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Foto: Érico Hiller.Foto: Érico Hiller.

No início deste mês, numa sexta-feira, 5 de julho, um movimento coordenado pelo Instituto Corrida Amiga juntou pessoas em todo o país para ir a pé ao trabalho. Há cinco anos, a primeira sexta-feira de julho é o dia para tornar efetivo o deslocamento a pé ao trabalho, incluindo caminhadas, corridas e combinando parte do trajeto com bicicleta, transporte público ou carona.

Foi bonito ver grupos de pessoas em diversas cidades brasileiras caminhando felizes rumo a seus compromissos. Como lembra Silvia Stuchi, idealizadora da Corrida Amiga, fundada em 2014, o “transporte a pé” é o meio mais livre e democrático de deslocamento. Ao mesmo tempo que gera benefícios para a saúde, pois reduz os riscos de hipertensão, colesterol e doenças do coração, protege o meio ambiente. “Você não polui, porque é movida a arroz e feijão”, ela brinca.

Foto: Érico Hiller.Foto: Érico Hiller.

Além da Corrida Amiga, várias instituições brasileiras focadas na mobilidade ativa têm mostrado a importância de caminhar diariamente. Trata-se de uma atividade comum no nosso país (cerca de 65% dos deslocamentos no Brasil são feitos, pelo menos em parte, a pé), mas que não é valorizada, tampouco incentivada.

Em uma palestra recente no TED, a arquiteta e urbanista Gabriela Callejas, diretora da organização Cidade Ativa, observou que o primeiro marco de independência da nossa história é o caminhar. “Mas vocês já pararam para pensar que nós vamos perdendo essa liberdade de caminhar ao longo da nossa vida?”, questionou Gabriela.

É a pura verdade. Vamos nos tornando sedentários – e também tristes, estressados, sem energia. As nossas cidades também não nos estimulam a andar, uma vez que elas foram construídas basicamente para receber carros, sem espaços públicos acolhedores e calçadas seguras. 

Um direito dos cidadãos

Foto: Érico Hiller.Foto: Érico Hiller.

Mas isso pode ser mudado. Instituições como Cidade Ativa, Corrida Amiga, Cidade a Pé, SampaPé, Carona a Pé, entre outras bastante importantes, têm lutado organizadamente pela defesa da mobilidade ativa nas metrópoles brasileiras. Cidades caminháveis, amigáveis e acessíveis, com calçadas amplas e sem buracos, são um direito de cidadãos de todas as idades.

Caminhando nós descobrimos outra cidade, muito mais viva e interessante, com novos contornos e atrativos. Dentro do carro o horizonte é limitado e o trajeto também: você não pode largar o automóvel no meio do caminho. A pé, ou mesmo usando o transporte coletivo, é possível parar em um café, fazer uma pausa em uma praça para curtir a natureza e se sentir parte integrante da comunidade. Existem coisas que só conseguimos fazer quando estamos a pé. V’ambora andar! Não somos bípedes à toa. Foi a postura ereta, com a cabeça erguida, que alavancou há cerca de 6 milhões de anos a nossa evolução. 

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Conteúdo semanal assinado pelo Pro Coletivo, blog parceiro de conteúdo, especializado em assuntos da multimodalidade.

 

O fabuloso metrô russo, com seus palácios subterrâneos, nos mostra como o espaço público deve ser valorizado. Foto: David Burdeny.Foto: David Burdeny. O fabuloso metrô russo, com seus palácios subterrâneos, nos mostra como o espaço público deve ser valorizado. Foto: David Burdeny.Foto: David Burdeny.

Além de estimular a confraternização, a torcida e o entusiasmo coletivo, a última Copa do Mundo, na Rússia, em julho de 2018, nos ofereceu uma oportunidade ímpar de conhecer a sua cultura e seus valores. Especialmente por causa de seu foco em educação e seu investimento em políticas públicas de qualidade, caso do metrô.

Em julho, o trânsito dá uma trégua e a gente consegue curtir a cidade de São Paulo em outra sintonia: em um astral muito mais gostoso, amigável, saudável, gentil e prazeroso. As buzinas já não soam tão estridentes, as pessoas parecem mais gentis e as ruas ficam bonitas de ser ver – e caminhar –, com bem menos carros. A megalópole nervosa e que cospe fumaça se transforma em uma cidade para pessoas. Para gente que caminha a passos calmos, aprecia a lua no céu, passeia com os filhos e os cachorros e curte a cidade.

Mas por que será que a gente não pode ter essa cidade – agradável, mais humana e sustentável – todos os dias do ano? Essa trégua de julho pode nos instigar uma boa reflexão: por que manter o mesmo modelo se dá para fazer diferente?

Costumava brincar dizendo que essa turma que nasce em setembro – como eu - é fruto de um réveillon mais animado, quem sabe com um pouco mais de espumante na cabeça, clima de praia, um produção mais caprichada para as festas, lingeries e cuecas novas com as cores do amor, paz, paixão ou dinheiro, alto astral, promessas e... pimba! Se descuidou, tá feito o baby.

E se queria mesmo dar esse importante passo na vida, a noite de réveillon tem tudo pra ajudar. Mas como disse, costumava falar sobre isso em tom de brincadeira, até porque é mais provável que o encontro de taças – quase sempre em boas doses – só consigo efetivamente levantar o astral e gerar boas ressacas.

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