Colunistas - São Paulo São

São Paulo São Colunistas

 

Aquela costumeira frase em determinados produtos, “Depois de aberto, manter na geladeira”, perdeu o sentido em São Paulo nos últimos dias.

Com as temperaturas mais baixas em cinco décadas, a cidade amanheceu com neve em alguns bairros. Uma cena relativamente comum na região Sul do país, mas rara nessa terra da garoa, principalmente porque ainda não estamos no inverno.

Poucos habituados com esse gelo, a criatividade e o recurso fashion de vestir roupas em camadas é uma solução para manter o corpo aquecido. Em tempos de efeitos das mudanças climáticas não dá para saber como serão os próximos três meses a partir da próxima segunda-feira.

Se essa amostra persistir após o outono, talvez experimentemos aquela sensação europeia de beber vinho ou cerveja em temperatura ambiente. Diante dessa possibilidade convêm articular desde já redes de solidariedade porque nesse Brasil tropical não temos estrutura para suportar sensações térmicas comuns na terra do Papai Noel.

E por mais que fora o vento sopre gelado é imprescindível manter o coração quente em todos os sentidos, para que juntos possamos superar as consequências dessa sensação de tomate dentro da geladeira. Por aqui, fico. Até a próxima.

***
Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

***
Importante!

Se encontrar um morador de rua precisando de ajuda, ligue para o 156 e comunique a Coordenadoria de Atendimento Permanente e de Emergência (Cape), da Prefeitura. O serviço funciona 24 horas por dia.

Segundo o último censo divulgado pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) da Prefeitura, São Paulo tem 15.905 pessoas na rua, sendo 8.570 nos centros de acolhimento e 7.335 em vias e espaços públicos.

Veja onde doar roupas, cobertores e itens de higiene:

Pastoral do Povo de Rua
Rua Taquari, 1100, Mooca
Paróquia São Miguel Arcanjo

Campanha do Agasalho
A Cruz Vermelha promove sua própria Campanha do Agasalho há cinco anos. São mais de 20 pontos de doação na capital, veja os endereços aqui.

Missão Belém
Rua Doutor Clementino 608, São Paulo.

Convento São Francisco
Largo São Francisco, 133, São Paulo.
Precisa de doações de sabonetes, creme e escova dental, xampu e gilete de barbear.

ONG Anjos da Noite
Rua Jose Teixeira da Silva, 15, Parque das Paineiras (100 metros da estação do Metrô Artur Alvim). Travessa da Avenida Águia de Haia, em frente ao número 312. Doações podem ser entregues aos sábados.
Telefones: 11 981608407/ 2280 4587.
Email: [email protected]
www.anjosdanoite.org.br

Mãos na Massa
Rua Boa Vista, 75, Centro.
Telefone: 11 99723-4343.

***
Redação São Paulo São.


A primeira coisa que eu descobri é que o tempo é igual ao joelho. Com sorte, você não vai se lembrar dele até os 40 anos, mais ou menos. Durante a infância e a juventude, o tempo e o joelho são indolores. Como o joelho, a gente só sente o tempo quando começa a doer.

Tenho 49 anos e nunca tinha me preocupado com a passagem do tempo antes. Quando a gente é criança ou adolescente não fica olhando para trás, né? A gente vive, simplesmente, às vezes ligado no futuro, mas totalmente desligado do passado – a não ser por traumas, raramente por nostalgia. Depois dos 40 é que o tempo passa a ser uma questão.

Dentro da gente, o tempo do tempo é outro e cada um tem o seu. Tanto é que é mais fácil enxergar que o tempo passou no outro do que na gente mesmo. Por dentro, é possível ter 20 anos para sempre ou ser sexagenário aos 17. O tempo de fora só encontra com o de dentro quando morre alguém que a gente ama.

A saudade é diretamente proporcional ao tempo: quanto mais tempo a gente vive, mais saudade a gente sente. Viver mais é superar o desafio de conviver diariamente com a ausência dos seres queridos.

Mesmo que, por dentro, o tempo só passe se a gente quiser, inevitavelmente a infância fica cada vez mais longínqua. Não temo as rugas, os cabelos brancos algum dia assumirei, mas pensar que poderei, no final dos dias, não recordar minha infância me apavora.

O tempo, ao contrário da crença geral, não faz todo mundo ficar mais sábio e sim mais verdadeiro consigo mesmo. Acho que a “sabedoria” surge justamente daí, de se dar o direito de ser o mais verdadeiro consigo mesmo possível.

A juventude passa lentamente e a idade madura passa rápido. Mas quando a gente chega à idade madura tem a sensação de que tudo passou rápido, e rápido demais. Aquela sensação de “parece que foi ontem” é constante.

O tempo é muito relativo e pessoal. Tem gente que pensa em envelhecer para se aposentar. E tem gente que só enxerga a velhice trabalhando. Eu sou assim.

Num mundo ideal, a aposentadoria não deveria ser por idade, mas de acordo com o pique de cada um. Eu, por exemplo, gostaria de ter estado “aposentada” até os 30 e ter começado a trabalhar a partir daí. Agora estou a mil e não penso em parar tão cedo. Sinto que, em movimento, o tempo faz o cérebro da gente ficar mais e mais afiado. E que, parado, ele perde o fio.

O bom do tempo é quando ele é sinônimo de aprendizado, e isso não tem tempo para acabar.

***
Cynara Meneses é jornalista com passagens pelo principais veículos da imprensa. Mantém e edita o blog Socialista Morena onde este texto foi publicado originalmente.

 

 

- Alô, oi, que barulho é esse tudo bem? Onde você está?

- Na procissão.

- Ah, qual é o santo da vez?

- Hoje é Corpus Christi, você esqueceu? Os tapetes de serragem estão lindos, todas as ruas...

Ao fundo um coro de Avemariacheiadegraçasenhoréconvosco...

- Você está me saindo uma boa beata. Está solita ou com alguém interessante?

- Com o padre, kkkkk

Esta vem sendo a rotina de minha amiga querida, desde sua mudança para Cunha, no interior de SP. Quando se mudou para lá pensava que iria ter uma vidinha pacata, mas qual o quê, para uma curiosa como ela, conhecer as pessoas interessantes da cidade significa visitar ateliers, as plantações de lavanda, os trutários, restaurantes, pousadas, até que descobriu a fé da população local.

- A coisa aqui com a fé é algo além do normal. Para mim, tudo começou em Dezembro com a festa da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, que, só esta, durou dez dias com missas rezadas cada vez por um padre diferente, daqui, de Guará, de Lorena...  Este ano, inaugurei minha temporada religiosa em Março com a Festa de São José e sua procissão. Achei que seria curioso dar um pulo por lá. Foi o início de um verdadeiro périplo santificado: veio Domingos de Ramos, Semana Santa, São Benedito, é dá-lhe procissão, - até cavalada! - e eu já dentro do rosário e dá-lhe muita Ave Maria. E a coisa não tem fim, pois além dos festejos religiosos da cidade em si, muitos bairros na zona rural têm seus próprios padroeiros, sem falar nos municípios vizinhos, a começar com, logo quem, São Expedito aqui ao lado em Guaratinguetá!  Agora estou me preparando para as festas juninas, haja fôlego!

- Você está brincando. Você vai com amigos ou sempre sozinha? Ninguém da turma do Alzheimer (os amigos acima de 50 anos) vai? 

- Não, kkkk, eu acho que vou acabar conhecendo algum diácono com o filho coroinha, porque são vários e estão em todas como eu. Estão sempre em destaque com aquelas vestes vermelhas e brancas, são lindos de se ver no conjunto, acho que preciso ir olhar essa turma mais de perto para ver se há algum bonitão. 

- Acho que você já está cavando um lugar no céu, afinal no alto da serra você já está. Você faz a intermediação de pedidos e promessas para os santos de cada dia? Você podia cobrar a comissão por graça alcançada, afinal você já é uma candidata a beata mor de Cunha.

- Acho que daqui a pouco vão me convidar para ser filha de Maria ou algo parecido. Já tenho Maria no nome, acho que tenho chance. Só me resta achar um bom e belo José. E Avemariacheiadegraça...lá vou eu.  Veja se encara e suba a serra e alcance os céus, kkkk!!!

- Olha que eu vou, mas não sou santa de um padre só, kkkk!

***
Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy, 4 Rodas e cronista do Jornal da Tarde. Atualmente ministra a Oficina Ler é Viver, de criação literária na Escola Lourenço Castanho. Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia” pela Editora Patuá


Na semana passada, remexendo papéis, encontrei o texto a seguir, escrito por mim em novembro de 1984, ao qual dei o título de “Apocalipse now”.

Passageiros, atenção!  Este é o voo 985, “O destino”. Recebemos uma mensagem secreta informando a possibilidade de um naufrágio. Apertem-se. Os casados que tirem férias, afinal poderão viver o “The day after”.

Cochichos no paraíso anunciam que Eva e Adão assinaram o divórcio e a cobra ficou com o Tarzã. Mergulhada numa profunda tristeza, a Jane matriculou-se num curso Magic-Corte. E a Chita? Bem, tratou de alugar uma cobertura na Vieira Souto (que clichê?!).

Liguem a TV. Qualquer canal é apoteótico com parafernálias idem. Na passarela do Rio, o samba enredo (único), será tocado por todas as baterias. De Brasília recebemos o comunicado de que o estado de sítio permanecerá por tempo indeterminado, e o CEASA de São Paulo decretará falência.

Quando as luzes se acenderem, será o sinal. Quem quiser fazer uma boquinha, garanta o seu prato. Para a felicidade geral, haverá a Coca-Cola grátis, e a Pepsi assegurará.

As fantasias ficarão a cargo da originalidade e a nossa companhia aérea sorteará uma penca de bananas e uma árvore de Natal. Fiquem atentos aos números estampados nos cartões de embarque e sintonizem agora os monitores de televisão porque o bingo vai começar, e quem renascer, verá. Por aqui, fico. Até a próxima.

Importante: este texto foi escrito há quase 32 anos e, naquela época, era de ficção.

***
Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 

Ao voltar a pé do bairro Liberdade para Higienópolis, a sintonia me fez encontrar com três amigos queridos, numa constatação de que mesmo nesta metrópole é possível viver situações típicas de pequenas cidades.

Ao escolher descer a Tamandaré, na esquina da Antonio Prudente me surpreendi ao ver o Saliba Filho, colega dos tempos em que residia no Ipiranga, naqueles efervescentes anos 1980, período de reconstrução da democracia e da busca de novos caminhos para as expressões culturais em nosso País.

Em 15 minutos de conversa relembramos mais de 30 anos de histórias, nos atualizamos sobre como cada um está hoje, trocamos telefones, e ficamos de marcar um café para dar continuidade ao bate papo. Depois de conectados pelo Facebook descobri as amizades em comum.

Não muito distante, na Santa Madalena, rua que morei por quase 10 anos, revi a Nina Leirner, que descia do carro com o seu violoncelo. Também amiga de mais de três décadas, além de saber que ela continua no mesmo trabalho, que a sua filha mais velha já completou 27 anos, e que ela é avessa a redes sociais, decidimos agendar um encontro em breve com outros dois amigos em comum.

Deixei a Bela Vista e segui em direção à Praça Roosevelt, passando pelo Bixiga. Ao chegar nas proximidades do Copan, segui pela General Jardim. Ao passar em frente ao Jazz B, vejo o casal O Zi e Cristina Manzano, que estava perambulando por ali em direção às atrações da Virada Cultural.

Esses encontros só foram possíveis porque decidi caminhar naquela noite fresca de Sampa. Para ver e ser visto é preciso sair em direção às surpresas que a vida nos reserva. Confio que essas situações não aconteceram por acaso, e que a partir desses acontecimentos “inesperados“ tivemos a oportunidade de renovar os nossos laços de carinho, respeito, cumplicidade e afeto. Por aqui, fico. Até os próximos encontros.

***
Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


Foi realizada no último final de semana mais uma edição da Virada Cultural em São Paulo. Em apenas 24 horas, dezenas de shows e atrações gratuitas, daqui e de outros países, para diferentes gostos, ocuparam espaços distintos da cidade.

Como o sábado amanheceu chuvoso, imaginei que o tempo poderia espantar o público. Contudo, na sua abertura o dia estava seco e fresco. Já o domingo amanheceu ensolarado, o que permitiu a circulação das pessoas com tranquilidade pelas ruas e avenidas do centro velho cantadas por dezenas de intérpretes da nossa Música Popular Brasileira.

Vi o Genival Lacerda no Largo do Arouche. No palco, forró, xaxado e o jeito peculiar dele dançar, e cantar aquelas músicas de duplo sentido que não desgrudam do ouvido da gente. Com vigor e mais de 80 anos, esse nordestino autêntico não deixou de lembrar clássicos de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. E na plateia o povo chacoalhava as cadeiras e alguns arriscavam “forrozar” coladinhos.

Não distante dali, no palco São João, foi maravilhoso ouvir Cartola na voz e com o charme de Teresa Cristina, acompanhada do sensacional Carlinhos Sete Cordas no violão.

Voz e violão foram suficientes para emocionar o público, que cantarolou junto quase todo o repertório. Por uma hora os nossos ouvidos foram abençoados por lindas poesias musicais de autoria de mestres da nossa MPB.

Antes das audições percorri as ruas Aurora, Dos Timbiras e adjacências, e comi um pastel de pizza na feira livre, onde é possível comprar de tudo um pouco fresquinho, e aproveitar a costumeira liquidação quando as barracas estão prestes a desmontar.

Com duração de 24 horas, a Virada Cultural é um presente para os cidadãos desta metrópole que pulsa a semana inteira sem parar. Que ocupemos os espaços públicos o tempo todo. Porque é nas ruas, avenidas, praças, calçadas e em tantos outros lugares que os encontros acontecem. E quando nos encontramos, nos conectamos e fazemos, a cada instante, uma cidade melhor, mais alegre, mais plural, mais generosa, mais segura, mais inclusiva e mais vibrante para todos. Por aqui, fico. Até a próxima.

***
Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.