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Tenho um postal guardado, pronto para uma moldura, com foto de um tempo que eu ainda não era gente, da mostra de Hildegard Rosental. A foto intitulada “O padeiro” foi clicada em 1940, na Avenida Angélica. Vê-se paralelepípedos molhados, a carroça do entregador de pães puxada por cavalo, o condutor com guarda-chuva, apenas dois carros negros nas ruas e o verde imperando por árvores, afinal era o que caracterizava as avenidas.

Jurema Paes. Guarde esse nome e libere os seus ouvidos para escutar as interpretações únicas dessa baiana, que reside em São Paulo e canta de tudo, com a mesma voz afinada e sensibilidade.

“(...) - Você que explora em profundidade e é capaz de interpretar os símbolos, saberia me dizer em que direção e qual desses futuros nos levam a ventos propícios?

- Não saberia traçar exatamente a rota, nem fixar a data da atracação ... a viagem é descontínua, você não deve crer que pode parar de procurá-la. 

Pode ser que enquanto falamos, ela esteja aflorando dentro dos confins do seu império. “ (Diálogo entre o Grande Khan e Marco Polo, em Cidades Invisíveis de Italo Calvino).

A estratégia é habilidade tão antiga quanto humana. Radicalmente relacionada à sobrevivência e ao exercício do poder, só passa a ser considerada central na gestão dos negócios, a partir dos anos 50. Nesse pós-guerra coube a empreendedores e executivos, inclusive com experiência militar, reconstruir boa parte do mundo. Uma cultura que valoriza o planejamento, a hierarquia e a busca de objetivos comuns. Os conceitos de missão e visão são legados dessa tradição. 

Hoje o campo de batalha transformou-se. Conectados globalmente por um fluxo de informações, temos uma percepção aguda de conflitos e interesses diversos em cenários que se desestabilizam rapidamente. Novas tecnologias obrigam organizações e profissionais a se reinventarem, sem um roteiro de como aproveitar competências já estabelecidas. 

A maior transformação está no comportamento de consumidores. Busca-se identidade e experiências que gerem significado na escolha e na fruição de bens e serviços. Este contexto representa um deslocamento de valores e hábitos. Exige ajustes, mas também proximidade e experimentação em toda a cadeia de produção e consumo.

Por sorte, nas organizações também se esgota o valor de uma jornada de trabalho repetitiva. Procura-se um sentido que conecte tarefas, desde como fazê-las ao impacto nos resultados, convocando a autoria de quem as realiza ou coordena. Essa aspiração por protagonismo está na raiz de uma inteligência ancorada no saber fazer, que cria organização, identificando oportunidades e diminuindo riscos. Essa abordagem, próxima de quem faz e das fronteiras com o ambiente, entende a estratégia como uma prática, que vai dos planos, às ações e seus resultados.

Na experiência de quem faz, pensar e agir estrategicamente são momentos entrelaçados no presente, determinando responsabilidades e ações. Assim, projetar o futuro deve ser um exercício que forma gestores e empreendedores, criando mecanismos de como chegar lá. Ao entender que todos são estrategistas em diferentes intensidades ou medidas, os atos de planejar e suas escolhas fazem parte de um processo que prepara a implantação do que está sendo projetado. 

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Bia Blandy estuda estratégia e se interessa por suas aplicações no dia a dia de pessoas e organizações. Já foi professora e diretora de escola. Hoje, dirige a Prática, Gestão e Estratégia. 

 

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Nova York publicado este mês na revista Psychological Science demonstrou que pessoas que se definem como de classe alta têm menor capacidade de prestar atenção em quem passa por elas na rua do que as mais pobres. Quer dizer: aquela impressão de que os mais ricos desviam o olhar quando cruzam com outras pessoas não é só impressão.

Num dia de arrumação (ou desarrumação) da casa, preparando uma nova mudança, agora de volta a São Paulo, na já rotineira separação de papéis antigos, abro uma gaveta quase nunca utilizada.

Quem circula pela Av. Paulista esquina com a Rua Augusta, quase sempre atende ao “convite” de entrar no Condomínio Conjunto Nacional (CCN). Mais do que um prédio imponente e bem conservado, pelas suas alamedas circulam mais de 40 mil pessoas por dia. São trabalhadores, residentes, curiosos, turistas ou apenas pessoas interessadas em cortar caminho para acessar a Rua Padre João Manoel ou a Alameda Santos.

O térreo do CCN é uma mistura: há estabelecimentos comerciais, o Cine Arte, e a Livraria Cultura; cafés, restaurantes, sorveterias; lojas de roupas, perfumarias, além de pipoqueiro, engraxate e uma gigante escultura de Dom Quixote. Temporariamente os seus corredores reúnem exposições artísticas.

No domingo passado prestigiei a abertura da mostra fotográfica “Respira SP – O feminino na cidade | 2016”, um trabalho maravilhoso da guerreira Valkiria Iacocca, e de sua trupe de profissionais e de parceiros os quais, mais uma vez, arregaçou as mangas para colocar de pé um projeto muito bacana.

Mais de 60 fotógrafos participaram desse trabalho, emprestando suas visões particulares sobre o universo feminino. O resultado está lá, para ser apreciado de perto, sem pressa, e com o olhar atento. Cada imagem é uma descoberta, que instiga e faz pensar como as energias femininas transitam nessa nossa Sampa tão diversa quanto surpreendente. Afinal, a responsabilidade de ser mulher nos dias atuais numa metrópole como São Paulo vai muito além do trabalho e da correria diária, pois antes de tudo a mulher é o ser que incorpora todas as qualidades associadas à feminilidade, como o acolhimento, a ternura, a intimidade, além do mito de ser mãe. E foi isso que pude contemplar.

‘Working‘ em foto de Ana Mateucci.‘Working‘ em foto de Ana Mateucci.

 

‘9h‘. Anna Muylaert por Tiago Prado.‘9h‘. Anna Muylaert por Tiago Prado.

 

‘Floating over my words‘ na foto de Viviane Pepice.‘Floating over my words‘ na foto de Viviane Pepice.

Entre os fotógrafos figuram Arza Rose Steinmetz, Eduardo Muylaert, Fernando Louza, Helô Mello e Mariana Seber. Entre as mulheres fotografadas estão Anna Muylaert, Luiza Trajano, Dagmar Garroux, Ana Paula Padrão, Teté Ribeiro e Estela Renner.

Nos dias que virão, quando você estiver circulando por aquela redondeza, anime-se e percorra em ritmo lento as imagens preparadas com talento, afeto e entrega por mulheres e homens com as suas câmeras nas mãos, para cutucar o lado feminino existente em cada um de nós.

Por aqui, fico. Até a próxima.

Serviço

Exposição Respira SP – O feminino na cidade | 2016.
Produção: Valkiria Iacocca e Mariana Seber.
Onde: Espaço Cultural Conjunto Nacional.
Endereço: Avenida Paulista, 2073 – Piso Térreo – São Paulo.
Exposição: De 30 de outubro a 22 de novembro de 2016.
Horário: De segunda a sábado das 9:00 às 22h / Domingos e feriados das 10h às 22h.


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Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas. Escreve toda semana para o São Paulo São.

 

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