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Le Flaneur em ilustração de Spenot no livro "The Art of Wandering the Streets of Paris" de Federico Castigliano. Imagem: Deviant Art.Le Flaneur em ilustração de Spenot no livro "The Art of Wandering the Streets of Paris" de Federico Castigliano. Imagem: Deviant Art.

O fascínio pela cidade é tema recorrente entre os escritores homens. Desde Baudelaire a João do Rio, o flâneur é alguém que sai pela cidade em busca de si mesmo, no nascente mundo da burguesia urbana. Mas e as mulheres? Poucas são as escritoras que enfrentaram o ambiente masculino das grandes cidades.

No início do século XX, porém, Londres já é um lugar que permite à mulher sair pela cidade sozinha. Virginia Woolf foi uma delas. Em seu livro Mrs. DallowayMrs. Dalloway, de 1925, a delícia de estar no espaço público é descrita lindamente pela personagem Clarissa Dalloway, em seu passeio matinal pelo centro de Londres em direção à loja de flores:

Mrs. Dalloway é um romance histórico de Virginia Woolf publicado em 14 de maio de 1925. Imagem: Reprodução.Mrs. Dalloway é um romance histórico de Virginia Woolf publicado em 14 de maio de 1925. Imagem: Reprodução.

“Nos olhos das pessoas, no bulício, na pressa ou lentidão dos transeuntes; na algazarra e no fragor; carruagens, automóveis, autocarros, caminhões, homens-sanduíche aos tropeções ou de passo arrastado; realejo e fanfarras; no triunfo, no tinido ou na estranha melodia de um aeroplano lá no alto, estava aquilo que ela amava: Londres, a vida, este momento de junho.”

Afinal, o que há no espaço público que o torna tão especial? Clarissa começa a se sentir bem a partir do momento em que abre a porta da rua, sai de casa e respira o ar fresco da manhã. E depois, não é o bucolismo ou o verde ou o silêncio que a entretém. É o barulho da cidade, o movimento, pessoas diferentes que passam em ritmos diferentes. Assim, a fruição individual é vivida no ambiente coletivo.

Trafalgar Square em Londres na década de 20 a poucos passos da Igreja St Martin’s-in-the-Fields. Foto: George Davison Reid.Trafalgar Square em Londres na década de 20 a poucos passos da Igreja St Martin’s-in-the-Fields. Foto: George Davison Reid.

Vale a pena ler o livro para ver onde vai terminar o passeio de Clarissa. Mas também para sentir os ares da cidade burguesa, onde uma mulher pode sentir o prazer de estar sozinha em um ambiente coletivo.

Essas lembranças fazem a gente pensar nas mulheres que andam pela cidade hoje. São Paulo não é Londres, apesar da Oscar Freire talvez se parecer mais com a Bond Street do que com qualquer outra rua daqui.

Como é ser mulher e andar na Líbero Badaró, na avenida Sapopemba, na rua Francisco Coimbra, na Penha ou na rua B, num loteamento bem no extremo norte da cidade, a vinte e cinco quilômetros do centro?

Essas lembranças fazem a gente pensar nas mulheres que andam pela cidade hoje. Foto: Unsplash.Essas lembranças fazem a gente pensar nas mulheres que andam pela cidade hoje. Foto: Unsplash.

Será que na São Paulo do século XXI, as mulheres que saem às ruas podem sentir o prazer de andar pela cidade, sem violência ou assédio?

Será que uma mulher que pode andar de carro vai optar por sair  a pé para poder “sentir a cidade”?

Será que no passeio obrigatório entre o ponto de ônibus e a casa, as mulheres vão andar por calçadas bem cuidadas, sombreadas, iluminadas, seguras e entreter-se com o movimento da cidade sem serem importunadas?

Será que as nossas flaneuses podem se dar ao luxo de se perder na multidão para ficarem imersas em seus pensamentos?

Essa é a literatura que precisa ser escrita.

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Quem nutre uma certa resistência pela bicicleta tradicional, pela falta de condicionamento físico, pode experimentar a bike elétrica, que tem tido uma grande aceitação no Brasil.

Segundo estudo da Aliança Bike (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas), feito com dezoito empresas do setor, o mercado de elétricas teve crescimento de 28,4% entre 2019 e 2020, com 32.110 unidades vendidas, ao preço médio de R$ 5.900,00. A movimentação das vendas foi de R$ 190 milhões ao longo de 2020.

Desde o início da pandemia do coronavírus, as pessoas perceberam a bicicleta, de modo geral, como grande aliada nas medidas restritivas e de isolamento, o que fez o setor crescer de forma expressiva. A expectativa é que ao menos 40 mil unidades de bikes elétricas sejam comercializadas em 2021.

A vantagem da bicicleta elétrica é que ela pode ser útil no dia a dia para pessoas idosas ou com algum problema físico, como desgaste nas articulações, além de ajudar quem está fora de forma, sem condicionamento físico. E o interessante é que ela permite também a prática de exercícios, estimulando quem quer sair do sedentarismo mas ainda não se sente à vontade para encarar uma bicicleta tradicional.

A movimentação das vendas foi de R$ 190 milhões ao longo de 2020. Foto: Shutterstock.A movimentação das vendas foi de R$ 190 milhões ao longo de 2020. Foto: Shutterstock.

Para quem não sabe, a atividade física está embutida no “pacote” da e-bike: ela pode ser utilizada da maneira convencional ou acionando o display do sistema elétrico. O fato de a bicicleta ter pedal assistido permite maior conforto ao iniciar ou retomar a prática do ciclismo, permitindo, aos poucos, o ganho de condição muscular e cardiorrespiratória.

As vantagens são muitas: prática, não demanda grandes espaços para estacionar e pode aproveitar a infraestrutura cicloviária existente nas cidades. Boa para quem pedala por lugares íngremes ou precisa percorrer longos percursos, pois permite dar um fôlego maior na pedalada, ela não emite gases poluentes, é silenciosa e econômica: livre de impostos anuais, custa entre R$ 3 mil e R$ 11 mil em média, com baterias de lítio com autonomia de 25 a 50 quilômetros.

Por ser uma bike elétrica você não precisa se esforçar como em uma bike comum. Foto: Getty Images.Por ser uma bike elétrica você não precisa se esforçar como em uma bike comum. Foto: Getty Images.

Enfim, trata-se de uma boa alternativa para ganhar tempo e melhorar a qualidade de vida no Brasil, país em que ficamos, em média, 25 dias por ano parados nos engarrafamentos.

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Artigo assinado pelo Pro Coletivo, blog parceiro de conteúdo, especializado em assuntos da multimodalidade.

King's Garden: um retiro popular no centro de Copenhague e visitado por cerca de 2,5 milhões de pessoas por ano. Foto: Visit Denmark. King's Garden: um retiro popular no centro de Copenhague e visitado por cerca de 2,5 milhões de pessoas por ano. Foto: Visit Denmark.

Os espaços públicos são pauta importante na discussão sobre o direito à cidade e também no cenário de incertezas desta pandemia. Este é um tema que está em alta mas que ainda precisa de um olhar ampliado por parte das gestões públicas, que muitas vezes não compreendem sua importância e complexidade na cena urbana.

Os números podem não ser tão precisos, mas mesmo assim as estimativas são assustadoras. Calcula-se que cerca de 4,5 trilhões de beatas (o que nós brasileiros chamamos de guimba ou bituca) são descartadas todos os anos ao redor do mundo. Destas, talvez dois terços não cheguem aos locais corretos de descarte. Ou seja, vão mesmo é para as ruas, as calçadas, chegam, de uma forma ou de outra, aos oceanos. O problema não é novo. Esse círculo vicioso é bem conhecido e tem gente tentando resolver, ou ao menos reduzir, o estrago em vários países.

Aqui em Portugal, basta uma boa caminhada para confirmar que estas estimativas não estão tão furadas. Há quem diga que são 7 mil guimbas lançadas para as ruas por minuto em todo o país. As pessoas fumam muito e não costumam se preocupar tanto com o destino final do toquinho de cigarro, apesar de diversas campanhas e de legislações recentes que punem o sujismundo. Desde meados do ano passado, há lei: quem jogar bituca na rua pode ser multado em até 250 euros e os estabelecimentos que não oferecem cinzeiros também são penalizados em até 1500 euros.

As pontas de cigarros são o resíduo que mais aparece nas praias e representam um dos principais problemas [de lixo] no sul da Europa. Foto: Diário de Notícias.As pontas de cigarros são o resíduo que mais aparece nas praias e representam um dos principais problemas [de lixo] no sul da Europa. Foto: Diário de Notícias.

É a Lei da Beata, que, a partir do meio deste ano, deverá pesar ainda mais no bolso dos infratores, com a decisão do governo de endurecer as penalizações para essa e outras infrações. Na prática, aquele arremesso de cigarrinho pela janela, que poderia custar no mínimo 50 euros, já vai passar para pelos menos 150 euros a partir de julho. Mas alguém é efetivamente multado? Bom, digamos que a “impunidade” ainda é grande (basta ver as ruas sujas), mas dados de outubro de 2020, quando a lei começou pra valer, mostram que foram aplicadas quase 50 multas, a maioria para pessoas que jogaram a beata no chão, enquanto um número menor foi para os estabelecimentos sem cinzeiros. Vale lembrar que foi um mês de confinamento, no qual as pessoas saíram menos às ruas.

Mas como ninguém para de fumar e a ideia de ser pego em flagrante parece não ser tão assustadora, algumas cidades estão lançando iniciativas para tentar deixar as ruas mais limpas. É o caso da freguesia de Campolide, em Lisboa, que acaba de anunciar a campanha “Campolide sem Beatas”, que irá distribuir cinzeiros de bolso para os fumantes. Fumou, está na rua e não quer procurar uma lixeira para arremessar sua bituca? Não tem problema. Saca o cinzeirinho do bolso e guarda seu lixinho até chegar em casa. Prático, não? O objetivo da campanha é chegar a uma “freguesia limpa, verde e sem beatas”. Na primeira fase serão 5 mil cinzeiros para a população. E o início da campanha nesta semana não é por acaso. Estamos justamente no início da terceira fase do desconfinamento, na qual as pessoas ganham mais liberdade para ir e vir, tomar um cafezinho nos bares e esplanadas, dar aquela caminhada mais livre. Aí, é claro, dá aquela vontade de abaixar a máscara, acender um cigarrinho e arremessar a guimba na calçada, né? Ah, essa liberdade de poder respirar o ar puro das ruas novamente... 

As pessoas fumam muito e não costumam se preocupar tanto com o destino final do toquinho de cigarro. Foto: SAPO. As pessoas fumam muito e não costumam se preocupar tanto com o destino final do toquinho de cigarro. Foto: SAPO.

A mesma freguesia já havia liderado iniciativas semelhantes em 2017, quando pôs nas suas ruas uma outra campanha, que oferecia cinzeiros de pé para as portas dos estabelecimentos comerciais. As peças estampavam a mensagem "Beata do meu coração, apaga-te aqui e nunca no chão!". Não tenho dados da efetividade, mas realmente me toca a forma amorosa como foi tratada a beata, que tão bem faz ao coração... 

Em Lagos, cidade na região do Algarve, mais ao sul de Portugal, também as guimbas, ou ao menos as que costumam ser jogadas na rua, começaram a ser enfrentadas. A câmara municipal lançou no fim do ano passado a campanha “Zero Beatas”, para alertar a população sobre o impacto negativo no ambiente. O mote da campanha é “Um segundo a chegar no chão, cinco anos a sair do mar”. Além de uma série de peças de comunicação, a cidade ganhou novos modelos de lixeira, principalmente no acesso às praias. Já foram instaladas mais de 300 estruturas para que ninguém tenha a desculpa de não achar onde jogar o fim do cigarro. O grande teste certamente acontece no próximo verão, daqui a alguns meses. A ver.

Outra cidade que segue por caminho semelhante é Paços de Ferreira, mais ao norte. A estratégia foi a mesma de Campolide e Lagos: muita comunicação, distribuição de cinzeiros de bolso e a instalação de “EcoPontas”, equipamentos especialmente desenvolvidos para o descarte das beatas.

Ecopontas: contribuem para a redução de chicletes e pontas de cigarro atiradas no chão, dois dos resíduos mais encontrados nas praças e ruas da cidade. Foto: Público. Ecopontas: contribuem para a redução de chicletes e pontas de cigarro atiradas no chão, dois dos resíduos mais encontrados nas praças e ruas da cidade. Foto: Público.

Ações como essas se repetem em outras freguesias, outros concelhos, mas o hábito de fumar ainda é muito presente aqui em Portugal. Há uma série de restrições impostas pela legislação, é verdade, mas também algumas exceções ou situações especiais (como um sistema de exaustão eficiente em ambientes fechados como bares e restaurantes) que acabam abrindo brechas para que o fumo seja aceito. Esta semana, porém, foi criada uma petição pública que pede que seja proibido fumar em espaços públicos ao ar livre, principalmente praias, esplanadas, pontos de ônibus (ou paragens de autocarro, como se diz por aqui). Se vai para frente, é difícil saber. Até porque, nem preciso dizer, a pressão das grandes indústrias de tabaco é grande por aqui também. Aliás, preciso dizer que algumas dessas campanhas de distribuição de cinzeiros de bolso tem o patrocínio da indústria?

Mas cá entre nós, no meio de uma pandemia que ataca principalmente as vias respiratórias, não seria um bom momento para largar o cigarro? Imagino que seja difícil, mesmo para quem quer. Podemos só combinar uma coisa? Jogue a bituca no lixo!

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O historiador inglês Ben Wilson, autor de 'Metropolis – A history of the city, humankind´s greatest invention', lançado em 2020, (ainda sem data de lançamento no  Brasil). Foto: Divulgação.O historiador inglês Ben Wilson, autor de 'Metropolis – A history of the city, humankind´s greatest invention', lançado em 2020, (ainda sem data de lançamento no  Brasil). Foto: Divulgação.

Como contar a história das cidades? Por que contar a história das cidades? O fato de ser considerada por muitos a “maior invenção do homem” parece ser razão suficiente para que se torne objeto de análise. O fato de morarmos majoritariamente em cidades também. Mas há mais que isso, a história das cidades é um ponto de vista para entender a história do mundo e o nosso lugar nesse mundo. Se for contada de uma maneira agradável e interessante por quem as ama, mais ainda. É o caso de Metropolis.

Espaços públicos da capital dinamarquesa ajudam a entender a maneira particular de encarar a vida. Foto: Getty Images.Espaços públicos da capital dinamarquesa ajudam a entender a maneira particular de encarar a vida. Foto: Getty Images.

Uma cidade com alto índice de qualidade de vida e felicidade dos habitantes. Espaços públicos estruturados a 15 minutos de distância de qualquer cidadão, mais de 125 playground abertos para as crianças, ciclovias conectando toda a cidade, piscinas públicas, uma usina de queima de resíduos, gera energia e tem uma pista de esqui em cima, geração de energia eólica, alimentação orgânica. Não é História dos irmãos Grimm, é Copenhagen.