Som ao redor - São Paulo São

Na rua Girassol, quase esquina com Purpurina, era uma festa no prédio os sons que ouvia. Ora um ensaio de sax, ora o dedilhar de uma guitarra e um vizinho com violão por muitos anos. Coisas da Vila Madalena, com seus músicos espalhados por alguns dos 17 andares do prédio.

Senti muito a mudança de bairro, pela jovialidade que a Vila tem e pelo clima amigável das pessoas. Conhecia muita gente por lá e era comum encontrar no supermercado e depois ir tomar um café com amigos.

Estou agora no Jardim Paulista. Para minha surpresa, o prédio antes com muitos idosos está remoçando. Há jovens casais com bebês, amigos estudantes que dividem o apartamento e também os idosos, que são muito simpáticos. A Deia, minha vizinha, tem 93 anos –  mas parece ter 70 com shape de 55. Caminha por todo o bairro a pé, nunca dirigiu e continua andando de ônibus e tem seu grupo de jogo que se organizou nas andanças com Oliver, seu cachorro.

Mas Jardim Paulista também tem som: quando estou tomando banho à noite ouço os exercícios de vocalize de uma soprano – iiiiiii, uuuuuuu, ooooooo, e as vezes ela canta. Que beleza! Ao caminhar pelas ruas do bairro, descobri duas escolas e, dependendo do horário que passo, ouço uma melodia diferente no ar, vindo de uma ou outra. Na José Maria Lisboa com Casa Branca há o Music Center. Lá ensinam todos os instrumentos, canto, coral e até musicalização infantil. Gostaria de ouvir a garotada, por enquanto só ouvi o canto de adultos.

Mais adiante, cruzando a avenida 9 de Julho, fica a Faculdade e Conservatório Souza Lima, tradicional na área, com 33 anos de atuação, conforme escrito na placa. Outro dia fiquei ali, parada, ouvindo música e relendo Conservatório Musical. Que coisa antiga essa palavra, conservatório, que tantos jovens ainda procuram para introduzirem-se nos instrumentos.

Lembrei-me de Seu Gastão, pai de grande amiga de Pereiras, no interior de São Paulo, que regia uma banda que tocava todos os sábados no coreto da praça. Era uma alegria e a cidade retribuía indo assistir religiosamente. Passei um final de semana por lá e curti momentos lindos, com a garotada tendo aula com Seu Gastão. Ele era autodidata e tinha ouvido absoluto. Até que foi ficando velhinho e assistia de sua janela, de frente para praça, a sua querida Lira Santa Cecília tocando. 

Seu Gastão faleceu. A praça não é mais a mesma, mas a tradição se mantém e sábado é sagrado e musical. Seu entusiasmo era grande e contagiava todos os jovens músicos que o seguiam onde ia, a tal ponto que fundou uma escola de músicos, de onde saíram excelentes talentos que foram indicados para o Conservatório de Tatuí e daí para Sinfônica de Botucatu, Tatuí e até mesmo São Paulo.

Gosto de ouvir música sempre. Minha comadre, Ana Beatriz tem o talento de cantar pela casa desde que começa o dia. Quando vou visitá-la, em Tremembé, ouço um repertório de primeira, absolutamente eclético –  vai de Nana Caymmi a Criolo, passando por um funk popozudo, Lô Borges, Cazuza, Cassia Eler, Caetano... vale tudo. Ela solta a voz afinada e é sempre uma delícia ouvi-la.

Sem praças com coreto aqui por perto, aos poucos vou conhecendo a vizinhança simpática e, de quebra, tenho ido caminhar até o Parque Trianon. Lá, vejo um músico desgarrado dedilhando um violão e, outras vezes, o sax faz o momento, isto na hora do almoço. Ao redor, executivos da Paulista se escondem no meio da mata, para aproveitarem os 20 minutinhos que sobraram do almoço, isolados da multidão, fazendo SP abraçar a todos naquela ilha, com o aquele verde carinhoso.  Mas isto é apenas um quarteirão. Do lado de fora, a Paulista continua pilhada e o que curti há segundos já parece ilusão.

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Marina Bueno Cardoso – Jornalista, foi colaboradora da Folha de S.Paulo, Nova, Playboy e 4 Rodas; cronista do Jornal da Tarde entre 1993 e 1995; trabalhou com Comunicação Corporativa .Publicou em 2015 “Petit-Fours na Cracolândia”, com Prefácio de Ignácio de Loyola Brandão pela Editora Patuá

 



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