Colunistas - São Paulo São

São Paulo São Colunistas

"Historiazinha de quarta-feira, porque tem feijuca no quilão. A Agência Estado tinha um enorme banheiro feminino, com um espelho grande ao fundo. Minha amiga Cacao, um dia, entrou no banheiro, olhou-se no espelho e gritou: ‘Nossa, que mulher parecida comigo, só que mais gorda e mais velha!"'Reflections' :: Campanha da Novartis by ©Tom Hussey :: 2010.'Reflections' :: Campanha da Novartis by ©Tom Hussey :: 2010.

Li esse post no Facebook algum tempo atrás, escrito por uma ‘facefriend’ muito querida, excelente jornalista e também (talvez ela discorde) impagável cronista.

Imagem: Arquivo pessoal / Reprodução.Imagem: Arquivo pessoal / Reprodução.Pelo que tenho escrito por aqui, acho que já deu pra perceber o quanto eu me divirto andando de bicicleta. E não é de hoje, na verdade. Primeiro vieram os velocípedes, que logo se transformaram nas magrelas com rodinhas, que foram abandonadas assim que conquistei equilíbrio e confiança. Sem exagero, pedalar sozinho, sem qualquer tipo de apoio, é como começar a andar com os próprios pés, sem dar a mãozinha pro pai ou pra a mãe.

Eu e as magrelas temos uma relação íntima há umas boas dezenas de anos, sem que a paixão e o amor tenham diminuído. Ao contrário, os olhos ainda brilham quando penso em fazer um bom passeio de bicicleta. E, felizmente, as pernas ainda estão fazendo a parte delas, me levando para todos os lugares. Aqui em Portugal, com tanta gente mais velha do que eu circulando com leveza e disposição pelas ciclovias do país, reforço minha crença de que ainda conseguirei girar o pedal por muitos anos.Ole Kassow. Foto: CWA.Ole Kassow. Foto: CWA.

E quando não tiver mais força nas pernas ou equilíbrio? Admito que cheguei a ficar cabisbaixo com a ideia de um dia perder essa liberdade de movimento que a bicicleta proporciona. Foi aí que conheci um projeto bem bacana (por que eu não tive essa ideia?) que já existe há alguns anos e que acaba de chegar em Portugal, mais precisamente no Porto. Trata-se da iniciativa “Cycling Without Age”, lançado em 2012 na Dinamarca e que hoje já está em 42 países (já há no Brasil também).

O fundador, Ole Kassow, tinha o desejo de fazer com que pessoas mais velhas, já com dificuldade para encarar um selim de bike, pudessem retornar para as suas bicicletas. A solução foi adaptar um triciclo, inicialmente oferecido para as casas de repouso de Copenhagen, no qual uma ou duas pessoas podiam pegar carona (ou boleia, como dizemos aqui em Portugal). Mas o projeto, que vai muito além do “direito ao vento nos cabelos”, foi crescendo e ganhando mais adeptos. É uma experiência de generosidade, de criação de relacionamento, de dignidade, de troca de histórias e experiência, e também, claro, de retomar contato com os passeios sobre rodas.

Já há mais de 2 mil triciclos do projeto rodando pelo mundo, com cerca de 15 mil ciclistas treinados e capacitados a “pilotar” a bike de três rodas. Mais de 60 mil idosos já voltaram a sentir o vento no rosto, em circuitos que, somados, ultrapassam os 2,8 milhões de quilômetros ao ano. E para provar que não há idade para encarar o pedal, o piloto mais velho das bikes é um “jovem” dinamarquês de 90 anos e a passageira mais idosa é uma jovem de 107 anos, de Singapura.

Ole Kassow, tinha o desejo de fazer com que pessoas mais velhas, já com dificuldade para encarar um selim de bike, pudessem retornar para as suas bicicletas. Foto: CWA / Divulgação.Ole Kassow, tinha o desejo de fazer com que pessoas mais velhas, já com dificuldade para encarar um selim de bike, pudessem retornar para as suas bicicletas. Foto: CWA / Divulgação.

Neste início de pedaladas aqui no Porto, cerca de 200 “passageiros” já circularam pela cidade, em parques ou à beira mar. A “ventoleta”, como é carinhosamente chamado o triciclo adaptado para o projeto, também tem entre os seus “motoristas” um senhor de 78 anos, que toda semana faz força no pedal. Além dele, há outros 11 pilotos voluntários, que assumem o guidão em passeios de pouco menos de 1 hora. E sempre sem pressa e com muita conversa, troca de experiências e histórias ao longo do percurso. Por enquanto, há apenas uma ventoleta rodando pela cidade, mas esta semana foi lançada uma campanha nas redes sociais para angariar fundos para a compra de ao menos mais um triciclo.

Quase todo mundo já ouviu falar do Carnaval. Mas a maioria dos meus amigos gringos pensam nele como um grande desfile no Rio com carros alegóricos extraordinários, com algumas das mulheres brasileiras extravagantemente vestidas ou menos vestidas, dançando o samba ao ritmo interminável dos corpos inesgotáveis de bateristas e todos consumindo quantidades copiosas de cerveja e estimulantes, uma noite inteira, todas as noites. Felizmente, há muito mais do que isso. 

Visitar o Atelier Escola do Instituro Acaia, na Vila Leopoldina sempre traz surpresas. Enquanto esperava por um dos professores, eu observava um grupo de jovens da favela rindo, em sua maioria, do lado de fora, em uma superfície de concreto liso, deitados de costas com os braços estendidos, enquanto outros membros do grupo desenhavam os contornos de seus corpos com giz colorido no concreto.