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Crianças brincando em parquinho em Antuérpia, Bélgica. Foto: Cities for Play.Crianças brincando em parquinho em Antuérpia, Bélgica. Foto: Cities for Play.

Antigamente as crianças tinham ruas calmas, mais áreas verdes e calçadas seguras para brincar. Nas últimas décadas, elas têm crescido em apartamentos e lugares exíguos, com liberdade reduzida e praticamente sem acesso aos espaços públicos, que se tornaram inóspitos e inseguros. Pouco caminham e pedalam, o que tornou o sedentarismo e a obesidade questões de saúde pública em vários países, inclusive no Brasil.

Para mudar esse cenário melancólico, a arquiteta australiana Natalia Krysiak criou, em 2017, o projeto Cities for Play, cujo propósito é inspirar urbanistas, arquitetos e gestores urbanos a construírem cidades estimulantes, respeitosas e acessíveis às crianças. “Sempre me interessei pela relação das cidades com as pessoas. Quando criança, tive a oportunidade de conhecer muitos bairros e morar em casas diferentes, e toda essa diversidade de vivências abriu meus horizontes e fortaleceu habilidades como independência, cidadania e empatia. Acredito que o ambiente urbano pode ter um efeito profundo na saúde mental e física dos mais jovens”, diz Natalia.

Crianças brincando fora da escola em Amsterdam, Holanda. Foto: Cities for Play.Crianças brincando fora da escola em Amsterdam, Holanda. Foto: Cities for Play.

O Cities for Play trabalha com os setores público, privado e civil para criar comunidades amigáveis da população infantil. Fazem isso por meio de pesquisa, defesa, engajamento da comunidade e design em várias escalas. Eles acreditam que as necessidades dos pequenos devem estar no centro do design urbano, o que tornará, por sua vez, a cidade muito mais inclusiva e inteligente.

Faz sentido, já que uma cidade boa para crianças é também empática e segura para outras parcelas da população, inclusive idosos e deficientes.

Na Europa, entre os países conhecidos por suas cidades amigáveis destacam-se a Holanda, a Dinamarca, a Suécia, a Alemanha e o Reino Unido. Em Londres, crianças de uma comunidade participam de workshops para planejar a cidade que desejam. A ideia é dar voz e poder de ação para eles. Lá, medidas exigem que novos edifícios residenciais forneçam ao menos 10 metros quadrados de área verde por criança moradora. Já em Cambridge, um conjunto de 42 casas projetadas pelo escritório Mole Architects foca na interação da comunidade e uma rua sem carros foi implementada para incentivar brincadeiras ao ar livre e convívio no jardim e na horta comunitária. Na Alemanha, em Alpen, uma simples intervenção em uma praça trouxe diversão para as crianças se refrescarem no verão.

O projeto de co-habitação de nome 'Marmalade Lane', desenvolvido em Cambridge, Grã Bretanha. Foto: Mole Architects.O projeto de co-habitação de nome 'Marmalade Lane', desenvolvido em Cambridge, Grã Bretanha. Foto: Mole Architects.

O Cities for Play é um ótimo projeto e pode inspirar também cidades brasileiras, o que irá fornecer um legado saudável e sustentável para as novas gerações. Por aqui, temos movimentos e grupos que trabalham com foco na infância saudável, o que inclui cidades sustentáveis e com estímulo à mobilidade ativa.

Um dos grupos que se destacam é o Carona a Pé, fundado pela professora Carolina Padilha em 2015. O Carona a Pé organiza percursos de ida e volta da escola para casa a pé, construindo uma nova relação das crianças com a cidade em que vivem. "Quando as crianças caminham e ocupam os espaços públicos suas necessidades se tornam evidentes e isso faz com que os adultos repensem esse espaço. Afinal, uma cidade que é boa para as crianças também é boa para todos”, afirma Carol.

Carol acaba de lançar, junto ao Instituto Alana e o Programa Criança e Natureza, o guia “Caminhando juntos até a escola: o que a cidade e as crianças ganham com isso”, um material voltado para famílias, escolas e educadores e para todos que têm vontade de transformar a cidade em que vivem em um lugar caminhável e amigável. O guia pode ser baixado pelo site https://caronaape.com.br/ 

O Carona a Pé organiza percursos de ida e volta da escola para casa a pé. Foto: Divulgação.O Carona a Pé organiza percursos de ida e volta da escola para casa a pé. Foto: Divulgação.

Confira aqui algumas dicas para iniciar um grupo de caminhada até a escola:

  • Inicialmente converse com a direção da escola e com os responsáveis sobre o desejo de começar.
  • Faça um encontro com a comunidade para divulgar a ideia e despertar o interesse de alunos e voluntários.
  • Levante informações: como as crianças chegam à escola, quais estudantes moram próximos uns dos outros? Faça um mapeamento de possíveis caminhos. Nem sempre o mais curto é o mais seguro ou o mais agradável.
  • A qualidade das calçadas, a existência de faixas de pedestres e ruas calmas e arborizadas são critérios para a escolha do trajeto. Faça o percurso antes para avaliar quanto tempo demora o trajeto até a escola.
  • Combine dias e horários e comece a fazer o trajeto com o grupo, é essencial que as caminhadas aconteçam com frequência e no horário combinado.
  • Com os grupos formados, assegure-se de que todos os adultos tenham os contatos uns dos outros, para uma comunicação ágil e respeitosa.
  • Mantenha a comunidade escolar informada sobre como as caminhadas estão acontecendo, pois isso estimula a participação de novos estudantes e familiares. A escola pode ter um mural ou espaço para essa divulgação.
  • Depois de definidos os condutores, o grupo pode decidir a quantidade de crianças por cada adulto, dependendo da faixa etária, comportamento do grupo e percurso.
  • Identifique os comércios que estão nos trajetos e conte o objetivo dessas caminhadas para os comerciantes. Isso torna o percurso ainda mais agradável e seguro.

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pro coletivo logo novo 50x50pro coletivo logo novo 50x50Conteúdo assinado pelo Pro Coletivo, parceiro de conteúdo, especializado em assuntos da multimodalidade.

67 anos depois, volta-se a subir a rampa do Vale de Santo António. Imagem: Arquivo.67 anos depois, volta-se a subir a rampa do Vale de Santo António. Imagem: Arquivo.

Outro dia escrevi sobre isso aqui no São Paulo São uma prova de ciclismo curtíssima em Portugal, mas com grau de dificuldade inversamente proporcional à extensão do percurso. Em resumo, uma subida para quem tem pernas de aço (Pedalando para a Glória, agosto de 2018)

E agora mais um desafio deste tipo vai reunir ciclistas dispostos a mostrar que são bons de rampa em Lisboa. Desta vez, a prova, cuja primeira edição aconteceu em 1941 e não se repetia desde 1954, vai mostrar quem é realmente bom de fôlego e de pernas. A subida da rampa do Vale de Santo Antônio tem cerca de 600 metros de extensão e trechos com até 22% de inclinação. É “pirambeira” pra ninguém botar defeito. 

Esta seria a rua mais íngreme do mundo? Foto:  Cycling Today.Esta seria a rua mais íngreme do mundo? Foto: Cycling Today.

Para comparar, a subida à Glória, que já é bem radical, tem pouco menos de 300 metros e inclinação média de 17%. Ou seja, a glória mesmo é chegar inteiro ao final da rampa do Vale de Santo Antônio. Outra boa referência é a comparação com a rua mais íngreme do mundo, segundo o livro dos recordes, a Pen Llech, no País de Gales, com inclinação de 37,45%, que superou a antiga detentora do título, a rua Baldwin, na Nova Zelândia. Os moradores da região foram em busca do reconhecimento mostrando que seus carros, mesmo com o freio de mão puxado, costumam deslizar pelo asfalto. Aliás, há trechos destas ruas que são pavimentados com concreto, pois dizem que o asfalto iria “escorrer” nos dias de muito calor. Ou seja, é quase uma pista de lava...

A Baldwin Street, em Dunedin, Nova Zelândia, tem uma inclinação de 38 graus,. Foto: Hayley Robert Photography. A Baldwin Street, em Dunedin, Nova Zelândia, tem uma inclinação de 38 graus,. Foto: Hayley Robert Photography. Mas de volta a Lisboa, a corrida vai premiar aqueles guerreiros que fizerem a prova em menor tempo, nas categorias feminino e masculino, com ciclistas separados por idade. Quer participar? Ainda dá tempo de se inscrever. A competição vai acontecer no dia 17 de outubro, um domingo que promete ser de sol. As inscrições custam apenas 5 euros e podem ser feitas até o dia 10 (https://rampadovale.pt/).

A retomada desta iniciativa, por mais de 60 anos interrompida, tem o objetivo de “devolver às ruas dos bairros de Lisboa, o desporto e o desportivismo, o entusiasmo e o convívio entre participantes, torcedores e moradores”, afirmou a organização do evento. Recortes de jornal das décadas de 1940 e 1950 mostram realmente a população super engajada e na torcida. Das varandas dos prédios da rampa do Vale de Santo Antônio via-se torcedores incentivando a turma do pedal nos trechos mais sofridos. Pessoas ao longo do trajeto, na rua e nas calçadas, também levavam palavras e gritos para que ninguém desistisse pelo caminho. “O trajeto requer um esforço quase titânico dos corredores devido ao íngreme declive de algumas secções da subida, que terá como força propulsora o ânimo coletivo de todos os que assistem ao longo da rampa”, aponta a organização.Não é à toa que há, por exemplo, em Lisboa o chamado Bairro Alto. Foto: Eurotrip.Não é à toa que há, por exemplo, em Lisboa o chamado Bairro Alto. Foto: Eurotrip.Mas para quem não quer, ou não consegue, enfrentar tal feito sobre uma magrela, Lisboa e Porto são duas cidades cheias de subidas e descidas que também ajudam a tornear as pernas em uma simples caminhada. Não tem torcida dando berros de incentivo para quem resolve turistar pelas ruas, subindo e descendo (ok, para baixo todo santo ajuda, mas também há desafios: em dia de chuva, tombos por causa das escorregadias pedras brancas e pretas do calçamento português são frequentes...), mas as duas cidades são tão lindas que a gente nem pensa no esforço físico. No Porto, por exemplo, sair da Ribeira, lá ao pé do Douro, para chegar até à Sé Velha, por exemplo, é um festival de ruelas, becos, ruas mais largas, mas todas bastante inclinadas. Até o órgão oficial de turismo de Portugal dá a dica: “a inclinação de algumas ruas do centro histórico é uma condicionante a se ter em conta, por dificultar a experiência”. Mas posso garantir que vale a experiência. E, claro, não está valendo medalha para o menor tempo. Ou seja, vamos subindo, paramos para um cafezinho com uma nata, quem sabe uma tacinha de vinho do Porto... E lá do alto da cidade a vista do Douro, a outra margem com as caves, os rasantes das gaivotas, é deslumbrante. 

O Santuário Bom Jesus do Monte Braga tem o funicular mais antigo do mundo, escadarias “infinitas”, fontes e estátuas barrocas. Foto: Visite Portugal.O Santuário Bom Jesus do Monte Braga tem o funicular mais antigo do mundo, escadarias “infinitas”, fontes e estátuas barrocas. Foto: Visite Portugal.E em Lisboa os altos e baixos são iguais (ou piores? Não sei bem). Não é à toa que há, por exemplo, o chamado Bairro Alto. Mas para cada esforço nas pernas há um lindo miradouro como recompensa. Quer mais? Que tal uma passadinha por Coimbra, subindo das margens do Mondego até à famosa Universidade de Coimbra. Ou então encarar as escadarias do Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga; em Guimarães, o caminho até o Castelo; aqui pertinho de casa, em Santa Maria da Feira, mas um desafio para alcançar outro castelo e por aí vai.

Quer mostrar que tem pernas de ferro? Força no pedal! Não tem todo esse fôlego, mas não foge das rampas? Então vem passear em Portugal!

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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.

Proteger, regar, mimar e disseminar a natureza nos espaços urbanos são garantias de vida saudável, sustentável e empática para todos. Foto: João Benz.Proteger, regar, mimar e disseminar a natureza nos espaços urbanos são garantias de vida saudável, sustentável e empática para todos. Foto: João Benz.A ONG SampaPé é uma das várias instituições que estimulam o transporte a pé, lutando para investir de autonomia e proteger os caminhantes nas ruas e tornar as cidades brasileiras melhores para todos.

Em agosto já é tradicional, desde 2014, a Semana do Caminhar, evento nacional que envolve várias organizações ligadas à mobilidade ativa, uma oportunidade para levantar o debate sobre o caminhar, essencial como forma de deslocamento nas cidades que priorizam a saúde e a sustentabilidade.

Perdizes tem o terceiro maior IDH da cidade e ocupa a primeira posição na zona oeste, com 0,977. Foto: João Benz. João Benz 640x426Perdizes tem o terceiro maior IDH da cidade e ocupa a primeira posição na zona oeste, com 0,977. Foto: João Benz. João Benz 640x426

Neste ano, o tema da semana foi “Passos e Espaços Verdes”, que destaca a importância da relação com a natureza no cotidiano das cidades, um assunto que ficou ainda mais latente na pandemia, com a demanda de isolamento social. O projeto, que reuniu 40 organizações parceiras de todas as regiões do Brasil – com atividades que engajaram mais de 600 pessoas em sua programação – trouxe insights e ideias para criar cidades mais verdes e que tornem o caminhar mais prazeroso e saudável. 

Foto: Divulgação.Foto: Divulgação.As árvores filtram as partículas e os elementos tóxicos suspensos no ar, aumentando a produção de oxigênio e reduzindo as ilhas de calor, causadas pela impermeabilização do solo e pelo adensamento urbano. Além disso, o convívio com a natureza traz várias vantagens ligadas à saúde física, mental e emocional. Confira algumas ideias sugeridas na Semana do Caminhar, que divulgou o seu balanço final há poucos dias (https://bit.ly/sdc2021_balancofinal):

  • Criar hortas comunitárias em praças e até mesmo em canteiros nas calçadas, onde plantam-se temperos, vegetais e frutas com cuidado coletivo e colaborativo. Você traz alimentos que podem ser compartilhados pela vizinhança e mais sustentabilidade para sua região.

Foto: João Benz.Foto: João Benz.

  • Preservar e plantar árvores nas calçadas, espaço que é também de encontro, conversa, diversão e brincadeira, entre tantas outras atividades sociais.
  • Criar, adotar e proteger praças nos bairros, especialmente nas periferias, que contam com menos espaços verdes do que as regiões ditas “nobres”. Em São Paulo, a Prefeitura tem o projeto “Adote Uma Praça”, que visa aumentar a conservação de áreas verdes na capital e desburocratizar os processos de adoção. Até o dia 20 de janeiro de 2021, foram 1.202 praças adotadas.

Foto: Divulgação.Foto: Divulgação.

  • Os rios estão em toda parte, mas em muitas cidades foram canalizados e escondidos debaixo de ruas, ou não estão integrados aos espaços públicos e cotidiano das pessoas. Recuperar seus cursos e criar parques em que é possível percorrer e estar nas suas margens é uma forma de trazer mais água, natureza, conforto térmico e qualidade na vida urbana.

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Conteúdo semanal assinado pelo Pro Coletivo, parceiro de conteúdo, especializado em assuntos da multimodalidade.

Para Jan Gehl, mais do que dar atenção à forma, a arquitetura precisa ajudar a criar o melhor habitat para o Homo sapiens. Imagens: Life Between Buildings, 1971.Para Jan Gehl, mais do que dar atenção à forma, a arquitetura precisa ajudar a criar o melhor habitat para o Homo sapiens. Imagens: Life Between Buildings, 1971.Em 1971, o arquiteto e grande urbanista dinamarquês Jan Gehl lançava seu livro revolucionário Life Between Buildings ('Viver entre Prédios', tradução livre) na longínqua Dinamarca. O jovem arquiteto de 36 anos havia trabalhado desde 1966 como bolsista de pesquisa na Academia Real de Belas Artes da Dinamarca, com o trabalho "estudos da forma e função dos espaços públicos". 

A principal bandeira de Gehl é colocar as pessoas no centro do processo de projeto e gestão da cidade. Pessoas em primeiro lugar, não carros, não interesses individuais, mas as pessoas, suas vidas diárias, sua maneira de usar e se locomover na cidade, suas relações afetivas e humanas.

Capa da primeira edição. Imagem: reprodução.Capa da primeira edição. Imagem: reprodução.

Os ideais dominantes de planejamento urbano do movimento moderno, negligenciaram a dimensão humana e contribuíram para o espraiamento urbano e segregação socioespacial, desumanizando as cidades em termos de escala ou sentido de pertencimento. Life Between Buildings se enquadra em um momento da história em que as convicções modernistas, funcionalistas e tecnicistas, sobre urbanismo e arquitetura, já estavam sendo questionadas e alguns outros pensadores abriam o caminho para uma nova maneira de ver a cidade. 

Na década de 1960, análises e estudos realizados por arquitetos e teóricos começaram a trazer à tona questões como geografia, paisagem urbana e psicologia ambiental. Os primeiros autores da pós-modernidade, Jane Jacobs com Morte e Vida das Grandes Cidades, Kevin Lynch e A Imagem da Cidade, Gordon Cullen e A Paisagem Urbana e Aldo Rossi, com A arquitetura da Cidade, inspiraram a renovação do pensamento urbano. 

Jane Jacobs e manifestantes em protesto para salvar a Penn Station da demolição de 1963. Foto: Walter Daran / Hulton Archive / Getty Images.Jane Jacobs e manifestantes em protesto para salvar a Penn Station da demolição de 1963. Foto: Walter Daran / Hulton Archive / Getty Images.O livro de Gehl é precursor de um conjunto de acontecimentos que ocorreram na década de 1970, como a crise do petróleo e, por consequência, do modelo urbano baseado no carro, e a demolição do conjunto modernista Pruit Igoe, dinamitado em 1972, marcando oficialmente o fim do modernismo como movimento intelectual e estilístico. 

A pós-modernidade fervilhava na década de 1970. A complexidade da vida e das relações humanas e sociais permeia o pensamento dos arquitetos e urbanistas de então. A sociedade da imagem e do consumo já se apresenta como forte influência na constituição dos espaços urbanos e arquitetura, dando os tons da pós-modernidade. Contemporâneo ao trabalho de Gehl, porém com uma interpretação diametralmente oposta, está o clássico Aprendendo com Las Vegas (1971), onde Robert Venturi, Denise Scott Brown e Steven Izenour, reforçam a presença do automóvel como meio de fruição da paisagem, reconhecendo que é o meio pelo qual se percebe e vive parte dessa cidade. Conforme esta visão, os letreiros são elementos fundamentais no meio urbano, exercendo um papel importante na arquitetura. Las Vegas é uma cidade que se percebe através da velocidade dos carros. 

Life Between Buildings vem para contradizer esse modelo de cidade veloz e consumista. Não é apenas um livro de urbanismo, mas um manifesto mais amplo, defendendo a importância das relações sociais e humanas, da vizinhança, do uso da cidade pelas pessoas e da qualidade de vida que uma cidade mais humana pode oferecer. Jane Jacobs classifica o livro como “Imaginativo, belo e esclarecedor”.

Strøget, a rua comercial somente para pedestres de Copenhague. Foto: Alex Berger /  AFAR.Strøget, a rua comercial somente para pedestres de Copenhague. Foto: Alex Berger / AFAR.

Uma das principais influenciadoras do pensamento de Gehl é sua esposa, a psicóloga Ingrid Mundt. O casal sempre buscou desenvolver um pensamento integrador entre sociologia, psicologia e arquitetura, levando Gehl a sua principal proposição: o planejamento urbano deve ajudar a criar cidades para as pessoas e a escala humana deve ser a prioridade. A arquitetura deve ir além da forma, precisa ajudar a criar o melhor habitat para o Homo sapiens. 

“Eu e minha esposa percebemos que a grande lacuna entre os arquitetos e os sociólogos era que ninguém estava nas ruas, observando o que o formato das cidades estava causando nas pessoas”, declarou ele durante sua palestra em conferência do evento Fronteiras do Pensamento, em 2016 em Porto Alegre.

Uma viagem do casal à Itália em 1965 foi fundamental para que o arquiteto percebesse a importância da vida pública. Talvez pela própria história da Itália, herdeira do Império Romano e da cultura do Fórum, as cidades por lá são muito vivazes.A investigação de Gehl sobre a interação das pessoas com a cidade foi desenvolvida a partir de métodos e dados em especial contagem de pedestres, análise de seus movimentos e permanência no espaço urbano. 

Gehl explica que a vida pública no espaço entre os edifícios é influenciada por uma série de condições, e o ambiente construído é uma delas. Segundo ele, as atividades que realizamos em espaços públicos podem ser agrupadas em três categorias: as necessárias, as opcionais e as sociais. 

No plano de Gehl de 2009 para Copenhagen, o importante é caminhar mais, passar mais tempo nos espaços públicos e sair mais dos “casulos privados”. Parque Superkilen em Copenhague. Foto: Forgemind Archimedia / Flickr.No plano de Gehl de 2009 para Copenhagen, o importante é caminhar mais, passar mais tempo nos espaços públicos e sair mais dos “casulos privados”. Parque Superkilen em Copenhague. Foto: Forgemind Archimedia / Flickr.Para as atividades necessárias, como ir ao trabalho, escola, mercado, farmácia, não temos muita escolha, somos obrigados a cumpri-las, portanto teremos que usar a cidade para isso. Já as atividades opcionais, onde a pessoa participa se quiser, o meio físico influencia muito na decisão de usar a cidade. Atividades físicas como corrida, caminhada, deslocamentos a pé, bicicleta, só vão acontecer se as condições exteriores forem ideias para tal. Já as atividades sociais dependem da interação com outras pessoas, como a brincadeira, o encontro, a conversa, ou seja, a ativação do espaço público. 

Em um bom ambiente urbano muitas atividades podem acontecer. A presença de outras pessoas, atividades, eventos, inspirações e estímulos está entre as qualidades mais importantes dos espaços públicos. Sendo assim, as atividades funcionais, recreativas e sociais se entrelaçam e se combinam tornando a análise a partir de uma única categoria insuficiente para observarmos as atividades ao ar livre. 

Cultivar uma cidade com vida pública resulta na ampliação dos encontros frequentes ligados a atividades diárias, e assim a ampliação dos contatos e relacionamento com vizinhos, facilitando o desenvolvimento de amizades e redes de contatos. Os encontros casuais têm muito valor sob essa perspectiva.

Mesmo a forma mais modesta de contato, simplesmente ver e ouvir ou estar próximo aos outros, além de ser gratificante, amplia nossa percepção de mundo a partir de outras realidades. A pandemia demonstrou o quanto Gehl estava certo. O isolamento social e o esvaziamento das cidades trouxeram impactos que ainda não conseguimos medir, especialmente no aspecto psicológico e das relações humanas. 

Para Jan Gehl, o planejamento e o desenvolvimento da cidade devem combinar “vida, espaço, edificações” e priorizá-los nessa ordem. Imagem: Reprodução.Para Jan Gehl, o planejamento e o desenvolvimento da cidade devem combinar “vida, espaço, edificações” e priorizá-los nessa ordem. Imagem: Reprodução.

Além de Life Between Buildings, Gehl também é autor no clássico Cidade Para Pessoas, traduzido em 24 idiomas, e do atual Como Analisar a Vida Pública, entre outros. São livros com forte base metodológica, que instrumentalizam a aplicação prática das ideias do arquiteto por parte de outros profissionais.

Gehl parece nos lembrar do óbvio: Pessoas atraem pessoas. Mas, ainda 50 anos depois deste tratado sensacional, na maioria das vezes, essa máxima é esquecida em prol de algum tipo de solução que não é a mais adequada para fomentar o mais importante em uma cidade: oportunizar o encontro e a vida em comunidade.

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Ana Paula Wickert é arquiteta e urbanista, mestre em Arquitetura e MBA em Marketing pela FGV. É palestrante, consultora e criadora do portal ArqAtualiza.

Basta uma rápida pesquisa pelas milhões de páginas da internet para descobrir todos os benefícios e todos os malefícios do consumo do café. Quem gosta de radicalismos pode escolher um lado e se fartar. Vai de excelente opção até vilão em poucos cliques. Eu sou grande consumidor e vejo os portugueses também encarando um (uns...) cafezinho (s) sem qualquer receio. Aliás, um estudo da Universidade do Minho, no norte de Portugal, divulgado há poucas semanas, aponta que os consumidores de café têm melhor controle motor, maiores níveis de atenção e alerta, além de indicar que a cafeína traz benefícios para o aprendizado e para a memória.

O material mostra as mudanças estruturais e de conectividade que acontecem no cérebro de quem bebe café regularmente. Sendo assim, que tal dedicar um tempinho para ler esse artigo com uma chávena, ou melhor, xícara de café ao lado, como faria a maioria dos portugueses. Saiba que, estando em Portugal, além de simplesmente pedir “um cafezinho, se faz favor”, há outras maneiras de dar um pouco de cafeína para o corpo. 

Para começar, vale saber que Portugal não é o maior consumidor de café do mundo, tampouco da Europa. Mas apesar de os números colocarem o país lá no fim do ranking das 20 nações que mais bebem um cafezinho, a sensação que a gente tem quando anda por qualquer cidade do país é que os portugueses são movidos a cafeína. É impressionante como se bebe café por aqui, o que nos deixa, nós brasileiros, como se estivéssemos em casa. Não há bar, não há pastelaria (as nossas padarias), nos balcões ou nas esplanadas, em que não tenha alguém tomando uma xícara. E sem qualquer constrangimento de sentar numa mesa, pedir apenas um cafezinho e ficar horas de papo para o ar. O lado ruim, devo dizer: também não há mesa que não tenha um cinzeiro, quase sempre sendo usado. A dupla café e cigarro é quase onipresente. Mas vamos focar no café!

Em Portugal, além de simplesmente pedir “um cafezinho, se faz favor”, há outras maneiras de dar um pouco de cafeína para o corpo.  Foto: Euro Dicas.Em Portugal, além de simplesmente pedir “um cafezinho, se faz favor”, há outras maneiras de dar um pouco de cafeína para o corpo. Foto: Euro Dicas.Quando estive aqui, em 2012, bem antes, portanto, de pensar em morar na terrinha, lembro que já havia notado o hábito do café – talvez por eu ser um grande bebedor – e em todo o passeio ou caminhada a gente fazia uma pausa para um expresso com nata (ou queijada, ou queques, ou ovos moles...). De acordo com os dados da AICC, a Associação Industrial e Comercial do Café, entidade portuguesa deste setor, o consumo per capita anual dos portugueses em 2012 era de 4,73 quilos. Cinco anos depois, pulou para 5,5 quilos. E segue crescendo. Como referência, o maior consumo per capta do mundo é o dos finlandeses, que encaram mais do que o dobro (cerca de 12 quilos) dos portugueses ao ano. Noruega e Islândia ocupam as duas seguintes posições, o que coloca os países nórdicos como realmente “viciados” em café. Uma explicação para esses dados é que por lá a bebida é tomada em formatos maiores, ou seja, ainda que, eventualmente, não bebam tantas vezes ao dia, cada vez que tomam ingerem uma maior quantidade (o que ajuda a entender também a percepção que tenho sobre os portugueses: a frequência aqui é grande, mas o formato é principalmente o da xícara pequena). Aliás, dos 25 maiores consumidores de café no mundo (consumo per capta), 21 estão na Europa, que é o continente onde mais se bebe café. Fora da Europa, estamos nós, brasileiros, canadenses, libaneses e norte-americanos. Se considerarmos o volume total consumido, a lista muda um pouco, com Estados Unidos liderando e Brasil em segundo lugar, o que pode ser explicado pelo gigantesco tamanho dos seus mercados. 

Pesquisa recente do Instituto de Pesquisa Multidados mostra que mais de 40% dos portugueses tomam 2 cafés por dia (pouco mais de 22% chegam a tomar de 3 a 5 cafés) e quase 60% bebem ao acordar.  Outro estudo, este da empresa Marktest, mostra números semelhantes em relação ao grande e crescente consumo de café: em 2020, mais de seis milhões e meio de portugueses, com 15 anos ou mais, beberam em casa uma média diária de pelo menos um café. Bares e padarias podiam estar fechados (já abriram!), mas o cafezinho não deixou de ser sagrado, mesmo que tenha que ser em casa.

Mais de 40% dos portugueses tomam 2 cafés por dia (pouco mais de 22% chegam a tomar de 3 a 5 cafés) e quase 60% bebem ao acordar. Foto: Time Out Lisboa.Mais de 40% dos portugueses tomam 2 cafés por dia (pouco mais de 22% chegam a tomar de 3 a 5 cafés) e quase 60% bebem ao acordar. Foto: Time Out Lisboa.Mas se em casa não há muita dúvida (basta por a cápsula ou utilizar as cafeteiras do tipo “italiana” ou "francesa'', por exemplo), pedir café fora de casa em Portugal pode não ser tão simples assim. Abatanado? Cimbalino? Eu que já vivi a experiência de servir café aqui em Portugal, confesso que me vi em apuros algumas vezes. Mas nada que um amigo “tuga” não possa explicar. Mas atenção: há muito regionalismo e até mesmo discrepância entre alguns nomes. Falei com bastante gente, amigos e até desconhecidos que pilotam uma máquina de café para confirmar alguns nomes (afinal, apesar de tomar muito café, ainda sou um forasteiro. Melhor ir direto na fonte) que seriam usados em determinadas regiões. E descobri que nem sempre há um consenso (lembra muito uma recente conversa que tive em um bar numa cidade próxima de Coimbra sobre qual é a fronteira que demarca o momento em que o nosso chopp vira “Fino” ou vira “Imperial”).

- “Disseram-me que aqui o café com um pouco de leite é o pingado, certo?”

- “Não, quem disse? Isso é o pingo, que é o contrário do Garoto. Só se for mais lá no Norte (ou no Sul...)”.

- “Não, o que ouvi foi justamente o oposto...”

Entre certezas e quase certezas, uma coisa é certa: se pedir um café ou um expresso, vai tomar... um café ou um expresso, de máquina, do jeito que conhecemos no Brasil (e já deixo aqui uma ressalva: há os que não concordem com a grafia com x, optando por escrever espresso. E já aviso que não vou entrar nessa briga). Não há estabelecimento que não tenha uma boa máquina de expresso. Aliás, nunca vi alguém tirar um cafezinho no coador de pano, como ainda achamos em várias padarias e bares no Brasil. Aqui, de norte a sul, se pedir um expresso, vão saber o que é. Mas o cafezinho também pode ser uma “Bica” em Lisboa e arredores (ao que consta, Bica teria nascido no "Café A Brasileira”, uma das mais tradicionais de Lisboa, inaugurada no início do século XX, quando as pessoas ainda estranhavam o gosto forte e amargo do café. Daí vem uma possível explicação: Bica seria o acrônimo de Beba Isso Com Açúcar. Outra possível versão refere-se ao fato de que o café, antes das máquinas de expresso, era coado e armazenado em grandes recipientes metálicos – como ainda vemos no Brasil – saindo para a xícara por uma torneirinha ou bica) ou um Cimbalino, nome mais utilizado no Porto e região e que é uma referência ao nome da marca da máquina de café expresso – La Cimbali. Ao contrário de Bica, Cimbalino é pouco usado e tem muita gente que nem sabe o que é. Ficou mais no passado e no repertório dos consumidores mais velhos. Mas seja lá qual for o nome, o cafezinho também pode ser pedido curto (alguns chamam de Italiano) ou cheio. Pela minha experiência, o “normal” aqui já é um café mais curto do que o que tomamos no Brasil. Ou seja, se pedir um curto, pode vir realmente um dedinho de café apenas.

O 'Café A Brasileira' tinha como um de seus clientes mais assíduos o poeta Fernando Pessoa, o que motivou a criação de uma estátua de bronze em sua homenagem. Foto: Divulgação.O 'Café A Brasileira' tinha como um de seus clientes mais assíduos o poeta Fernando Pessoa, o que motivou a criação de uma estátua de bronze em sua homenagem. Foto: Divulgação.

Outro clássico, presente em praticamente todos os “pequenos-almoços” é a meia-de-leite, algo como a nossa média. Na prática, uma boa xícara de café com leite, exatamente como no Brasil. A mistura também pode vir em copo, e ganha o nome de Galão. Quem tiver curiosidade em pesquisar, vai descobrir que há uma certa rixa entre os dois, ou melhor, entre os consumidores e consumidoras de cada um deles. Tem os que dizem que meia-de-leite é coisa de mulher, enquanto galão seria mais masculino. Outros dizem que no galão vem mais quantidade do que na xícara, o que muitos rebatem dizendo que na verdade tudo depende do tamanho da xícara em comparação com o copo e vice-versa, claro... Uns dizem preferir o copo porque dá pra sentir a temperatura do café com leite quando a gente segura, o que é minimizado quando se pega a xícara pela asa. A turma que quer contrariar fala a mesma coisa, mas com sensações invertidas, ou seja, o copo é ruim porque queima a mão, a xícara protege. Enfim, em tempos de radicalização, escolha outras batalhas e tome sem preconceito o seu galão ou sua meia-de-leite. Ah, pode ser que perguntem: “quer a meia-de-leite (ou o galão) direta?”. Traduzindo, é quando é feita com o café expresso tirado direto na xícara (ou no copo), que depois recebe o leite. O contrário disso seria usar um café já pronto, tipo de coador.

E eis que surge o Abatanado, que para muitos é como um “café americano”, ou seja, na xícara grande, um ou dois expressos diluídos em água, o que torna o café mais fraco. Não confundir com o café duplo. Aqui não tem qualquer pegadinha: o café duplo é simplesmente um café em maior quantidade numa xícara grande. Nada de água para completar. Café mesmo, em dose dupla.

Tem também o Carioca, que é um café mais fraquinho na xícara pequena, exatamente como no Brasil. De modo geral, tira-se um café normal e, sem trocar o pó, tira-se o segundo, que naturalmente já descerá mais fraco. Este é o Carioca. Alguns também chamam de café Escorrido. Mas pra confundir um pouco tem também o chamado Carioca de limão, que nada mais é do que água fervendo com lasquinhas da casca de limão. Ou seja, tem mais jeito de chá. E pode ser na xícara pequena ou na grande. Ainda nesta “categoria” de café mais fraco, há o chamado Café sem Ponta, quando a xícara é posta para ser enchida apenas depois que já saiu o primeiro jato de café da máquina.

Quer mais? Pode pedir o Pingado ou o Pingo (mais falado no Norte), que é como o brasileiro. Café numa xícara pequena e com um pouquinho de leite. E o inverso é o Garoto, ou seja, pouco café e mais leite, também numa xícara pequena. Para muitos, porém, não há grande diferença entre o Pingado (ou Pingo) e o Garoto, pois nem sempre as proporções são respeitadas. Na dúvida, eu sigo aquela “técnica” brasileira: digo se quero o meu pingado mais claro ou mais escuro, assim como fazia no Brasil pedindo uma média mais clara ou não. Tem funcionado.

Há ainda os que vão de café com um cheirinho, o que nada mais é do que dar uma “batizada” na bebida com um pouco de bagaço, aguardente bem portuguesa. E, claro, o pessoal do descafeinado, que pode ser usado para fazer todas as versões e tipos de café que já citei.

Agora que os dias estão ficando bem mais quentes, entra em cena algo bastante comum: café num copo com gelo, que responde pelo nome de Mazagran. O mais simples é tirar o expresso num copo já com pedras de gelo. Há variações, que muitas vezes acabam virando mais coquetel do que café. Tem quem coloque rodelas de limão, um pouco de água com gás, folhas de hortelã. Mas o básico mesmo é o cafezinho caindo sobre pedras de gelo num copo baixo.

Em 2020, mais de seis milhões e meio de portugueses, com 15 anos ou mais, beberam em casa uma média diária de pelo menos um café. Foto: Getty Images.Em 2020, mais de seis milhões e meio de portugueses, com 15 anos ou mais, beberam em casa uma média diária de pelo menos um café. Foto: Getty Images.

Por fim, e não menos importante, é comum perguntarem se queremos a chávena quente ou escaldada (ou nós, clientes, já podemos indicar o que queremos). A xícara então é escaldada naquele vapor da máquina e o café chega bem quente. Parece que é uma opção meio óbvia, mas já vi gente pedindo para servir em xícara fria, mesmo no inverno. E com certeza o café vai chegar pelo menos morno no balcão ou na mesa do cliente. Eu sou da linha do café bem quente e mesmo em casa costumo esquentar a xícara antes de fazer meu cafezinho de cápsula.

Uma curiosidade: poucas pessoas bebem café com adoçante, hábito muito mais comum no Brasil. Aqui, ao pedir o café, vai receber com um pacotinho de açúcar no pires e, vez ou outra, uma balinha (ou rebuçado, como falam por aqui). Mas eu prefiro mesmo é tomar junto com um pastel de nata, combinação bastante presente nos cafés daqui. O “combo” café e nata quase sempre tem um preço especial nos bares e padarias.

E aí, deu pra tomar um cafezinho enquanto lia?

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***Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.

Ciclistas se exercitam na Lagoa Rodrigo de Freitas. Foto: Káthia Mello/G1.Ciclistas se exercitam na Lagoa Rodrigo de Freitas. Foto: Káthia Mello/G1.

A professora de educação física Mitzi Menezes ama acordar cedo e iniciar o dia em um passeio de bike, com direito a ventinho fresco no rosto e até um banho de cachoeira pelo caminho. Ela mora na Cidade Maravilhosa, metrópole que esbanja belezas naturais com suas florestas, montanhas, trilhas, praias, baías, ilhas e lagoas. Por isso, já tem em sua rotina esse revigorante pedal matutino. “Quando volto, é o momento de tomar café com o meu marido, que não é de acordar muito cedo", conta. Roberto também curte pedalar, mas não na frequência e na intensidade de Mitzi.

Para essa carioca da gema, moradora da Lagoa – bairro que fica em torno da bela Lagoa Rodrigo de Freitas –, não há tempo ruim. Faça chuva ou faça sol, a bicicleta é o melhor meio de transporte. “Tenho a bike como uma das maiores parceiras, porque conto com ela para quase tudo. Até mesmo para ir ao banco, nos momentos de lazer e em compromissos sociais. Quando preciso sair, penso de cara na bicicleta, depois vejo se há necessidade de outro modal”. Mitzi lembra com saudade dos verões em que seguia pedalando rumo ao Arpoador, para assistir a eventos e shows memoráveis. “É muito boa a sensação de autonomia e liberdade que a bicicleta traz”.A carioca Mitzi Menezes só se locomove de bicicleta, com o objetivo de colaborar para que o Rio seja mais sustentável, saudável e inclusivo. Foto: acervo pessoal.A carioca Mitzi Menezes só se locomove de bicicleta, com o objetivo de colaborar para que o Rio seja mais sustentável, saudável e inclusivo. Foto: acervo pessoal.Nessa cidade repleta de cenários paradisíacos, mas que sofre com a desigualdade social e os problemas estruturais que assolam todo o país, Mitzi faz a sua parte. É professora da rede municipal, mãe, avó e cidadã consciente e responsável. Com a bicicleta – símbolo da mobilidade saudável, sustentável e silenciosa – ela dá exemplo no seu dia a dia. Sai diariamente com uma sacola de pano que se desdobra para acolher verduras e frutas do hortifruti ou da feira mais próxima. Tem prazer em voltar deslizando pelas ruas com a cestinha da bicicleta carregada de compras e ama ainda mais levar o neto Lucca, de três anos, na garupa, a caminho da creche em Ipanema. “Ele vai na cadeirinha e adora esses passeios”.

Foto: arquivo pessoal.Foto: arquivo pessoal.Bem pequena ainda, Mitzi já se encantava ao ver o pai saindo de bicicleta pela zona norte carioca, onde morava com a família. Logo aprendeu a se equilibrar sobre as duas rodas e passou a pedalar com os amigos. “Era tudo mais fácil naquela época, os sábados e domingos eram passados tranquilamente na rua, com a criançada do bairro”.

Hoje, nem tanto. Muita coisa mudou nessas décadas. Mitzi, contudo, segue firme com seu propósito de lutar por uma cidade mais inclusiva, segura e acolhedora. “Faltam ciclovias e muitas das que existem estão apagadas e sem manutenção”, ela observa. Também o vaivém dos entregadores ciclistas, que estão sempre correndo para dar conta de suas funções, preocupa a professora, pois eles têm sido vítimas de acidentes nas ruas. “Além do investimento em ciclovias, é preciso que os motoristas respeitem os ciclistas, elos mais frágeis, como os pedestres. Manter distância e reduzir a velocidade nas ultrapassagens é fundamental”.Foto: Arquivo pessoal.Foto: Arquivo pessoal.

Mitzi não se arrisca a pegar avenidas e túneis com sua bicicleta. Prefere vias mais tranquilas, lugares nos quais possa pedalar com segurança e sossego. Gosta mesmo é de descobrir recantos e passeios perto da natureza, com trilhas e até subidas íngremes. Os anos e treinos na magrela modelaram seu corpo e sua alma: é chegada a aventuras e adora pedalar pelo Parque Nacional da Tijuca, passando pela incrível Vista Chinesa, um templo chinês a 380 metros de altura, no alto do parque, de onde se vê a Lagoa, o Corcovado, o Pão de Açúcar e o Morro Dois Irmãos, entre outros cartões-postais do Rio.

Ela também costuma visitar de bike o Jardim Botânico e sempre que pode pedala com o marido até a Praia do Arpoador, onde as pessoas se reúnem para assistir ao pôr-do-sol de um dos picos mais bonitos do Rio de Janeiro. “Voltar da praia de bicicleta, depois do banho de mar, é maravilhoso!”

Ciclistas na região de Lavaux, Suiça. Foto: Lausanne Tourisme.Ciclistas na região de Lavaux, Suiça. Foto: Lausanne Tourisme.Quando a pandemia estiver bem longe, ela pretende fazer cicloviagens pelo Brasil, como o roteiro ciclístico na Serra Gaúcha, parando em fazendas e vinícolas. Essas férias estão na sua lista de desejos. Em 2008, experimentou uma liberdade deliciosa ao pedalar em Lausanne, na Suíça. Hospedada na casa de amigos, encontrou uma bicicleta na garagem. “Era um modelo masculino e até desconfortável para mim, mas todo dia eu saía sozinha, para conhecer a bonita paisagem da região”, relembra. 

Mitzi – esta libriana que se diz “comedida”, olha só –, realmente não aparenta seus 63 anos. Talvez porque leve em sua garupa a alegria, a flexibilidade, a energia e a curiosidade oriundas das pedaladas e dos horizontes vislumbrados à luz do dia.

E ela realmente não para. Há alguns meses, começou a fazer natação no mar. Mesmo nos dias mais frios do inverno carioca, acorda cedo para mergulhar e nadar no Posto 6, em Copacabana. E como chega lá? De bike, é claro!

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