Casulo para quem precisa: um caso de amor e empatia - São Paulo São

O projeto tem dois focos: beneficiar diretamente as pessoas que estão na rua e, ao mesmo tempo, dar trabalho - com remuneração justa - para costureiras que viram sua renda minguar no último ano. Ilustração: Luli Penna. O projeto tem dois focos: beneficiar diretamente as pessoas que estão na rua e, ao mesmo tempo, dar trabalho - com remuneração justa - para costureiras que viram sua renda minguar no último ano. Ilustração: Luli Penna.

Nas noites frias, a estilista e costureira Bibi Fragelli nunca dormiu direito, preocupada com os milhares de brasileiros que vivem nas ruas das cidades, com frio, medo de serem roubados e agredidos, além do imenso desconforto. “Acho muito abissal a diferença entre o meu conforto e o desconforto de algumas pessoas, é uma diferença absurda e injusta”, diz Bibi. E foi numa dessas noites insones que surgiu a ideia de produzir um sleeping bag para os moradores de rua de São Paulo. 

Bibi acordou animada e compartilhou seu desejo com a amiga Patricia Curti, envolvida em várias ações solidárias; o projeto Casulo começou a ganhar corpo a partir daí. Elas idealizaram então um saco de dormir com velcro, para ser rápido de abrir e fechar, com bolso secreto para guardar os pertences (porque os moradores são constantemente roubados), quentinho, macio e portátil: dobrado, ele vira uma bolsa a tiracolo. 

Bibi Fragelli e Patricia Curti com seus carros cheios de material para a produção dos casulos. Foto: Divulgação.Bibi Fragelli e Patricia Curti com seus carros cheios de material para a produção dos casulos. Foto: Divulgação.

“Ele também é impermeável, pois as pessoas em situação de rua sempre têm suas barracas e cobertores molhados pela polícia, pela prefeitura”. E não é inflamável. Bibi acordou um dia pensando no índio Galdino, vítima de um crime hediondo em Brasília, em 20 de abril de 1997. O cacique Galdino Jesus dos Santos foi queimado enquanto dormia por cinco rapazes da elite de Brasília.

Imagem: Bibi Fragelli.Imagem: Bibi Fragelli.

Manual de Instruções acompanha o equipamento do Casulo. Imagem: Bibi Fragelli.Manual de Instruções acompanha o equipamento do Casulo. Imagem: Bibi Fragelli.

Por isso ela fez vários testes com tecidos e conseguiu chegar a um material seguro e ao mesmo tempo confortável. O Casulo tem três camadas: no miolo, uma rede com espuma não inflamável, depois tem o nylon resinado, que fica em contato com a pele, e uma camada externa impermeável de nylon emborrachado. 

Um refúgio para um casal

Um casal recebe seus casulos, que podem ser unidos com o velcro, acolhendo bem a dupla. Foto: Bibi Fragelli. Um casal recebe seus casulos, que podem ser unidos com o velcro, acolhendo bem a dupla. Foto: Bibi Fragelli.

O nome Casulo surgiu quando Bibi viu um casal deitado na calçada. “A mulher, grávida de nove meses, estava com a cabeça no peito do cara e com a barriga dela na calçada, uma cena triste e chocante”, conta Bibi. Veio então a ideia desse “ninho” aconchegante, um saco de dormir que possa grudar em outro, acolhendo um casal. 

Casulos prontos para distribuição. Foto: Bibi Fragelli Casulos prontos para distribuição. Foto: Bibi Fragelli

O projeto é lindo e impacta positivamente em todo o seu processo. A maior parte dos Casulos vem sendo produzida por costureiras do Instituto Alinha, uma ONG que conecta estilistas com oficinas que remuneram bem e oferecem boas condições de trabalho. “Cada peça produzida ali tem um código que, rastreado, informa quem costurou a peça e quanto essa pessoa recebeu pelo trabalho”. 

No miolo, uma rede com espuma não inflamável, depois tem o nylon resinado, que fica em contato com a pele, e uma camada externa impermeável de nylon emborrachado. Imagem: Divulgação.No miolo, uma rede com espuma não inflamável, depois tem o nylon resinado, que fica em contato com a pele, e uma camada externa impermeável de nylon emborrachado. Imagem: Divulgação.

Desde que começou a postar sobre seu sonho/projeto nas redes sociais, no dia 16 de abril, Bibi Fragelli tem se surpreendido com a solidariedade e a iniciativa das pessoas. Vários parceiros surgiram para ajudar, como o amigo dos tempos do colégio, Renato Levy, que abraçou a causa, além de especialistas nas mais diferentes áreas. Caso de Luciana Martins e Gerson de Oliveira, designers fundadores da Ovo. Eles criaram a marca desenharam uma cartilha de como montar um Casulo, e esse manual já foi distribuído para Pelotas, Curitiba, Belo Horizonte e até Nova York. O objetivo é multiplicar a produção dos sacos de dormir, que podem ser replicados em qualquer lugar e confeccionados pelas costureiras de cada região, agasalhando as pessoas necessitadas da comunidade. A ideia é totalmente descentralizada e independente, explica a fundadora.

Encontros emocionantes

Patrícia Curti, Padre Júlio Lancellotti e Bibi Fragelli. Foto: Divulgação.Patrícia Curti, Padre Júlio Lancellotti e Bibi Fragelli. Foto: Divulgação.

Desde o início de maio, os primeiros Casulos vêm sendo distribuídos nas ruas paulistanas. Boa parte da produção tem sido destinada ao Padre Júlio Lancelotti, que trabalha há anos com a população de rua. Outros são distribuídos por parceiros e amigos, muitas vezes em suas próprias regiões. Bibi e Patrícia contam com fotógrafos voluntários que filmam os comoventes encontros nas ruas da cidade, registros úteis para que os doadores possam acompanhar os passos do projeto. Pois não é apenas entregar o produto na mão, como conta Bibi. É preciso chegar, entender como essa pessoa está, conversar com ela, explicar como o Casulo pode ser usado, dobrado e carregado.

Foto: Claire Carvalho Castelano.Foto: Claire Carvalho Castelano.

"Ítalo foi o primeiro a receber um casulo. Disse que é muito roubado enquanto dorme e adorou ter um “cofre” pra guardar suas coisas. Agradeceu muito e ainda indicou onde encontrar outras pessoas para receber Casulo Pra Rua", conta Bibi Fragelli.

Como não há um censo sobre a população de rua de São Paulo, com estatísticas precisas, o projeto Casulo Pra Rua está a todo vapor. Produzindo com amor e carinho mais e mais abrigos para esquentar paulistanos esquecidos na cidade.A voluntária Renata Melo faz entrega de casulos na região do Minhocão, Zona Oeste de São Paulo. Foto: Alice Vergueiro.A voluntária Renata Melo faz entrega de casulos na região do Minhocão, Zona Oeste de São Paulo. Foto: Alice Vergueiro.

"O projeto tem dois focos: beneficiar diretamente as pessoas que estão na rua e, ao mesmo tempo, dar trabalho - com remuneração justa - para costureiras que viram sua renda minguar no último ano", completa Bibi.

“Estou tentando dar um calor para uma pessoa que vai morrer de frio se eu não fizer nada, acho que cada um pode ajudar com as suas habilidades”, diz Bibi. “Teve gente que disse que o governo é que deveria fazer isso. E eu pergunto: e já que ele não faz, a gente deixa as pessoas morrerem de frio? Tudo o que tiver ao nosso alcance deve ser feito. O poder público tinha mesmo é que pegar imóvel abandonado e colocar as pessoas lá dentro. A nossa ação do Casulo é paliativa, mas vem de encontro ao desejo de quem já está desesperado de ver tanta injustiça nas ruas”.  

Ilustração de Monique Deheinzelin para aplicação no travesseiro do Casulo. Imagem: Reprodução.Ilustração de Monique Deheinzelin para aplicação no travesseiro do Casulo. Imagem: Reprodução.

Imagem: Instagram / @casuloprarua Imagem: Instagram / @casuloprarua

Cada casulo do projeto custa R$ 148 e pesa 1 kg; para saber mais e ajudar acesse nas redes sociais @casuloprarua (Instagram e Facebook) ou escreva pelo email [email protected] ou faça sua doação pelo PIX para 55369060/0001-78

O São Paulo São apoia a iniciativa.

***
Texto:Chantal Brissac. Edição: Mauricio Machado.

 



APOIE O SÃO PAULO SÃO

Ajude-nos a continuar publicando conteúdos relevantes e que fazem a diferença para a vida na cidade.
O São Paulo São é uma plataforma que produz conteúdo sobre o futuro de São Paulo e das cidades do mundo.

bt apoio