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E lá da prefeitura brada o alcaide, determinando que, praia agora, só com hora marcada pelo app, diz ele, gratuitamente ou de quem chegar primeiro. A famosa ordem de chegada. Tudo começará numa segunda e, com certeza, como cinzas, se acabará na quarta-feira.

Todo mundo sabia que a volta gradual da cidade à vida traria conflitos. Sistema de transporte, funcionamento do comércio e escolas, combate às aglomerações, distribuição de espaço para pedestres e ciclistas na pandemia eram assuntos que causavam perplexidade em todo o mundo e aqui não seria diferente.

O que pouca gente previu é o quanto os espaços públicos iriam fazer parte das discussões.

Ciclista em ciclovia da Avenida Paulista, criada em 2015. Foto: Ciclo Vivo.Ciclista em ciclovia da Avenida Paulista, criada em 2015. Foto: Ciclo Vivo.

Caro Caetano,

Desculpe a intimidade, mas aprendi com Bethânia que lá vem o mano, eu amo Caetano. Acho que posso, até, te chamar de Caê. 

Você faz aniversário hoje (7 de agosto p.p.). Achei que a data é apropriada para te escrever.

Nada se compara ao embate dos últimos quatro ou cinco meses de confinamento. Foto: iStock.Nada se compara ao embate dos últimos quatro ou cinco meses de confinamento. Foto: iStock.

Levanta a mão aí quem não teve ao menos um arranca rabo com os filhos pequenos nessa fase de “prisão domiciliar”! Pois é. Aqui em casa já foram vários. E com exagero dos dois lados. Pais descontrolados, filhos respondões. Tem a luta do banho, a guerra dos dentes bem escovados, a batalha do “põe-o-prato-na-pia, dobra-as-roupas, arruma-a-cama”, o conflito do desliga o videogame e alguns focos isolados de rebeldia do tipo “faço-se-eu-quiser”, hoje-pulo-o-banho” e o mais radical “você-não-manda-em-mim”. Guerra dos 100 anos? Fichinha... Nada se compara ao embate dos últimos quatro ou cinco meses de confinamento. Claro que há o lado positivo, do maior contato e proximidade com os filhos, mais intimidade e por aí vai. Mas que é duro, isso é. E o negócio é tão complicado que já há uma série de estudos sendo feitos para avaliar a dimensão do que se chama “burnout parental”, algo como “pais entrando em colapso”...

Duas palavras muito faladas nessa pandemia são “coletivo” e “coletividade”, para se referir à importância de pensar na sociedade como um todo, buscando benefícios para todas as camadas da população. Algo, aliás, que não costuma acontecer no Brasil, “um país de poucos”. Por isso mesmo a covid-19 escancarou, entre outras mazelas decorrentes da nossa imensa desigualdade social, a falta de políticas públicas para a coletividade, principalmente nas áreas da saúde, da educação e dos serviços, como os de transporte.

Jenny Holzer, "Truism: In a Dream You Saw a Way to Survive and You Were Full of Joy", 1994 ::Jenny Holzer, "Truism: In a Dream You Saw a Way to Survive and You Were Full of Joy", 1994 ::

Acho que o Homo Sapiens de sapiens não tem nada – mais correto seria chamá-lo Homo Asinus. E o Sapiens Sapiens, então, deveria ser o Asinus Asinus. Sim, porque precisa ser duplamente asno para, ao longo de doze mil anos – doze mil! – não ter aprendido quase nada sobre a vida. Há um provérbio chinês que diz  "O burro nunca aprende, o inteligente aprende com sua própria experiência e o sábio aprende com a experiência dos outros." O que significa que somos Asinus Asinus mesmo, já que não conseguimos aprender nem com nossa experiência, nem com a dos outros.

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