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King's Garden: um retiro popular no centro de Copenhague e visitado por cerca de 2,5 milhões de pessoas por ano. Foto: Visit Denmark. King's Garden: um retiro popular no centro de Copenhague e visitado por cerca de 2,5 milhões de pessoas por ano. Foto: Visit Denmark.

Os espaços públicos são pauta importante na discussão sobre o direito à cidade e também no cenário de incertezas desta pandemia. Este é um tema que está em alta mas que ainda precisa de um olhar ampliado por parte das gestões públicas, que muitas vezes não compreendem sua importância e complexidade na cena urbana.

Os números podem não ser tão precisos, mas mesmo assim as estimativas são assustadoras. Calcula-se que cerca de 4,5 trilhões de beatas (o que nós brasileiros chamamos de guimba ou bituca) são descartadas todos os anos ao redor do mundo. Destas, talvez dois terços não cheguem aos locais corretos de descarte. Ou seja, vão mesmo é para as ruas, as calçadas, chegam, de uma forma ou de outra, aos oceanos. O problema não é novo. Esse círculo vicioso é bem conhecido e tem gente tentando resolver, ou ao menos reduzir, o estrago em vários países.

Aqui em Portugal, basta uma boa caminhada para confirmar que estas estimativas não estão tão furadas. Há quem diga que são 7 mil guimbas lançadas para as ruas por minuto em todo o país. As pessoas fumam muito e não costumam se preocupar tanto com o destino final do toquinho de cigarro, apesar de diversas campanhas e de legislações recentes que punem o sujismundo. Desde meados do ano passado, há lei: quem jogar bituca na rua pode ser multado em até 250 euros e os estabelecimentos que não oferecem cinzeiros também são penalizados em até 1500 euros.

As pontas de cigarros são o resíduo que mais aparece nas praias e representam um dos principais problemas [de lixo] no sul da Europa. Foto: Diário de Notícias.As pontas de cigarros são o resíduo que mais aparece nas praias e representam um dos principais problemas [de lixo] no sul da Europa. Foto: Diário de Notícias.

É a Lei da Beata, que, a partir do meio deste ano, deverá pesar ainda mais no bolso dos infratores, com a decisão do governo de endurecer as penalizações para essa e outras infrações. Na prática, aquele arremesso de cigarrinho pela janela, que poderia custar no mínimo 50 euros, já vai passar para pelos menos 150 euros a partir de julho. Mas alguém é efetivamente multado? Bom, digamos que a “impunidade” ainda é grande (basta ver as ruas sujas), mas dados de outubro de 2020, quando a lei começou pra valer, mostram que foram aplicadas quase 50 multas, a maioria para pessoas que jogaram a beata no chão, enquanto um número menor foi para os estabelecimentos sem cinzeiros. Vale lembrar que foi um mês de confinamento, no qual as pessoas saíram menos às ruas.

Mas como ninguém para de fumar e a ideia de ser pego em flagrante parece não ser tão assustadora, algumas cidades estão lançando iniciativas para tentar deixar as ruas mais limpas. É o caso da freguesia de Campolide, em Lisboa, que acaba de anunciar a campanha “Campolide sem Beatas”, que irá distribuir cinzeiros de bolso para os fumantes. Fumou, está na rua e não quer procurar uma lixeira para arremessar sua bituca? Não tem problema. Saca o cinzeirinho do bolso e guarda seu lixinho até chegar em casa. Prático, não? O objetivo da campanha é chegar a uma “freguesia limpa, verde e sem beatas”. Na primeira fase serão 5 mil cinzeiros para a população. E o início da campanha nesta semana não é por acaso. Estamos justamente no início da terceira fase do desconfinamento, na qual as pessoas ganham mais liberdade para ir e vir, tomar um cafezinho nos bares e esplanadas, dar aquela caminhada mais livre. Aí, é claro, dá aquela vontade de abaixar a máscara, acender um cigarrinho e arremessar a guimba na calçada, né? Ah, essa liberdade de poder respirar o ar puro das ruas novamente... 

As pessoas fumam muito e não costumam se preocupar tanto com o destino final do toquinho de cigarro. Foto: SAPO. As pessoas fumam muito e não costumam se preocupar tanto com o destino final do toquinho de cigarro. Foto: SAPO.

A mesma freguesia já havia liderado iniciativas semelhantes em 2017, quando pôs nas suas ruas uma outra campanha, que oferecia cinzeiros de pé para as portas dos estabelecimentos comerciais. As peças estampavam a mensagem "Beata do meu coração, apaga-te aqui e nunca no chão!". Não tenho dados da efetividade, mas realmente me toca a forma amorosa como foi tratada a beata, que tão bem faz ao coração... 

Em Lagos, cidade na região do Algarve, mais ao sul de Portugal, também as guimbas, ou ao menos as que costumam ser jogadas na rua, começaram a ser enfrentadas. A câmara municipal lançou no fim do ano passado a campanha “Zero Beatas”, para alertar a população sobre o impacto negativo no ambiente. O mote da campanha é “Um segundo a chegar no chão, cinco anos a sair do mar”. Além de uma série de peças de comunicação, a cidade ganhou novos modelos de lixeira, principalmente no acesso às praias. Já foram instaladas mais de 300 estruturas para que ninguém tenha a desculpa de não achar onde jogar o fim do cigarro. O grande teste certamente acontece no próximo verão, daqui a alguns meses. A ver.

Outra cidade que segue por caminho semelhante é Paços de Ferreira, mais ao norte. A estratégia foi a mesma de Campolide e Lagos: muita comunicação, distribuição de cinzeiros de bolso e a instalação de “EcoPontas”, equipamentos especialmente desenvolvidos para o descarte das beatas.

Ecopontas: contribuem para a redução de chicletes e pontas de cigarro atiradas no chão, dois dos resíduos mais encontrados nas praças e ruas da cidade. Foto: Público. Ecopontas: contribuem para a redução de chicletes e pontas de cigarro atiradas no chão, dois dos resíduos mais encontrados nas praças e ruas da cidade. Foto: Público.

Ações como essas se repetem em outras freguesias, outros concelhos, mas o hábito de fumar ainda é muito presente aqui em Portugal. Há uma série de restrições impostas pela legislação, é verdade, mas também algumas exceções ou situações especiais (como um sistema de exaustão eficiente em ambientes fechados como bares e restaurantes) que acabam abrindo brechas para que o fumo seja aceito. Esta semana, porém, foi criada uma petição pública que pede que seja proibido fumar em espaços públicos ao ar livre, principalmente praias, esplanadas, pontos de ônibus (ou paragens de autocarro, como se diz por aqui). Se vai para frente, é difícil saber. Até porque, nem preciso dizer, a pressão das grandes indústrias de tabaco é grande por aqui também. Aliás, preciso dizer que algumas dessas campanhas de distribuição de cinzeiros de bolso tem o patrocínio da indústria?

Mas cá entre nós, no meio de uma pandemia que ataca principalmente as vias respiratórias, não seria um bom momento para largar o cigarro? Imagino que seja difícil, mesmo para quem quer. Podemos só combinar uma coisa? Jogue a bituca no lixo!

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O historiador inglês Ben Wilson, autor de 'Metropolis – A history of the city, humankind´s greatest invention', lançado em 2020, (ainda sem data de lançamento no  Brasil). Foto: Divulgação.O historiador inglês Ben Wilson, autor de 'Metropolis – A history of the city, humankind´s greatest invention', lançado em 2020, (ainda sem data de lançamento no  Brasil). Foto: Divulgação.

Como contar a história das cidades? Por que contar a história das cidades? O fato de ser considerada por muitos a “maior invenção do homem” parece ser razão suficiente para que se torne objeto de análise. O fato de morarmos majoritariamente em cidades também. Mas há mais que isso, a história das cidades é um ponto de vista para entender a história do mundo e o nosso lugar nesse mundo. Se for contada de uma maneira agradável e interessante por quem as ama, mais ainda. É o caso de Metropolis.

Espaços públicos da capital dinamarquesa ajudam a entender a maneira particular de encarar a vida. Foto: Getty Images.Espaços públicos da capital dinamarquesa ajudam a entender a maneira particular de encarar a vida. Foto: Getty Images.

Uma cidade com alto índice de qualidade de vida e felicidade dos habitantes. Espaços públicos estruturados a 15 minutos de distância de qualquer cidadão, mais de 125 playground abertos para as crianças, ciclovias conectando toda a cidade, piscinas públicas, uma usina de queima de resíduos, gera energia e tem uma pista de esqui em cima, geração de energia eólica, alimentação orgânica. Não é História dos irmãos Grimm, é Copenhagen.

Não basta recolher e reciclar: é preciso não deixar que os resíduos sejam gerados e cheguem aos mares. Foto: Getty Images.Não basta recolher e reciclar: é preciso não deixar que os resíduos sejam gerados e cheguem aos mares. Foto: Getty Images.

Os números não são tão precisos, mas estima-se que todos os anos os oceanos recebem até 12 milhões de toneladas de resíduos plásticos. E o pior é que aquele monte de plástico que vemos flutuando no mar ou emporcalhando as praias – e que tanto nos impressiona - representa apenas 6% desta montanha de lixo. O resto, infelizmente, já está no fundo dos oceanos.

Aqui em Portugal, a Associação Portuguesa do Lixo Marinho tem sido uma voz ativa neste tema e reconhece que só retirar o lixo do mar e das praias, apesar de ser tarefa fundamental, não resolve o problema. Sempre chega mais lixo do que o que é recolhido. Aliás, a pandemia tem “ajudado” muito a piorar esse cenário, com a profusão de máscaras e luvas, principalmente, descartadas de forma completamente irresponsável nas ruas. Ou seja, não basta recolher e reciclar: é preciso não deixar que os resíduos sejam gerados e cheguem aos mares. A tarefa não é fácil, mas há poucas semanas a Assembleia da República emitiu uma recomendação ao governo português para a implementação de ações que promovam a redução e erradicação de resíduos no meio marinho. A meta é ter, até o final de 2023, um plano de ação nacional e multissetorial já implementado com este objetivo.

Participantes da APLM na limpeza na Praia de Albarquel, Setúbal. Foto: Divulgação.Participantes da APLM na limpeza na Praia de Albarquel, Setúbal. Foto: Divulgação.Um projeto que também quer alterar esse quadro é o Maelstrom, liderado pelo Instituto de Ciências Marinhas do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália e que tem, em Portugal, parceria com o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR). A proposta é encontrar, ao longo dos próximos quatro anos, estratégias para reduzir o impacto do lixo marinho nos ecossistemas costeiros. Com o uso de tecnologias inovadoras e ambientalmente sustentáveis, os pesquisadores querem identificar pontos críticos de acumulação de lixo marinho e removê-los da costa. Também vão atuar nas águas dos rios para evitar que elas sejam uma “rota” que leve o lixo para o mar. Inicialmente, o foco será nas grandes áreas costeiras das cidades de Veneza e do Porto.

O projeto Maestrom vai dedicar-se, ao longo dos próximos quatro anos, a encontrar estratégias para reduzir os impactos do lixo marinho nos ecossistemas costeiros. Foto: Reprodução.O projeto Maestrom vai dedicar-se, ao longo dos próximos quatro anos, a encontrar estratégias para reduzir os impactos do lixo marinho nos ecossistemas costeiros. Foto: Reprodução.

Nestes dois pontos focais, o Projeto Maelstrom vai avaliar duas novas tecnologias – uma barreira de bolhas de ar e uma grande plataforma robótica -, que poderão depois ser aplicadas em maior escala e em outras regiões. O escopo do projeto vai além da remoção dos resíduos e prevê também a reciclagem de todo o material recolhido. Apesar de parte dele poder voltar a ser matéria-prima para a indústria, a maior inovação está associada a um protótipo de transformação dos resíduos em energia e combustível limpos que serão usados justamente no processo de coleta do lixo. Ou seja, fecha-se um círculo com o projeto se retroalimentando. É a economia circular.

Outro destaque em relação aos oceanos foi o recente prêmio recebido por pesquisadores portugueses na Web Summit, a maior conferência europeia de tecnologia e empreendedorismo. O projeto Smart, que concorreu com iniciativas de outros 13 países, vai utilizar Inteligência Artificial (AI) para construir modelos de previsão e simulação da acumulação de plástico no oceano, a partir de dados coletados por satélite.

Web Summit premiou projeto de combate ao plástico nos oceanos. Imagem: Divulgação.Web Summit premiou projeto de combate ao plástico nos oceanos. Imagem: Divulgação.

Portugal, aliás, é um dos 14 países signatários do Painel de Alto Nível para uma Economia Sustentável do Oceano (Painel do Oceano), criado em 2018 com o apoio das Nações Unidas. Em um recente manifesto, esse grupo se comprometeu a “agir e gerir de forma sustentável 100% da área oceânica sob jurisdição nacional, orientada por planos oceânicos sustentáveis, até 2025". Os países também pedem que outras nações costeiras se juntem a este esforço para garantir que até 2030 todas as áreas oceânicas sejam geridas de forma sustentável.

Todos esses movimentos não acontecem de forma isolada e fazem parte de um esforço concentrado global. No próximo dia 21 de abril, por exemplo, as Nações Unidas irão divulgar a Segunda Avaliação Mundial dos Oceanos (WOA II), uma avaliação integrada do ambiente marinho, considerando aspectos ambientais, sociais e econômicos. É o mais recente estudo, em nível global, baseado nos três pilares do desenvolvimento sustentável. A primeira avaliação (WOA I) foi apresentada no final de 2015 e serviu como base para este segundo estudo.

Na praia do Furadouro, o movimento “Fura100plástico” organizou pelas redes sociais ações de voluntários “catadores” de lixo nas praias. Foto: The Blue Therapy.Na praia do Furadouro, o movimento “Fura100plástico” organizou pelas redes sociais ações de voluntários “catadores” de lixo nas praias. Foto: The Blue Therapy.

E para quem acha que esse grande desafio de despoluir os oceanos é responsabilidade exclusiva dos governos, da academia ou das grandes corporações, deixo aqui também o exemplo de um pequeno grupo da “minha” praia do Furadouro, o movimento “Fura100plástico”, que em pouquíssimo tempo já organizou pelas redes sociais ações de voluntários “catadores” de lixo nas praias e conquistaram centenas de seguidores. E certamente não é um exemplo isolado. Ah, você não mora perto do mar? Bom, se fizer o descarte correto dos plásticos já ajuda muito!


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Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.

Bastante comum em países da Europa, esse tipo de turismo começa a se tornar mais conhecido no Brasil. Foto: Divulgação.Bastante comum em países da Europa, esse tipo de turismo começa a se tornar mais conhecido no Brasil. Foto: Divulgação.

Além de econômico e pouco poluente, o turismo fluvial é uma maneira deliciosa esurpreendente de mergulhar em destinos naturais, como a floresta amazônica

Nos cruzeiros fluviais é possível conhecer lugares praticamente recônditos, escondidos, em que só é possível chegar de barco. E de uma forma relaxante e confortável, enquanto seobserva tranquilamente a mansidão do rio e o desfile de belezas ao navegar.

Bastante comum em países da Europa, esse tipo de turismo começa a se tornar mais conhecido no Brasil, país que reúne as maiores bacias hidrográficas do planeta, como a do Rio Amazonas, considerado omaior e mais volumoso rio do mundo, com cerca de sete mil quilômetros de extensão e maisde mil afluentes.

O município de Novo Airão, localizado a 200 km de Manaus, é o ponto de partida para explorar toda a extensão do Alto Rio Negro. Foto: Divulgação.O município de Novo Airão, localizado a 200 km de Manaus, é o ponto de partida para explorar toda a extensão do Alto Rio Negro. Foto: Divulgação.

Com uma mobilidade muito mais sustentável e econômica do que o transporte rodoviário, porexemplo, o turismo fluvial proporciona, a cada curva do rio, a experiência de conhecervilarejos e comunidades ribeirinhas, vivenciar de perto a natureza e aproveitar uma viagempraticamente ao ar livre, de cara para o sol – ponto importante nesse período de pandemia.

Além disso, o turismo com base na água, quando bem estruturado, leva à compreensão do valor desse bem e da importância de proteger os ecossistemas, assim como as comunidadesno seu entorno, que conhecem meios de subsistência mais sustentáveis​.O município de Novo Airão, localizado a 200 km de Manaus, é o ponto de partida para explorar toda a extensão do Alto Rio Negro, seja em expedições mensais regulares de três a sete noites,ou em roteiros customizados disponíveis o ano todo.

A Katerre conta com duas embarcações, Jacaré-açu e Jacaré-tinga, que, feitas em madeira de lei e com acabamentos em tecidos de fibras naturais. Foto: Divulgação.A Katerre conta com duas embarcações, Jacaré-açu e Jacaré-tinga, que, feitas em madeira de lei e com acabamentos em tecidos de fibras naturais. Foto: Divulgação.

 As viagens fluviais são organizadas pela Expedição Katerre, que nasceu em 2004 com o objetivo de criar experiências de ecoturismo em comunhão com as comunidades do Rio Negro.O roteiro inclui observações diurnas e noturnas de animais – entre focagem de jacarés,macacos, preguiças, araras e outras espécies da região –, banhos de cachoeira, paradas na Reserva do Madadá, onde é possível percorrer uma trilha pela mata até alcançar um incrível conjunto de grutas, e a possibilidade de pernoitar em um mirante, com vista para a floresta,ouvindo os sons noturnos.
JacareAcu026 640x426JacareAcu026 640x426A Katerre conta com duas embarcações, Jacaré-açu e Jacaré-tinga, que, feitas em madeira de lei e com acabamentos em tecidos de fibras naturais, não destoam do genuíno cenárioamazônico. A conexão com a natureza é profunda e feita através das águas, enquanto seobserva pássaros, botos e vilarejos ao longo do passeio. A Katerre não tem conexão deinternet, o que ajuda a tornar essa viagem ainda mais exclusiva e inesquecível.

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Artigo assinado pelo Pro Coletivo, blog parceiro de conteúdo, especializado em assuntos da multimodalidade.