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A primeira música de Paulo Gusmão que ouvi, há cerca de cinco ou seis anos, foi 'A cidade enfeitiçada'. E foi tal meu encantamento – pelo título (tão inspirador!), pela composição e por seu arranjo – que imediatamente decidi buscar informações sobre o compositor (que até então eu desconhecia) para escrever algo sobre seu trabalho em meu blog SobreTodasAsCoisas.

O músico e compositor Paulo Gusmão de Mendonça. Foto: Divulgação.O músico e compositor Paulo Gusmão de Mendonça. Foto: Divulgação.Paulo Gusmão de Mendonça nasceu em São Paulo em 1956 e iniciou seus estudos em música aos 15 anos de idade. Além das disciplinas teóricas, como percepção musical, harmonia, arranjo e orquestração, estudou ainda violão, guitarra, piano, flauta e canto, tendo integrado o Coralusp – Coral da Universidade de São Paulo e depois o Coral da Aliança Francesa de São Paulo.  
Paulo Gusmão e Sutil Camerata no espetáculo A Cidade Enfeitiçada. Reprodução / Youtube.Paulo Gusmão e Sutil Camerata no espetáculo A Cidade Enfeitiçada. Reprodução / Youtube.

Com um trabalho voltado especialmente à composição instrumental, em 2009 lançou o CD 'A cidade enfeitiçada', que traz, além da música que tanto me encantou, outras tantas belíssimas, cujos nomes e melodias não são menos inspiradores: ‘Flor de outono’, ‘O brilho do vagalume’, ‘Sua silhueta sutil’… sem falar em ‘Romance em Vila Humaitá’, delicadamente desmembrada em 3 atos.

Ao todo, são 15 composições absolutamente cativantes – melodias e harmonias que chegam aos nossos ouvidos com leveza e suavidade, quase parecendo flutuar. Arranjos que estabelecem diálogos sutis entre sanfona, flauta, violão e outros instrumentos, criando uma atmosfera que transpira graça e delicadeza. Impossível parar de ouvir.

Antes desse trabalho, Paulo Gusmão já havia lançado outros dois CDs, que conheci posteriormente, e de maneira mais que especial: tendo lido o texto que acabei por publicar no meu blog, Paulo entrou em contato comigo por email, agradeceu pelas palavras e pediu meu endereço. Em poucos dias, 'Cenas da vida irreal', de 2000, e 'As quatro faces', de 2003, estavam em minhas mãos com um gentil cartão. Um gesto que revela a extrema elegância e a sofisticação que podemos ver também em toda sua obra. 

'A cidade enfeitiçada', como os outros dois trabalhos, são música instrumental brasileira e contemporânea de altíssima qualidade, que tocam o ouvido com doçura, a alma com beleza, e nos proporcionam imenso prazer.

Para conhecer e ouvir: http://www.paulogusmao.com.br/

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas e sócia do MaturityNow.  *Texto editado a partir do original publicado no blog SobreTodasAsCoisas.

No domingo 29/10, na tarde cinzenta de São Paulo, o térreo do IMS – Instituto Moreira Salles, o mais novo centro cultural da Avenida Paulista, recebeu no seu palco os intérpretes e os compositores da Comunidade Samba da Vela.

Há 17 anos, e hoje sob a liderança do Chapinha, um dos seus fundadores, o Samba da Vela encanta e se conecta com o público genuinamente, por meio de canções autênticas, de autoria de pessoas comuns, gente como a gente, que faz samba com o coração e nas letras dá voz às suas histórias de vida.

Fundada em 2000, a roda tem como objetivos devolver aos moradores do bairro a auto-estima por meio da música e revelar novos compositores da região. Outra de suas fortes características é a multiplicidade da faixa etária que frequenta o evento. O movimento ganhou uma proporção inimaginável em representatividade para a nova geração do samba. E a roda de samba tem um grande papel social: ajuda a comunidade com conselhos e até já tirou gente da criminalidade.

Como atração integrante do Projeto Estéticas das Periferias, coordenado há 7 anos pela Ação Educativa, foi muito bom ver o samba de raiz, cantado no gogó com muito vigor,  emocionar a plateia que cantou junto graças à distribuição do caderno com as letras de todas a músicas.

Em quase duas horas de show, foi maravilhoso ouvir músicas consagradas e, principalmente, escutar os compositores interpretando as suas obras-primas sob os olhares atentos do público. Ao redor do palco, os mais descolados sambaram o tempo todo, e alguns provavelmente voltaram para casa quase sem voz, mas com emoção alegre, sincera e vibrante.

E como diz uma das estrofes do samba que sempre fecha as apresentações: “Quando a vela se apagar e o samba terminar \ Saudade não me deixa ir embora \ Meu peito vazio implora \ Que uma luz me ilumine agora! \ Chora, chora \ A comunidade chora \ A comunidade chora”.

Sim, o choro sempre brota, mas logo passa porque todos sabem que na segunda-feira a vela se acenderá novamente com energia, cooperação, simplicidade, amor, e assim será para toda a eternidade. Salve a Comunidade Samba da Vela! Por aqui, fico. Até a próxima.

Serviço

Comunidade Samba da Vela
Quando: noites de segunda-feira.
Onde: Casa de Cultura de Santo Amaro.
Endereço: Praça Francisco Ferreira Lopes, 434, Santo Amaro, SP.

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Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Escreve às terças-feiras no São Paulo São.

Recém-inaugurado, espaço próximo ao Beco do Batman é comandado por Fernanda Valdívia. Foto: Divulgação.Recém-inaugurado, espaço próximo ao Beco do Batman é comandado por Fernanda Valdívia. Foto: Divulgação.Quando conheci Fernanda Valdívia, pelos idos de 2009, ela me mostrou um caderno de notas, com textos e desenhos relacionados com um projeto seu para uma rotisserie/padaria/ou-coisa-assim. Nem sempre compreensível, era o seu *Codex Sheraphinianus pessoal. 

Fernanda vem da boa linhagem de cozinheiros brasileiros cujo pai-fundador é Laurent Suaudeau. Trabalhou com ele por quatro anos; fez o giro obrigatório pela Espanha; abriu uma rotisserie-delicatessen virtual; implantou a Padoca do Mani (e criou ali seu brioche de fubá); construiu uma cozinha de produção em um sítio em São Roque; desenvolveu uma “padaria móvel” ao estilo food truck; especializou-se em atender eventos corporativos e, agora, estacionou. É um caso vivo dos versos de Antonio Machado:

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Fevald, como é chamada, faz a que considero a melhor massa folhada de São Paulo (certamente JB discordará…), um excelente palmier; um ótimo croissant que se pode comer também, na loja, sob a forma de sanduíche de picanha com tomate e mostarda Dijon. Faz boas terrines. Pães, etc.

Enfim, o seu Codex pessoal se materializou num lugar onde se pode ir, comer alguma coisa, um lanche, tomando o café Martins; levar para casa preparações artesanais elaboradas, como os pães, as geléias, as terrines e assim por diante. 

Como se trata deu um projeto com, no mínimo, 10 anos de maturação, não é uma coisa aventureira como boa parte das congêneres que pipocam aqui e ali. E teve tempo para planejar o investimento com recursos familiares, sem ter que alugar a alma a investidores "do mercado financeiro", também como sói acontecer...

Os produtos são feitos à mão, com paciência, habilidade e os melhores ingredientes. Foto: Divulgação.Os produtos são feitos à mão, com paciência, habilidade e os melhores ingredientes. Foto: Divulgação.

Seus produtos, sempre bem pensados, dialogam, inclusive, com aqueles mantras modernos - sustentável, orgânico, natural, diet - sem entrarem pelos desvios  daquilo que é clássico e imbatível por conta do apelo hipster que se respira hoje em São Paulo, como a prosa do capitalismo que bafeja a cozinha. Aliás, você nunca encontrará lá "o melhor brigadeiro" ou o "melhor pudim de leite condensado".

Sanduíche com croissant feito na casa. Foto: Felipe Rau / Estadão.Sanduíche com croissant feito na casa. Foto: Felipe Rau / Estadão.

Topa-se na Deli Garage com um respeito pelo tempo, pela cozinha francesa; com um empenho pessoal das mãos; enfim, tudo integrado naquele esforço humano universal para consolidar o que é bom, belo e agradável. 

Deli Garage. Imagem / Reprodução.Deli Garage. Imagem / Reprodução.

Serviço

Deli Garage
Rua Medeiros de Albuquerque, 431 - Vila Madalena
Fone: 11 3578-776.
Horário de funcionamento: 8h/20h. 
Página no Facebook.

*Nota: O Codex Seraphinianus é um livro escrito e ilustrado pelo artista italiano, arquiteto e designer industrial Luigi Serafini durante trinta meses, entre 1976 e 1978. O livro tem aproximadamente 360 ​​páginas (dependendo da edição), e parece ser uma enciclopédia visual de um mundo desconhecido, escrito em uma das suas línguas, um script alfabético absurdo.

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Carlos Alberto Dória, sociólogo e conselheiro do São Paulo São, tem vários livros publicados sobre sociologia da alimentação. Mantém e edita o blog e-BocaLivre.

A discussão sobre a “ração dos pobres” tem méritos indeléveis: colocou a nu a distinção conceitual entre comida e nutrição, a par da confusão que alguns setores da sociedade ainda fazem entre essas coisas, evidenciada pelo apoio acrítico da igreja católica ao programa da prefeitura e do cardeal arcebispo de São Paulo. Mostrou ainda como são frágeis os mecanismos de defesa do bem público, representado por uma dieta de qualidade que vem sendo perseguida há anos por setores da administração (saúde, educação) e setores organizados da sociedade (produtores "orgânicos", Ongs, etc). 

“Você acha que alguém pobre, humilde, miserável pode ter hábito alimentar? Se ele se alimentar tem que dizer graças a Deus”,disse, anos atrás, diante das câmeras de TV, o futuro prefeito da cidade. Talvez a igreja católica, ligada à origem do programa de distribuição da ração, tenha buscado justamente o “graças a Deus” que, sem alternativas, o pobre-humilde-miserável seria obrigado a dizer. Talvez na fantasia do cardeal Odilo Scherer, o produto seja uma versão paroquial do maná bíblico. Certamente o cardeal e seu alcaide contam, como aliado, com o caráter impositivo da fome que deixa sem escolha o pobre.

E por que essas confusões - nutricional/alimentar, teológica, etc - ocorreram? Seguramente por não se entender o processo de produção da vida e sua ligação com a alimentação e, nela, o papel que jogam as formas culturais que revestem os nutrientes. Vai longe o tempo em que a nutrição era um detalhe do discurso sobre a  alimentação, como a banana que tem vitamina. 

A produção da própria vida humana é o primeiro ato cultural ligado à alimentação. O simbolismo do domínio do fogo nos diz exatamente isso. Comer é produzir a si próprio, à família, e os meios de vida fundamentais para a sociedade, coisas que só podem ser concebidos nos marcos da cultura do grupo. Só muito mais tarde, sob a vigência do capitalismo, produz-se alimentos como mercadorias, portanto para terceiros, sendo a alienação, primariamente, a separação entre o produtor e seu produto. 

As mercadorias (que se desenvolvem como atendimento de necessidades humanas as mais variadas) logo assumem formas inéditas, descolando-se daquelas idéias primitivas de alimento ou comida. 

Foi no século XIX, por exemplo, que se inventaram as balas (candies) como pílulas de energia compostas exclusivamente de açúcar e administradas aos trabalhadores, que acreditava-se necessita-las. Mais tarde, no século XX, surgem os “complementos” ou “suplementos” alimentares, até se chegar em concepções mais elaboradas e utópicas - como a “comida dos astronautas”, dos esportistas, etc. A rigor, diante dessas últimas a nutrição liberta-se da forma “comida”, da cozinha, dos modos de cozinhar. O “nutritivo” separa-se do “alimentativo” numa alienação sem precedentes.

Farmácia de venda de ‘candies‘ em Nova York no século XIX. Foto: vintage / NYC.Farmácia de venda de ‘candies‘ em Nova York no século XIX. Foto: vintage / NYC.
Para uma sociedade onde as classes médias menos e menos sabem (ou precisam) cozinhar; onde vivem um processo crescente de dietificação da alimentação, compreende-se que as propostas como “ração para pobre” possam prosperar, pois, tal como outros produtos, trata-se da comida despida de gestos tidos como supérfluos do ponto de vista nutricional, ou da ótica que a sociedade administrada pela propaganda valoriza. E, nesse terreno, todo tipo de “comida sem cara de comida” se equivale.

O problema não é que existam coisas assim, mas que o poder público sinta-se suficientemente respaldado para tentar impor isso a uma parcela da sociedade (que, ainda, deverá dizer “graças a Deus”). Se advogamos a convivência entre vários regimes alimentares é preciso reconhecer que programas como esse da prefeitura nos mostram a fragilidade política das alternativas a ele. 

Embora a alimentação de qualidade para as crianças em idade escolar tenha avançado muito nos últimos anos, com articulação com produtores da agricultura orgânica, etc, o cuidado com as crianças não resistiu aos primeiros embates provocados pelo prefeito nutricionista-higienista, que sentiu-se confortável para cortar as dotações para esse propósito. Assim como o pobre sem alternativa, talvez ele imaginasse deixar as crianças sem alternativa, obrigando-as a darem “graças a Deus” ao seu maná.

Um aprendizado político deve nascer disso tudo: é preciso defender a comida de qualidade ali mesmo onde ela é “comida”, e não a nutrição concebida e desenvolvida em laboratórios e fábricas distantes. O próprio poder público está impregnado da palavra “nutrição” como designativo de organismos normativos, título de políticas públicas, etc. Compreende-se que esse fenômeno corresponde a uma reserva de mercado para os “profissionais da nutrição”, mas não a uma necessidade do público.

Para que a comida ocupe o centro da cena alimentar, é preciso que as comunidades escolares se envolvam na sua definição, na escolha de ingredientes sazonais, etc. A feira deve ser o maior aliado da escola -  assim como a agricultura orgânica com logística desenvolvida de modo a poder fazer entregas nas escolas e creches. 

Isso, por sua vez, só será possível com a completa substituição das compras centralizadas da merenda por compras descentralizadas para as unidades de consumo e supervisionadas pelos pais de alunos. Além disso, a centralização enseja corrupção; a descentralização, controle. 

Modos técnicos de fazer essa descentralização, atendendo a legislação vigente, existem e já foram experimentados, embora não tenham resistido aos lobbies que se alimentam  (ou se “nutrem”?) das compras centralizadas.

Um modelo democrático de sociedade exige sua especificação para o conjunto de práticas alimentares reguladas pelo Estado. Estamos longe, ainda, de tê-lo formulado com clareza, obtendo a adesão ampla, necessária para cerca-lo da segurança indispensável para que não seja tragado pelos interesses políticos passageiros.

Carmem Miranda na comédia musical ‘Entre a Loira e a Morena“ (1943) dirigida por Busby Berkeley. Imagem: Reprodução / Youtube.Carmem Miranda na comédia musical ‘Entre a Loira e a Morena“ (1943) dirigida por Busby Berkeley. Imagem: Reprodução / Youtube.
Yes, nós temos bananas - Braguinha e Alberto Ribeiro (1938).

Bananas pra dar e vender 
Banana menina tem vitamina 
Banana engorda e faz crescer

Vai para a França o café, pois é 
Para o Japão o algodão, pois não 
Pro mundo inteiro, homem ou mulher 
Bananas para quem quiser.

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Carlos Alberto Dória, sociólogo e conselheiro do São Paulo São, tem vários livros publicados sobre sociologia da alimentação. Mantém e edita o blog e-BocaLivre.

O musical enfoca as histórias e os grandes clássicos da bossa nova com elenco que inclui Fabi Bang, Myra Ruiz e Claudio Lins. Foto: Caio Gallucci / Divulgação.O musical enfoca as histórias e os grandes clássicos da bossa nova com elenco que inclui Fabi Bang, Myra Ruiz e Claudio Lins. Foto: Caio Gallucci / Divulgação.O gênero musical imortalizado pela voz e pelo rigor técnico de João Gilberto, com o seu famoso banquinho e violão, e que conquistou o mundo inteiro transformando “Garota de Ipanema” em uma das canções mais tocadas, está visitando a cidade de São Paulo.

Quem quiser conhecer um pouco das histórias e algumas de suas curiosidades, programe-se para assistir “Garota de Ipanema - O Musical da Bossa Nova”, em cartaz no Teatro Opus, do Shopping Villa Lobos. A peça tem narrações e imagens que representam toda a história da Bossa Nova e a sua importância para a nossa música. 

Entremeando as canções são contadas histórias desta turma de jovens da zona sul do Rio de Janeiro, que no final dos anos 50, juntou-se em apartamentos para poder cantar e tocar samba de um novo jeito; e com isso, acabaram criando um gênero musical que influenciou, e influencia, a música brasileira e dos outros países.

Entre atores-cantores e a banda, são 14 profissionais no palco. A cenografia e a iluminação são simples, funcionais, porque o que realmente importa são os sucessos e os fatos que sustentam a construção do espetáculo.

Em 90 minutos divididos em dois blocos distintos com intervalo de 15 minutos, semelhante ao que ocorre numa partida de futebol, a trupe de quatro marmanjos e de seis garotas alterna-se em papéis distintos para dar vida aos personagens conhecidos de quase todos os que estão na plateia, e cada um empresta a sua voz para as canções que mais se adéquam aos seus timbres e fôlegos.

No primeiro tempo, tudo é mais “pastel”, como demonstra o figurino predominantemente bege e branco. Na segunda etapa, com o samba apimentando o movimento que nasceu na Zona Sul carioca, tons quentes inundam as vestes, as vozes, e a atmosfera do espetáculo.

Se houvesse uma pista de dança, muito provavelmente seria possível resgatar os conhecidos bailinhos que fizeram sucesso nas décadas de 1970 a 1980, pelo menos para quem já passou dos 50 anos. Para a temporada em São Paulo, decidimos colocar a música à frente da ficção, como um musical show. Temos uma nova equipe criativa, mantendo a essência da bossa nova no espetáculo.”, conta a produtora Aniela Jordan.

Como entretenimento o musical funciona bem e atrai um público variado, desde a turma das antigas, que tem muitas vivências tendo o gênero como trilha sonora, até a juventude que não sabe, por exemplo, quem foi Tom Jobim, Vinicius de Morais, Nara Leão, apenas para citar alguns dos ícones Bossa-novistas.

Mergulhe nesse gênero musical genuinamente brasileiro que encantou os mais rigorosos intérpretes de diferentes países. Bossa Nova é Made in Brazil, e agora habita a nossa Sampa. Emocione-se enquanto é tempo. Por aqui, fico. Até a próxima!

Musical 'Garota de Ipanema' revê história e facetas da bossa nova. Foto: Caio Gallucci / Divulgação.Musical 'Garota de Ipanema' revê história e facetas da bossa nova. Foto: Caio Gallucci / Divulgação.

Serviço

Garota de Ipanema - O Musical da Bossa Nova
Texto: Rodrigo Faour e Sergio Módena.
Direção: Sergio Módena.
Direção musical: Delia Fischer.
Coreografia: Roberta Serrado.
Cenário: André Cortez.
Figurino: Kika Lopes.

Teatro Opus - Shopping Villa Lobos, Avenida das Nações Unidas, 4777, Alto de Pinheiros.
Duração: 90 minutos.
Classificação etária: Livre.
Em cartaz até 10 de dezembro de 2017.
Assista o medley do espetáculo Garota de Ipanema, o Musical da Bossa Nova.

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Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Escreve às terças-feiras no São Paulo São.

 Clarice Niskier em "A alma imoral" Foto: divulgação. Clarice Niskier em "A alma imoral" Foto: divulgação.“Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito. Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos. Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Esse olhar é o da alma.”

Assisti pela primeira vez à peça ‘A alma imoral’ em 2008, e desde então já a revi outras duas vezes. Nas três ocasiões, no entanto, pareceu-me  estar vendo o belíssimo e impactante monólogo pela primeira vez. A adaptação teatral elaborada e interpretada (de forma elegante e sensível) por Clarice Niskier a partir do livro homônimo do rabino Nilton Bonder traz inúmeras camadas de reflexões e de sentimentos, nos quais podemos prazerosamente nos aprofundar e nos perder inúmeras vezes, sempre alcançando novas descobertas.

Partindo do conceito de que, por sua própria essência, a alma humana é transgressora, o texto confunde, desconstrói e reconstrói visões milenares sobre o que sejam corpo e alma, certo e errado, obediência e desobediência, traidor e traído. Bonder coloca a tomada de consciência do ser humano sobre sua própria existência como a origem do corpo moral, que passa a ser o guardião dos costumes, da conformidade e da adaptação – o mantenedor das tradições do passado, que por meio delas colabora para a reprodução da espécie. Já a alma – que carrega em si a rebeldia e a capacidade da mutação – é aquela que possibilita pensamentos e condutas que rompem com essa moral estabelecida, colaborando assim para evolução dessa espécie. Para ele, é a tensão gerada por essas duas naturezas conflitantes e interdependentes, e o diálogo que se constrói entre essas forças – a conservadora e a transgressora – que permite ao homem transcender a si mesmo.

“Não há tradição sem traição. E não há traição sem tradição.” Basta olhar para a história da humanidade para constatarmos, nas mais diversas formas da expressão humana, a beleza e a verdade dessa afirmação: de Michelangelo a Picasso, de Beethoven a Stockhausen, de Isadora Duncan a Pina Bausch, de Brunelleschi a Frank Gehry, de Shakespeare a Guimarães Rosa… a evolução humana depende fundamentalmente de atos que, pela ótica dos costumes e da tradição, são vistos como traições. Mas verdadeira traição seria não dar voz a nossas almas transgressoras, pois são elas que nos permitem o prazer e a evolução em nossa existência.

Depois de uma brilhante carreira por todo Brasil, como um presente para nossa cidade a peça voltou a São Paulo e fica em cartaz no Teatro Eva Herz até o próximo dia 8 de dezembro. Talvez nos encontremos por lá!

Serviço

Sobre a peça: www.almaimoral.com
Texto: Adaptação de Clarice Niskier do livro “A Alma Imoral”, de Nilton Bonder
Ingressos: www.teatroevaherz.com.br/teatro/
Livro ‘A alma imoral’, Nilton Bonder, 1998, Ed. Rocco.
Quinta às 18h, Quinta e Sexta às 21h.
Local: Teatro Eva Herz - Último andar da livraria Cultura no Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 – Bela Vista – São Paulo.

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Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas e sócia do MaturityNow.  *Texto editado e atualizado, a partir do original publicado no blog SobreTodasAsCoisas.

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