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Cartões de controle de entrada de imigrantes portugueses no Brasil no início do século XX. Imagem: Arquivo Nacional.Cartões de controle de entrada de imigrantes portugueses no Brasil no início do século XX. Imagem: Arquivo Nacional.

Durante muito tempo, principalmente na minha infância no Rio de Janeiro, até o final dos anos 1970, sempre que surgia alguma história sobre portugueses, os personagens eram Joaquim ou Manuel. Nas piadas ou nas padarias, eles eram onipresentes. Era como se o critério para ser imigrante fosse ser chamado por um desses nomes. Dá até para imaginar o controle de passaporte na chegada do navio no Rio de Janeiro.

Falta muito pouco para 2019 acabar, e para o novo ano começar. Contudo, vale lembrar que o processo de fim e de começo é permanente, ocorre a cada segundo, e tudo passa e se transforma: a dor, a alegria, a chuva, o tempo, o amor, e mais uma infinidade de sentimentos e de situações.

A escolha das palavras é, de certa forma, uma retrospectiva daquilo que mais marcou a sociedade ao longo do ano. Foto: Correio da Manhã. A escolha das palavras é, de certa forma, uma retrospectiva daquilo que mais marcou a sociedade ao longo do ano. Foto: Correio da Manhã.

E aí, você sabe o que é Jerricã (ou Jerrican, como também já vi)? Eu assumo a minha ignorância e reconheço que ouvi (ou li, melhor dizendo) pela primeira vez dias atrás. Como atenuante para a minha limitação, tenho a impressão que a palavra não é usada no nosso “português brasileiro”, língua que eu costumava usar até 2017 (ou será que a minha burrice é ainda maior e todo o brasileiro sabe o que é um jerricã?). Enfim, o Jerricã (ainda não foi pesquisar o que é?) apareceu na minha vida quando soube que esta é uma das 10 palavras que pode ser eleita “A Palavra do Ano” em Portugal, em uma votação que já está na sua décima edição. A iniciativa é de uma grande editora portuguesa e costuma mobilizar boa parte da população. No ano passado, foram mais de 200 mil votantes. Até o momento, “Sustentabilidade” é a que tem o maior número de votos, seguida por “Violência” e “Desinformação”. “Jerricã” (agora já deve ter ido pesquisar e já sabe o que é, não?) aparece na quarta posição, à frente de “Nepotismo”, “Trotinete”, “Seca”, Influenciador”, “Lítio” e “Multipartidarismo”

Meu voto já deve estar claro para vocês, certo? Vou de “Jerricã” na cabeça, a única palavra nova para mim entre essas 10 finalistas. Se quiser votar, clique no (http://www.palavradoano.pt./) até o dia 31 de dezembro. Ajude a minha “Jerricã” a ser eleita! Aliás, pelo meu critério - palavras desconhecidas em português - minhas dez finalistas deveriam ter também Xizato, Quispo, Berbequim, Esferovite, Autoclismo, Dióspiro, Rebuçado, Montra e Trolha (não, não é aquilo...). Mas os critérios não são meus e a escolha das dez finalistas é feita pela editora, a partir da “análise de frequência e distribuição de uso das palavras e do relevo que elas alcançam, tanto nos meios de comunicação e redes sociais como no registo de consultas online e dos dicionários da editora”. Durante o mês de novembro, o site do concurso também ficou aberto para que os portugueses sugerissem palavras para a votação final. 

Vou de “Jerricã” na cabeça, a única palavra nova para mim entre essas 10 finalistas. Foto: Lusa.Vou de “Jerricã” na cabeça, a única palavra nova para mim entre essas 10 finalistas. Foto: Lusa.

A escolha das palavras é, de certa forma, uma retrospectiva daquilo que mais marcou a sociedade ao longo do ano. Fatos importantes, grandes discussões, debates, tendências e polêmicas estão sempre por trás das palavras finalistas. Ou seja, cada palavra traz um pouco do que o país viveu durante o ano. É como sintetizar em uma única palavra o conjunto emoções, ações, reações causadas por algo importante e marcante para a sociedade, para o bem ou para o mal. De volta à minha Jerricã, ela certamente entrou na lista porque foi muito usada durante umas boas semanas, graças à greve dos motoristas de caminhão responsáveis pelo transporte de mercadorias perigosas, entre elas o combustível nosso de cada dia. Sim, havia posto sem uma gota de gasolina e muitos com grandes filas, com gente que enchia o tanque e...o jerricã (a essa altura, não creio que seja um spoiler. Já foi lá no Google, né?).

Avenida Angélica, esquina com Martinico Prado, em Higienópolis. Foto: Hildegard Rosenthal,1940.Avenida Angélica, esquina com Martinico Prado, em Higienópolis. Foto: Hildegard Rosenthal,1940.

Tenho um postal guardado, pronto para uma moldura, com foto de um tempo que eu ainda não era gente, da mostra de Hildegard Rosental. A foto intitulada “O padeiro” foi clicada em 1940, na Avenida Angélica. Vê-se paralelepípedos molhados, a carroça do entregador de pães puxada por cavalo, o condutor com guarda-chuva, apenas dois carros negros nas ruas e o verde imperando por árvores, afinal era o que caracterizava as avenidas.

Conheça o aplicativo Malalai, que aproxima família e amigos para conectar e proteger as mulheres nas ruas. Imagem: reprodução. Conheça o aplicativo Malalai, que aproxima família e amigos para conectar e proteger as mulheres nas ruas. Imagem: reprodução.

Arquiteta e urbanista mineira, Priscila Gama, de 36 anos, sempre foi inconformada com a falta de segurança e liberdade das pessoas, especialmente das mulheres, para se locomover nas cidades brasileiras. “A gente é criada desde cedo para ter medo de andar sozinha na rua à noite, mas não deveria ser assim”, ela diz.

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