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Nossas escolhas de mobilidade afetam a vida nas cidades, a saúde e o meio ambiente. Foto: Jorge Araujo / FotosPublicas.Nossas escolhas de mobilidade afetam a vida nas cidades, a saúde e o meio ambiente. Foto: Jorge Araujo / FotosPublicas.

No dia 19 de agosto, quando o céu da cidade de São Paulo se escureceu às 15h, devido ao encontro de uma frente fria e da poluição proveniente das queimadas amazônicas, todo mundo se assustou. Para o médico Paulo Saldiva, especialista em poluição atmosférica e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, esta foi uma lição coletiva de grande importância: “Foi a aula mais eloquente aplicada para vinte milhões de pessoas na região metropolitana de São Paulo. Eu espero sinceramente que isso se traduza em uma nova visão da necessidade de preservação de um ecossistema remoto, mas que afeta o nosso quintal. A nossa chuva depende de um ecossistema que está sendo fragilizado no momento. Tudo está interligado e somos interdependentes”.

 Foto: Alex Almeida. Foto: Alex Almeida.

Uma das coisas verdadeiramente fascinantes sobre flores silvestres é que, por mais difícil que seja o percurso, elas sempre encontram seu caminho até o sol.

Pensei nisso outro dia enquanto assistia a um esplêndido ensaio de 'Paraisopolizar', um novo espetáculo de dança clássica, moderna e contemporânea de vários coreógrafos que será apresentado gratuitamente no Auditório Ibirapuera projetado por Oscar Niemeyer, às 19h do dia 23 de novembro por mais de 130 alunos do Ballet Paraisópolis, desde 2012 uma florescente escola de balé e dança gratuita no centro da segunda maior favela de São Paulo. 

Foto: Edu Cesar.Foto: Edu Cesar.Como, pergunta-se, os anos necessários de trabalho árduo e disciplina para se tornar um bailarino podem atrair os 200 atuais alunos e uma lista de espera para entrar, dez vezes maior? Como, jovens de 8 a 17 anos de uma comunidade favelada com mais de 100 mil moradores, poderiam destravar a energia positiva para chegar prontamente e aparecerem arrumados e prontos para aulas e ensaios árduos?

Foto: LeandroJusten / Brazil Foundation.Foto: LeandroJusten / Brazil Foundation.E como esses estudantes poderiam se tornar bailarinos de primeira classe, ganhadores de prêmios, incluindo o de melhor bailarino no Festival de Dança de Joinville deste ano e, por exemplo, um convite para um programa especial de verão no famoso American Ballet Theater em Nova York, uma vitrine para os melhores jovens bailarinos do mundo?

Certamente muito do crédito vai para a fundadora da escola, a bailarina, a professora Monica Tarragó. Contra probabilidades extremamente difíceis, o foco de Mônica Tarragó. Foto: Fotos Públicas.Mônica Tarragó. Foto: Fotos Públicas.Mônica permanece: "transformar sonhos em realidade". Profundamente sensível à desigualdade e vulnerabilidade das crianças e jovens da favela, ela decidiu tomar a iniciativa e fazer algo por eles, não apenas para  transforma-los em dançarinos.

Como ela diz: "O Ballet Paraisópolis nasceu do desejo de transformar a vida das famílias e levar arte, educação e cultura para a região. Acreditamos que através do ensino da dança clássica e contemporânea sempre incentivaremos nossos alunos a buscar melhores oportunidades de vida". 

A energia e o talento visíveis no ensaio, a logística de conseguir 27 cenas de "Paraisopolizar" com até três rápidas trocas de figurino para cada bailarino, demonstram seu sucesso. A performance também beneficia da inspiração de Jum Nakao como diretor artístico e Luis Arrieta como professor/coreógrafo, que também atuará como bailarino de destaque.

O estúdio dos ensaios, recentemente tornado utilizável pelo trabalho de construção de fim de semana por professores e amigos é muito pequeno para fazer caber todo o elenco, tendo sempre algum grupo de dançarinos se movendo em direção ao centro enquanto outros seguem para o lado. Surpreendentemente, não se viu um olhar irritado de um dançarino para outro quando as fantasias ou adereços se misturavam ou quando eles esbarravam uns nos outros para mudar de roupa no espaço minúsculo.

Foto: Alexandre Battibugli.Foto: Alexandre Battibugli.

Pelo contrário, havia sorrisos e uma camaradagem calorosa que envolveu as diversas faixas etárias. Um dos dançarinos mais velhos usou uma pausa para limpar a pista de dança especial. Como Mônica deixou claro desde o início, esta escola e as atividades não pertencem a ninguém, mas a eles. É o espaço deles, talvez uma alternativa segura às casas da favela, mas de qualquer forma, algo precioso para cada um deles. 

É por isso que se vê os dançarinos cuidando das instalações orgulhosamente, vestindo roupas de dança e de rua fornecidas gratuitamente pela escola, que sempre exibem o logotipo atraente do Ballet Paraisópolis, uma visão familiar nas ruas da favela. Eles têm todo o direito de se orgulhar de suas realizações.

Imagine a emoção e o entusiasmo dos 12 dançarinos, muitos dos quais nunca haviam saído de São Paulo, que viajaram para Nova York por uma semana em outubro para se apresentar no jantar anual de arrecadação de fundos da Fundação Brasil no Hotel Plaza, ganhando muitos elogios e levando o público a aplaudí-los de pé, o que não é comum em Nova York.

Durante a semana na 'Big Apple', eles tiveram aulas com algumas das principais companhias de balé do mundo e foram recebidos com elogios. Para muitos, foi a viagem de uma vida. Para outros era um novo desafio, ser bom o suficiente para voltar e estar no centro do mundo da dança.

Foto: LS Nogueira / Divulgação.Foto: LS Nogueira / Divulgação.

"Paraisopolizar" nunca foi montada antes. É um trabalho único, uma chance de olhar para a vida desses jovens dançarinos e suas carreiras esperançosas e o melhor de tudo, uma chance de experimentar a beleza dessas flores selvagens.

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Peter Rosenwald mora em São Paulo e combina sua ocupação como estrategista de marketing para grandes empresas brasileiras e internacionais. Tem também carreira em jornalismo onde atuou por dezessete anos como crítico sênior de dança e música do 'The Wall Street Journal'.

Traci Ruble, fundadora do Sidewalk Talk em ação. Foto: Mindful Org.Traci Ruble, fundadora do Sidewalk Talk em ação. Foto: Mindful Org.

Este artigo já deveria ter sido publicado há uma semana... Contamos sempre com a paciência do querido Maurício Machado - o publisher do São Paulo São -, neste particular, quando nos enrolamos com as nossas vidas agitadas e acabamos atrasando o nosso registro quinzenal sobre o mundo da escuta e das conversas.

O Largo do Café, logradouro histórico localizado no centro da cidade de São Paulo, na região Sé. Foto: Viagem e Turismo.O Largo do Café, logradouro histórico localizado no centro da cidade de São Paulo, na região Sé. Foto: Viagem e Turismo.

Lembro-me dos meus 7 anos, quando chegava dezembro ficava logo animada. As férias estavam chegando e era hora de me preparar para ir para o Guarujá, no então distante e calmo Jardim Virgínia. Minha tia tinha casa e ia com seus cinco filhos. Às vezes, ficávamos lá, outras, alugávamos uma casinha próxima a dela.

Na Espanha, estudo recente revelou que a carteira de habilitação não é meta para a maioria dos estudantes entrevistados. Foto: El Mundo. Na Espanha, estudo recente revelou que a carteira de habilitação não é meta para a maioria dos estudantes entrevistados. Foto: El Mundo.

Pesquisas no Brasil e lá fora comprovam o que já aparece nas ruas: os jovens estão dirigindo menos e não sonham mais com o carro próprio. As novas gerações querem menos carros e mais transporte público e modais sustentáveis.

Capa do álbum "Luar" de Gilberto Gil de 1981 onde ele lançou "Se eu quiser falar com Deus" . Imagem: Reprodução.Capa do álbum "Luar" de Gilberto Gil de 1981 onde ele lançou "Se eu quiser falar com Deus" . Imagem: Reprodução.

Uma das mais belas composições de Gilberto Gil - ‘Se eu quiser falar com Deus‘ - metaforiza o despojamento necessário para encontrar o sublime que, além do mais, não estará lá como imaginado inicialmente. Isso pode servir também como metáfora para várias outras áreas da cultura, onde a busca do essencial é igual a livrar-se do entulho supérfluo, que é o que impede “ver”. Como se a fé fosse ludibriada pelos excessos copiosos do barroco ou do rococó.

E, então, cabe perguntar: por que o rococó é necessário para a comunicação? Foto: Instafood / Reprodução.E, então, cabe perguntar: por que o rococó é necessário para a comunicação? Foto: Instafood / Reprodução.

Quando você observa as imagens de comida - no Instagram, por exemplo - o que vê, em geral, é o rococó moderno. Talvez o fotógrafo pense que uma simples laranja cortada ao meio seria decepcionante (o que seria matéria suficiente para um bom pintor de natureza morta). Mas o sabor, no que tem de essencial, é exatamente a qualidade que se revela na simplicidade: eu posso entender uma laranja, presentificar seu gosto, o que já não acontece com um prato que vem descrito, composto por meia dúzia ou mais ingredientes. Facilmente me perco como me perco observando detalhes de uma igreja rococó.
Pedra-sabão, estilo rococó e muito ouro. Foto: Prefeitura de Ouro Preto.Pedra-sabão, estilo rococó e muito ouro. Foto: Prefeitura de Ouro Preto.
E, então, cabe perguntar: por que o rococó é necessário para a comunicação? Em boa parte do século XVIII, para a igreja, Deus não seria percebido senão através do excesso, da exibição da pujança da criação. O mesmo parece acontecer hoje, quando a cultura do excesso assume novos contornos, expressando a pujança não de Deus, mas dos produtos da indústria. 

É esse excesso que Gil põe em questão na sua busca imaginada de Deus, exigindo o despojar-se. É o excesso de componentes de um prato que dificulta a percepção exata de algo que, na sua simplicidade, comunicaria o essencial.  

Italo Calvino foi um dos mais importantes escritores italianos do século XX. Foto: Getty Images.Italo Calvino foi um dos mais importantes escritores italianos do século XX. Foto: Getty Images.Leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência, seriam os traços da comunicação desejáveis para o presente, segundo lição de Italo Calvino. São portanto vários os caminhos de perda de sentido moderna, quando nos afastamos desses eixos norteadores da modernidade. É por isso que uma certa idéia de essência está tão perto e, ao mesmo tempo, tão inalcançável.  

Para construir uma obra (culinária) duradoura, o sujeito que parte do excesso moderno vive a mesma ilusão de que seria possível construir um monumento a partir da espuma de sabão. O monumento é a pedra ou a madeira, a mão e o formão. E por que seria diferente diante de uma espécie vegetal da qual se quer atingir o âmago?  

“Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias

Ter a alma e o corpo nus...“

Assista Se eu quiser falar com Deus - (Gilberto Gil, 1980).

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Carlos Alberto Dória, sociólogo e conselheiro do São Paulo São, tem vários livros publicados sobre sociologia da alimentação. Mantém e edita o blog e-BocaLivre.
 
 
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