Colunistas - São Paulo São

São Paulo São Colunistas

 

"Joie De Vivre XL 1" :: ©Peter Nottrott :: photo by Saatchi Gallery."Joie De Vivre XL 1" :: ©Peter Nottrott :: photo by Saatchi Gallery.

Há poucas semanas, recebi de um cliente uma solicitação inesperada: produzir um texto sobre minha experiência durante este período de isolamento social. O texto seria publicado na intranet de sua empresa em uma coluna assinada, a cada mês, por um convidado. O briefing sucinto pedia uma narrativa "agradável" – a ideia era proporcionar aos leitores alguns minutos de prazer, em uma época que todos estão (estamos) sendo cotidianamente bombardeados por notícias tão tristes.

Imagem: reprodução.Imagem: reprodução.A pandemia parece ter escancarado alguns temas que estavam submersos em meio às pautas da cidade: a informalidade dos empregos, a invisibilidade de milhões de pessoas sem registro, e, principalmente a desigualdade, possivelmente a nossa maior fraqueza. Desigualdade na renda, nos transportes, na moradia, na habitação. Cada indicador que se tome demonstra a diferença tremenda entre as duas faces de São Paulo.

Uma tese de doutorado* de Katia Canova, arquiteta e urbanista, defendida recentemente na Geografia da USP, procurou juntar esses indicadores todos e criar um “indicador de urbanidade e justiça espacial”, que deu origem a uma fotografia bem-vinda dessas desigualdades.

Conversei com ela sobre o trabalho, as principais conclusões e os desafios da cidade.

A análise hierárquica de dados para a confecção de um diagnóstico.

A tese apresenta um monumental uso de dados. Afinal, Katia dividiu a cidade em quadrículas, com áreas bem pequenas, de 200 metros por 200 metros, um método que aprimorou na Universidade de Lyon. Isso dá incríveis 39.260 quadradinhos.

Em cada um ela agregou informações sobre  17 indicadores, entre eles: densidade demográfica, tempo de deslocamento por transporte público, diversidade de atividades, vulnerabilidade social, emprego, valor do solo (que reflete diretamente no preço de moradia), oferta de serviços básicos de saúde, educação e assistência social.

Cada indicador é dividido em 5 faixas, que depois são ponderadas e hierarquizadas. O resultado é esse incrível mapa que aparece lá em cima.

Os extremos

O mapa demonstra um padrão já conhecido de quem estuda as desigualdades na cidade.

No centro e no vetor sudoeste, os bairros que acolhem a população de mais alta renda e que historicamente receberam os maiores investimentos públicos em infraestrutura.

Foto: Divulgação.Foto: Divulgação.

Autor de obras incríveis em São Paulo, ligadas a temas do meio ambiente, o artista plástico Eduardo Srur tem como tela a cidade: os rios poluídos da capital paulista, as pontes e viadutos, as construções e os terrenos baldios. “A paisagem urbana é cenário perfeito para criar, trazendo a reflexão e um novo olhar”, diz ele em entrevista para o Pro Coletivo, durante uma live no Instagram @procoletivo no final de maio.

Rua em Auckland, Nova Zelândia; mais ciclovias, calçadas extensas - um exemplo de como as cidades serão redesenhadas para distanciamento social no estilo Covid. Foto: Governo da Nova Zelândia.Rua em Auckland, Nova Zelândia; mais ciclovias, calçadas extensas - um exemplo de como as cidades serão redesenhadas para distanciamento social no estilo Covid. Foto: Governo da Nova Zelândia.

Os benefícios do chamado “transporte a pé” são inúmeros. Eles envolvem a saúde de quem anda regularmente, a sustentabilidade e a saúde econômica das cidades.

 

O projeto “Belas Artes Drive-In no Memorial” chega ao Memorial da América Latina, em São Paulo, a partir de 16 de junho. Foto: Wikicommons. Foto: Divulgação.O projeto “Belas Artes Drive-In no Memorial” chega ao Memorial da América Latina, em São Paulo, a partir de 16 de junho. Foto: Wikicommons. Foto: Divulgação.

O Memorial da América Latina nunca chegou perto da lista dos espaços públicos mais amados de São Paulo.

Apesar de ocupar uma área enorme, de fácil acesso, ao lado de uma estação movimentadíssima de metrô e trem, de ter sido criada pelo maior arquiteto brasileiro, Oscar Niemeyer, e abrigar biblioteca, auditórios, exposições e um monte de eventos, o Memorial tem uma fraqueza que parece incontornável para um espaço público: a área externa.

Fora dos prédios, o Memorial é árido, sem bancos, com poucos pedaços arborizados, murado. Pois a Praça Cívica, onde está a linda escultura da mão sangrando, também de Neyemer, agora vai emprestar seu concreto para as pessoas que vão ao cinema. De carro.

A ideia de fazer um cinema drive-in no Memorial, que poderia soar exótica em outros tempos, faz todo sentido durante a pandemia e até combina com aquele concreto todo e a falta de urbanidade durante o dia.

André Sturm, sócio do cinema Petra Belas-Artes concebeu o evento e a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo topou. As sessões acontecem entre o meio de junho e o fim de julho. A programação é fantástica – desde 2001, Uma Odisseia no Espaço, até Apocalipse Now.

A lenta volta ao cinema ou o começo do fim?

Um dos principais drive-ins da cidade foi o Auto Cine Chaparral, inaugurado em 1971 na Marginal Tietê, próximo à Ponte do Tatuapé. Foto: Oswaldo Luiz Palermo / Estadão Conteúdo. Um dos principais drive-ins da cidade foi o Auto Cine Chaparral, inaugurado em 1971 na Marginal Tietê, próximo à Ponte do Tatuapé. Foto: Oswaldo Luiz Palermo / Estadão Conteúdo. Drive-in não é novidade. Já tivemos vários e inclusive um gigantesco, o famoso Chaparral, que durou até a década de 80. Mas hoje, diante de tudo o que estamos vivendo, ganha novo simbolismo.

Gilberto Dimenstein e a namorada Anna Penido em 2018. Foto: Divulgação.Gilberto Dimenstein e a namorada Anna Penido em 2018. Foto: Divulgação.

A partir da segunda metade da década de 1980, todo estudante de jornalismo no país sonhava trabalhar na Folha de S.Paulo, o “jornal das Diretas-Já”, e ser o Gilberto Dimenstein (1956-2020). Com este sobrenome marcante de origem polonesa que muita gente fala errado até hoje, Gilberto se tornara o epíteto do repórter intrépido perseguidor de “furos”, o Carl Bernstein (https://en.wikipedia.org/wiki/Carl_Bernstein) brasileiro para toda uma geração de jornalistas. Bernstein, Dimenstein. Até rima (mas a pronúncia é diferente: “bernstín” e “dimenstáin”).

APOIE O SÃO PAULO SÃO

Ajude-nos a continuar publicando conteúdos relevantes e que fazem a diferença para a vida na cidade.
O São Paulo São é uma plataforma que produz conteúdo sobre o futuro de São Paulo e das cidades do mundo.

bt apoio