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O que dizer de novo a respeito de uma peça teatral em cartaz há mais de 30 anos; qual a fórmula do seu sucesso e a razão da longevidade alcançada e muito bem sucedida?

Neste Carnaval nada de folia, e não foi por falta de opções. Além do Sambódromo, com os seus desfiles previsíveis, os blocos se consolidaram como alternativas diversas para quem quis participar da festa de Momo, em São Paulo, de forma mais livre e democrática.

Falta pouco para o Carnaval, essa festa pagã que acontece ano sim e o outro também, e que todos, por diferentes razões, aguardam ansiosamente, assim que o dia primeiro de janeiro amanhece.

Fiquei uma semana em João Pessoa sem mergulhar nas águas verdejantes de suas praias, mas desfrutei de alguns sabores gastronômicos da capital da Paraíba, oferecidos pelos restaurantes Mangai, Seu Portuga e Dona Branca. Além disso, fui bem recebido por amigo de longa data e por gente bacana que conheci nesse breve refúgio.

O grafite está associado à imagem de qualquer metrópole ocidental, ocupando importante lugar na cultura contemporânea. E embora sua história seja mais frequentemente contada a partir do cenário norte-americano do final dos anos 60, sua essência remonta à Antiguidade.

Pintura rupestre em caverna de Lascaux no sudoeste França. Imagem: Reprodução.Pintura rupestre em caverna de Lascaux no sudoeste França. Imagem: Reprodução.A palavra 'grafite' tem origem na palavra italiana graffiti (plural de graffito), que por sua vez vem de graffiare, que significa gravar, arranhar. O termo, que ao longo do tempo adquiriu outras dimensões, nasceu para designar desenhos e escrituras feitos com arranhões ou pigmentos sobre muros e paredes. Para alguns estudiosos, o grafite teria surgido ainda no período Paleolítico, nas paredes de cavernas como Lascaux (França) e Altamira (Espanha); outros creditam sua origem à Grécia e à Roma Antiga, em cujos edifícios os moradores rabiscavam seus nomes (e também xingamentos, declarações de amor, palavras e figuras obcenas etc.). Independentemente da precisão cronológica, é fato que, desde o Homem de Cro-Magnon, passando por gregos, romanos, vikings e 'manos', o grafite vem relatando caças, guerras e invasões, propagando aventuras sexuais, demarcando territórios, difundindo religiões e disseminando prosa, protestos e poesias por todo o mundo.

A partir do final da década de 60, com os muros de Paris convertidos em suporte para expressões poético-políticas, e os trens da Filadélfia em suporte para artistas em busca de novas linguagens, o grafite foi ampliando sua presença na paisagem urbana e consolidando seu papel protagonista na cultura pop. Menos de uma década depois, grafiteiros como Keith Haring e Jean-Michel Basquiat saíam dos trens e ruas de Nova Iorque para entrar em galerias – e o que até então era uma atitude política e, em diferentes medidas, transgressora, adquiria dimensão artística.* 

Desenho de Keith Haring (1958-1990) em Nova York nos anos 80. Foto: Reprodução.Desenho de Keith Haring (1958-1990) em Nova York nos anos 80. Foto: Reprodução.Mais ou menos na mesma época, e desafiando as restrições impostas pelo governo militar, Alex Vallauri – talentoso designer, pintor, gravador e desenhista etíope radicado em São Paulo – imprimia sua ironia e sua crítica pelos muros de nossa cidade, fazendo de telefones, botas pretas e frangos assados importantes aliados contra a ditadura. (Triste similaridade, os três artistas morreram precocemente: Haring aos 32, Basquiat aos 27 e Vallauri aos 37 anos). 

Rainha do Frango Assado, grafite de Alex Vallauri na década de 1980. Foto: Acervo Estadão.Rainha do Frango Assado, grafite de Alex Vallauri na década de 1980. Foto: Acervo Estadão.
Amanhã, 25 de janeiro, o CCBB inaugura em São Paulo uma grande exposição com cerca de 80 trabalhos de Basquiat (Jean-Michel Basquiat da Coleção Mugrabi). O conjunto, pertencente ao acervo particular de um colecionador norte-americano, foi produzido a partir de 1979, quando o artista abandonou os grafites. São pinturas, desenhos, gravuras e cerâmicas que revelam uma obra sofisticada, colorida, vibrante e repleta de referências autobiográficas, em que formas humanas, citações literárias, símbolos químicos e elementos musicais traduzem um universo interno complexo, erudito e irreverente.

E embora produzida há mais de 30 anos, em outro contexto e outra cultura, a obra de Basquiat nos chega de maneira próxima, quase afetiva e familiar, pois nela podemos identificar a mesma linguagem pop e transgressora ainda hoje presente em muitos muros de nossa cidade.

* Aqui talvez caibam algumas considerações: a discussão sobre o valor artístico do grafite persiste até hoje, assim como persistem divergências sobre o que sejam grafite, pixação e muralismo, inclusive entre estudiosos e acadêmicos. Pessoalmente, entendo que o grafite, por definição, carrega essa atitude política e transgressora, podendo ou não adquirir dimensão artística. Em outras palavras, toda obra de arte é também uma atitude política, mas nem toda atitude política é também obra de arte.

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas, produtora de conteúdo e redatora colaboradora do MaturityNow.