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Por Marina Bueno Cardoso

Sendo eu filha de psiquiatra, aprendi com meu pai, desde pequena, que a loucura faz parte de todos nós. Ainda garota, fui ensinada a atender o telefone e, quando fosse paciente, perguntar nome, anotar o número que era para ligar de volta e perguntar se era urgente. Menina, ainda, convivia com ligações sinistras com voz embargada, gente chorando, perguntando se ele demoraria muito para chegar. Pessoas que não estavam bem e precisavam ouvi-lo. Alguns deles já me chamavam pelo nome, tal a intimidade que mantínhamos, e eu, às vezes, chegava a falar “não chore, ele vai te ligar”.


Naquela época – estou falando de 70, 75 anos atrás – na classe média paulistana ninguém tinha vergonha ou medo de ser xingado de “elite branca”, frase contemporânea criada pelo Claudio Lembo. Ninguém se envergonhava de ser classe média. Muito menos se sentia culpado por isso.  
 

No nosso caso, moramos durante alguns meses numa pensão na praça Marechal Deodoro. Sinal de que, na área das finanças as coisas não iam lá grande coisa. Mas outro dia eu falo dessa questão. Era também a comprovação de que éramos da classe média. 

Meus pais, ambos funcionários públicos. Ele do Banco do Brasil, ficou lá 30 anos. Faleceu 15 dias depois de aposentar-se. Detestava o banco. Ironizava o telegrama que recebeu de tio Álvaro ao saber que ele passara no concurso: “Parabéns. Você começa onde muitos acabam”.

Seu sonho, jamais realizado: ficar rico. De qualquer modo, ser do Banco do Brasil, era profissão de algum conceito. Quase como ser diplomata.

Minha mãe podia exibir com certa vaidade os seus diplomas de “aperfeiçoamento pedágogico” e o da sua nomeação como Inspetora Federal do Ensino Secundário, devidamente assinada por Gustavo Capanema, Ministro da Educação do ditador Getúlio Vargas, hoje considerado um líder progressista. Ou seja, éramos família classe média típica. Jamais nos enquadraríamos na tal elite branca do professor Lembo.

E como boa parte da classe média paulistana, usávamos passar os fins de semana prolongados no litoral, mais exatamente em Santos, a praia de São Paulo naqueles tempos em que as maravilhas de Maresias, Ilha Bela e outras, ainda não estavam ao alcance seja financeiro, seja rodoviário, da nossa classe. No máximo, chegávamos até o Boqueirão da Praia Grande.

Nos feriadões ou nas férias de verão Santos e a vizinha São Vicente nos acolhiam com uma sucessão interminável de pensões ao longo da orla, em especial nos trechos do Gonzaga ou Zé Menino. As "pousadas", hoje em voga, ainda não tinham sido inventadas 

Tomávamos o ônibus da Viação Cometa, com terminal próprio na esquina da Ipiranga com a Rio Branco. Havia outra empresa, o Expresso Brasileiro, mas essa nós nunca usávamos. Os onibus do Brasileiro iam em direção da Ponta da Praia. Os da Cometa saiam pela direita, direção São Vicente, onde ficava a famosa “Biquinha”.

Foi ali que aconteceu o episódio. Estávamos hospedados os três – papai, mamãe e eu, filho único – numa pensão que não deve ter sido do agrado dos meus pais.Decidimos trocar de pensão. 

Comunicamos à dona da casa que, à tarde, nos mudaríamos. Meu pai, entre outras justificativas pode ter feito qualquer referência à “Biquinha” de São Vicente. Se aconteceu, cometeu um erro gravíssimo.


Aliás, ter ido ao litoral naquele fim de semana talvez não tenha sido uma boa idéia. Eu estava com tosse. Nada muito grave, mas que se tornou mais insistente na descida da Serra. Mamãe logo diagnosticou: é coqueluche (a popular tosse comprida)

Enfim, juntamos nossas coisas, chamamos um táxi. Toca pra São Vicente, rua tal, pensão tal. Havia vagas. Minha mãe telefonara antes.

Chegando no local, topamos com um grupo de mulheres no portão. Minha mãe desceu. Uma das mulheres avançou e foi logo dizendo: “vocês não podem ficar aqui”. Um murmúrio de aprovação das outras mulheres. Minha mãe: “Não podemos por que? “. A líder do grupo: “Seu filho está com coqueluche e nós temos crianças hospedadas”. Minha mãe ainda tentou argumentar, mas meu pai interveio.

- Wega, vamos embora. Tem outras pensões aqui perto… Era óbvio que as duas donas de pensão eram conhecidas. A que nós deixamos telefonara avisando que estávamos a caminho.

Resumo da ópera: fomos em mais três pensões ali perto da “Biquinha”. Em todas, a mesma recepção (sempre um grupo de mulheres de cara fechada) e a mesma argumentação. 

Eu já nem descia do taxi com medo de dar uma tussidinha na frente daquela mulherada. Parece até que a dona da nossa antiga pensão e  avisara São Vicente inteira. 

Quem sabe contratou um serviço de alto falantes para ficar berrando nas ruas, alertando contra a chegada de uma epidemia de coqueluche na cidade e os riscos terríveis que isso traria à população?

Meu pai, pragmático, ordenou ao taxista: “Toca pro Embaré (outro trecho da praia, oposto a São Vicente). Lá talvez a gente consiga uma vaga“. Àquela altura eu, afundado no banco de trás, nem tussia, nem mugia. Mas  sentia um gosto amargo, misturado com vergonha. Eu sentia na carne o que é ser discriminado.

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Tão Gomes Pinto é jornalista e escritor. Atuou nos principais veículos da imprensa. 

 


Nesta segunda, a Comunidade Samba da Vela celebrou 16 anos de vida. Apesar do frio, a Casa de Cultura de Santo Amaro recebeu de braços abertos, uma multidão que foi prestigiar a festa de aniversário de uma das mais importantes iniciativas de valorização do samba de São Paulo.

Para abrigar um número maior de pessoas o palco foi montado no quintal, e as cadeiras formaram o círculo tradicional. Quando a vela acendeu, num ritual conhecido pela maioria dos presentes, todos soltaram as vozes para cantar a música que sabem de cor.

Como nesses 16 anos de raça e de determinação muitos compositores foram revelados, vários deles tiveram a chance de interpretar as suas canções, incluindo o mestre Osvaldinho da Cuíca.

Embora o Chapinha seja o grande maestro dessa turma, o Samba da Vela é, verdadeiramente, realizado por dezenas de pessoas maravilhosas da comunidade, as quais, todas as segundas-feiras, fazem acontecer essa imperdível roda de Bambas.

E para fechar é sempre bom lembrar, como dizia o nosso Pakuera, eterno presidente: “Que a divina luz ilumine todas as nossas criações”. Salve a Comunidade Samba da Vela! Por aqui, fico. Até a próxima.

Conheça a Comunidade.

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Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.
 


Por Leno Silva.

Presenciei no sábado uma cena triste em um coletivo biarticulado que seguia em direção ao Terminal Santo Amaro.

Mesmo equipado com direção hidráulica, não deve ser muito simples conduzir o ônibus com 27 metros de comprimento e, principalmente, fazer manobras rápidas.

Um casal deu sinal para descer depois que o veículo cruzou a Rua Joaquim Nabuco, no Brooklin, mas demorou a se dirigir à porta traseira, e nesse breve intervalo, o motorista fez uma curva para ultrapassar outro coletivo. Ao perceber que o ônibus se distanciava, o jovem gritou, mas o condutor não ouviu, e só parou no ponto seguinte.

Ao descer do “Busão”, o marido, mesmo alertado pela esposa para “deixar para lá”, foi tirar satisfação com o motorista. Bateu no vidro; o insultou e esbravejou.

Eu já havia me distanciado quando ouvi gritos, e a constatação de que ambos estavam brigando. Pelo que pude perceber à distância, tudo aconteceu muito rápido, porque logo avistei o coletivo seguindo a viagem.

Naquela fração de segundos, o estado de ira que aflorou poderia ter provocado uma tragédia, resultado da intolerância e da falta de compreensão diante de um fato que, a meu ver, merecia compreensão, visto que durante todo o trajeto a condução do motorista era correta.

Tomara que os marmanjos, os quais foram incapazes de controlar as suas raivas, tenham aprendido algo de positivo com o episódio deprimente que colocou em risco a vida dos dois e de outras pessoas que ali estavam.

Quiçá um dia, ao invés de agressões verbais e físicas, sejamos capazes de exercitar o diálogo e a comunicação não violenta para resolver divergências, principalmente em casos de incidentes os quais, na maioria das vezes, um pedido de desculpas, uma fala respeitosa e educada talvez sejam suficientes para apaziguar os ânimos à flor da pele. Por aqui, fico. Até a próxima.

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Leno F. Silva é diretor da LENOorb - Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


Você conhece a história dos três meninos discutindo sobre qual era o animal que cada um queria ser? O primeiro falou: um jacaré, com uma boca enorme que trucida tudo; o outro disse: eu queria ser o leão, com sua juba e sua força é o rei da floresta; o terceiro quis ganhar de todos: eu seria um novo animal, único no mundo, o jacaleão, com a bocona do jacaré de um lado e a cara e meio corpo do leão do outro.

E, então, o primeiro menino retrucou: mas não dá! Se esse bicho tem duas bocas, uma de cada lado, ele come muito, mas não faz as necessidades? Vai ser o bicho mais enfezado da floresta. Bravão, não! En-fe-za-do: entupido, constipado, com fezes, entendeu?  

Lembrando da historinha, pergunto: Você já se sentiu enfezado? 

Você deve estar murmurando em tom de crítica: - Ah, que papo mais escatológico, absurdo!  Mas insisto: isso acontece muito. Entre as mulheres este problema é bem comum.  Não é difícil ficamos dias com a barriga estufando de um tanto... Me lembro da personagem da Dona Redonda, que simplesmente explodiu! E me inquieto: seria este o meu fim?

Enquanto escrevo estas linhas, me recordo de um ótimo poema de Celso de Alencar. Recorro ao livro e leio o trecho em questão: “Mamãe, eu não estou conseguindo respirar/Abra rapidamente meus pulmões... Estou vendo crianças chorando com desespero/ sob a marquise da farmácia./ E meus dedos, olhe bem... Então ele levou as mãos à boca/ e começou a morder os dedos./ Mastigava-os repetidamente./ Mastigava-os com uma brutalidade enorme... Está morto entre nós/com o estômago cheio de pedaços de dedos/que lhe servirão para acalmar as fomes/que brotam no estômago”.

Esse poema era o que me faltava. Comer os dedos para ver se algum corpo estranho saia por algum orifício e desse alívio. .Já me senti assim, acreditam? É que tenho esse problema de constipação desde criança, quando tomava óleo Nujol (arght, nojento!), o mesmo que passávamos no corpo, com iodo, nos anos 70, para nos bronzear.

Há um mês e meio, em consulta com o Gastro do meu convênio, fui informada que alimentação nada tinha a ver com esse problema. Fiquei pasma, mas como não?  E assim, o tal Doutor, o “sabe tudo/sabe nada”, me deixou ficar seis dias – isso mesmo, meia dúzia de dias – entupida, enfezada. Eu, que não sou jacaleão, fui parar no Pronto Socorro, é claro. A gripe era a tônica do local, com muita gente sem respirar, tossindo bastante. Porém, o meu sintoma era outro, e quando o enfermeiro perguntou o que eu estava sentindo, respondi: – Se não resolverem meu problema agora, explodo. E vai voar mierda, entendeu? 

Naquela noite fria, sentindo as mãos geladas, os pés idem, e o corpo nem se fala, fiquei três longas horas num quarto com temperatura siberiana, submetida a um procedimento lastimável, e nadica de nada do efeito esperado acontecer. Estava quase “comendo os dedos”... Mas, que nada. Zero! Ao invés de sair, só entrou. Help me Doctor!

O episódio foi sofrido, mas sem reprise, porque dei bye bye para o Gastro do convênio (o doutor meia boca) e fui num médico fera feríssima que, analisando bem meu quadro, foi direto ao ponto: - Faz parte da crise de abstinência da nicotina.

– Cuma?! 

E ele explicou: - Você deixou de fumar há um mês e cigarro estimula tudo no organismo, inclusive o remelexo intestinal. 

Ele me pediu coisas simples, mas eficientes: continuar a ser um chafariz, bebendo de dois a três litros de água por dia; andar no mínimo meia hora por dia; abusar das escadas do meu prédio, como se fosse treinar para as Olimpíadas; e, além de frango, peixe e legumes refogados, incluir na dieta as mágicas folhas cruas verdes, com muito azeite e do bom, alecrim ou manjericão ou, why not, trufas!

É..., acreditem amigos solidários. O Dr. Marcel, Gastro fera, me acalmou, falou que eu não comeria dedos, não explodiria tal qual Dona Redonda e que tudo ia sair bem, quer dizer, pelo lugar certo – nada de orelha, boca, umbigo. 

Fiz tudo o que ele mandou, acatei a recomendação das 40 gramas de fibra por dia e. fui feliz. Sim, amigos, fui veramente feliz e minha vida se modificou. Não enlouqueci, não voei, não explodi. Fui feliz a partir daquele dia e todos os dias. Agora fechem a porta porque é minha intimidade, e não sou mais uma enfezada melancólica. Agora sou feliz, simples assim.

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Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy, 4 Rodas e cronista do Jornal da Tarde. Atualmente ministra a Oficina Ler é Viver, de criação literária na Escola Lourenço Castanho. Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia” pela Editora Patuá. 
 
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