelli. Foto: Divulgação.Patrícia Curti, Padre Júlio Lancellotti e Bibi Fragelli. Foto: Divulgação.

Desde o início de maio, os primeiros Casulos vêm sendo distribuídos nas ruas paulistanas. Boa parte da produção tem sido destinada ao Padre Júlio Lancelotti, que trabalha há anos com a população de rua. Outros são distribuídos por parceiros e amigos, muitas vezes em suas próprias regiões. Bibi e Patrícia contam com fotógrafos voluntários que filmam os comoventes encontros nas ruas da cidade, registros úteis para que os doadores possam acompanhar os passos do projeto. Pois não é apenas entregar o produto na mão, como conta Bibi. É preciso chegar, entender como essa pessoa está, conversar com ela, explicar como o Casulo pode ser usado, dobrado e carregado.

Foto: Claire Carvalho Castelano.Foto: Claire Carvalho Castelano.

"Ítalo foi o primeiro a receber um casulo. Disse que é muito roubado enquanto dorme e adorou ter um “cofre” pra guardar suas coisas. Agradeceu muito e ainda indicou onde encontrar outras pessoas para receber Casulo Pra Rua", conta Bibi Fragelli.

Como não há um censo sobre a população de rua de São Paulo, com estatísticas precisas, o projeto Casulo Pra Rua está a todo vapor. Produzindo com amor e carinho mais e mais abrigos para esquentar paulistanos esquecidos na cidade.A voluntária Renata Melo faz entrega de casulos na região do Minhocão, Zona Oeste de São Paulo. Foto: Alice Vergueiro.A voluntária Renata Melo faz entrega de casulos na região do Minhocão, Zona Oeste de São Paulo. Foto: Alice Vergueiro.

"O projeto tem dois focos: beneficiar diretamente as pessoas que estão na rua e, ao mesmo tempo, dar trabalho - com remuneração justa - para costureiras que viram sua renda minguar no último ano", completa Bibi.

“Estou tentando dar um calor para uma pessoa que vai morrer de frio se eu não fizer nada, acho que cada um pode ajudar com as suas habilidades”, diz Bibi. “Teve gente que disse que o governo é que deveria fazer isso. E eu pergunto: e já que ele não faz, a gente deixa as pessoas morrerem de frio? Tudo o que tiver ao nosso alcance deve ser feito. O poder público tinha mesmo é que pegar imóvel abandonado e colocar as pessoas lá dentro. A nossa ação do Casulo é paliativa, mas vem de encontro ao desejo de quem já está desesperado de ver tanta injustiça nas ruas”.  

Ilustração de Monique Deheinzelin para aplicação no travesseiro do Casulo. Imagem: Reprodução.Ilustração de Monique Deheinzelin para aplicação no travesseiro do Casulo. Imagem: Reprodução.

Imagem: Instagram / @casuloprarua Imagem: Instagram / @casuloprarua

Cada casulo do projeto custa R$ 148 e pesa 1 kg; para saber mais e ajudar acesse nas redes sociais @casuloprarua (Instagram e Facebook) ou escreva pelo email [email protected] ou faça sua doação pelo PIX para 55369060/0001-78

O São Paulo São apoia a iniciativa.

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Texto:Chantal Brissac. Edição: Mauricio Machado.