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Já faz tempo que a energia do medo rege a vida do País. Medo de andar na rua, medo de sair de casa, medo de brincar, medo de sorrir, medo de se divertir, medo de pensar, medo de agir, medo de conviver, medo de abrir os olhos, medo de dizer não, medo de falar, medo de protestar, medo de apanhar, medo de gritar, medo de cantar, medo de namorar, medo de fazer amor, medo de dar uma flor, medo de aprender, medo de ir à escola, medo de pensar, medo de dizer a verdade, medo torcer, medo de celebrar um gol, medo de olhar em outras direções.

Sabemos que ter medo é da vida e há situações em que o medo, quando identificado e mensurado, nos protege e pode até nos mobilizar e nos fortalecer para enfrentá-lo adequadamente. Entretanto, o medo generalizado, se transformou em produto rapidamente incorporado com alarde pela grande mídia, principalmente a sensacionalista, que na ausência de criatividade inunda a programação, em destaque a jornalística, para criar um estado de pavor.

Apavorado e com o medo, os cidadãos se desesperam. Evitam sair de casa e desconfiam até do poste. Perdem a esperança, ficam paralisados, e deixam de nutrir sentimentos positivos e de enxergar muitas coisas boas que diariamente acontecem ao nosso redor.

Sem o medo industrializado, talvez tenhamos a possibilidade de nos conhecermos e nos olharmos com mais respeito, doçura e tolerância. Quiçá será mais fácil conviver e ocupar as ruas, as praças, os espaços públicos de forma plena. Valorizar o coletivo, o fazer juntos, a construção de pontes que integrem o centro e as periferias; que nos permita circular por todos os cantos da cidade, cumprimentar os vizinhos, o padeiro da esquina, a costureira da rua de baixo, e o dono da farmácia que há mais de 10 anos almoça no restaurante ao lado da casa lotérica, que pertence ao pai do melhor amigo do seu filho. Por aqui, fico. Até a próxima.

Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 

 

Uma das decisões mais radicais e irreversível na vida é a paternidade. Com efeito, todas as conversas a partir de então acabam se aproximando das peripécias e feitos dos filhos.

E, numa dessas conversas, uma amiga jornalista me disse que seu filho de cinco anos na volta da escola, chegou até ela e declarou:

- Mãe, eu já sei o que eu quero ser quando crescer.

- É mesmo? O que você quer ser?

- Eu quero ser dono.

- Quase desmoronei, mas, resolvi investigar:

- Você quer ser dono do que?

- Eu quero ser dono, não importa.

- Quero ser dono.

- Putz!, fiquei pensando sobre que motivos levaram meu filho de cinco anos a tomar essa decisão. Decisão que poderá mudar muitas vezes ao longo de sua vida, é claro. Porém, ainda que em sua inocência, uma decisão. Para mim é um desafio incrível tomar qualquer decisão. Há sempre tantas questões que sinceramente me dá uma preguiça enorme até mesmo de tentar. E, o que é pior, não raro, depois de algum tempo acabo enfrentando algum tipo de arrependimento ou frustração pelo fato de não ter feito algo que gostaria.

Não me contive:

- E aí? Você? Já decidiu o que quer ser?

Apesar de contrariada com a pergunta, ela respondeu:

- Eu!!!!?????

- Acho que quero ser dona! Hahahahahahahahahahahahaha!

- A é? Mas, dona do que?

- Dona da minha vida!

- Você está pronta para ser dona?

- Não sei.

- E se você soubesse? (continuei).

Muito mais contrariada ainda, indagou:

- Putz, ter uma maior capacidade de decisão sobre o que quero de fato, e seguir em frente sem ficar criando desculpas para não fazer?

- Não sei. O que você acha? (respondi).

E assim lancei nosso diálogo em um silêncio profundo.

Mas, por que decidir é tão desafiador?

Você sabia que em sua raiz etimológica a palavra decidir também significa cortar?

“lat. decīdo,is, cīdi,cīsum,ĕre 'cortar, separar cortando, despedaçar a golpes'...”(grande dicionário Houaiss).

Pois é, decidir é tão desafiador porque ao decidirmos por algo automaticamente cortamos todo o resto. E assim nos lançamos ao que é novo. E o novo sempre assusta.

De que forma então poderíamos estabelecer uma relação menos conflituosa com nossas decisões?

Podemos começar buscando respostas para algumas perguntas:

Essa decisão é importante para mim?

O que eu ganho se eu tomar essa decisão?

Quais os benefícios que esta decisão pode me trazer no futuro?

O que eu perco se eu não tomar essa decisão?

O que eu perco se eu tomar essa decisão?

De que maneira posso me movimentar para amenizar essas possíveis perdas?

E, finalmente, quem sabe, se, ao buscarmos as respostas para estas questões não estamos, também, nos preparando para ser donos.

Donos de nossas vidas.

Adi Leite é Life & Career Coaching certificado pela sociedade brasileira do coaching, fotógrafo e jornalista. Passa a escrever quinzenalmente no São Paulo São como colunista.

 


Fazia tempo que não ia ao teatro. No último sábado fui ver “A Mandrágora”, de Nicolau Maquiavel, numa saborosa montagem dirigida por Eduardo Tolentino de Araújo, do Grupo Tapa.

Maquiavel é autor da obra “O Príncipe”, de 1513, na qual ele sugeriu a frase “os fins justificam os meios”, sempre atual ainda mais em tempos de caça aos corruptos no Brasil e no mundo. Esse pano de fundo também está escancarado em toda a encenação que trata dos mecanismos que uma certa majestade aceita utilizar para tentar engravidar a sua esposa e, quem sabe com isso, gerar o tão sonhado herdeiro.

A temática e os diálogos dessa tragicomédia são tão atuais que parecem ter sido escritos nos dias de hoje. Mais uma comprovação de que as práticas de corrupção para diferentes finalidades remontam o início da formação das nossas sociedades, e pelo que temos constatado ainda demorará muito para as exterminarmos.

Os 90 minutos de espetáculo são uma deliciosa mistura de excelentes interpretações, ótimas sacadas de humor e uma direção segura que privilegia os talentos dos atores, com destaque para Guilherme Sant'Anna, vencedor do Prêmio Shell.

Um programa delicioso, a preços acessíveis, que sem perder a visão crítica, nos faz refletir com graça sobre nos mesmos. Em cartaz até 01 de novembro de 2015. Corra, antes de seja tarde. E não deixe de convidar os amigos. Por aqui, fico. Até a próxima.

Serviço

'A Mandrágara'
Realização: Grupo Tapa.
Quintas e sextas-feiras às 20h30.
Preços: R$ 30,00 inteira / R$ 15,00 meia.
Sábádos às 20h30 e domingos às 19h | R$ 40,00 inteira / R$ 20,00 meia.
Teatro Aliança Francesa - Rua General Jardim, 182 – Vila Buarque.
Informações:11 3017-5699 r. 5602 / 5608 / 5617.

Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 


Atravessamos 2015 como náufragos, chegamos a outubro como sobreviventes. Exaustos, viemos dar à praia com as roupas esfarrapadas, o corpo todo marcado pela inclemência da natureza. 

Neste ano sobrevivemos à inflação, ao desemprego, aos maiores juros da história, à interminável crise política, isso para não falar na violência, nas pequenas grandes tragédias (e o que é mais importante, sobrevivemos ao intenso bombardeios da mídia sobre  a inflação, o desemprego, a violência, etc...etc...).
 
A imprensa, modo geral, foi implacável conosco. O seu mau humor está quase no nível do mau humor profissional dos nossos humoristas . Nunca foi tão oportuna a frase do Fortuna (ou será do Millôr?): "Só dói quando eu rio". Só que invertida: "Só rio quando dói". 
 
Vítimas da crise, padecemos sofrimentos que fariam inveja a sadomasoquistas históricos como Fernão de Magalhães, Vasco da Gama (não o time, mas o navegador), Colombo, Bartolomeu Dias e tantos outros argonautas, para quem um naufrágio aqui, outro ali, eram rotina. Como eles, viramos o Cabo da Desesperança.
 
Carentes de vitamina C, fomos atacados pelo escorbuto apesar da publicidade recente do Targiflor C. Sofremos saques, transpiramos sobre o medo de um grande motim a bordo. Vivemos a cada momento o medo do mar tenebroso da recessão. 
 
Valeu a pena? Como dizia o mestre Fernando Pessoa (ou será a Florbela Espanca), tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Quem quer ir além do Bojador tem que passar além da dor. 
 
Náufragos, chegamos a esta praia ninguém sabe como, douramos nosso corpo ao sol deste pré-verão, tomamos algum álcool (de preferência Vodca Stolichnaya ou Johnnie Walker, rótulo preto), respondo assim o necessário equilíbrio de cereais no organismo debilitado. 
 
Depois, um pouco de sexo com aquela loira padrão avião que uma amiga trouxe à nossa horta, apesar do tempo seco. No final da tarde, dependendo das condições atmosféricas, poderemos inclusive voltar ao mar. 
 
Caravela? Caravela porra nenhuma. Liga pro Iate Club e manda o Cabral preparar o barco novo, aquele que eu comprei a semana passada e paguei meio milhão de dólares.
 
Eu quero conforto, cara, conforto!
 
Tão Gomes Pinto é jornalista e escritor. Atuou nos principais veículos da imprensa. 
 
 


O fotógrafo Pierre Verger se apaixonou pela Bahia. Entregou-se à cultura, à vida e ao povo de lá e soube, com sensibilidade, registrar diferentes expressões da sua gente.

Foi um francês que se identificou e interagiu com a atmosfera baiana. O seu olhar captou as essências do cotidiano, da religiosidade e dos jeitos de viver na terra do acarajé, da capoeira e da Lagoa do Abaeté.

A exposição em cartaz no Museu Afro Brasil traz um panorama mais abrangente. “Não é apenas uma exposição de obras de arte, é um evento que, através de fotografias, mas também de desenhos, objetos, músicas, vídeos e outros meios, pretende interagir com o público, principalmente o infanto-juvenil, com o objetivo de divertir, ensinar, e sensibilizar os jovens para a variedade de culturas, os diferentes povos do mundo”.

Visitar a mostra é um convite para conhecer cenas de impacto com a dramaticidade, as nuances e o rigor da técnica preto & branco. Vale a pena também prestar atenção nos tecidos criados por Goya Lopes, inspirados nas culturas africanas, sempre com cores vivas e desenhos inconfundíveis, os quais funcionam como cortinas de passagem entre os módulos temáticos e os seus distintos universos.

Programe-se até 30 de dezembro de 2015 para se encontrar com o aventureiro Pierre Verger, um cidadão inquieto que saiu de “Paris para a Polinésia Francesa à procura de novas imagens, novos climas, novas paisagens, novo tudo para um francês ávido em descobrir o mundo”. Por aqui, fico. Até a próxima.

Serviço
As Aventuras de Pierre Verger
Realização: Fundação Pierre Verger, Museu Afro Brasil, Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, Ministério da Cultura | Lei de Incentivo à Cultura
Apoio: Goya Lopes
Produção: Território Sirius Teatro

Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 

 


Nas residências de classe média alta não é raro encontrar um mesmo padrão de empregada doméstica: de origem nordestina, que mora no emprego em um quartinho apertado e, muitas vezes, exerce o papel de mãe, além de cozinhar, limpar, servir e passear com o cachorro.

É comum ser apresentada como “quase da família” desde que se mantenha “no seu lugar” e não arrisque nenhuma ousadia como, por exemplo, interpretar que pode usar o jogo de xícaras de café que achou lindo e presenteou a patroa e estreá-lo para oferecer essa bebida popular aos amigos da família na festa de aniversário dela, uma executiva de sucesso que mal conhece o filho, menino que cresceu e aprendeu o que é afeto na sincera interação com a doméstica.

Essa relação de casa-grande e senzala que se sustenta há gerações na nossa sociedade, é o mote escolhido por Anna Muylaert em “Que horas ela volta?”, seu mais recente filme em cartaz para quem quiser prestigiar uma bela narrativa do cinema nacional.

Com interpretações primorosas de Regina Casé, na pele da Val, a doméstica baiana, e Camila Márdila, a Jéssica, filha que não vê há muito tempo e que decide romper o ciclo de repetição de nordestinos que vem para São Paulo como mão-de-obra barata em troca de um salário mínimo, casa, comida e uma dedicação de 24 horas por dia, a fita retrata com delicadeza, humor e drama, as contradições, abusos e conflitos nessas relações ainda comuns nos dias de hoje.

Bacana é que a diretora decidiu mostrar que essa realidade pode se transformar, na medida em que o acesso à informação e a diferentes conhecimentos encontram-se praticamente universalizados, permitindo que jovens de qualquer região do País tenham oportunidades diferentes das dos seus pais.

Nesse sentido, Jéssica representa a possibilidade de novas perspectivas. Vem para Sampa prestar vestibular de arquitetura, e com segurança e personalidade firme invade a residência dos patrões da mãe, ocupa todos os espaços, não se deixar abalar, desperta paixões, inveja e até menosprezo. No final supera todas as tentativas da patroa de mantê-la “no seu devido lugar”. E mais: suscita na mãe, Val, a coragem para romper com o ciclo de submissão.

Em “Que horas ela volta?”, a senzala enfrenta os obstáculos impostos pela casa-grande e quebra paradigmas seculares. Não deixe de ver o filme e de refletir sobre as silenciosas transformações que estão sendo protagonizadas por milhares de brasileiros aqui e agora. Até a próxima.

Leno F.Silva é diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

 

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